Acordei me sentindo pior ainda no dia seguinte, como se tiver que ir embora da escola tivesse piorado tudo. Minha cabeça estava latejando, como se uma agulha muito pontuda tivesse cravado por trás e depois eu tivesse batido a cabeça. Eu passei o punho para secar meu suor e minha testa estava queimando como nunca. E parecia que tinham largado um peso de mil quilos em cima da minha barriga, porque quando eu tentei me sentar, explodi de dor e bati a minha cabeça em um quadro de flores que fica em cima da minha cama. Dor x2.
Olhei para o lado, com um olho só, e vi o horário: 11 da manhã.
Meus pais tinham me deixado ficar em casa???
Fiquei de pé, alerta, e fui até a cozinha sem fazer nenhum dos meus preparativos, já que não teria que ir para a escola. Pelo silêncio, o Dário deveria ter ido estudar, senão a casa teria um volume absurdo de musiquinhas irritantes e repetitivas de videogame. Fui abrir a geladeira, mas não tinha absolutamente nada que me desse fome, nem mesmo uma colherada cheia de Doce de Leite. Mexi no meu roupão e cocei a cabeça. Eu nunca tinha ficado em casa, então nem sabia o que fazer. Vi um post-it na porta da geladeira, com um recado da minha mãe: "Querida, você tá toda indispostinha, eu e seu pai resolvemos te deixar dormir até mais tarde hoje, mas pode ir para o vôlei com a Maria e a Sabrina."
Fiquei feliz. Nós tínhamos conseguido alugar uma quadra de vôlei de praia num lugar bem legal depois de meses procurando. E estávamos contando os dias para poder ir lá.
Peguei meu celular e me joguei no sofá.
"Você tá bem? Quando eu e a Lo fomos te buscar hoje, sua mãe disse que você estava passando mal e que não iria para a escola. Ah, e já respondeu para o Benji?"
Nem preciso falar que foi a Maria quem mandou.
Eu sabia que ela não iria ver, mas respondi mesmo assim que eu estava bem e que ela não precisava se preocupar com a questão do Benjamin...
Abri a conversa dele, e fiquei encarando a pergunta. Pensei um pouquinho, e digitei:
"Sim, de você", mas assim que enviei ele ficou online, e corri para apagar.
"Oi" ele mandou, enquanto meu coração ainda estava desparado.
"Oi. Não foi pra escola?"
"Não. Acho que você passou aquela doença para mim quando vomitou... tô com a maior enxaqueca."
"Também. Mas pensei que você tivesse superado o vômito! Eu te pedi desculpas..."
"Ah, agora abrir e fechar a boca sem 'produzir nenhum som' é pedir desculpas?"
Eu comecei a rir, imaginando o rostinho que eu gostava tanto dele falando aquilo, e respondi para ele, e começamos a puxar papo, como não fazíamos há um bom tempo. Até que foi a vez dele de estragar tudo.
"Ok, mas e a minha pergunta?"
"Que pergunta?" Me fingi de desentendida.
"A do Verdade ou Desafio."
"Hã..." mandei, logo me arrependendo. Eu deveria dizer que ia pro médico, deixar de estar online, ou a típica 'minha mãe está me chamando', mas eu não conseguia mentir para ele. "Sim, e não posso te dar mais detalhes porque você só tinha perguntado 'SE' eu gostava, não de 'QUEM' eu gostava".
"Verdade ou Desafio?"
"Nem adianta" comentei. "Mas é sério, preciso ir."
"Fazer o quê?"
"Dormir" falei, e era verdade. Eu tava morrendo de dor e talvez dormir resolveria!
"Ah, então tá. Até o Verdade ou Desafio?"
"Até." e coloquei meu celular na mesa de centro e fechei os olhos.
(...)
Acordei me sentindo um pouquinho melhor da cabeça, mas pior da barriga. A minha dor parecia triplicada, como se recém tivesse saído duma luta que tomei 30 socos no estômago, mas consegui vestir a minha saia cor salmão, botar meu moletom branco favorito e passar uma make bem leve, sem me esquecer da chapinha (comecei a usar chapinha desde o início do ano passado, quando fiz o cabelo em um salão para uma festa de 15 anos e o Benji falou que eu fico linda de cabelo ondulado) e da minha meia da sorte. A minha mãe me levou para a garagem da Sabrina, e todo o pessoal já tava lá.
O Pedro começou a implicar comigo porque eu tinha chegado atrasada, coisa que nunca faço e a Maria veio correndo me cumprimentar com beijinhos.
Dessa vez, tavam moderninhos: usando roleta do celular! O Léo pegou o aparelho e adicionou meu nome, botando para girar.
Caiu a Sabri e o Léo. Eu olhei para a Maria e vi que ela tava morrendo de inveja por dentro, mas sorrindo falso por fora. A abracei e ela enviou o rosto no meu braço.
E ficamos nas perguntas "Verdade ou Desafio" (a mais inútil) e "Porta aberta ou fechada" até a hora de irmos para o vôlei. Graças a Deus não caiu eu e o Benji, mas eu caí com a Maria, o Pedro e o Léo (que, se não me engano, fez uma pergunta besta, tipo "é verdade que vocês já ligaram para o número de emergencia da Alemanha escondidas no banheiro no horário da aula" sendo que todo mundo sabia que sim - e depois eu, a Maria e a Sabri, que era bem menos preguiçosa naquela época, levamos uma ocorrência bem-dada).
