Morwen
Levanto-me devagar, deixando Liam dormir. Ele trabalhou demais ontem — e parece em paz pela primeira vez em dias.
Pego alguns pergaminhos e saio da cabana. O ar frio da manhã me desperta. Sento-me na clareira e começo a meditar. A energia lunar me envolve como um manto; uma calma antiga desce sobre mim.
Abro o pergaminho e invoco rosas negras. As pétalas, finas como lâminas, se lançam contra o alvo e se cravam na madeira.
— Bela mira.
Viro-me de imediato.
— Já acordou, dorminhoco?
Ele ri, os olhos ainda semicerrados.
— Parece que sim. Está treinando?
Assinto.
— Posso te acompanhar?
— Não sei o que um solar pode aprender com uma lunar... mas pode vir.
Ele se aproxima, abre o pergaminho e dispara um feixe de luz — que passa longe do alvo.
— Tanta energia gasta pra nada.
Liam murmura algo inaudível.
— Seu ataque parece com o do seu pai.
Ele suspira.
— Todos os meus parecem. Versões piores dos dele.
— Como assim? Os poderes arcanos se moldam à personalidade.
Ele encara as próprias mãos.
— Na minha casa, ou eu era igual a ele... ou apanhava.
Fico sem voz.
— E como controlavam seu poder?
— O medo doma até o que é indomável.
Um arrepio me percorre. Mudo de assunto.
— Já que quer treinar comigo, hoje vai aprender a usar seu poder direito.
— Duvido que consiga tirar isso de mim. Mas pode tentar, my luna.
— Então vou arrancar as raízes ruins com uma enxada. Sente-se. Conecte-se ao seu poder.
Ele obedece. Aos poucos, o cabelo dele brilha como ouro sob o sol.
— E agora, professora?
— Me diga algo que goste e que combine com você.
— Lâminas.
Coloco um pergaminho à frente dele.
— Imagine o selo.
Ele desenha uma adaga partida, com um sol ao fundo. Canaliza o poder, e adagas de luz surgem no ar.
— Perfeito. Concentre tudo no selo.
Num lampejo dourado, o pergaminho se ativa.
— Eu consegui?! — Ele salta, empolgado, e antes que eu perceba, me abraça.
Meu corpo se enrijece, depois cede. Não estou acostumada com afeto, mas retribuo.
— Vai testar o selo?
Ele sorri. E então percebo um detalhe que nunca notei: ele tem covinhas. Elas surgem quando ele ri, e, por um instante, tudo parece simples.
O ataque é básico, mas poderoso.
— Parabéns, Liam. Como prêmio, você vai fazer o almoço e o jantar.
— Sério?
— Seríssimo.
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Mais tarde, costuro minha roupa rasgada. O fio se recusa a entrar na agulha. Liam ri.
— Se acha tão engraçado, tenta você.
Ele pega e enfia o fio em segundos.
— Fácil.
— Então sabe costurar?
Ele faz que sim. Jogo a roupa nele.
— Então costura.
Resmungando, ele obedece.
— Como rasgou isso?
— Lembra do soldado que matei e deixei um bilhete no corpo?
— Lembro.
— Ele me acertou antes.
— Foi profundo?
Levanto a blusa, mostrando o local do ferimento. A pele ainda marcada. Ele fica vermelho.
— O que foi? Gostou do que viu?
Ele hesita.
— Talvez.
Sorrio de canto.
— Está pronta?
— Obrigada.
— De nada.
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À noite, ele tenta cozinhar um ensopado e, claro, se queima.
— Liam!
— Só uma queimadura.
Cuido dele em silêncio. Quando termino, ele abaixa a cabeça.
— Desculpe dar tanto trabalho.
— Você não dá trabalho nenhum.
Sentamo-nos para comer. O sabor me leva de volta à cozinha da minha mãe. Quase esqueço que Liam era só uma moeda de troca.
Quase.

