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Verdade ou Desafio?
Capítulo 5: Acho que o mundo não gosta de mim.
1329 palavras • 7181 caracteres • ⏱ 5 min 19 s

Capítulo 5: Acho que o mundo não gosta de mim.

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Hoje de manhã, caprichei nos cachos, para que o Benji continuasse com a mesma opinião. Também caprichei na make, e no gloss da Dior que eu só uso em ocasiões especiais. E era uma dessas.

Hoje seria o dia de uma apresentação muito importante de inglês, que valia muita nota. Teríamos que fazer um mini teatrinho lá na frente, como se fosse uma propaganda de um produto, com slides no fundo e tudo. E teria que ter diálogos. Em inglês.

Eu nunca fui tão ruim assim em inglês, tenho a pronúncia até que fluida, mas o problema era que o nosso teatrinho era sobre um casal que ia em uma farmácia comprar um xampu, mas a atendente recomendou outro. Daí uma outra atendende começaria a falar bem do produto até que o casal resolve comprar.

Quem é o casal? Eu e o Léo (tipo, nada a ver). Só porque a professora escolheu o quarteto e achou que eu deveria ser a namorada fictícia dele. Que legal.

Nem preciso falar que a Maria vai ficar esnobando o produto umas quarenta mil vezes (olhando para o Léo) e a Sabri vai ficar meio atirada do lado dela. O Pedro e o Benji foram responsáveis pelo cenário e o slide de fundo.

Mas eu estava muito nervosa, porque teria que ficar fazendo contato físico com o Léo o tempo inteiro, ficar de braços dados e sorrindo. Não que isso fosse tão difícil, somos amigos há muito tempo, mas é que eu teria que fazer isso em uma apresentação. Na. Frente. De. Todos. E se parecesse romântico demais, e começassem a me shippar sem parar com ele? Poderiam bater foto com o celular escondido, postar, e... e...

Se acalma, Giovana; Se acalma.

Aaaaaaaaaaaaaaah!!!

(...)

Chegando na escola, a Lorena nos deixou na porta e estacionou o carro (como sempre) e eu e a Maria, já vestidas para a apresentação, que seria logo no 2º período, nos encontramos com o resto do pessoal do nosso grupo. Só faltava o Léo ali... que estranho.

Mas, tudo bem. Fizemos uma maquiagem na Sabri para parecer com a da Maria (atendentes combinando!) e pegamos nossos cadernos para uma aula exaustiva com o professor Paulo, de ciências.

Saímos com o cérebro quase derretido por causa da aula de Reações Químicas intensa, por ser a última aula antes da prova, e logo começou falatório. Eu já ia entrar numa rodinha de fofocas em que estava a Renata, a Cecília, a Pietra, a Olívia Barcelona e a Luiza, mas a Maria me puxou pelo braço.

— O que foi? - eu perguntei, irritada. Parecia que tinha um boato que a Bianca Giordano, da minha turma, estava ficando com um modelo da Calvin Klein, e eu queria saber a respeito. - Vai, fala logo!

— O Léo não chegou. - ela disse, olhando para os lados, se certificando - e a professora já vai chegar. O que fazemos?

Eu comecei a ficar nervosa (mais ainda, porque nervosa eu já tava). O Leonardo nunca faltava, e escolheu justamente o pior dia para faltar??? Aquela apresentação valia uma nota cheia, 10 pontos! Nem prova vale tudo isso, e eu não queria pegar recuperação porque o besta tinha resolvido não aparecer.

Eu bufei, e segui a Maria, que tava indo em direção aos guris do grupo.

— Ei, Benjamin, você vai ter que fazer o papel do namorado da Gi.

Ele tava bebendo água, e cuspiu tudo.

— Eu??? Mas eu falo inglês da pior forma possível!!!

— Pois é, mas você fala. O Pedro não sabe nem dizer "oi", de tanto que reprovou!

— Eu sei sim! Oi é "rélou", R-E-L-O-U.

A Maria deu um tapa na testa, porque o Pedro não tem conserto mesmo.

