Depois de alguns dias na solitaria, voltei pra sala dupla.
Quando fiquei sozinha, eu tive muito tempo pra pensar numa desculpa a Lady Leide por ter destruído um dos prêmios dela por bom comportamento.
Mas quando entrei no quarto de novo, a Leide levantou a mão, com um sinal pra eu não falar nada, e falou logo em seguida.
Leide: me poupe das desculpas, só me fale, quem era a pessoa que você criou na massinha pra deixar você desse jeito?
Dandara: era o…meu pai, meu pai biológico
Leide: houhouhou, deve ser uma história interessante pra você ter liberado tanta raiva de uma vez assim
Dandara: eu…não fazia ideia que eu tinha tanta raiva assim dele…e eu não faço ideia de como controlar isso
Leide: a primeira parte eu já ouvi de todos os pacientes que já dividinesse quarto, mas a segunda eu só ouvi alguns…e eu digo, não vai ser só ele, logo você vai notar que você guardou raiva e rancor de muita gente, de todos os sentimentos, a raiva é uma das primeiras a voltar
Dandara: confio em você.
Aquele simples papo me fez entender que aquela Leide era a Leide Frenética, que sorte eu ficar com ela de novo assim que eu voltasse, porque tendo tanto tempo pra pensar sozinha, pensei em algo.
Dandara: ai, quer praticar xingamentos sem palavrões?
Leide: pra que? os xingamentos com palavrões funcionam muito bem
Dandara: não, eles não são eficazes como muitas pessoas pensam, eles são tão ineficazes que você tem que gritar eles alto, pra você sentir qualquer satisfação de falar eles, mas apenas um xingamento de verdade é tão devastador que você pode sussurra-lo e ainda sentir o efeito da sua raiva nele
Leide: exemplo?
Ah, eu esperava que ela dissesse isso, eu tinha guardado esse pro meu pai em meus momentos de raiva mínima antes de vir pra cá, mas acho que poderia que mostrar pra ela.
Dandara: pai, eu tenho vergonha de ter seu sangue, tenho vergonha de ter seu corpo, sinto vergonha de ter seus olhos, seu DNA em si, sinto vergonha de tudo, literalmente tudo que você me deu, e se fosse possível, eu apagaria você da minha vida, históricamente e biologicamente.
O rosto da Leide Frenética ficou incrível, ela sentiu cada pedaço da raiva minha raiva acumulada por meses antes de vir pra cá, já mostrando de forma certeira pra ela o quanto aquele tipo de xingamento era realmente eficaz.
E novamente eu dei uma risada fraca, um pequeno “he” por ter feito a Leide fazer aquele rosto.
Mas até aquela risada curtíssima fez minhas queimaduras doerem mais, pois é, minhas queimaduras tinham magia embutidas nelas, “queimaduras de trauma” como os Psicomagoa falaram, isso não era fácil curar, mesmo com os melhores curandeiros do reino.
E apesar da dor das queimaduras me incomodar um pouco, quando olhava pra elas, eu só podia ficar feliz.
Dandara: (sussurro) eu tô aqui a uma semana e já aprendi tanta coisa sobre mim. Vem, vamos conversar um pouco mais, corpo, quais outros segredos você esconde de mim?
A Leide Frenética nem ouviu o que eu falei, pois eu surrurei mais pra mim mesma, além, é claro, que ela tava ainda pensando no chingamento que eu acabei de mostrar a ela.
E quando a Leide voltou aos próprios sentidos, ela falou
Leide: ta, me convenceu, então, onde começamos?
A fala dela acabou me levando de volta pra realidade também, então falei, antes que perdesse o fio da meada.
Dandara: primeiro, esqueça o palavrão, tente pensar de qual forma você conseguiria humilhar de forma mais pura a pessoal quem você está xingando, sem se conter em nenhum momento…
Mesmo depois de explicar tintim por tintim pra Leide como seria a forma “certa” de xingar sem palavrões, ficou quietinha, pensando, por um bom tempo.
