\nPra variar, o pesadelo que eu tive naquela noite não foi nem um pouco agradável.
Mas eu não tive muito tempo pra pensar no meu pesadelo, pois quando eu acordei, me dei de cara com uma cena sinistra como a primeira coisa que vi de manhã: a Leide estava me olhando na cara, com as veias saltando, e com o rosto tão distorcido de raiva que ela podia facilmente rasgar a cara de tão expressiva que estava.
Ela esperou eu acordar pra me atacar, mas ela propositalmente desviou os socos, acertando o ar.
Mas mesmo entendendo que eu não tava em perigo, meu medo se ativou de novo e eu me encolhi na cama como uma tartaruga se protegendo no casco.
Aqueles socos no ar duraram por muito tempo, até que ela finalmente parou e se afastou de mim…mas antes de eu sentir um alívio, mesmo que momentâneo dela ter parado, logo depois ela continuou aquela grande estourada de violência, só que agora, na própria cama.
Eu tremi quando vi ela fazer aquilo, como se fosse uma extensão de meu pesadelo, assim que ela chegou na própria cama, ela na hora começou a bater no colchão e no travesseiro pra eles, na teoria rasgarem.
Mas como aquele lugar era bem equipados é claro que ela não conseguiu rasgar ou quebrar nada fácil.
E enquanto batia forte nas próprias coisas ela também gritou, o mais alto que podia.
Aquilo durou por um bom tempo, até que um dos um dos Curandeiros olhou pela janela da cela pra ver se tava tudo bem, mas assim que ele viu a Leide daquele jeito, ele fechou de novo a janela, e nessa hora eu entendi, entendi tudo, e quando eu entendi, meu medo dela diminuiu, foi só um pouquinho, mas diminuiu.
Dandara: (suspiro) maldição da dupla face
Leide: É, VOCÊ ADIVINHOU, QUER UM PREMIO POR ISSO!?
Ela continuou batendo nas coisas que ela não conseguia quebrar, batendo e descontando a raiva em tudo capaz de resistir a ela, até que ela se acalmou um pouco e se sentiu na cama, sua da, ofegante, mas bem mais calma que antes.
Leide: (ofegante) desculpa por fazer você ver isso
Dandara: você tá melhor agora?
Não falei que eu tava bem, porque isso ia ser mentir, e mesmo sendo muito boa em mentir antigamente, eu sentia que essa não era uma mentira que eu ia conseguir fazer.
Leide: quem dera, eu apenas esvaziei o motor da raiva, logo logo ele vai encher de novo
Dandara: dureza irmã
Leide: pelo menos eu não tô mais machucando a mim mesma, e nem mais ninguém, (risada sem graça) é um progresso
Dandara: hehe, já tá melhor que eu
Leide: pra você é fácil falar, é sua primeira vez aqui, essa já é a minha quarta recaída E PARECE QUE EU NUNCA VOU MELHORAR.
Eu tremi de medo quando ela gritou pra mim outra vez, e quando a Lady Leide percebeu isso, ela pareceu se acalmar um pouco mais.
E quando notei isso, eu me arrisquei, arrisquei o pequeno pingo de coragem que ganhei desde que conheci meu Príncipe, e gastei na Lady Leide.
Pois pensei que se eu gastasse minha coragem nela, iria conseguir mais, pensando que iria ser recompensada por isso.
Dandara: Leide, por que você tá gritando? Eu tô aqui na sua frente
Leide: é que eu tô muito furiosa.
Apesar dela afirmar que tava furiosa, eu fiquei um pouco mais tranquila em conversar com ela.
Porque, mesmo ela afirmando que tava com raiva, ela falou comigo de forma bem mais calma que qualquer um na corte antiga da minha família, algo bom o suficiente pra eu ter coragem de fazer mais uma pergunta a ela.
Dandara: e deram algo pra você fazer, pra fazer essa raiva ir embora?
A Lady Leide não sabia, mas ela podia muito bem ter me dado a primeira de milhares de chamas de coragem que eu ia ter na minha vida, e de forma mental, eu sempre seria grata a ela por isso.
Leide: na verdade, sim, deram sim.