— Tá bom, eu faço o papel. - o Benji falou, olhando diretamente nos meus olhos. No fair/You really know how to make me cry/When you gimme those ocean eyes

Eu senti um leve tremor, e sorri amarelo. Aquilo não ia dar certo.

Me sacudi de leve e foquei.

— Ok. Benji, suas falas são bem simples, são só duas. Mas o que conta é a atuação! - eu falei, mostrando o roteirinho que a Sabri fez. Ele só tinha que falar "amor, vamos comprar xampu, o nosso está acabando" no início e "tá bom, nós vamos levar esse" no final. Único detalhe: tudo em inglês.

Eu só tinha que concordar e falar expressões tipo "Okay", "Yes" (sim), "Of course" (é claro) e "Bye" (tchau). Único detalhe: o Benji.

Para piorar tudo: nossa apresentação era a primeira.

Quando eu vi a professora entrando na sala de aula, me desesperei por completo. Olhei para o Benji, e me desesperei mais ainda; ele tava de chinelo havaianas, bermuda e camiseta do uniforme, cabelo todo despenteado e com a cara ainda meio amassada de dormir.

— Vem cá, agora. - falei, o arrastando pelo pulso. Levei ele para fora da sala, para um canto onde ninguém poderia ver. Abri a minha mochila de ginástica, onde tinha colocado os figurinos da Sabri e do Léo (agora do Benji) e tirei um casaco que combinava com a minha roupa e uma calça de moletom, e entreguei para ele. Quando me virei para ver o que o bendito estava fazendo, ele tava me olhando. Parado - Vai, se troca!

— Aqui?? - ele perguntou, olhando para os lados do corredor.

— Sim, ué! Pode se trocar que eu não tô vendo. - eu me virei de costas, e fechei os olhos com as mãos, enquanto ele ria.

Comecei a vasculhar a minha mochila atrás de um pente. Eu achei meu tênis surrado para a educação física, todo fedido, mas era melhor do que havaianas. Dei para ele, sem olhar, dizendo que teria que calçar, e sem meia porque eu não tinha.

Ele me avisou que terminou, eu me virei, e sorri, maravilhada. Pelo menos, tinha servido direitinho!

— Ah não que tu vai escovar meu cabelo com isso aí. - ele falou, apontando para o pente de madeira que eu tinha achado, com a outra mão no bolso.

— Vou sim! Vem cá. - eu falei, indo na direção dele. - E nem começa a reclamar, só vou dar uma ajeitadinha.

Fiquei na ponta dos pés para tentar pentear o cabelo dele, mas, mesmo assim, ficou desconfortável. Eu mal alcançava o queixo dele, imagina o cabelo!

Sempre fui mais baixinha que o Benji, mas, antes, isso não me incomodava. Mas, com o passar dos anos, ele começou a ficar muito mais alto do que eu (e mais bonito também!), e todos começaram a achar que ele era meu namorado. No início, não me importava, mas agora é o que mais me incomoda.

Ele começou a rir de mim pulando para pentear, e resolveu se abaixar (graças à Deus!) e eu consegui ajeitar os fios teimosos para, pelo menos, ficar razoável. Depois abracei ele, encorajando (com segundas intenções...) e fomos pagar mico na frente de toda a sala. Que divertido.

(...)

— Ainda não acredito que a professora nos deu 9,7! - eu falei, empolgada. Jurei que iríamos levar um 5,4 na cara dura!

— Pois é, né! - a Maria comemorou. Todos estavam alegres, menos a Sabri, que estava meio deslocada. Por mais que eu tentasse puxar assunto com ela, ela me expulsava ou agia estranho comigo.

— Ai, gente, tô com vontade de tomar sorvete. De novo. - falei. Depois da apresentação perfeita, nada poderia me tirar o meu bom humor!

Comecei a saltitar na rua, alegre. Passamos por algumas lojinhas com perfumes bem docinhos de grife e por uma padaria com aroma de pão recém saído do forno...

Depois passamos na frente de uma obra. Era tudo na mesma rua, a sorveteria ficava numa paralela do colégio, bem lá no finalzinho. Eu continuei saltitando, e não percebi que meu sapato tinha prendido em um buraco, e eu me estatelei no chão.

Acho que o mundo não gosta de mim.

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