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Olhos de mel 🌻X
uma nova amiga?
2877 palavras • 15995 caracteres • ⏱ 11 min 30 s

uma nova amiga?

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\nDepois que os adultos terminaram de conversar sobre os detalhes de minha estadia ali, eu fui separada de todo mundo e entrei numa sala que me fez sentir que eu tava entrando numa prisão.

Eles me analisaram, pra ver se eu tava tentando entrar com qualquer coisa ilegalmente lá dentro, também entreguei minhas roupas a uma moça que tava ali comigo, além de outros objetos pessoais que eu levei comigo para a casa de reabilitação.

Itens, que, apesar de estar triste de perder os itens, não eram muita coisa, só uma bolsa de moedas, e uma chave pro portão da minha nova casa, duas coisas que recebi de minha nova família. 

Depois eu recebi uma blusa e calças cianas, como uma roupa de hospital e fui levada a um quarto duplo, um quarto que eu ia dividir com outra paciente…foi bom saber que o Diretor do lugar tinha tanta confiança em mim quando eu tinha em mim mesma.

Os meus dias, depois que eu me separei dos meus pais já eram bem difíceis, mas quando eu descobri que eu tinha a Maldição do Vazio, meus dias difíceis ficaram impossíveis de se suportar. 

Porque alem de todos os problemas que minha Maldição carregava, pessoas que a possuiam, tambem tinham o costume de tentarem se matar em casos mais extremos. 

Algo que eu mesma nunca fiz…mas nunca se sabe quando isso podia mudar, um dia qualquer eu podia apenas decidir que seria mais fácil apenas morrer do que continuar vivendo…

E é por isso que eu nunca era deixada sozinha em nenhum, porque ninguém, nem eu mesma, confiavam em mim pra ficar sozinha. E essa espécie de cuidado dos outros por mim, me dava bem mais alívio do que sufocamento.

E mesmo pensando em todo esse cuidado que os outros tinham comigo, meu coração não conseguia sentir nada, nenhum pingo de felicidade foi sentida direito pelo meu coração. 

Eu tentei sentir raiva, mas nem isso meu coração conseguia fazer, antes eu me comparei com uma máquina sem função, mas enquanto eu era escoltada até o meu novo quarto, eu cheguei a conclusão que seria melhor eu me comparar a uma máquina com defeito do que uma máquina sem funcao.

Porque a minha função, desde o início, era sentir emoções, e agora, eu era incapaz disso…mas mesmo ficando bem triste, eu enxerguei uma luz no fim do túnel, porque se tinha um lugar que poderia me consertar, esse lugar era essa casa.

E depois de tudo que eu pensei, eu olhei pra frente, e vi que tinha chegado no meu novo quarto, e enquanto eu abria a porta, fiquei imaginando com quem eu dividiria um dos momentos mais difíceis da minha vida, e quando tive a primeira visão dela, vi que era uma moça aparentemente normal.

Ela era alta, mais alta que eu, tinha um cabelo liso e prateado, e pupilas vermelhas, junto com um rosto com uma marca de mordida bem na bochecha, a história daquela marca deveria ser interessante.

Mas por enquanto, eu não tinha interesse e nem forças pra perguntar sobre a mordida, pelo que o meu Príncipe e o Sir Davi me contaram sobre esse lugar, eu sabia que eu não teria muitas chances de apenas deitar e relaxar de verdade ali.

Talvez, amanhã de manhã, eu iria fazer uma jornada super intensa para conseguir religar meus sentimentos um por um, e tendo noção o quão difícil isso seria, decidi apenas relaxar por hoje, mesmo que isso significasse ignorar minha nova colega de quarto.

Já minha nova colega e quarto tinha outros planos pra nós dois.

Paciente: psciu, ei.

Eu a ignorei, não queria desperdiçar mais energia que o necessário, outra das coisas que eu conseguia sentir sem problema nenhum, era o “cansaço”, e só de me levantar pra ir pra casa de reabilitação já tinha me cansado de formas inimagináveis. 

Então eu não queria desperdiçar minhas forças conversando com ela, não quando eu já imaginava o caos que eu teria que lidar amanhã.

Minha colega de quarto me chamou de novo, de novo, e de novo. Até que ela jogou um travesseiro na minha cara pra me fazer reagir, mas eu não reagi ao travesseiro, como se uma gota de chuva bem pequena tivesse tocado minha bochecha.

