Liam
Antes do Ataque
Ontem foi definitivamente a melhor noite da minha vida. Aquele beijo despertou algo que eu não sabia que poderia existir. Acho que nunca fui tão feliz. Pena que durou pouco e que provavelmente hoje a Morwen vai me matar, mas pelo menos vou morrer feliz.
Levantei da cama, troquei de roupa e deixei o Jacks dormindo. Fui até a cozinha e peguei um pão, decidindo comê-lo puro mesmo. Pouco depois, avistei a Morwen saindo do quarto. Uma animação começou a brotar em mim, então a cumprimentei:
— Bom dia, Morwen.
— Bom dia, Liam.
Meu Sol, achei que ia ter um ataque. Mas, como diz o ditado: a esperança é a última que morre.
— Sobre ontem…
— Só não faça mais aquilo e ficaremos bem.
— Então tá.
E a esperança foi pro caralho.
Será que fiz algo de errado? Será que beijo tão mal assim? Será que ela me odeia? Por que fui fazer isso?
Precisava pensar em algo diferente. Olhando pela janela, vi o cafeeiro e comentei:
— Amanhã acho que já dá pra colher o café.
— Talvez.
Talvez aquele beijo tenha sido o maior erro da minha vida. Ou o maior acerto. Mas, no momento, tudo o que eu queria era me enterrar vivo.
— Vou até a cidade comprar pão e outras coisas.
A fala da Morwen me tira dos meus pensamentos.
— Mas, Morwen…
— Tchau, Liam. Cuide-se e não saia daqui.
— Tchau, então.
・:.。. .。.:・゜゚・*☆
O dia passou muito devagar. Depois que a Morwen saiu, basicamente fiquei brincando com o Jacks e treinando alguns selos arcanos.
Quando eu era criança, um dia me ensinaram que, para deixar algo invisível, é só fazer com que toda a luz se desvie da coisa ou pessoa — mas ninguém no mundo jamais tinha conseguido fazer isso. O dia estava quente e, por acaso, me lembrei disso. Decidi tentar.
Peguei um vaso e comecei a tentar. Nas primeiras tentativas, o objeto só ficou mais brilhante. Depois de horas treinando, sentindo um calor infernal por causa da junção do dia quente e do uso de selos que envolvem luz, eu estava exausto e encharcado de suor. Não ficou perfeito, mas consegui deixar aquele maldito vaso praticamente invisível por cinco minutos. Sentindo que minha energia arcana estava acabando, decidi que já estava bom de treino por hoje.
・:.。. .。.:・゜゚・*☆
Eu estava exausto — tanto pelo uso excessivo de energia arcana, quanto pelo sol que estava muito forte. Mas isso era o de menos, porque já estava ficando tarde e a Morwen não chegava. Ela nunca demora tanto assim.
Não adiantava ficar preocupado. Então, mesmo exausto, decidi ir atrás dela. Lembro que a Morwen me disse que na casa tinha um porão escondido. Depois de alguns minutos de procura, encontrei. Coloquei o Jacks lá dentro com comida e água, só por precaução, caso eu fosse capturado. Coloquei uma roupa discreta com capuz e saí.
No momento em que pus o pé para fora, senti uma pancada esmagar minhas costelas. Caí para trás e meus olhos não conseguiam acreditar no que viam.
Meu pai.
Quando levantei o olhar, fui recebido com um chute que achei que iria quebrar meu pescoço. Então, com a calma de um lago, ele disse:
— Olá, Liam. Como vai?
Assim que terminou de falar, um soco atingiu meu estômago. Sangue subiu até minha garganta e eu o cuspi no chão. Com os olhos se estreitando como os de um tubarão que sente cheiro de sangue, ele disse:
— Como é bom relembrar os velhos tempos, não é, Liam?
Não, definitivamente não é. Ele me pegou pelo pescoço e me prensou contra a parede, me levantando. Logo depois, dois outros homens chegaram e começaram a jogar algo que parecia álcool por toda a casa. Por sorte, não deixaram gasolina perto de onde estava o Jacks.
Me tirando dos meus pensamentos, senti uma dor lacerante quando outro soco acertou meu pescoço, me fazendo fica sem ar, e meu pai disse:
— Sabe, acho que fui muito leve em sua criação. Tanto que você virou um inútil pau mandado de uma vadia.
Ao ouvi-lo chamando a Morwen daquele jeito, meu corpo se encheu do mais puro ódio. Então, retirando a adaga sutilmente escondida no coldre da minha calça, mirei com rapidez no rosto dele. Ele teve bom reflexo e desviou, acabando me soltando. Gritei:
— Fale assim da minha mulher novamente, e eu vou arrancar sua língua, seu filho da puta!
Me colocando em posição de ataque, avancei sobre meu pai, que me olhava com um olhar mortal. No instante em que ia enfiar a adaga no estômago dele, ele imobilizou meu braço e enfiou minha própria adaga no meu ombro. Soltei um grunhido de dor. Então, ele disse:
— Aquela mulher te deu muita confiança. Vou te pôr em seu lugar novamente, sua merdinha.
A adaga que ele roubou de mim começou a brilhar, irradiando calor. Me jogando no chão, ele começou a cortar minha pele — enfiando e puxando a adaga. Com o calor que ela irradiava, além dos cortes, eram feitas queimaduras. Depois de alguns minutos arrancando pedaços do meu corpo, ele disse:
— Sua mulherzinha já deve estar chegando. Quero ver a cara dela quando vir tudo isso queimando.
No momento em que ele terminou de falar, chamas irromperam pela casa, envolvendo-nos. Minha cabeça estava à beira do desmaio por causa da dor, mas percebi que ele estava distraído. Então, o empurrei, fazendo-o se desequilibrar e soltar a adaga. Aproveitei para pegá-la no ar e enfiá-la no estômago dele. Ele gritou de dor, mas, em poucos segundos, a dor foi substituída por ódio. Ele apertou minha mão, forçando-a a abrir, pegou a adaga e cortou meu olho esquerdo. Acho que, por sorte, o corte não foi profundo o suficiente para cegar.
As chamas estavam fortes, fazendo com que minha visão girasse, quase me desmaiando. Um instante depois, a porta foi escancarada — e eu jurei que era um anjo que aparecera. E não estava errado.
Morwen apareceu na porta com um olhar alarmado. Meu pai disse:
— Olá, senhorita Morwen. Como vai?
Juntando minhas últimas forças, gritei:
— CORRE, MORWEN!
Quando terminei de falar, uma pancada acertou minha cabeça e tudo ficou escuro.

