— Ah, filha, deixa disso! Paixões e amores vem e vão! - minha mãe tentou me reconfortar, mas não tinha jeito. Eu dormi com os olhos inchados de tanto chorar e, quando acordei e me dei conta do que tinha acontecido na noite passada, voltei a chorar mais ainda. Ele pareceu estar flertando comigo nos últimos dias! Ou só foi coisa da minha cabeça?
Nem tirei a maquiagem, ou tomei banho, ou coloquei touca no cabelo. Eu estava um caco, só servia para soltar lágrimas.
O Dário já tinha tentado entrar no meu quarto, mas eu comecei a xingar tanto que ele saiu para dar uma corrida sozinho na praça. Meu pai já quis entrar no meu quarto e não mudou muita coisa. Só a minha mãe que não adiantou nada.
— Filha, eu vou chamar a Maria. Ela vai te ajudar mais do que eu.
Eu me abracei no meu travesseiro e comecei a chorar mais, já me preparando para ter um domingo inteiro assim.
Não deu outra e a Maria chegou, com a mão na cintura, e eu soube que ela ia fazer de novo o que ela fez no banheiro da garagem da Sabri. Apertei os olhos com força.
— Giovana Dubois Cook, deu de choro, deu de resenha, deu de protagonismo! Você não é a única coitada no mundo! Então trata de parar com essas lágrimas e lavar esse rosto que você tá horrível. Depois vamos numa gráfica imprimir uma coisa e vamos na academia. Depois vamos tomar um sorvete e vamos andar de bicicleta na orla. As bikes já estão amarradas no carro dos meus pais, não tem como fugir do programa.
Olhei para ela. Eu não queria sair de casa, queria ficar me lamentando o resto do dia.
Meu celular fez um "bip", e eu resmunguei e olhei a mensagem, enquanto a Maria me olhava, impaciente.
"Oi, tudo bem, Gigi? Topa um sorvete?"
Comecei a chorar muito mais.
— Ah, não! Você já tinha parad- - a Maria foi falar, mas viu de quem era a mensagem - Mudança de planos. Você vai tomar sorvete com ele.
— O quê, Maria?!!! Enlouqueceu????? - perguntei, incrédula
— Não... você vai. Só isso. - ela se acalmou, voltando ao normal.
Bufei, me levantei e me olhei no espelho. Eu nunca estive pior.
Se eu iria encontrar meu crush, mesmo depois de ter visto ele beijando outra, eu precisaria estar deslumbrante, o melhor possível, para ele ver o que estava perdendo.
A Maria quis fazer disso uma brincadeira de salão de beleza só para eu me sentir melhor, e acho que funcionou. Ela começou tirando toda a maquiagem do dia anterior e passando hidratante no meu rosto. Depois veio a arrumação de cabelo, que não queria cabelar, e a maquiagem que não queria maquear. A Maria brigou com tudo até eu ficar parecendo outra pessoa, muito mais "viva". Depois, ela abriu a bolsa dela e tirou mil e umaa roupas chiques, mas antes, ela inventou de colocar um daqueles modeladores em mim para eu ficar com a cintura bem marcada e colocou um vestido lindo que, por mim, seria para um baile.
Por final, ela me deu sapatos que combinam com o vestido e passou um perfume irresistível em mim.
— Pronto, amiga, humilha ele!
(...)
Eu ainda não conseguia acreditar no trabalho que a Maria tinha feito em mim. Eu não parecia eu, eu estava... diferente. É claro, foi uma diferença boa, mas ainda assim é uma diferença. E aquele negócio tava me apertando a minha barriga...
Comecei a mexer no vestido, um pouco incomodada.
— O que foi? - a Maria me perguntou, vendo que esu tava desconfortável.
— Nada, não. - eu sorri amarelo.
Fiquei olhando para a rua, e vi a sorveteria que sempre imos se aproximando. Por sorte, a Lorena estacionou bem na frente do lugar, eu não tive que passar pela obra e quebrar o tornozelo de novo (eu já tava de meia de compressão, quase 100% curada).
