Ás vezes, eu me sinto como uma blogueira. Eu acordo, engulo um copo de iogurte, como meia dúzia de uvas, escovo os dentes, lavo o rosto, passo maquiagem o suficiente para transformar um urso polar num urso panda e finjo que estou dormindo. Deixo o despertador tocar, e atendo a ligação do nosso grupo, "Doidos do CAPS". Dou bom dia para meus amigos, tirando o meu tapa-olho (peguei esse hábito para parecer ainda mais natural - comecei a fazer tudo isso no ano passado, quando eu percebi que realmente gostava do Benjamin...) e brigando com o despertador. Dou a desculpinha que preciso ir tomar o café da manhã para desligar e trocar de roupa, e adianto meus temas/brigo com o Dário (irmão mais novo) para ele parar de esconder as minhas pantufas da Hello Kitty. Dou tchau para os meus pais, e fico na porta da frente da minha casa esperando a Maria e a irmã mais velha dela, Lorena, chegarem para me levar para a escola de Mini Cooper (mil vezes melhor que o carro dos meus pais). No carro da Lorena já tem até um compartimento que fica o meu óculos de sol!
Chegamos arrasando na escola, com o capô do carro aberto. Alguns garotos passam gritando "resenha" para a gente, mas já estamos tão acostumadas que nem faz efeito. A Lorena nos deixa no portão do nosso prédio (ela já está no penúltimo ano do ensino médio) e encontramos com nossos amigos.
— Afe, essa vida de popularidade tá difícil! - a Sabri falou, abrindo a porta do armário dela, de onde saíram mil e um post-its rabiscados com deboches de tipo "eu te amo, Sabrina" ou "casa comigo".
— Nossa, pra mim tá perfeita! - a Maria falou, organizando as fotos dela que tinham caído. Ela também abriu um novo pacote de adesivos, pegou sua pasta e os materiais escolares, que, com certeza, ela não usaria. A pasta era para colar adesivos.
— Ah, eu não sei não. - eu comentei, pegando o que eu precisaria para os próximos períodos - Tá muito corrido. Lembram de quando os professores davam mais tempo para pegar os materiais?
— Acho que eles só faziam isso porque estávamos no início do oitavo ano e "não estávamos acostumados com armários". - o Pedro falou, já indo para a sala de aula, ou melhor, para um período de tortura mental: matemática. A professora Karine já estava impaciente na porta, batendo o salto-alto dela, que parecia mais uma trilha sonora de um filme de terror (ela sempre usava o mesmo salto, então quando ouvíamos o estalo dele, sempre sabíamos que vinha bomba - ou fujíamos). Eu, Maria e Sabri nos entreolhamos, com pena umas das outras, e entramos na sala de aula.
Passaram alguns períodos entre bilhetinhos, fofocas, risos e vaias (inclusive vaiamos muito quando a turma 82 passou na frente da janela que dava para o corredor, dançando e mostrando a língua porque iam para a educação física e a gente estava em uma aula muito chata de história dos africanos - sem preconceito, mas a gente tem essa aula todos os dias, e cansa!) e finalmente chegou a hora do intervalo entre a nossa aula de manhã e a tarde de contraturno.
Eu estava saindo da sala de aula, e sinto alguém me empurrar contra a parede, de frente para mim, do nada.
Eu fechei os olhos, e um perfume que eu adorava, e conhecia, invadiu o meu nariz. Sabe seu perfume preferido? Agora imagine um 1000 vezes melhor. E eu até achei estranho, e abri uma frestinha do meu olho para ver.
