Me levantei e esfreguei meus olhos. Me sentei na cama, e tirei as cobertas de cima de mim. Ótimo. Eu estava com aquela maldita tala no meu tornozelo quebrado. Comecei a resmungar e a choramingar. Sempre tem algo de ruim que acontece comigo!
Me levantei, com o cabelo completamente bagunçado, e me olhei no espelho. Apertei meus cílios. Eu ainda estava de rímel, não tinha colocado touca no cabelo para não enozar, tava com a cara toda amassada de dormir e com um pouco de tinta no cabelo. Abri a torneira e passei uma água no rosto, para me acordar.
Ontem, depois de eu quebrar o tornozelo, fui para o pronto-socorro. Fizeram a tala e exames demorados e tal. Depois, convenci a minha mãe a me deixar ir na festa de aniversário da Pietra, que seria num lugar bem diferente, onde tem uma sala escura que dividem três times e brincamos de paintball. Eu era do time vermelho, junto com a Maria, a Cecília, a Luiza e o Léo. O time azul tinha a Pietra, a Sabri, a Alícia, a Jéssica e o Benji e o último time (o verde) tinha a Olívia Barcelona, a Renata, o Pedro, o Gabriel e o Guilherme.
Todos nós usávamos uma armadura que parecia do Star Wars e ficávamos no labirinto escuro, só com a luz da armadura e do atirador. Eu e a Maria começamos indo para o mesmo lado, mas logo em seguida ela sofreu um tiro da da Renata. Eu me virei e atirei de volta, e as duas saíram do jogo.
Comecei a correr, sem a minha parceira. Caí numa emboscada do time azul com o verde, e me abaixei, fazendo a Jéssica atirar no Gabriel e o Gabriel atirar na Jéssica. Menos 4 jogadores.
Me escondi atrás de uma cortina, onde tinham algumas caixas com outras armas, porta docinhos e outras coisas de festa. Peguei outra arma e botei um pouco da tinta da minha. Duplamente armada, me senti melhor.
A mãe da Pietra foi anunciando quem estava "morrendo" no jogo. Anotei mentalmente: Cecília, Luiza, Pedro, Sabri, Olívia, Pietra, Léo e Alícia. Pelos meus cálculos, só faltava o Guilherme.
Saí do meu esconderijo, pronta para trazer o time vermelho à vitória. Passei na frente das pessoas mortas, que comemoraram que eu ainda estava viva e que poderia vencer. Eu nunca fui muito boa em mira (minha experiência em jogos de queimada concorda), mas sou boa en desviar. Se eu desviar, até driblar o Gui, eu consigo chegar atrás dele e atirar no sensor que começa a gritar que ele foi "morto". Corri pelos corredores escuros, tentando me encontrar no mapa e enxergar um palmo na frente dos meus olhos, até que esbarro em alguém, fazendo essa pessoa cair e eu também.
Apontei meus dois atiradores para o rosto da pessoa, e vi que era o Benji. Meu coração deu uma aceleradinha, e nós estávamos com os rostos mais próximos do que nunca estiveram. Comecei a sentir um clima meio tenso, como se eu me movesse qualquer coisa e meus lábios encostassem nos dele. Fiquei paralisada, e ele jogou a cabeça para trás, encostando no chão, e começou a rir da situação, bem do jeito dele. Eu esqueci de onde estávamos, só conseguia ouvir a risada gostosa dele. Comecei a rir também e deixei meu queixo cair no peito dele.
— Pensei que você tivesse morrido - ele falou, olhando para o teto.
— Eu também.
— Mas, você... você é do time vermelho! - ele falou, de repente, olhando para a minha arma - eu deveria acabar com você...
Me arrepiei com aquele "acabar com você".
— É... mas eu tenho uma ideia. Que tal fazermos uma parceria para matar o Guilherme? Se ele morrer, nós vencemos. - eu falei, sem nem pensar nas minhas palavras.
— Ok. - ele falou, tentando se levantar, e estendendo a mão para eu fazer o mesmo. Eu senti uma sensação estranha subir, mas segurei na mão dele e fiquei com meus dois atiradores na outra. E ele não soltou a minha mão, mas apertou mais ainda e ficou me guiando de um lado para o outro. - Eu conheço o labirinto inteiro, meu primo faz festa todos os anos aqui. E acho que o Guilherme está perto do centro...
Nós dois ouvimos um barulho, e ele segurou meus ombros, me colocou entre duas colunas e ficou na minha frente, com um dedo na frente da boca, pedindo silêncio. Eu senti nossos corpos colados completamente, sem nenhum espaço para o ar passar, e fiquei muito nervosa. Depois de um tempo, ele me tirou dali, pegou na minha mão de novo, e saiu me puxando pelo labirinto escuro.
Entre esquivos e esconderijos, chegamos em um lugar em que estava cheio de tinta verde, do Guilherme, e ficamos cautelosos. Logo depois ouvimos um grito e o besta saiu de trás de uma coluna, com a arma apontada para mim e para o Benji. Enquanto ele gritava, parecendo um viking, eu inclinei uma sombrancelha e apontei minhas duas armas: uma para o Benji e outra para o Guilherme, atirando ao mesmo tempo.
— Bye, bye! - eu falei, enquanto o alarme dos dois berrava dizendo que estavam mortos. O Gui tentou atirar em mim, raivoso, mas pegou só um pouquinho no meu cabelo, não adiantando nada porque eu já tinha ganhado.
(...)
Terminei de tirar a tinta verde do meu cabelo, dei uma última olhada no espelho, e fui para a escola.
Chegando lá, abri meu armário, me preparando para um dia inteiro, com aula no período normal e mais o contraturno das quarta-feiras. A turminha que foi na festa da Pietra, assim que me viu entrando na sala, começaram a jogar papelzinho vermelho picado no ar e a gritar meu nome. Era a primeira vez, em toda a história daquele lugar, que o time vermelho vencia. E só pararam de comemorar quando a professora Karine entrou na sala de aula com seu salto alto estridente.
Depois que a aula acabou, o Benji repetiu o que aconteceu na quarta passada (e ontem de noite): me colocou contra a parede.
— Olha, da última vez que você fez isso, não deu muito certo! - eu falei, brincando. Ele riu também e pensei como eu sentiria falta dessa risada se, um dia, ele não estivesse mais na escola. Afastei esse pensamento horroroso.
— É verdade. Só queria falar que, se formos jogar esse jogo de novo, não faço mais parceria com você!
— Ah, mas vai fazer sim! Se não fosse por mim, você teria morrido para o Guilherme. Ele estava com a arma apontada para você!
— Mas você me matou, impediu a minha vitória! Não fui o último vivo, o sobrevivente!
— Mas foi o penúltimo vivo, quase sobrevivente.
— É... - ele falou, e começou a rir, mas logo ficou sério. - Olha só, tá chegando o meu aniversário, e eu quero fazer nesse lugar. A data vai ser 28 de junho... se hoje é 25... é. No próximo sábado. Você é a primeira a saber. E, sem desculpas, eu quero ser do seu time, pra não perder pra você.
— Vou atirar em você mesmo assim! - eu brinquei. - Tô confirmada.
— Que bom! - ele, sorriu, e saiu de cima de mim (eu quis dizer "me deu espaço", não que ele estivesse "em cima de mim" literalmente...).
Eu fiquei muito feliz por dentro. Espero que eu continua caindo em cima dele e ele continue me escondendo, exatamente como ontem, a Melhor Festa de Todas!

