— Verdade ou Desafio? - eu perguntei, fazendo cara de competitiva para o Benji. Esse era o meu sonho: eu podia perguntar qualquer coisa, e tirar o máximo de informação dele.
— Verdade.
— Porta aberta ou fechada?
— Hmmm... como da última vez, na terça passada, você escolheu "porta fechada", também vou escolher porta fechada.
Meu estômago deu reviravoltas; mas desta vez, eram por causa do Benjamin, não por causa da Gastroenterite que eu tinha pegado. E eu mal podia acreditar que amanhã iria fazer uma semana desde que ele me perguntou de quem eu gostava!
Pensei em alguma pergunta que não me expusesse ou o deixasse exposto. Por sorte, eu tinha feito o meu dever de casa, uma pesquisa: "Como perguntar para um menino se ele gosta de você sem o expor em um jogo de verdade".
Conclusão da pesquisa: Tente uma das seguintes perguntas:
(Perguntas hipotéticas)
1.Se você pudesse sair com qualquer pessoa aqui, quem escolheria?
2.Se tivesse que contar algo secreto para alguém, quem seria?
(Perguntas que envolvem sentimentos)
3.Qual foi a última vez que você se sentiu muito feliz perto de alguém?
4.Se tivesse que dar um elogio hoje, para quem seria?
(Pergunta que força escolha)
5.Se tivesse que escolher alguém para jantar, você escolheria ___ ou ___?
(Já vou deixar aí para o caso de alguma menina apaixonada como eu estiver lendo!)
Então foi bem fácil escolher (sim, eu me obriguei a decorar todas). Eu não queria forçá-lo, e nem meio que focar nos sentimentos dele, como se eu estivesse interessada. Então devolvi uma pergunta de relacionamento para ele, como ele fez para mim.
— Se você pudesse sair com qualquer pessoa aqui, quem escolheria? - falei, sem nem pensar duas vezes.
O Pedro e o Léo fizeram um "uouuu" mais alto do que eu imaginava que fariam.
— Nossa, se eu soubesse que podíamos fazer perguntas assim, eu já teria feito há horas! - a Maria reclamou - pensei que estivesse dentro da regra nº 4!
— Não, a regra nº4 só serve para coisas super, hiper extremas. E você gosta de exagerar, Maria - o Léo falou, surpreendendo todo mundo. Ele raramente falava diretamente com ela, por saber que ela tinha um crush nele.
A Maria sorriu feito uma criança que foi no Beto Carreiro World.
— Hã... nossa, Gigi. Você me pegou de surpresa! - ele falou. Eu sempre me derretia inteira por dentro quando ele me chamava de Gigi. Eu achava tão bonitinho! - Posso falar no seu ouvido?
Eu me arrepiei toda, só de imaginar ele tão perto de mim... mas fiz que sim com a cabeça, e ele se aproximou.
— Você. Eu te conheço desde sempre.
Me engasguei, e comecei a tossir, me arrastando de bunda no chão dele.
— Posso... ir... ao... banheiro? - pedi, entre tosses. Me tranquei lá, abri a torneira e me apoiei na pia. Deixei a água escorrer, para me acalmar e para que eles não me ouvissem pensando em voz alta.
Ele disse que se pudesse sair com qualquer um do nosso grupo, ele sairia comigo????
Eu tive vontade de gritar, contar para todo mundo que ele sairia comigo! De fazer um cartaz enorme e segurar para todo mundo ver, enquanto andava no Mini Cooper da Lorena. Vontade de explodir! Vontade de soltar uma bomba de glitter! Vontade de tudo!
Me acalmei, passei uma água no rosto, e fiquei sem saber o que fazer. Eu sempre gostei dele, e desde pequena sonhava com o momento em que conseguisse, finalmente, sair com ele. Sair pra valer, tomar um sorvete, ir a cinema e curtir, não ir jogar vôlei entre amigos. Já tivemos várias brechas antes para eu me declarar para ele e ele fazer o mesmo, como quando eu estava nos ombros dele colando adesivos de estrela no teto do meu quarto, ele se desequilibrou e eu acabei caindo sobre ele na minha cama. Ou uma vez numa festa da piscina na casa do Léo, que a Sabri inventou de me empurrar na direção do Benji, eu caí em cima dele, começando a me afogar, e ele me abraçou, só de roupa de banho (meu coração estava a 1000 por hora naquele momento!). Mas porque ele resolveu falar isso num momento nada romântico, como um Verdade ou Desafio na garagem empoeirada e toda descascada da Sabrina?
Eu fiquei completamente sem reação. Será que eu deveria voltar para o jogo ou ir para casa me jogar na minha cama e me abraçar no meu travesseiro? Eu deveria ter saído dali daquele jeito? Deveria ter... beijado ele?
Comecei a rir, histericamente, me achando uma completa idiota. Eu deveria ter feito alguma coisa, com certeza! E agora, ia ficar me culpando por todo o resto da minha vida por ter perdido uma oportunidade única. Ia me tronar uma velinha gagá, solteirona, que usa maquiagem toda craquelada e batom rosa pink, e-
— Gi, o que foi aquilo? Posso entrar, quero falar com você. - a Maria falou e eu respirei fundo e abri a porta. - Valeu.
Eu tranquei de novo, com medo que os guris entrassem ou ficassem de butuca na porta. A Maria se sentou em cima da tampa fechada da privada e começou a falar.
— Olha, eu sei que você gosta do Benjamin. Sei disso desde o terceiro ano do ensino fundamental, mas eu achava que era coisa da minha cabeça. Mas nos últimos dias vi que a química entre vocês tá aumentando e isso tá virando um saco. Posso dizer porquê?! - ela disse, mais brigando comigo do que perguntando. Eu ia abrir a boca para falar, mas ela colocou um dedo no meu rosto - Ah, não. Agora você vai me escutar. Porque você e o Benjamin ficam se olhando o tempo todo, querendo se pegar! Vocês ficam pagando o maior mico por motivo nenhum, e isso nos deixa sem jeito! Querem fazer o favor de começar a namorar logo e acabar com essa tensão ridícula?
Eu a olhei de olhos arregalados. Nem consegui dizer um "fala mais baixo!". Fazia muito tempo que eu não via a Maria brigando comigo desse jeito. Na verdade, eu nunca tinha visto, em todos esses anos que a gente se conhece. E isso me pegou total desprevenida.
— Você me ouviu???!!! - ela perguntou, arregalando os olhos e fazendo uma cara assustadora de mandona. Eu engoli em seco e assenti com a cabeça - Ótimo.
Ela voltou ao normal, verificando se não tinha quebrado nenhuma unha com essa bronca.
— Ai, tô com vontade de tomar sorvete. Vamos? - ela falou, me puxando pelo braço para fora do banheiro, como se nada tivesse acontecido. Eu arregalei mais ainda meus olhos (como se fosse possível) e a Lorena levou nós seis no Mini Cooper dela. Que só cabe umas 4 pessoas, 5, se alguém bem magro for espremido no banco de trás. Foi fácil colocar o Léo e o Pedro no porta-malas e o Benji foi do meu lado, como se a situação pudesse ficar mais constrangente ainda.
Mas, vamos ser otimistas! Pelo menos, eu não estava presa no porta-malas com ele... se bem que eu queria que sim.

