Morwen
O dia nasceu ensolarado. Levanto-me ainda meio grogue, mastigando uma das maçãs compradas na véspera. No pequeno jardim, as verduras já estão prontas para colher. Encho um cesto com folhas frescas e decido ir à cidade vender o couro da corça.
Liam está encostado no batente da porta, os raios de sol iluminando seu rosto ainda marcado pelo sono.
— Bom dia, Morwen.
— Bom dia, Liam. Vou à cidade vender o couro. Você fica encarregado do almoço.
Ele suspira, dramático.
— Tão cedo e já me põe para trabalhar, my luna ?
— Posso te acordar mais cedo e te por para trabalhar mais ainda se não estiver satisfeito
Ele revira os olhos, e eu aceno com a cabeça, sorrindo por dentro, e vou me trocar: calça preta, camisa escura, o couro sob o braço, um pouco desconfortavel, mas vou passar despercebida por todos . Saio sem mais cerimônias.
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Na cidade, dirijo-me direto ao ateliê da Alys, minha amiga de infância. O lugar — Carys — cheira a linho e tintura. Ela está costurando um vestido caro quando me vê e salta da cadeira.
— Morwen! Que bom te ver! — Seu abraço é tão forte que quase me derruba. Fazia meses que não nos víamos. Eu, ocupada demais planejando uma revolução; ela, imersa em sedas e fofocas.
— Me conta as novidades! — ela exige, puxando-me para uma cadeira.
Resumo os eventos: o duelo com o Guardião Divino, o "sequestro" de Liam. Seus olhos brilham como os alfinetes espalhados pela mesa.
— Então você sequestrou um cara?
— Sim.
Ela inclina-se para frente, voz sussurrante:
— Mas ele é gato?
Quase engasgo.
— Eu sequestro o homem, e você pergunta se ele é bonito?
— Exatamente.
— Você é louca.
— Claro, claro — ela ri, ajustando os óculos. — Fui eu que matei um soldado da Strike e sequestrei o filho de um Guardião Divino que, por acaso, quase asfixiei.
Reviro os olhos.
— Engraçadinha.
Ela cruza os braços.
— Responde logo. Ele é gato?
Corro o olhar para o lado, como se a resposta estivesse bordada num tecido.
— Na... não.
O sorriso dela cresce.
— Então por que gaguejou?
— Eu não gague— gaguejei.
— O impossível aconteceu — ela anuncia, palmas dramáticas. — Minha melhor amiga está apaixonada.
— Vai se foder, Alys.
Ela ri, mas muda de assunto quando mostro o couro da corça. Examinando-o, oferece 30 sóis — um preço justo. Aceito, e quando estou quase saindo, seu grito ecoa:
— Cuida bem do seu namorado!
Mostro-lhe o dedo do meio e saio, o bolso mais pesado e o rosto inexplicavelmente quente.
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Com o dinheiro "fácil" (para mim pelo menos, para Liam aí eu ja não sei), decido comprar algo extravagante: uma garrafa de uísque por 20 sóis. Caríssimo, mas faz meses que desejo um gole. E agora, com Liam em casa... bem, a bebida pode adicionar alguma animação para à noite.
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Chego em casa perto das 14h. Liam está no quintal, praticando selos. Seus movimentos já são mais precisos.
— O almoço está na panela — diz, sem olhar.
— Oi para você também, cuzão.
A comida — carne de panela simples, mas saborosa — está quente. Lavo o prato, banho-me e cochilo até o fim da tarde.
Ao acordar, encontro Liam na poltrona.
— Quanto tempo dormi?
— Três horas.
Droga. Precisava de mais.
Do quarto, trago a garrafa de uísque e um copo. O líquido âmbar queima minha garganta no primeiro gole. Liam observa, intrigado.
— Isso é uísque?
Aceno, estendendo-lhe o copo. Ele recusa.
— Não bebo.
— Não bebe? — quase engasgo. — Nem um golinho?
— Não, obrigado.
Sorrio, com uma ótima ideia surgindo em minha cabeça.
— Vamos jogar Verdade ou Desafio?
— Nem fodendo.
Faco beicinho.
— Vai vamos jogar — Faço uma cara de cachorro sem dono e continuo — Se jogar, você fica uma semana sem cozinhar.
Ele suspira.
— Tá bom. Para uma sequestradora, você é muito boazinha.
Revirando os olhos digo:
— Verdade ou Desafio?
— Verdade.
— Vou começar leve, me diga com que idade você deu o seu primeiro beijo?
— Quatorze. Minha vez. Verdade ou desfio.
— Desafio
— Desafio você a me dar 5 sóis
Xingando ele baixinho, entrego os 5 sóis, e digo
— Apartir de agora não vale coisas que envolvam dinheiro, verdade ou Desafio
— Desafio
Sorrio malignamente, enchendo um copo de uísque até a topo, e empurro o copo para ele
— Golpe baixo — ele rosna, mas engole o líquido de uma vez, fazendo careta engraçada, então diz
— Verdade ou Desafio
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Horas depois, 90% da garrafa de uísque vazia, e nós, completamente bêbados, tentamos limpar a cozinha. Risadas substituem a faxina.
— Boa noite, solzinho — digo, cambaleando. — Cuidado, senão o eu vou te corromper.
Ele encosta-se na parede, com um sorriso.
— Morwen, vindo de você... eu aceito qualquer coisa.
Cada um vai para seu quarto, sabendo que o dia seguinte trará uma terrível ressaca que jamais nos esquecemos.