Depois disso, ela não fez mais nenhum barulho, pensei que ela tinha desistido, mas não, ela só se aproximou mais de mim e me cutucou na bochecha por algum tempo, esperando alguma reação, qualquer reação minha, não conseguindo resultados muito bons com as cutucadas também.

Paciente: oi, você tá viva? Porque se você morrer vai ser o novo recorde de, “colega de quarto mais curta”

Dandara: não, eu tô morta

Paciente: então, você não vai se importar se eu pegar sua roupa

Dandara: por que você quer a minha roupa?

Paciente: porque sou uma cleptomaníaca, de um tipo bem grave

Dandara: (suspiro) tá, faz o que você quiser.

Mas ela não pegou minha roupa, ela só ousou, ousou e ousou mais tirar minha roupa, mas não fez, então ela ficou emburrada e começou a fazer chilique.

Paciente: OK, AGORA É SÉRIO, se você não falar comigo direito, vou desenhar um bigode na sua cara (pega caneta)

Dandara: de onde você tirou isso?

Paciente: um agradozinho, por bom comportamento.

Eu queria entender o que ela quis dizer com isso, mas mesmo sem muitos sentimentos em mim, a caneta indo ate o meu rosto era um foco grande demais pra eu pensar em qualquer outra coisa, mesmo que, novamente, não fosse algo capaz de me fazer sentir a necessidade de tirar ela de cima de mim.

Não lutei quando ela desenhou o bigode, nem quando ela fez um monte de outros desenhos no meu rosto, eu só senti uma cosquinha em um lugar e em outro, até que ela parou de vez, derrotada, triste e decepcionada consigo mesma por não ter arrancado uma reação de mim.

Paciente: olha, sei que parece difícil, mas as coisas vão melhorar, eu prometo

Dandara: você nem me conhece, como você sabe que eu vou melhorar?

Paciente: porque você não parece alguém que foi trazida aqui à força, e isso sozinho pode decidir quem fica e quem consegue sair. Olha, as poções devem chegar logo então…apenas se acalma um pouco, tá legal?

Eu não senti nada naquele comentário, desde que entrei naquela porta, era como se eu fosse uma boneca, nada do que ela fez me atingiu, mas em uma lógica nova, que e encontrei alguns dias, pensei que ela era boazinha demais pra ser tratada de forma tão ruim, então decidi tratá-la com o maior carinho que minha condição permitia, o que, mesmo não sendo muito, ainda era melhor que só ignorar ela.

Dandara: qual seu nome?

Paciente: Marileide, mas pode me chamar de Leide

Dandara: tá aqui por que?

Leide: o mesmo que você.

Ela apontou pra própria garganta, e então eu vi, uma marca de corda no pescoço, e naquele simples momento, senti algo novo quando vi a marca da corda, não sabia que sentimento era, mas apesar de ser desconhecido, qualquer coisa que não era tristeza ou medo, era um lucro bastante alto pra mim.

Leide: uma Maldição mal resolvida, país que só perceberam tarde e muitos colegas que se desculparam no processo, mas como eu falei, quando eu sair daqui, as coisas vão melhorar.

Eu já sabia que esse lugar seria onde eu sentia coisas diferentes por muitas pessoas, mas não achei que seria tão cedo, eu senti tantas coisas quando vi aquela marca de corda na Lady Leide que eu fiquei em completo choque por muitos minutos.

E mesmo no extremo choque que minha mente se encontrava enquanto eu olhava a marca de corda no pescoço da Lady Leide, algo me dizia que não foi porque ela tentou se matar que ela estava aqui.

Não sabia dizer o que era, mas algo em mim me dizia que o motivo dela estar aqui era bem mais profundo que uma tentativa de suicídio. 

Mas mesmo com essas minhas dúvidas, o sentimento de cansaço em meu interior era grande demais pra eu querer conversar por muito tempo com ela.

Dandara: (suspiro) olha, eu acabei de chegar aqui, eu tô cansada de formas que não consigo nem nomear, você pode me deixar sozinha por um tempo? Por favor

Leide: (respira fundo e solta) ok.

Cumprindo meus desejos, a Lady Leide se afastou de mim e ficou só deitada na própria cama por um bom tempo.

 Não sei se faríamos algo mais tarde, mas talvez por ser meu primeiro dia, eu só fechei os olhos e dormi pelo tanto de tempo que a casa de recuperação me permitisse.

