Morwen
Do lado de fora, as verduras já despontam. Em poucos dias estarão prontas para colher. Entro na cabana e vejo Liam ainda dormindo. Deixo um bilhete avisando que fui à cidade comprar carne e mantimentos.
O dia está quente. E eu, inteligente como sempre, vesti preto.
Na cidade, sigo meu plano habitual: encontrar algum trouxa para roubar — porque, até onde sei, dinheiro ainda não nasce em árvore — e, se tudo correr bem, comprar o que preciso.
À medida que avanço pelas ruas, vejo cartazes de procurado com o rosto de Liam. Ao lado, um desenho tosco de uma mulher mascarada. Eu.
Então o guardião divino finalmente resolveu procurar o filhinho perdido. Que adorável.
Meu alvo aparece logo: homem gorducho, distraído, bolsa fácil. Me aproximo, deslizo a mão e a carteira é minha. Trabalho limpo. Ou quase.
— LADRA!
Inferno.
Corro, me esgueirando entre bancas e pessoas, o sol queimando as costas. Um brutamontes me agarra num abraço de urso. Esfaqueio seu estômago e ele urra. Livre outra vez, desapareço num beco e espero o barulho morrer.
Quando tudo se acalma, cruzo a cidade e faço as compras: verduras, três quilos de carne, e algumas maçãs brilhantes. Roubar dá fome.
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Ao me aproximar da cabana, vejo Liam treinando. Espada dourada flutuando no ar — um novo selo. Impressionante, mas um desperdício de energia.
Ele me nota e corre para pegar as sacolas.
— Pelo jeito, as compras foram boas.
— Foram. Até consegui maçãs.
— E carne?
— Três quilos. Estava cara. — Dou um meio sorriso. — Mas há um lugar onde a carne é de graça e ainda serve pra treinar selos.
— Onde?
— A um quilômetro daqui. Corças. Vai caçar.
Ele hesita, depois concorda.
— Tudo bem. Mas antes, consegui fazer outro selo. — Abre o pergaminho, revelando a espada.
— Eu vi. Parabéns. Só cuidado: esse tipo de selo suga energia demais.
Ele dá de ombros e parte.
Enquanto isso, preparo purê de batata com carne — um gosto antigo, quase esquecido. Cozinho as batatas, separo parte da carne para secar e deixo o jantar pronto.
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Uma hora depois, ele surge arrastando uma corça.
— Pelo visto, a caça foi boa.
— Boa e pesada — resmunga. — Parecia ter sessenta quilos.
— Só trinta. Pode ir se lavar, depois jantamos.
Enquanto ele se banha, limpo o animal. Tiro o couro, separo os miúdos, corto a carne em pedaços. Quando ele volta, o cabelo ainda úmido, sirvo o jantar. Ele devora como se não comesse há dias.
— Isso está incrível.
— Obrigada. Foi difícil pegar a corça?
— Um pouco. O pior foi carregar.
Termina o prato e encosta na cadeira, vencido.
— Pode ir dormir, Liam.
— Boa noite, Morwen.
— Boa noite.
Ele desaparece no quarto. Eu lavo a louça, depois passo lá para ver se está bem. Está. Dorme profundamente, sem coberta.
Suspiro, pego o edredom e o cubro. Meus dedos tocam seu cabelo.
E, antes que perceba, ele me puxa. Seu braço me prende. Tento soltar, em vão.
Respiro fundo.
Adormeço no calor do abraço dele.

