Eu sempre pensei que fosse ser maravilhoso o momento em que, finalmente, eu beijasse ele. Os muros cairiam, seria só ele e eu para o resto de nossas vidas. E eu realmente vi meu mundo cair, mas de um jeito ruim. Definitivamente não era o que eu pensava que seria.
Pensei que fosse ser mágico, incrível, perfeito. Talvez em alguma festa de formatura, eu estaria linda no meu vestido de baile e ele de terno. Seria algo do momento, espontâneo, ele pegaria na minha cintura e me diria que me amava e logo olharia para os meus lábios, como se pedisse permissão para me beijar. Eu aceitaria e, bum! Felizes para Sempre.
Mas eu vi que tudo o que eu acreditava, o que eu vivia, era uma farsa. Eu não era a perfeitinha crush dele, como todos acreditavam. Se a cor favorita dele era azul, eu usaria azul todos os dias para eu ter a chance de ele perceber que eu me importava com ele. Se ele preferia minhas bochechas rosadas, eu usaria um quilo de blush para ele notar. Se ele preferia cabelos cacheados, todos os dias eu cachearia meus cabelos para ele olhar para mim. Se ele me preferia com o corpo bem defenido, eu usaria aquele negócio apertado pra caramba para receber aquele olhar delicioso... Mas eu não era assim, era algo que eu fingia ser. Eu era uma farsa. Era aquilo que aquele beijo quis dizer.
Abri os olhos imediatamente. Ele não percebia que eu não tava gostando do beijo, que era só ele me beijando, que eu não retribuía? Ele não percebia que o gosto do beijo era... errado?
Comecei a bater no peito dele de leve, pedindo para me soltar. Ele demorou um pouco para perceber, mas se afastou.
Eu limpei a boca com o meu pulso, enquanto ninguém entendia nada.
Eu estava perdida. Tudo o que eu sempre acreditara se foi. Eu não era eu sem estar gostando dele. Eu nasci gostando dele! Agora, tudo parecia a maior das mentiras. Minha vida foi uma mentira.
Eu olhei para os lados e não vi ninguém conhecido, só rostos embaçados olhando para a minha reação. Ou eles estariam embaçados porque eu estava chorando?
Me sentindo completamente exposta, corri para o banheiro. Mas não fui tão rápida assim, pois consegui ouvir um grito de quem eu achava que podia confiar.
— Ela está assim porque está traindo alguém com o Benjamín! - a Sabrina gritou, olhando diretamente para mim. Alguns murmurinhos e risos vieram logo em seguida e eu me senti pior; mais humilhada ainda e sem poder confiar em ninguém. E com o coração partido.
Era por isso que a Sabri estava estranha? Ela estava planejando fazer piada de mim esse tempo todo?
Cobri o rosto com as mãos e corri mais rápido em direção à solidão.
Abri a torneira e me tranquei em um dos boxes, me sentando na tampa da privada. E comecei a chorar amargamente, muito mais do que quando ele beijou a Isabela. Ele não tinha recém oficializado no dia anterior que tinha terminado com a Isa? Será que isso era apenas um plano para me derrubar do posto de Garota Mais Popular Do Ano? Ou ele só queria me beijar mesmo, mas no momento errado?
Ele era galinha???
De repente, ouvi passos de salto alto muito estrondosos entrando no banheiro, e batendo na minha porta.
Ah, não. Estou ferrada!
A aula de tortura mental: matemática. A professora Karine bateu de novo na minha porta.
— Giovana Dubois Cook, abra essa porta agora, seus pais estão aqui para discutir sobre quando será a sua recuperação, já que você viajará no mês de julho para fazer uma olimpíada de inglês.
Não, não, não! Eu olhei para os lados, engoli o choro e respondi na voz mais forçada do mundo.
— Já tô indo, professora! Eu só posso terminar aqui o meu número 2?
Ela ficou visivelmente perturbada pelo silêncio constrangedor que ficou logo em seguida. Eu limpei meu rosto com o papel higiênico do meu lado e pisquei bastante para os meus olhos voltarem para a cor normal. Pensei que minha maquiagem estaria horrível, mas eu não me importava agora. Não tinha ninguém para impressionar agora.
Nem a minha melhor amiga Maria veio atrás de mim. Ela me deixou na mão.
Eu já ia começar a chorar de novo, mas respirei fundo, dei descarga na privada vazia, como se tivesse terminado, esperei alguns segundos e saí do box. Eu precisava ser forte. Eu nem tinha partido meu coração de verdade; eu não amava ele! E para que desperdiçar as minhas lágrimas com um bando de pessoas falsas?
Andei de cabeça erguida pela feira de negócios, mas sem tentar humilhar ninguém, só tentando ser forte mesmo, até a sala do diretor. Meus pais perceberam que eu não estava bem, mas não quiseram falar sobre aquilo agora.
Resolvemos marcar a recuperação da minha prova para sexta-feira. Minha mãe primeiro me perguntou se ficava bom para mim, já que eu tinha Verdade ou Desafio com meus amigos na tarde seguinte, e poderia bagunçar com o meu tempo de estudos. Eu só disse que não tinha problema, e aceitei o desafio. Eu iria estudar até essa viagem da olimpíada (que só aconteceria se eu passasse na primeira fase).
Eu não ia mais para a escola pelos motivos que a maioria das garotas ia para escola (fofocar, encontrar o crush e exibir seus novos produtos de beleza), eu iria para estudar.
Assim que chegou a hora do almoço, eu fui para casa. Recebi mensagens do Benjamín e da Maria Fernanda, mas eu silenciei as duas conversas (e a com a Sabrina). Estudei para a olimpíada de inglês para eu poder passar e não precisar ver mais todo esse pessoal da escola.
Quando chegou o turno inverso, eu ignorei todos os risinhos e fofoquinhas sobre mim. Eu tinha ido com uma maquiagem leve só para esconder minhas olheiras, nada comparado ao que eu usava. E ainda mais: eu peguei a chapinha e a usei, mas não para deixar meu cabelo mais ondulado: foi para alisá-lo ao seu natural.
Eu fui sendo eu mesma.

