"a sua liberdade vai te custar tudo que é falso"
-Autor desconhecido
Deitada nos cobertores da minha cama, ainda me obrigava a olhar pro teto, estava cansada, mas não podia dormir, ai que saco, eu tinha que levantar pra ir pra um lugar que ia saber muito bem como cuidar de mim, mas…ainda tava com muitos problemas pra levantar.
Eu passei por muitas coisas antes de chegar aquele ponto, eu já tava bem melhor que antes, meu corpo tava bem mais saudável do que, a alguns meses atrás.
Mas mesmo assim, enquanto fisicamente eu estava melhor, mais saudável, e mais inteira. Dentro de mim, eu ainda sentia que eu estava tão quebrada, destruída, e “zumbificada” (como meu Príncipe gostava de me descrever.) exatamente como eu estava antes de receber qualquer ajuda.
Agora eu tinha força pra levantar, a ponto que eu não precisava usar cada grama de força do meu corpo pra conseguir me mover.
Mas agora, o peso que me impedia de levantar não era física, era emocional, e esse peso emocional era tão grande que eu fiz um esforço absurdo antes de levantar da cama e cumprimentar meu mais novo colega de quarto: o meu irmãozinho, um garoto bom, que eu conheci a pouco tempo, mas eu já tinha ele guardado com muito carinho no meu coração, (ou melhor, o que sobrou dele).
Nós dividimos o quarto, por ser meio perigoso eu ficar sozinha por causa da minha “condição”, e por causa disso, meu irmãozinho dormia comigo, mesmo que em outra cama e bem do outro lado da sala.
Eu chamei ele, mas a minha voz saiu bem mais fraca do que eu pretendia, e mesmo assim, meu irmãozinho me respondeu, porque quando o assunto era eu, esse era o nível de atenção e cuidado que ele tinha comigo.
Ainda mais, considerando também a “condição” que eu tava agora, não era loucura ele ser assim também.
Irmão: bom dia Dandara
Dandara: Bom dia João.
Sorri pra ele com um sorriso que não chegou aos meus olhos, e o João percebeu isso também, bom, nem tudo eram flores, não é? Hehehe.
E quando acordamos de vez, meu irmãozinho ficou ali, me olhando, enquanto eu me arrumava, o que iria deixar muitas pessoas, principalmente garotas, desconfortáveis, mas isso me enchia de alívio, porque, levando em conta o que tava se passando na minha cabeça agora, ficar sozinha era o pior erro que eu podia cometer.
Noooooossa, eu sabia que, certas coisas, como a minha condição, não eram coisas que podiam desaparecer de um dia pro outro, mas mesmo assim, eu tava me sentindo mal porque eu não tava conseguindo ser feliz com meus novos pais e nem com meu novo irmãozinho.
É isso mesmo, meus novos pais, e mesmo em minha mente destruida, eu podia dizer sem medo, que mesmo sem ser de sangue, eles que eram meus verdadeiros pais.
Porque, o meu irmãozinho e meus pais não eram meus pais biológicos, eu fui adotado por eles depois que um escândalo vazou da minha antiga casa, e depois de uma investigação, meus pais foram simplesmente ditoso como “incapazes de cuidar de mim”, e quanto mais eu me lembrava do que passei com eles, isso era pra se dizer o mínimo.
E depois de ser separada deles, uma espécie de programa do Reino para eu ser dada a uma família que queria realmente cuidar de mim, e desde esse dia, eu passei de ser uma Galdino, pra ser uma Rodrigues, hihihi.
Todo o dia, eu agradecia aos céus por eu ter sido colocada em uma casa e em uma família com tantas pessoas do meu lado que realmente me amavam, mesmo que meu corpo ainda estivesse cansado, fraco e destruído por causa das situações que eu passei com meus pais.
Isso porque, os meus pais biológicos não ficaram felizes apenas destruindo minha vida pelo tempo que eu fiquei junto com eles, nananananão, eles me deram um último presente, antes de eu ser separada deles pra sempre.