Saí do carro tremendo como vara verde, nervosa como nunca. Eu tava com vontade de roer as unhas postiças que a Maria colocou, arrancar aquele modelador e chorar num cantinho do meu quarto, abraçada no meu travesseiro. Mas não dava.
Eu respirei fundo e abri um leque do jeito que a Maria tinha me ensinado. Se eu iria humilhar, precisava humilhar com estilo.
Comecei a andar desfilando na sorveteria. Sem querer (querendo) passei reto pelo Benji, que ficou olhando, quase babando, para o meu corpo. A Maria estava certa. Ele iria ver só o que estava perdendo.
Me virei, fingindo procurar ele, até que meus olhos focaram ali, abanei e me sentei bem devagar.
Ele ficou com os olhos estacionados no meu vestido por um tempo (eu estava me sentindo completamente desconfortável, mas sabia que valeria a pena) e depois olhou para o meu rosto, sem falar nada.
— Então, por que você me chamou aqui? - perguntei, apoiando os dois cotovelos na mesa, olhando bem fundo nos olhos dele, como se, à qualquer minuto, eu pudesse queimá-lo inteiro.
Ele tava visivelmente desconfortável.
— Hã... tomar sorvete. Não posso mais tomar sorvete com a minha amiga?
Ah, ele ia jogar? Eu também sei jogar...
— Ah, não sei não, você me rebaixou de melhor amiga para amiga... e você sempre me pede algo. O que você quer?
Ele sorriu amarelo, e eu pisquei forte. Lá vem...
— Gigi querida...
— Nossa, você tá parecendo uma garota. Fala logo. - interrompi, e olhei o horário no meu celular, como se tivesse um compromisso logo em seguida. Revirei os olhos, fingindo ler uma mensagem, e perfurei o Benji com o meu pior olhar.
Ele engoliu em seco e começou a falar.
— Gigi, minha melhor amiga, eu quero saber como dar um fora em alguém que você achou que gostava mas não gosta.
Tive um ataque de tosse como o que eu tive quando ele falou que ficaria comigo. Minha barriga começou a doer para tossir porque estava sendo apertada, então pedi ao garçon um copo d'água. Não podia ficar fugindo para o banheiro.
Quer dizer que ele não gostava da Isabela??? E eu, me desmoronando em casa??? Nossa, eu amo a Maria, se não fosse por ela, eu ainda estaria chorando por motivo nenhum!!!
Senti bolinhas de sabão dentro de mim, dançando, alegres.
Sacudi a cabeça.
— Peraí, o quê??? Você tava gostando de alguém e não tinha me contado???
Sim, foi isso o que saiu. De todas as milhões de opções de coisas que eu poderia falar. E, ainda por cima, completei.
— E ainda diz que eu sou sua melhor amiga???
Por que eu sou tão implicante???????????
Ele sorriu ainda mais amarelo.
Respirei fundo, para não sair outro comentário desnecessário.
— Eu te vi beijando a Isabela.
Por que eu sou tão boca de sacola??????????
Ele arregalou os olhos, e eu tapei a minha boca. O que eu tinha feito?
Ele piscou, começou a rir de leve com aquelas covinhas que eu adoro, e olhou para mim.
— Gigi, você está com ciúmes?
— Oi? - respondi, não entendendo o porquê de ele ter feito a pergunta. Tipo, foi do nada.
— Você está com ciúmes? Porque tá parecendo muito.
— Não... por que eu estaria? - sorri amarelo, ficando nervosa. - Olha só, me manda mensagem que eu te digo como dar o tal fora na Isa, ok? Agora eu preciso ir, tenho um compromisso muito importante...
— Percebi pelo vestido. Você está linda.
Senti um formigamento percorrer meu corpo inteiro.
— Você só fala isso porque é meu amigo. - comentei, entrando no joguinho dele de sermos só amigos. Se ele estava me colocando na friendzone, eu iria fazer isso também.
Ele murmurou alguma coisa, mas eu já estava longe, entrando no carro da irmã da Maria.
Missão cumprida.