No dia seguinte, alguém bateu em nossa porta mas não entrou, ele só bateu pra chamar nossa atenção e pra nós vermos  dois pratos de comida serem passados por baixo da porta, era arroz e nuggets, com purê de batata, algo que era, bom, gostoso, na teoria.

Mas quando eu provei, eles tinham gosto de arroz sem sal, como tudo que eu comi desde que…acho que desde que eu me conheço por gente…

Cara, qual foi o momento em que a vida ficou tão sem graça? Em contrapartida a minha agonia/vazio existencial, a Lady Leide estava do outro lado do quarto, gemendo e se maravilhando com a comida dela, de formas que eu nem conseguia imaginar pra mim mesma.

E por pior que aquilo fizesse eu me sentir, eu fiquei com muita inveja dela.

Leide: gosto mais do dia do Strogonoff, mas o dia do purê de batata é muito bom também, te garanto parceira, você vai chegar um dia e amar cada comida desse lugar

Dandara: é, quem sabe.

Agente comeu sem falar mais nada, não sei se a Leide estava pensando em algo pra dizer ou se só estava aproveitando a comida(já que ainda a ouvi gemer pelo gosto do prato várias vezes), mas pelo jeito ela só tava aproveitando a comida, pois ela não falou nada pra mim durante todo o nosso almoço.

Até que nós dois terminamos a comida e deixamos os pratos na bandeja de onde nós pegamos de novo. 

E então a Lady Leide fez um pequeno suspiro e bateu na própria cabeça como um personagem de desenho animado e falou.

Leide: ih, acabei de me lembrar, eu não te perguntei seu nome né? Como você se chama?

Eu…demorei pra responder, por algum motivo, minha voz não quis sair quando ela perguntou isso, era como se a simples menção do meu nome fosse difícil pra minha vontade atual.

Dandara: Dandara

Leide: Dandara? Que nome legal

Dandara: é de uma…heroína antiga…dos sapiens

Leide: não precisa se forçar se for algo difícil pra você me dar os detalhes, se quiser agente pode fazer outra coisa

Dandara: por exemplo?

Leide: não sei, que tal…sei lá…o que você gosta de fazer?

Dandara: nada

Leide: (bate palma) ah é, a Maldição (respira fundo) então…você gosta de cantar?

Dandara: não

Leide: gosta de comida?

Dandara: não

Leide: gosta de perfumes?

Dandara: não

Leide: gosta de si mesma?

Dandara: NÃO

Leide: gosta de estar aqui?

Dandara: não

Leide: se arrepende de ter vindo pra cá?

Dandara: …

Leide: Dandara?

Dandara: não

Leide: boa, já estamos chegando em algum lugar, mas vamos tentar algo mais simples, você sabe jogar cartas?

Eu não respondi, bem mais por eu ser mais neutra as cartas do que pras outras coisas.

E vendo como eu não falei “não” imediatamente pras cartas, a Lady Leide usou isso como uma chance e pegou um talão de cartas pra gente jogar juntos.

O entusiasmo que ela me contou sobre as regras da partida foi tanto que algo me dizia que isso era tão divertido pra ela quanto era pra mim, mas eu não podia dizer isso com exatidão ainda.

Dandara: de onde você tirou esse baralho?

Leide: só mais um dos meus “privilégios” por bom comportamento, eles dão certos itens pra pacientes que estão melhorando, e até mesmo liberam áreas mais incríveis da casa de reabilitação, é tão empolgante que me faz dar risadinhas de vez em quando

Dandara: nossa, que legal

Leide: ah, vai, não fica tão triste, eu sinto que logo logo vai estar chovendo privilégios em você

Dandara: é, vamos torcer pra isso.

Esses “privilégios” de bom comportamento pareciam bem úteis, eu tinha que dar uma olhada cautelosa neles depois, mas por enquanto, só joguei cartas com minha possível  nova amiga.

Eu tava curiosa pra saber qual era a Maldição que ela carregava, mas não mencionei por ser grosseria e falta de educação falar algo assim tão cedo num relacionamento, mesmo um de amizade.

De tarde, uma pequena poção foi posta onde eles entregavam a comida e quando eu a vi, eu notei que aquelas poções eram tão estranhas que eu só fiquei as encarando por um bom tempo. 

