Morwen
Os raios solares batem suavemente em meu rosto, fazendo-me acordar. No instante em que abro os olhos, vejo ao meu lado alguém com uma cabeleira loira muito familiar.
Liam.
Tento levantar para ver como ele está, mas uma mão leve toca meu ombro. Volto-me e vejo um senhor de pele bronzeada e cabelos brancos, com um rosto gentil.
— Ele vai ficar bem, não se preocupe — diz ele.
Levanto num pulo, procurando a adaga que sempre deixo escondida na blusa. Mas, ao tatear minha roupa, não sinto o tecido resistente a cortes que costumo usar — sinto um tecido leve e esvoaçante. Então pergunto:
— Quem é você? O que fez com minhas roupas? E por que estava me olhando dormir?
Calmamente, ele levanta o rosto e responde:
— Meu nome é Cian, e sou um dos médicos e líderes deste mosteiro. Suas roupas eram inapropriadas para este local, então nossas ajudantes as trocaram e guardaram. E eu sou responsável pela recuperação de você e de seu marido.
Puta que pariu. Ele acha que o Liam é meu marido.
Já esperava por isso, mas pensei que demoraria mais. Nem deu tempo de me preparar. Mas é melhor isso do que a morte.
Enquanto ainda processava tudo o que estava acontecendo, Cian foi até Liam. Quando me virei para vê-los, meu corpo encheu-se de alívio ao ver aqueles olhos de jade abertos novamente. Liam parecia tão confuso quanto eu, mas, quando seu olhar encontrou o meu, dava para sentir uma mistura de preocupação e alívio. Ficamos nos olhando por uns dez segundos, até que Cian falou com Liam, tirando-o do transe — e, consequentemente, a mim também.
Após alguns segundos de conversa, Cian diz para nós dois:
— Vou deixar o casal sozinho por um tempo. Pelo jeito, vocês têm muito o que conversar.
Depois de dizer isso, ele sai do que parece ser nosso quarto. Quando olho para Liam, ele me lança um sorriso sugestivo e diz:
— Como vai, esposinha?
Correção: era melhor ter morrido.
Fico um pouco corada na hora. Por que esse cretino tem esse efeito em mim? Aproximando-me dele, dou um tapa no ombro que não está enfaixado e digo:
— Você quase morre, e a primeira coisa que fala é isso, seu cretino?
Ele solta uma risada. Eu o analiso: as pernas estão imobilizadas, todo o tronco e o ombro esquerdo estão enfaixados, e no olho esquerdo há um tapa-olho. Imagino a dor de receber todos aqueles ataques. Ele me tira desses pensamentos:
— Você está linda com essa roupa.
— Obrigada.
A roupa é simples — um vestido feito de panos de linho misto bem fino, com um detalhe minúsculo em dourado. Nada luxuoso, como era de se esperar. Liam veste apenas uma calça bege clara, mas sem camisa, o que revela tanto as bandagens quanto seus músculos bem definidos — nos quais, para minha desgraça, meus olhos se fixam.
— Apreciando a vista? — pergunta Liam, com a maior naturalidade do mundo.
Quero me enfiar num buraco. Recompondo-me, digo:
— Liam, querido, não posso ficar aqui sem um marido. Mas, se continuar com essas piadinhas, eu vou para a Alys, e você vai para o caixão.
Ele me observa com um sorriso bobo, como se tivesse ouvido a melhor declaração de amor do mundo.
Momentos depois, Cian entra acompanhado por outro homem, que aparenta ser bem mais novo — no máximo, trinta anos. Ao vê-los, a expressão de Liam endurece. Com um sorriso, Cian diz:
— Este é meu amigo Finn. Acho que ele tem algo interessante a dizer a vocês.
Finn tem cabelos ruivos vibrantes — um tom que, mesmo que eu comprasse todas as tintas do mundo, meu cabelo jamais alcançaria. Seus olhos são azuis, e a pele, bronzeada. Ele nos analisa dos pés à cabeça e diz:
— Minha habilidade pode fazer com que seus ferimentos — inclusive as pernas quebradas — cicatrizem em questão de dias. Mas você sentirá uma dor excruciante e desejará morrer.
Liam disfarça o espanto e pergunta:
— De quantos dias estamos falando?