Até que ela respirou bem fundo, e deu o primeiro xingamento sem palavrões dela, e pela raiva extrema que senti nas palavras dela, sabia que ela entendeu de forma perfeita o que eu quis dizer.
Leide: Mariana, você não faz ideia do quanto me machucou, mas não se preocupe, porque vou fazer você entender. Se eu voltasse no tempo, até o ponto em que a gente se falou pela primeira vez, eu nunca sequer teria falado com você, eu teria feito você nunca fazer parte da minha vida, até minha própria memória de que você sequer existiu, desaparecer da minha mente, esse e meu nível de ódio por você.
Ela não falou nenhum xingamento, mas assim como eu suspeitava, eu nunca senti uma intensidade de sentimentos tão forte quanto naquele momento, nem mesmo dos meus pais.
Ela fervia, por dentro e por fora, apesar de suas palavras calmas e linguagem de corpo simples.
Então, mais um sentimento pareceu brotar do meu peito, parecia felicidade, mas estava misturada com raiva, em um ponto onde eu não queria sorrir ou bater na Leide, eu só queria bater palmas e sorrir pra ela.
Porque? Não sei, era apenas o que parecia certo na minha cabeça. Qual será que era o nome desse sentimento?
Dandara: é disso que eu tava falando, viu como isso parece melhor que um simples vai a…bom, você entendeu
Leide: se você não gosta de xingar, é só dizer
Dandara: tá bom, eu não gosto de xingar.
E mais uma vez, com a franqueza da minha voz, a Leide deu uma gargalhada bem forte, e eu apenas dei meu “he” que tava quase ficando forte o bastante pra eu aumentar minha risada, mas acho que tava cedo pra isso acontecer ainda.
Leide: serioz você é muito engraçada
Dandara: ainda não sei aonde a sinceridade é algo engraçado, mas talvez eu descubra no tempo que eu vou ficar aqui.
E com uma cara que mostrava que ela sabia o que era engraçado em eu falar desse jeito, mas com nenhuma vontade de me contar, a Leide Frenética só falou.
Leide: pois é, tem razão, vai, vamos continuar a nossa, pequena jornada de xingamentos sem palavrões, hihihi
Dandara: hehe.
Aquele dia foi um grande espetáculo de risadas pra todas nós, era cada xingamento novo que agente criava que era super radical.
Mais dias se passaram voando enquanto agente se divertia pra caramba todos os dias, e a cada dia, mais poções eu tomava, no processo.
E olha só, a Leide tava certa, não foi na primeira dose e nem na centésima que eu melhorei.
Mas depois debcometar um mês de dozes, me senti melhor, não completamente curada, mas melhor, comparado ao jeito que eu rava antes.
A minha comida já tinha algum sabor, o mundo preto em branco começou a ficar borrado com cores, e meus sentimentos começaram a durar um pouco mais de tempo no grande buraco negro que estava no lugar do meu coração.
E talvez apenas talvez, a Leide estava melhorando no meio das minhas melhoras também, pois ela também parecia diferente de quando comecei aqui.
Leide: sei que deve ouvir muito disso por aí, mas, fico feliz em conhecer você, Dandara
Ouvir aquelas palavras fez eu ficar bem feliz por alguns minutinhos, é diferente das minhas outras descargas de felicidade, essa até que ficou 10 segundos inteiros a mais depois que minha felicidade passou.
Mas assim que essa velocidade foi despencada no vazio gigante que minha alma era agora, tudo o que restou foi…uma sensação de nada e de cansaço, que conseguia ser mil vezes pior que uma tristeza normal.
E então, “aquilo” começou a acontecer comigo de novo.
Me senti como se estivesse me enfiando bem fundo na escuridão, mas nenhuma lágrima caiu, apenas olhei cada vez mais pra baixo, até olhar pro chão.