Então, a Leide frenética(que era como eu tava chamando essa outra personalidade dela), pegou um potinho cheio de massinha e começou a modelá-la no rosto de um jovem estranho.
Hum, aquele era um jovem nem bonito, mas eu nem tive tempo de perguntar quem ele era, pois assim que ela o fez, a Leide frenética esmagou aquele rosto de massinha o rosto até ele virar uma panqueca, uma ação que, estranhamente não me deixou com medo, por algum motivo.
Enquanto estava em dúvida por não estar com medo do que a Leide Frenética fez, ela montou e moldou o mesmo rosto rosto, até ele ficar ainda mais realista, e depois bateu nele de novo, e de novo, e de novo, até que ela se cansou pela 120° batida.
E em cada uma dessas batidas, eu não fiquei com nenhum pouco de medo da Leide frenética, eu fiquei mesmo é animada, ansiosa pra ela mostrar esse tipo de violência com aqueles que a machucaram com pessoas de verdade.
Nossa, eu tava falando igual ao meu Príncipe agora, acho que ele realmente me mudou pelo tempo que agente ficou juntinho, hihihi.
Leide: quer tentar?
Dandara: acho que vou guardar isso pra quando tiver raiva de verdade, e não fazer só por participar
Leide: hehehe, você é engraçada
Dandara: senhorita, saiba que eu fui chamada de muitas coisas, “boa menina”, “pavio curto”, “troféu”, “salvação”, “imprestável”, “garota quebrada”, “salvadora”, “parceira”, “namorada”, “amiga”, “objeto” e “você”...apenas… “você”...mas “engraçada”, essa eu nunca ouvi
Leide: então pode ir se acostumando, por que você é en-gra-ça-da
Dandara: e você é uma cha-to-nil-da.
Não fazia ideia de onde veio aquilo, mas gostei mesmo assim.
E pelo jeito a Leide gostou também, porque ela deu uma gargalhada bem sincera quando eu falei aquilo.
E mesmo não sendo na mesma intensidade que ela, eu dei um breve “he” no meio da gargalhada dela.
E mesmo que não fosse tão longo quanto o da Leide Frenética, aquela risada fraca possuía mais sentimento que qualquer risada falsa que eu dei prós meus amigos e familiares em muito tempo.
E com o passar dos dias, da mesma forma que eu entendia melhor qual Laide era qual, eu comecei a entender bem como me comportar e qual dinâmica cada uma tinha, algo que, também ajudou muito no meu próprio cuidado pessoal, mesmo que eu não estivesse vendo resultados muito bons ainda.
Eu gostava Leide Calma, pois eu ficava tranquila pra dormir o dia todo, descobri mais tarde que aquela Leide era o que se chamava “episódio depressivo”, por ela ser mais pessimista e com sentimentos mais “calmos” e “silenciosos” que a Leide Frenética.
Enquanto que a Leide Frenética eram um “episódio de mania”, onde sentimentos mais “intensos” e “chamativos” apareciam, e eu percebia isso bem pela forma como eu conversava com ela as vezes.
E por mais que conversar com as duas Leides era bem complicado as vezes, pelo quão diferentes elas eram uma das outras, elas, de forma irônica, tinham uma ideia parecida do que queriam falar comigo.
Eu tive altos papos com a Leide Calma e a Leide Frenética, mas os dois papos resultaram em uma única coisa: fazer e esmagar meu próprio boneco de massinha.
Eu nem me lembrava de como ela me convenceu eu só sabia que ela tinha me convencido, de alguma forma.
Quando comecei aquele boneco, eu nem sabia o que estava montando, o vazio dentro de mim naquele momento era tão grande que eu estava deixando minhas mãos moverem por conta própria, sem nem ligar pro que a massinha iria se tornar.
Mas uma vez que eu terminei o boneco de massinha, eu vi que ele se tornou uma imagem idêntica ao meu pai, idêntica até demais.
Eu nem sabia que era tão boa em fazer esculturas assim, se bem que isso podia muito bem ser uma criação dos poucos sentimentos que eu consegui ao longo do tempo.