Quando peguei a poção, a levei pra bem perto de mim, olhei como ela parecia um universo inteiro em uma garrafa, todo mago, e talvez até uma pessoa normal entenderia a complexidade daquela única poção.

Dentro do frasco que eu segurava, existia um líquido preto, cheio de pontinhos brilhantes que pareciam estrelinhas. 

Mesmo sem saber muito de alquimia, eu sabia muito bem que aquilo com certeza não foi feito por um alquimista qualquer. 

Eu observei o pequeno universo da garrafa por um bom tempo até que a Lady Leide se aproximou de mim e falou.

Leide: viu, falei que as coisas iriam melhorar, é agora  que começaram as respostas pra todos os seus problemas.

Dandara: hehe, sei, até parece que uma única garrafa vai me fazer sentir melhor

Leide: e não vai mesmo.

Fiquei bem confusa quando ouvi aquilo, ela queria que eu tomasse e melhorasse ou não?

Dandara: não?

Leide: não, você não vai melhorar na primeira dose, nem na segunda, nem na centésima, isso se você apenas depender da garrafa, mas se voce se permitir, viver, aprender e entender cada coisa nova que essa poção irá te dar, então talvez você fique melhor do que você mesma consiga imaginar.

Aquilo devia me deixar animada, feliz, esperançosa…mas no lugar disso, apenas fiquei mais triste, porque mais uma vez, eu só conseguia sentir uma coisa em meu coração…

O VAZIO

E depois do Vazio, veio a tristeza, porque ela parecia a que mais se manifestava quando apenas o nada restava.

E de forma bem estranha, meu medo parecia brigar sempre com a tristeza, me impedindo de fazer algo idiota, e o medo estava ganhando, pelo menos por enquanto.

Dandara: não sei se tenho forças pra fazer tudo isso, mesmo depois de tomar todas essas poções

Leide: ah não se preocupe, Dandara, você não tá sozinha nessa jornada, tem muita gente pra te ajudar, e o senhor Gabriel é o melhor de toda a região em problemas mentais

Dandara: (sorriso falso) espero que esteja certa, pois eu preciso do melhor pro que eu tenho.

Eu tava muito, mas muito cética mesmo que aquela poção pudesse me ajudar de qualquer jeito, mas não tendo nada a perder tentando ela, eu tirei a tampa da garrafa, e mandei tudo pra dentro.

E mais uma vez, a dúvida inundou todo meu cérebro, pois aquela poção tinha um dos primeiros gostos que eu senti desde que eu me lembrava por gente.

E não era um gosto qualquer, era um gosto tão único, que mesmo depois de muito tempo sem sentir gosto, eu sabia direitinho o que era: cereja.

O meu cérebro ficou muito tempo apenas processando o gosto da cereja, porque, além de ser um gosto diferente depois de anos de gosto sem graça, também era uma dúvida estranha em minha cabeça, que ficou se perguntando, “por que cereja?”.

Mas depois desse pensamento se desfazer após não encontrar nenhuma boa resposta, fiquei meio chateada, pois, assim como a Lady Leide falou, eu não me senti diferente, eu tava me sentindo igual de antes de tomar a poção.

Eu não sabia se meu corpo tava esperando algo, mesmo que minha mente já tivesse aceitado que eu não teria nenhum tipo de salvaçao, mas esse fato se concretizando me deixou tão triste que eu só me deitei  na cama de novo e tentei dormir pelo resto do dia.

E olha só, o sol tava se pondo, e eu podia ver ele se por quadrado pela janelinha do nosso quarto.

Dandara: eu me sinto em uma prisão

Leide: daqui a alguns meses, você vai se sentir num lugar seguro

Eu rezei a Criadora pra que a Leide estivesse certa, porque, antes de apagar de vez, eu vi como ela própria segurou a garrafinha com respeito, e a tomou com cuidado, quase como se fosse um ritual que só ela entendia direito.

Eu queria ser capas de fazer isso um dia, mas não seria hoje que eu ia conseguir, e nem amanhã, e nem depois de amanhã.

Pois, apesar de todas a esperança que eu tentava ter comigo mesma, eu já entendia que o que eu queria fazer levaria tempo.

Então eu só olhei pra Lady Leide, e deixei que o pensamento fraco de que, um dia eu iria conseguir ficar feliz igual a ela me levasse para um mundo de bons sonhos.


Mesmo que, com os últimos pesadelos que eu estava tendo, era óbvio pra mim que isso não ia rolar.

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