— Você não respondeu à minha pergunta. - ele falou, olhando diretamente nos meus olhos. Aqueles olhos verde escuro quase azul dele pareciam examinar meu rosto inteiro, como se tentasse entender a minha expressão. Senti uma sensação super estranha na minha barriga, mas não era, hã, boa, como "borboletas no estômago", era mais como se algo nojento estivesse subindo, e-
— Benji, sai da frent- - eu falei, tentando me segurar, mas já era tarde demais, eu tinha me dobrado para a frente e cuspido aquele gosto ruim para fora, que estava ardendo na minha garganta desde cedo. Mas o Benji não era o melhor atleta da turma, então seus reflexos não foram tão rápidos assim...
Eu olhei para o estrago que eu tinha feito. Por sorte, não tinha ido no rosto dele. Mas foi, hã, no... sapato, na barra da calça, na calça, e na ponta da blusa.
— Me desculpa - eu tentei falar, mas a minha garganta estava tão seca que não produziu nenhum som. Comecei a me desesperar, e por sorte, a Renata, da minha turma, viu e chamou o enfermeiro. Só me lembro que foi bem rápido: ele viu o que eu fiz, como eu estava e se meus pais podiam ficar comigo na minha casa.
Ele escreveu um mini atestado para mim sair da escola, e eu pensando que todo mundo iria rir de mim por ter vomitado, tavam gritando meu nome no corredor, por finalmente ter conseguido sair da escola em horário de troca de turno (geralmente, quando vamos almoçar). Mas, por ser uma quarta-feira, eu sabia que meus pais não poderiam ficar comigo, e eu teria que voltar para a escola, ou ir para a casa do meu avô Júlio, que eu não tinha contato algum.
Eu liguei para a minha mãe, que não atendeu. Liguei para o meu pai, que também não me atendeu. Pedi para o diretor deixar a Lorena me dar carona para a minha casa, mas ele não quis com medo que ela não voltasse (isso era bem óbvio que iria acontecer) então, eu tive que ficar sentada, na frente da escola, sentada no meio-fio esperando que o mundo colaborasse comigo. Poxa, estava rolando o maior clima entre eu e o Benjamin, provavelmente o maior que eu já tinha sentido. E, é claro, meu corpo tinha que estragar. Até o guardinha, que estava cuidando de mim, se afastou alguns passos, como se temesse pegar a minha doença. Acho que eu também me afastaria de mim mesma.
(...)
Já eram umas duas da tarde quando meu tio Ruy veio me pegar na escola. Mas acho que esse hábito de sempre estar atarefado é da família, porque ele teve que logo ir para o trabalho, e me deixou com a empregada deles, que eu mal conhecia.
Pelo menos, já era mais seguro do que ficar na rua.
Fiquei navegando no Pinterest, por falta de coisas para fazer, até que recebi uma mensagem da Maria.
"Consegui levar o celular escondido para o banheiro sem ninguém ver."
"Parabéns" eu respondi. Na nossa escola é proibido usar o celular, então quando conseguimos burlar a regra, é uma conquista e tanto!
"Então, qual foi a pergunta que o Benji te fez pelo celular?" ela foi direto ao assunto.
"Nossa, você é fofoqueira pra caramba, hein!"
"Só me fala" ela pediu, e consegui imaginar ela fazendo beicinho para mim.
"Tá. Ele me perguntou de quem eu gostava."
"E você respondeu?"
"Que interesse repentino na minha vida!" eu comentei, me jogando no sofá branquinho da sala de estar do meu tio, já me enrolando na manta bege.
"Você fala como se não pegasse carona comigo todos os dias! Tá, mas o que você respondeu?"
"Eu não respondi."
"Mas você PRECISA responder! Não tem essa de 'eu não respondi'! É contra as regras! Peraí, eu preciso sair do banheiro senão o sor Paulo de ciências não vai mais me deixar sair... kisses, responde pra ele senão vou conseguir um bilhete dourado do Willy Wonka para sair da escola e te dar uma voadora!"
"Ei! Essa frase é minha, sua copiona!" eu brinquei, mas ela não estava mais online. Como eu gostaria de ter um Bilhete Dourado do Willy Wonka para voltar no tempo e não vomitar naquela hora...