Eu fiquei olhando o boneco de massinha por muito tempo, e pela primeira vez, eu sabia muito bem o que eu tava sentindo, porque quando eu vi o rosto do meu pai, junto com as últimas palavras dele com quem eu me importei na vida inteira, eu levantei minha mão.
Eu estava quente, queimando, não era felicidade, mas era tão satisfatório quanto isso. E quando eu desci minha mão no boneco de massinha, esse mesmo calor explodiu dentro de mim, fazendo eu sentir como se estivesse recebendo uma massagem dentro da minha pele, e a cada esmagamento, esse sentimento se repetia, de novo, de novo e de novo.
E pelo jeito, o meu sentimento ficou tão intenso que até a minha magia saiu pra me ajudar, porque enquanto eu esmagava o boneco de maconha ainda mais, minha magia liberou um calor tão intenso que a massinha chegou a derreter e ficar líquida, mas eu eu não tava satisfeita, eu tava bem longe de ficar satisfeita.
Usando um controle de magia que eu mesma não sabia que tinha, eu resfriei e remodelei aquela massinha líquida pra ficar da mesma forma que ela estava a alguns segundos atrás, representando mais um vez, de forma perfeita e com cada detalhe, a aparência do meu pai.
Apenas pra eu esmaga-la de novo, só que dessa vez, com tanto calor, e com uma força tão grande na minha mão, que pedaços da massinha líquida voaram para todas as direções, sem nenhum cuidado no mundo.
E mais uma vez, eu reuni cada grama daquela massinha e a explodi em um impacto quente da minha mão, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo e de novo.
Hehe, então…sentir raiva era assim? A raiva, ela era bem melhor do que eu me lembrava
Não lembrava quando foi a última vez que senti algo tão intenso sozinha, mas nem liguei pra isso e continuei batendo, recriando e batendo.
Até que o calor da minha amiga ficou tão pesado em mim que senti meus braços queimando, mas eu não liguei, eu continuei queimando, e queimando.
A dor das minhas queimaduras sequer se comparavam a estase em cada golpe meu.
Eu com certeza quebrou o recorde de golpes de Leide, quando olhei ao redor, vi que ela estava gritando, com medo, e tentando me alertar algo, mas eu não conseguia a ouvir, só conseguia ver como eu estava cercada por fogo, e quase sendo consumida por ele.
A minha raiva estava a segundos de mudar pra terror quase instantâneamente, mas eu não tive tempo de sentir medo, pois quando eu notei todo aquele fogo em volta de mim, eu ouvi a porta abrindo e me virei poa ela.
E assim, a última coisa que eu vi foram os Psicomagos entrando no quarto e jogando um feitiço de sono em mim.
Pra mim, isso foi apenas um cochilo simples, mas quando acordei, eu estava em uma sala branca, que mais tarde, me explicaram ser a solitária.
E sinceramente, fiquei bem triste que eles me separaram da Leide, porque eu tava sentindo de forma boa até demais como aquela raiva extrema era só um sentimento momentâneo.
Porque assim que aquele momento passou, eu voltei a…bom, não senti, eu tentei manter a raiva, tentei pensar no meu pai pra mantê-la em mim, mas não adiantou.
Minha raiva tentou se manter dentro de mim, mas ela se foi no momento que a extrema intencidade passou…
E quando isso aconteceu, tentei ficar calma, eu respirei fundo, e comecei a pensar “o que o meu príncipe falaria”? O que se provou bem eficaz, pois logo depois eu falei algo que tinha certeza que nunca falaria sem a influência do meu Príncipe.
Dandara: não se preocupe, você só tá aqui a um dia, você não vai melhorar de um dia pro outro…só, tenta ficar calma e viver um dia de cada vez que tudo vai dar certo.
Eu falei isso, mas eu imaginei o meu Príncipe falando cada palavra daquelas pra mim, o que aumentou em 100% a eficácia disso, permitindo que, mesmo que eu ainda tivesse triste e com muito medo, ainda consegui tirar um pouquinho de felicidade de mim mesma, pra pelo menos consegui ficar um tempinho na solitária sem dar problemas depois.