Assim que bateu umas 15:00, arrumamos nossa bagunça de salgadinhos e refrigerantes para irmos para a quadra. A minha dor de barriga só parecia piorar, mas sempre que olhavam para mim, eu finjia um sorriso. Não queria que se preocupassem comigo e curtissem mais o jogo, eu já sou "protago(nista) demais", segundo o Pedro.
Começamos dividindo em dois times bem básicos: guris contra gurias. A Maria começou sacando por cima, e o Léo rebateu com uma manchete que bateu no teto do negócio, e caiu na mão da Sabrina, que não conseguiu dar um toque. Olhei estranho para ela; a Sabri sempre tinha sido a melhor do toque!
O Pedro começou a rir da nossa cara, e eu chutei a bola na canela dele. Eles rotam e o Léo sacou por baixo, dando em um corte para a Maria. O Pedro rebateu, eu dei um toque, passando para a Maria, que cortou de novo. Eu não sou uito fã de cortar, a bola vai para qualquer lado! Os cortes da Maria são perfeitos enquanto os meus são a maior porcaria.
Então, voltando para o jogo. A Sabri deu um toque meio ruinzinho, eu consegui salvar com uma manchete e passei para a Maria cortar. Os guris, pensando que eu ia passar direto, se agrupam na minha frente, e foi fácil para a Maria fazer ponto. Nós implicamos, rimos e ficamos competindo. No final, deu 15x13 para nós. Passamos no bar do segundo andar para comer alguma coisa. A Sabri pediu um milkshake e se jogou em qualquer pufe, a Maria quis um Gatorade e eu um Chá Mate Leão de Pêssego. Os guris foram de Sprite.
Nos sentamos em uma mesa e começamos a conversar sobre assuntos aleatórios, tipo trends e memes dos anos passados, quem é o guri que mais faz bagunça na sala, quem é a pessoa mais chata, etc.
Depois, voltamos para nossos jogos. Era a minha vez de sacar, e eu saquei por baixo. O Benji se atravessou na frente do Pedro, literalmente se jogando de lado, e cortou.
Sabe quando as pessoas que quase morreram falam que a vida delas passou na frente dos seus olhos? Pude ver a cena do Benji cortando, mas ao mesmo tempo, vi todos os momentos da minha vida em um flash: desde eu bem pequeninha fugindo do berço até eu vomitando no Benji. E aquela bola acertou direto no meu olho, resultando em: Gigi caindo dura para trás com um alto grito de "ouch".
Ouch!
— Giovana, Giovana! - ouvi a voz da Maria, e tentei abrir os olhos, só conseguindo abrir o esquerdo. A imagem desfocada do rosto completamente suado dela e os cachos dourados ensopados encostanto na minha orelha apareceu, e ela segurou no meu ombro e me sacudiu. - Sua dramática! DRAMA QUEEN DO C4C3T3! ACHEI QUE TIVESSE MORRIDO!
— Ai, vai com calma! - eu falei, a empurrando delicadamente com a minha mão - eu não morri, mas acho que meu olho morreu. Tô com uma dor do-
— Trouxemos o gelo para a protago' - o Pedro falou, trazendo um cooler com o Léo, cheio de gelo.
— Já falei que não sou protago'. Sou normal, só tenho aza-
— Não, você é protagonista e resenhuda. - ele falou. Muitas pessoas usam a palavra "resenha" ou "resenhudo(a)" como algo ruim, mas eu gosto de resenhas. São festas legais.
— Tá bom, né. - falei, me levantando. O Léo me deu um gelo, e eu coloquei no meu olho. Nem sinal do Benjamin. - Para onde foi o Benji?
— A mãe dele veio o buscar. Nas quintas ele tem fute, lembra?
Não acreditei que ele tinha preferido ir para o futebol do que me ajudar.
Ui, isso soou tóxico e mesquinho. Mal eu.
Será que ele cortou no meu rosto de propósito?
Liguei para a minha mãe. Eu não estava mais no clima de jogo.
Ela não podia me buscar, de novo.
Saí do lugar e chamei um Uber. Fui até a casa do meu tio, que tinha me deixado ficar lá enquanto minha mãe estava trabalhando. Ele passou uma pomada no meu olho, mas eu senti a dor de barriga voltando, e uma dor nas costas por causa do tombo. Mas em vez de ficar me lamentando, abri o Watts. Mensagem do Benji.
"Como vai o olho? É sério, me desculpa."
Desculpa pelo o quê? Sacar em mim? Não ter pedido desculpa antes? Não ter se importado?
Eu comecei a ficar com muita raiva dele, e deixei o celular de lado, para não escrever nenhum desaforo e me arrepender depois.
Logo depois, meu celular bipou, e eu imaginei que era uma mensagem dele querendo que eu respondesse, mas era da minha mãe.
"Precisamos conversar."
O que houve agoraaaaa???????