Minha mente, depois de tudo que passou com eles, ganhou uma Maldição pesadíssima, que quando meus pais adotivos descobriram, decidiram que eu precisava de um cuidado especial pra cuidar dela.
E considerando o tipo de coisas que eu pensava, logo no início da manhã, é claro que eu concordei 100% com a decisão dos meus novos pais.
Muitas crianças, quando eram adotadas, tinham problemas pra chamar os novos pais de mamãe e papai, mas não foi meu caso, foi quase o contrário na verdade.
Eu ainda me lembrava muito bem como, quando eu cheguei nesta casa pela primeira vez, eu tinha recebido um carinho na minha cabeça…
Ninguém nunca tinha feito um carinho na minha cabeça assim quando eu ainda tava morando com meus pais biológicos, nenhuma, única, alma, fez isso por mim.
Aquela foi a primeira vez que eu chorei na casa deles, eu nao tava triste, eu tava feliz, tao feliz que eu tava chorando, eu não sabia como explicar o que eu senti naquela hora com as palavras certas, mas, podia dizer apenas isso, que eu chorei de tanta felicidade.
E enquanto tinha cada uma dessas lembranças, eu me arrumei e tomei banho, sempre alguém perto de mim pra evitar que eu fizesse algo comigo mesma, estava tentando ficar feliz e insistir a todo mundo que eu estava bem, mas isso tava longe de ser verdade.
E esse fato, apenas deixava que a decisão que eu iria tomar hoje, fosse bem mais fácil de fazer.
Bom, isso tudo também misturado com minha falta de interesse em fazer tudo, desde que eu me lembrava direito, sempre tinham grandes berros, ordenando que eu fizesse certas coisas, me repreendendo e mandando em mim.
Mas nessa casa, não tinha nada disso, apenas pessoas gentis, que me davam opção das coisas que eu podia fazer, eeeeeeeee, foi apenas depois que eu senti como eu ficava quando nao tinha ninguem me ordenando o que fazer, que foi quando eu entendi o quanto eu realmente usei aquela parte horrível da minha vida como uma bengala.
Isso porque, sem aquelas vozes me guiando, não tinha nada que eu quisesse fazer, nenhum hobie, nenhum passatempo, nenhum sonho. Sem pessoas me empurrando pra fazer o que elas queriam, eu era exatamente igual ao que a minha Maldição dizia que eu era.
VAZIA
\n
\nE apesar de tudo isso que eu pensei ate agora, de forma técnica, eu nem estava triste pelo que eu passei, ou irritada com meus pais ou aliviada por estar num lugar seguro. Não, eu não tava sentindo nada disso, eu não sentia nada, em geral, como se eu fosse uma máquina sem sentimentos, mas que todos esqueceram de programar minha função.
Andando pelos corredores da minha nova casa, eu via tudo como um borrão cinza, e os pontos onde deveriam ter quadros ou algum enfeite de parede eram apenas manchas estranhas pra mim.
Eu cumprimentei meus pais quando cheguei na mesa da sala e sorri igual fiz com o João, mas assim como meu novo irmãozinho, meus novos pais notaram na hora, que eu não tava sorrindo de verdade, só tava fingindo que sorria.
Mas diferente do João, eles não estavam preocupados, provavelmente porque confiavam 100% que o lugar pra onde eu ia seria bom pra mim, e depois de tudo que eu passei, eu só esperava muito que eles estivessem certos, tipo muito, muito mesmo.
Uma vez sentada, eu comi pão com manteiga e chocolate quente como fazia todo o dia, e como acontecia todos os dias, o sabor que eu sentia desses dois era o de um arroz sem sal, a comida mais sem graça conhecida pelos Sapiens.
Toda comida que eu comia tinha esse mesmo sabor desde que eu consigo me lembrar, e eu queria acreditar que era por causa da minha Maldição, assim como o mundo cinza.