Finn responde, seco:
— Três.
— Quanto tempo por dia?
— A operação total leva uns cinco minutos. Mas você se sentirá no próprio inferno.
Liam reflete por alguns segundos e responde:
— Pode fazer.
Com um sorriso de canto, Finn se aproxima dele. Fico observando de um canto do quarto. Quando Finn coloca um pergaminho na perna de Liam, o pergaminho começa a brilhar, e um grito ecoa pelo cômodo. Finn comenta, como se fosse a coisa mais normal e desinteressante do mundo:
— Eu avisei.
Quando ia intervir, Cian estende o braço, impedindo-me, e diz com calma:
— Já está acabando.
Fico relutante durante os quatro minutos excruciantes que Finn leva para terminar o procedimento. Liam range os dentes para não gritar. Ao final, Finn sai como se nada tivesse acontecido e diz:
— Volto amanhã no mesmo horário.
Liam está com uma cara de quem acabou de ir ao inferno e voltou. Cian explica:
— O poder arcano de Finn faz com que a luz tenha uma frequência que acelera a cicatrização. Mas, por ser muito rápido, causa uma dor extrema. Alguns não aguentam o processo e morrem. Mas, em cerca de uma semana, você estará andando.
Um misto de ódio e alegria se mistura em mim. Liam andando em uma semana é ótimo, mas como assim ele correu risco de vida e trataram isso como normal? Cian me tira dos pensamentos:
— Ainda não perguntei seus nomes. Quem são vocês?
— Morwen.
E, com um grunhido, Liam responde:
— Liam.
Cian comenta, sorrindo:
— Perfeito, senhor Liam e senhora Morwen. Senhor Liam, posso pedir sua permissão para levar a senhora Morwen para conhecer o mosteiro?
Liam, já um pouco mais recomposto, diz:
— Se ela quiser, pode ir aonde bem entender.
Cian olha com certa estranheza e explica:
— É que aqui no mosteiro as mulheres devem pedir permissão ao marido para sair do quarto.
Meus olhos se arregalam, mas Liam responde:
— A Morwen pode ir aonde quiser, quando quiser.
Sem falar mais nada com Liam, Cian me acompanha até a porta e me mostra todo o mosteiro. O lugar é grande e parece mais um centro comercial, com monges vendendo todo tipo de coisa por apenas alguns sóis. Há também uma área de treino físico — na qual me recuso a pisar — e uma área para selos, que pareceu mais interessante, mas deixei para ver outra hora. Basicamente, o mosteiro é imenso, repleto de lojas e quartos dos monges.
E quando olho para o lado vejo Jacks deitado sendo acariciado pelas crianças, então Cian diz:
- aquela raposa estava com você, não estava ?
Eu faço que sim com a cabeça, e ele diz
- depois apenas pegue-a, e se possível, deixe que de vez em quando as crianças brinquem com ela
Faço que sim com a cabeça, com preguiça de falar que Jacks era macho.
Vendo que o sol já se punha, despeço-me de Cian, compro dois kebabs — um para mim e outro para Liam —, pego Jacks e volto ao quarto.
Ao chegar, vejo que juntaram as camas. Olho para Liam, que levanta os ombros e diz:
— Se eu dissesse algo, iam desconfiar.
Dessa vez, ele está certo. Ninguém pode sequer desconfiar que não somos um par romântico — pelo menos até Liam estar curado. Entreguei-lhe o kebab; ele agradeceu, e vendo que Jacks estava de volta ele deu alguns pedaço para ele, mesmo com meus protestos. Após terminar, digo:
— Há uma área de treino físico e para selos. Quando estiver melhor, você deveria ir lá treinar.
Ele aponta para o abdômen e responde:
— E dá para ficar melhor que isso, esposinha?
Entrando na brincadeira, respondo:
— Vixi, tinha uns homens suados que quase me fizeram pedir divórcio.
Fingindo ofensa, ele diz:
— Muito engraçada, Morwen. Muito engraçada.
Rindo, retruco:
— Você quem começou.
Bocejo e digo:
— Já estou cansada. Boa noite, Liam.
No instante em que me deito, sinto um braço sobre mim, me abraçando. Ouço então sua voz, perto do meu ouvido:
— Boa noite, Morwen.
E assim adormecemos.

