— REUNIÃO DE FAMÍLIA! - minha mãe gritou, como se nossos parentes de todos os lados do mundo precisassem ouvir.
Eu desliguei a televisão do meu YouTube Shorts (é muito bom ver shorts na televisão, comendo morango picado com leite condensado!) e fui até a mesa da cozinha, que, para a surpresa de ninguém, estava arrumada. Me sentei no meu lugar de sempre e fiquei esperando a minha mãe parar de balançar aquele mini sino de igreja para chamar o resto da família.
— REUNIÃO DE FAMÍLIA! REUNIÃO DE FAMÍLIA!
Tapei os ouvidos e fiquei mexendo no meu celular.
Logo depois veio um Dário irritado porque tinha perdido no seu videogame e veio meu pai irritado porque estava perdendo um jogo de futebol.
Todos se sentaram à mesa, contrariados, e minha mãe começou a falar.
— Não terminamos a nossa conversa de 11 dias atrás.
Pisquei. Fazia 11 dias que ela tinha me mandado aquela mensagem de "Precisamos conversar"? Inacreditável.
O Dário murmurou alguma coisa inaudível.
— Então, eu andei fazendo umas pesquisas-
— Mãe, eu já te disse que não quero mudar de escola! Eu gosto do ensino da minha, tenho muitos amigos lá, e- - eu comecei a falar, mas ela me interrompeu.
— Filha, já entendi isso. Por isso que eu estava procurando atividades extracurriculares para você! Estou preocupada com o seu ENEM, que a sua escola não prepara muito bem. Por isso você vai fazer olimpíadas e vai melhorar o seu inglês para estudar fora do país!
Choraminguei. Minha mãe não percebia que a minha vida estava perfeita? Eu tava com notas boas na escola, já tinha planos para o futuro (estudar na mesma facul brasileira que a Maria e me casar com o Benji)...
— Eu sei que você já tem planos, mas me preocupo com a sua carreira, minha filha! Suas notas nem estão tão altas assim, você reprovou em matemática, por sinal. E você talvez precise de um preparo extra! E que papo é esse de não fazer mais Duolingo, hein? Eu recebo mensagens diárias para você "aumentar a sua ofensiva"!
Estremeci. Ela tinha essa mania de falar mil coisas de uma vez só sem nem respirar, o que me deixava sem ar também. E eu detestava que ela sempre joga um monte de coisas e responsabilidades para cima de mim. Por que ela não se preocupa com o Dário, em vez de mim?
— Ok, mãe. Já ouvi bastante. Só fala logo. - pedi, querendo logo acabar com aquilo. Eu já estava com aquele modelador idiota me apertando (sim, eu inventei de ir com ele para a escola em plena segunda-feira só porque o Benji disse que eu estava bonita no dia anterior) e agora tinha mais a minha mãe me pressionando! Daqui à pouco, eu iria explodir!
Ela me explicou que iria me colocar em um cursinho de inglês, eu teria que fazer Duolingo todos os dias (penalidade: não poder ir jogar Verdade ou Desafio logo depois da escola) e eu participaria de uma olimpíada de literatura internacional que teria reuniões semanais para fazer estudos sobre o livro com pessoas de todos os lados do mundo da minha faixa-etária.
Bufei. Como se eu precisasse de mais coisas! Se eu reprovei em matemática, ela não deveria me botar para fazer cursinho de matemática? Não entendo a cabeça da minha mãe.
(POV) Me joguei na minha cama e encarei a mensagem do Duolingo.
"Gigica_123123, não me deixe na mão! Aumente sua ofensiva de 1 dia!"
Aaaaaaahhhh!!!!! Que raiva.
Fiz uma maldita lição no volume máximo para a minha mãe ouvir que eu tava fazendo, depois atendi uma ligação de vídeo do Benji.
— Oi Gigi! - ele falou. Vi que ele também estava tacado na cama dele.
— Oi Benji. Qual o motivo da ligação? - perguntei. Minha raiva inteira sumiu quando eu vi o rosto dele (ownnnn).
— Hmm, você me prometeu uma coisa. - ele falou, brincando. Imediatamente me lembrei do beijo com a Isabela e fechei a cara.
— É. Olha, eu não sou a melhor pessoa para ajudar com relacionamentos, mas... olha, cinco passos:
1- Tenha certeza que quer terminar com a pessoa.
2- Comece a se afastar de leve dela, parando de responder, mas sendo sempre educado.
3- Não dê mole, vá se afastando até ela perceber que não tem mais nada entre vocês.
4- Arrange compromissos, mostre que ela não é o centro de suas atenções.
5- Seja sincero e diga que quer terminar.
Ele ficou olhando para mim por um tempo, analisando a expressão do meu rosto.
— O que foi? - perguntei, revirando os olhos.
— Você pareceu tão natural falando tudo, como se já tivesse usado essa técnica...
— Bom, nós dois sabemos que eu nunca namorei de verdade, então, nem tinha onde usar! - eu comecei a rir, e ele riu junto.
— Hã... o que tu, a Maria e a Sabri vão vender na feira de inglês, na quarta? - ele desviou de assunto, do nada. Pensei que talvez ele estivesse querendo roubar a nossa ideia para a feira da semana que vem, então usei o nosso disfarce:
— Nós estamos espalhando por aí que vamos fazer donut, mas, na verdade, vamos fazer churros. - falei, rolando na cama. Pronto! Ninguém duvidaria que iríamos fazer morango do amor!
— Ah... nós vamos fazer sacolé. - ele falou, e começamos a conversar normalmente sobre essa feira, rindo e nos divertindo.
Eu só detesto uma coisa: tudo o que é bom acaba rápido...
— Hmm... Verdede ou Desafio? - ele me perguntou, e, sem nem pensar, eu respondi "Verdade". Nem precisou perguntar se seria "porta aberta ou fechada", já que era só nos dois. Me arrependi de ter aceitado a brincadeira na hora. - Você já me disse uma vez que gostava de alguém. De quem é?