Meus novos pais olhavam pra mim com preocupação, mas tentavam parecer tranquilos perto de mim, mas tudo isso só me fez sentir pior por estar puxando essas pessoas tão boas pro abismo junto comigo.
Dandara: desculpa
Pai: por que está se desculpando?
Dandara: eu não sei…só parece ser certo
Pai: bom, não é, nunca peça desculpas por algo que não é sua culpa
Dandara: eu tô estragando o clima do café da manhã, acho que já é algo pra eu me desculpar.
Quando eu falei aquilo, eu vi meu pai mudar de um rosto preocupado, pra um reconfortante, e depois ele se levantou, andou até mim e segurou minha mão…a mão do meu pai era quente, firme e cuidadosa. Como se fosse um lobo grande tentando manter um filhote quente, aquele um calor que eu conhecia bem, mas mesmo com todo esse carinho, ele ainda não conseguiu preencher esse vazio dentro de mim mesma…não ainda.
Pai: filha, escuta, não é culpa sua que o cafe da manha tá triste, nós estamos apenas preocupados com você…estamos com medo por você, e não de você, apenas tome seu cafe da manha, e tente ficar tranquilo, pois logo as coisas vão ficar melhores, eu te prometo.
Olhei bem fundo os olhos escuros de meu pai, não havia dúvida ou medo neles, apenas a mais pura e simples preocupação pelo meu bem estar. E mesmo assim, eu ainda não conseguia sentir nada por ter alguém tão bom assim perto de mim, o que me fez sentir ainda pior.
Dandara: desculpa por estar arruinando essa família
Pai: aahhhh filha, você não vai destruir essa família, nós é que vamos te ajudar, eu te prometo.
Meu pai me abraçou depois daquilo, mas quando ele me abracou, um medo incalculável, que nem eu mesma sabia de onde vinha, me fez empurrá-lo pra longe de mim eu fiquei bem assustada quando eu empurrei meu pai pra longe, do nada, o meu coração pareceu ter acelerado ao extremo quando ele se aproximou demais de mim.
Abraços, carinho, comidas simples. Tudo aquilo era muito novo pra mim, a ponto de que muitas vezes, eu ainda tinha esses episódios de medo extremo…e então, eu vi meu pai sorrindo, eu tentei ficar calma, tentei convencer a mim mesma que ele só tinha entendido que tinha passado do limite.
Mas enquanto eu pensava nisso, todos os gatilhos traumáticos da minha cabeça ligavam ao mesmo tempo, forçando minha mente a pensar que meu pai iria me machucar por ter o empurrado, me enchendo com ainda mais medo.
Então eu o vi, levantar a mão devagar, e eu já enrijeci meu corpo pra aguentar o golpe, mas o carinho que ele deu em minha cabeça, abalou minha alma, minha mente, e logo depois meu corpo, melhor do que qualquer ataque.
Pai: desculpa.
Eu já havia dado muitas desculpas, tantas desculpas que comecei a pedir desculpas quando pensava que havia feito uma coisa, mas acho que foi a primeira vez que vi um pedido de desculpas direcionado a mim.
Ouvir esse pedido foi tao inusitado pra mim, que por algum tempo, não processei o que ele disse, e quando foi processado, eu senti algo batendo no meu peito, algo…novo.
Hummmmm, alguma coisa bateu no meu peito, antes eu teria pegado essa sensação e apenas ignorado ou jogado pro fundo do meu coração até ela ser engolida pelo vazio.
Mas agora, eu só me permiti sentir, mas mesmo sentindo com cada detalhe esse sentimento novo, ainda não fazia ideia do que era ou como descrever, não conseguindo entender e ficando tão confusa a ponto de ter medo do que fazer em seguida, a ponto que eu apenas consegui falar o obvio.
Dandara: eu preciso mesmo ir pra lá
Pai: não se preocupe, você não vai sozinha.