E quando olhei pro chão, fiquei me perguntando: o chão tava realmente me engolindo ou se era coisa da minha cabeça?
Me perguntei aquilo, até eu sentir alguém agarrando meu braço e me puxando, e quando olhei pra cima e cinza Leide Tranquila, eu percebi que aquele engolido era real, a minha magia criou aquilo? Sinistro.
Dandara: que interessante, fazia tempo que eu não tinha um efeito desse…e essa é a primeira vez que não me afogo.
Leide: voce…se afoga?
A calmaria que a Leide me falou isso deixou claro pra mim que era a Leide Tranquila, algo que eu agradecia muito a Criadora por ser o caso, porque eu não tava nem um pouco no clima pra ouvir os berros da Leide Frenética agora.
Dandara: não, é so impressão, eu não me afogo de verdade, e eu não sou realmente engolida pelo chão, pois quando eu “morro”, eu apenas acordo em cima do chão que, na teoria, me engoliu, milagrosamente ilesa.
Falar aquilo em voz alta me afetou um pouco, pois, falar aquilo em voz alta era o mesmo que admitir que aquilo era real, e acho que uma parte de mim não queria admitir isso, não ainda.
Dandara: mas isso é tão radonde acontecer, que nem meus pais sabem disso, e eu não quero que eles saibam, não tô pronta pra isso ainda.
O medo impregnou casa palavra da minha voz, e como último sentimento inteiro, ele passou pelo meu coração e ficou ali.
O que me deu um certo alívio, esse medo, era a minha garantia que eu não tentaria me matar aqui dentro, pelo menos por enquanto.
E quando sai dos meus devaneios, vi que a Leide Tranquila me olhou com olhos cheios de terror, terror pelo que passei, terror pela minha falta de emoção ao contar aqueles fatos, e terror pelo motivo de eu ter ficado na solitária sozinha por tanto tempo.
Leide: pelo que você passou?
Dandara: um dia eu te conto gordinha. (acaricia cabeça da Leide)
Leide: sinto que você quer me falar alguma coisa.
E quando ela me falou aquilo, mais um sentimento que eu não conhecia passou por mim, eu sentia que algo estava subindo da minha cintura pra minha garganta, como se eu estivesse prestes a vomitar, mas não era vômito que ia sair, eram palavras.
Dandara: eu…realmente já ouvi das pessoas que elas estavam felizes em me ver, mas elas nunca me chamaram pelo nome, apenas me chamavam de…títulos, tipo “fico feliz em vê-la, terceira filha”, “é um prazer vê-la Lady Galdino”...até com minha própria família, eu só ouvia “irmã”, ou “filha”...sei que algumas famílias fazem isso…mas…acho que…se não fosse pelos professores, talvez eu tivesse esquecido meu próprio nome.
Eu não achei que era possível isso, mas o que eu falei fez a Leide Tranquila ficar ainda mais horrorizada.
Nem queria imaginar o que a Leide Frenética faria se ela tivesse ouvindo isso, então eu apenas continuei ouvindo ela.
Leide: uau…você passou por poucas e boas, garota…bom, só quero que saiba que eu só te conheço por Dandara, e apenas Dandara, não precisa se preocupar em esquecer o próprio nome.
Ela falou isso enquanto encostou em meu ombro, não sei o que aconteceria quando eu saísse daquele quarto.
Pois, apesar do único mês que se passou ali, já senti minha mente melhorando, me senti confortável ali…eu me sentia…segura, claro, mesmo que fosse em uma dimensão bem diferente de quando eu estava com meu Principe.
E com aquele carinho no ombro, minha felicidade apareceu de novo, com uma pintadinha de raiva, pelo calor diferente que eu sentia, indo do meu coração prós meus braços.
E eu senti isso, porque, mais por instinto que por qualquer outra coisa, eu abracei a Leide Tranquila, do nada.
