Morwen
No instante em que chegamos no baile, meus olhos queimavam de tanto brilho. Todo mundo ali estava com vestidos e ternos chiquérrimos, mas ainda assim a gente se destacava. O salão era enorme tudo era dourado e branco neve,e bem no meio do salão tinha uma pista de dança gigante. Quando entramos recebemos alguns olhares tortos, mas, como esperado, ninguém reconheceu nem a mim nem o Liam. Já a Alys, como sempre, cumprimentava cada alma viva que passava perto, mesmo com meus protestos.
Até que apareceram dois homens. O da direita com uma Máscaras de leão, e o da esquerda com uma mascara de dragão, ambos estavam com ternos pretos que provavelmente valiam mais que minha casa. Quando eles se aproximaram, o Liam perdeu completamente a cor ficando branco como um fantasma. Alys, alheia à situação, abriu um sorriso e disse:
— Olá, senhores, como vão?
O da direita cravou o olhar em mim. O da esquerda fixou o olhar no Liam, que parecia prestes a desmaiar. Depois de alguns segundos, o da direita falou:
— Olá, senhorita Alys. Nunca tinha visto seus amigos por aqui. Como vocês se chamam?
Eu ia responder, mas a Alys se meteu antes:
— Ela é a Eve e ele é o Jacks. Não gostam muito de sair de casa, sabe como é... ele acabaram de começar a namora, dai eles gostam muito de ficar juntos, se é que você me entende.
Eu fiquei vermelha como uma pimenta. O cara riu de leve e respondeu:
— Entendo. Mas foi um prazer conhecer vocês, Eve e Jacks. Acho que ainda vamos nos ver muito daqui pra frente.
Eles foram se afastando, e minha cabeça começou a rodar. O que ele quis dizer com aquilo? Será que me reconheceu? Quando voltei à realidade, vi o Liam quase desabando. Puxei uma cadeira e mandei ele se sentar.
— Quem eram aqueles caras? — perguntei.
Alys respondeu calmamente, como se estivesse se estivesse falando da economia do pais :
— O da direita é o líder da strike, Draven. O da esquerda… não sei.
Puta que pariu.
Ainda tentando me recuperar do choque de falar com o lider da organização que matou toda minha família, o Liam murmurou, com os lábios trêmulos:
— O da esquerda era meu pai. Teyric.
Puta que pariu ao quadrado.
Olha só que maravilha: eu, de cara com o presidente da organização que quer me matar, e com o guarda-costas dele — que eu achava que tinha derrotado, mas agora tenho certeza que era bem mais forte do que parecia. Porque, convenhamos, é impossível um Guardião Divino ser tão fraco. Então lá estava eu, confinada em um salão com dois homens que queriam a minha linda cabeça enfeitando um poste. Perfeito.
No geral, o baile até que seguiu bem. Ninguém veio mexer comigo nem com o Liam. Alys, claro, já estava aos beijos com um cara que tinha acabado de conhecer. A certa altura, começou a tocar uma música romântica e os casais lotaram a pista. Eu e o Liam ficamos parados, imóveis, como duas estátuas.
Mas a Alys, como sempre, não deixou barato:
— Por que vocês não vão dançar? Eu e o Kav já estamos indo.
Respondi seca:
— Primeiro porque eu e o Liam não somos um casal. Segundo porque eu não tô afim.
Ela me olhou com aquela cara de desafio:
— Se vocês não levantarem agora, eu faço a roupa de vocês desaparecer. Vão ficar pelados na frente de todo mundo.
Cruzei os braços.
— Você não teria coragem.
Ela sorriu de canto:
— Duvida, Morwen?
E olha... se tinha alguém nesse mundo capaz de fazer isso, era a Alys.
O Liam levantou primeiro e, gentilmente, pegou a minha mão. Alys saiu vitoriosa, correndo atrás do novo namorado, e me deixou sozinha com ele.
Na pista, ele passou a mão esquerda na minha cintura e segurou a minha direita.
— Pelo jeito, alguém sabe dançar — falei.
Ele sorriu.
— Minha mãe era professora de dança.
E começou a me conduzir como se só nós dois existíssemos, meu vestido se movia graciosamente conforme meus movimentos. Os passos eram leves e harmoniosos,e a música combinava perfeitamente com a dança. Algumas pessoas até pararam pra olhar, mas eu ignorei, nos delizavamos pela pista de dança como se fossemos velhos parceiros. Por alguns minutos, esqueci completamente que estava cercada de gente que adoraria me matar. Naquele instante, parecia que nada podia me atingir. Só sentia as mãos firmes de Liam me guiando ao ritmo da música.
No final, ele me ergueu como se eu fosse uma pena, me girou no ar e me baixou no último acorde. Meu pé escorregou, quase caí, mas ele me segurou a centímetros do chão. Mas com o tranco a cabeça dele se inclinou com o movimento e ficou perigosamente próxima da minha. E aí, quando menos esperava, ele me beijou.
Fiquei sem reação. Os lábios dele eram quentes e doces. A máscara atrapalhava um pouco, mas nada que o impedisse. Nunca tinham me beijado com tanto afeto. E o pior de tudo não foi o beijo em si... foi eu ter gostado.
Quando nos separamos, percebi que não havia mais ninguém dançando. Todos estavam parados, nos observando na borda da pista. Depois de alguns segundos, o salão explodiu em aplausos. Olhei nos olhos azul-prateados do Liam por trás da máscara e senti minhas bochechas queimarem. A gente se recompôs, e eu fiz sinal pra irmos embora. Ele topou na hora.
Sem nem nos despedirmos da Alys, saímos quase correndo do salão.
・:.。. .。.:・゜゚・*☆
O caminho de volta foi silencioso. Quando chegamos, o Liam tentou falar:
— Morwen, sobre mais cedo... eu não quer—
Cortei na hora:
— Liam, estou muito cansada. A gente fala disso amanhã.
Ele abaixou a cabeça, todo encolhido, como se fosse um filhote de cachorro que acabou de levar uma bronca e murmurou:
— Ok... boa noite.
— Boa noite.
Fui pro meu quarto, tirei aquela maquiagem maluca, troquei de roupa e me joguei na cama. Adormeci tentando, em vão, não pensar no que tinha acontecido hoje.