E o que fortaleceu ainda mais a felicidade dentro de mim, foi como ela não resistiu, só ficou surpresa, e depois apenas me abraçou de volta gentilmente.
Dandara: eu to com medo do que me espera lá fora
Leide: não se preocupe, você vai estar pronta quando chegar a hora.
Meus sentimentos…estavam muito fracos ainda, eu até podia sentir sentia as explosões cheias de fogo, chamas e labaredas que meu coração sempre soltava quando estava com meu principe dos olhos de mel.
Mas elas nunca duravam, enquanto estava com meu principez tudo que eu sentia parecer eterno até demais, mas sem ele, tudo que eu sentia parecia ter uma data de validades e uma bem curta por sinal.
Então eu passava os dias tentando me convencer que, eu iria extender a duraçao dos meus sentimentos com o passar do tempo e que, por enquanto, mesmo que não fosse muito, o tempo que meus sentimentos duravam era bom o suficiente.
Mais tempo se passou, e quando eu completei 2 meses dentro da casa de recuperaçao, me dei o tempo pra olhar pro meu quarto, bom, era o “nosso” quarto, mas ainda assim, uma parte dele era meu.
O quarto em si era simples, paredes pintadas em tom azul real, tudo lixo, chão ladrilhado, e uma única janela com um vidro temperado, que dava visão pra uma colinazonha que ficava perto da casa de reabilitação.
Tirando isso, não tinha muitas coisas além das minhas próprias recompensas por bom comportamento que recebi durante esse mês extra que fiquei na casa, como livros sobre psicologia, comportamento humano, emoções e provérbios de gigantes.
Minha cama agora era decorada com um cobertor preto com cravos brancos puros, e um chapeuzinho de palha…
Era pouca coisa, mas aquelas coisas simples eram mais valiosas pra mim do que qualquer coisa chique que tinha em meu antigo quarto.
E olha só, aquele quarto parou de parecer uma visão na minha cabeça, ainda me sentia presa, maaaaaaas, não era uma prisão que eu queria muito escapar agora.
Até que tentei me lembrar de meu quarto antigo, mas quando tentei fazer isso, apenas vi um borrão imenso, que parecia fazer o possível pra eu não conseguir ver meu quarto antigo, nossa.
Dandara: sabe uma coisa engraçada? Não consigo me lembrar como era meu quarto antigo, mas sinto que estou tirando uma fotografia mental sempre que esse quarto muda
Leide: deve ser porque seu antigo quarto era tão ruim que você não tenha nada de bom lá pra se lembrar dele
Dandara: pffff, pior que é mesmo…
Leide, Leide, Leide, eu conhecia ela só por algumas semanas, mas sinto que poderia levar um tiro por ela agora, claro que não falaria isso em voz alta por causa da minha “condiçao”, mas essa palavra em minha mente me deixava bem feliz, “eu sinto”.
Desde que eu ainda estava com meus pais, sempre falei em minha mente “eu sinto” de forma natural.
Mas nesse último mês, eu começei a falar “eu sinto” de forma bem mais consciente, o que a fez virar minha palavra favorita beeeeeem rápido, mesmo que ela fosse logo acompanhada por “mas agora eu não sinto mais nada” logo em seguida.
Mas por mais fraco que meus sentimentos estivessem, saber que eles estavam ali, e que eu não era uma casca vazia me deixava motivada, motivada a sair da cama.
Não importava o quão difícil fosse, não importava o quanto quisesse dormir mais, eu já deixei meus sentimentos de lado por muito tempo, eu precisava colocar esses carinhas em ordem.
Hehehe, estava chamando meus sentimentos de “carinhas"? ” Eu sentia que estava virando outra pessoa, e estava me encantando por quem estava virando.
Dandara: achei que ia demorar mais pra eu não ver esse lugar como uma prisão
Leide: você levou duas semanas pra me dizer isso, tem pessoas que levam uma semana pra admitir isso, então você meio que durou bastante tempo
Dandara: bom saber disso.

