Eu tinha me esquecido como a Elena gostava muito de ver as lutas de boxe, mas eu não pensava que ela viria junto com a Artemis e o Sansão. Ela foi até nós, e me deu um abraço bem forte.
Pela proximidade que eu e a Tainá estávamos ultimamente, todo mundo tava preocupado, e com razão, de pensar que um apocalipse ia acontecer se nós nos encontrássemos.
Mas no fim, eles se preocuparam atoa, porque a Elena abraçou a Tainá, como se já fossem melhores amigas, algo que eu já sabia muito bem que elas iriam fazer, ai ai, ainda bem que eu as apresentei antes.
Elena: desculpe não aparecer pra sua graduação, não queria te deixar nervoso a toa
João: não, tá tudo bem, você teve motivos mais que os suficiente pra pensar que iria ficar complicado sem você aqui, eu entrei num estado de calma absoluta, mas talvez, só talvez, em uma tentativa de me acalmar, eu teria me arriscado apenas para te impressionar
Elena: e é por isso que eu não vim pra cá, agora vem, vamos ver os seus veteranos ganhando o grande prestígio de lutadores
João: é assim que se fala.
E sorrindo, nós ficamos na arquibancada, e vimos a Artemis e o Sansão passando pelo teste da faixa Azul, e nossa, ele foi brutal, porque além de todas as coisas que eu fiz, eles também tinham que pular corda e fazer sparring.
As técnicas que os faixas azuis faziam eram bem mais pesadas que as nossas, apesar de tudo que até os faixa verdes faziam, nossas técnicas não eram “pesadas demais” pelo menos se não recheadas de músculos e intenção de matar.
Já as técnicas de lowkik, rasteira, cotovelada, que, joelhada, ura que os aspirantes a faixa Azul pra cima faziam. Era coisa intensa em força pra eles já se prepararem pro “full contact” onde tudo valia, um lugar que eu queria muito chegar, mas sabia que faltava muito pra chegar nesse ponto.
E o mais doido era como essas técnicas, que em sua execução, não eram tao diferentes das técnicas mais leves, ainda dava pra sentir a letalidade em cada movimento, mesmo quando elas só acertavam o ar.
Elena: nossa, da pra sentir a letalidade deles daqui
João: nem me fala, é coisas como essa que me lembram que ela sempre se segura quando agente treina
Elena: por enquanto
João: hmhm, é, por enquanto.
Além disso ela fazia 2 vezes mais flexões que eu, porque ela tinha que fazer 10 sequências diferentes de mãos, pernas e mão e perna juntos, mas ela não parecia de forma alguma incomodada, ela estava com um rosto de que aguentava muito mais do que o Juiz mandava pra ela, o que deixou o Juiz bem impressionado também, hehehe.
Elena: a faixa azul é sinistra
João: é, e tem mais três testes de faixa além desse
Elena: testes que você dará um jeito
João: é, com certeza…com a dedicação certa
Elena: é assim que se fala.
Já a corda era um problema completamente diferente e perigoso por ela ser de um modelo que machucava muito se alguém pulasse errado, o que dava um novo grau de desespero em quem não estivesse pronto pra esse teste.
Mas com certeza, os testes de sparing eram muito mais pesados, eles estavam com tanta força em cada golpe, que pareciam bem mais que ele estava sendo só totalmente brutos por motivo nenhum, com uma pequena técnica aqui e ali só pra dizer que a arte marcial.
João: eu tenho que olhar isso com cuidado, esse sera facilmente meu futuro
Elena: e que futuro brilhante você tem.
O Nilo olhou com um pouco de medo pra Elena, mas a Tainá e eu continuamos olhando a confusão de gritos, corpos suados e pancadas que pareciam vindas diretamente do torneio, bem ali, na nossa frente.
Abaixo de nós, várias pancadas que ecoavam pelo prédio, golpes que não pareciam ser de um treino ou de uma disputa pela faixa, eram golpes que pareciam disputas por um cinturão, uma coroa ou a mão de uma rainha, uma paixão que fazia a minha paixão pelo esporte parecer pequena.
Todo aquele ódio, aquela aura exalando violência e a brutalidade surreal que fazia muitos pais ficarem paralisados me fez quase falar algo sem pensar de novo, mas eu pensei dessa vez, minhas próximas palavras foram algo que eu escolhi falar.
Joao: muitos diriam que aquilo é o inferno…eu mesmo em situações específicas, pensaria que aquilo é o inferno…mas algo em mim, algo bem no fundo da minha alma…so consigo pensar que aquilo é o paraiso.
A Elena segurou minha mão enquanto dava um sorriso sinistro, e a Tainá, mesmo não pegando minha mão, estava igualzinha, apenas o Nilo não tinha um sorriso sinistro, é, ele realmente não pertencia a aquele mundo.
João: eu sinto inveja da Artemis, eu quero tanto estar lá que eu não consigo fazer nada além de espernear de inveja com o que eles estão fazendo.
Elena: você ia ser espancado, teria sorte se qualquer soco seu os atingisse
Joao: sei disso, sei disso…mas quero estar lá mesmo assim
Elena: você parece um animal às vezes, mas você mesmo se põe na coleira toda vez
João: é, é uma arte que muitos deveriam dominar…eu quero muito sentir aquilo, aquela dor, aquela violência, meu corpo queimando tanto de esforço físico quanto a dor dos golpes, aquele lugar é o meu paraíso
Elena: eles têm duas vezes o seu tamanho e 10 vezes a sua força, tenta só crescer um pouco mais.
E naquele momento, mesmo tendo 18 anos, eu estava frustrado onde eu não cheguei naquele grande estalo de hormônios onde eu teria um corpo melhor pra batalhas, e nesse momento, eu senti raiva da lentidão dos Sapiens em crescer.
João: eu quero tanto crescer
Elena: uma coisa de cada vez querido, uma coisa de cada vez…
E ela olhou aquele grande pandemônio comigo, finalmente falando.
Elena: se bem que tou com uma invejinha deles também
Nilo: vocês são loucos
João: é, nós somos
Tainá: VIVA AOS LOUCOS
Elena e João: VIVA.
E depois de um sparrem com a veterana Ártemis teve o protetor de boca arrancado da própria boca com um soco, e com sua canela fraturando pela força do chute de seu oponente. E mesmo assim ainda ainda conseguiu ganhar com um soco na cara, que assim como todo o resto do combate dela, garantiu que ela conseguiria aquela faixa azul.
O Sansão também não foi uma surpresa, ele foi machucado, muito, a ponto que o baço dele quebrou e dobrou da forma errada, mas ele era um vampiro, danos como aqueles era igual a quebrar uma unha pra ele, e ele também deu um chute que mandou seu oponente pro ar.
Quando eles saiam das avaliações, tava bem claro que eles precisavam de tempo para respirar.
Elena: não quer ir falar com eles:
João: nah, eles precisam de um minutinho pra respirar, vamos dar esse tempinho pra eles.
E assim ali ficamos, vendo como mesmo depois de conseguirem a faixa azul, eles ainda pareciam bem abalados, mas arriscando, nos aproximamos dos dois.
E pelo que eu vi, fizemos bem em fazer aquilo, pois o Sansão estava com uma euforia tão grande nos olhos que parecia bem mais que ele ficou magoado com a luta ter acabado rapido ao invés de ter quase destruído o corpo dele.
E a Veterana Artemis tava com a mesma cara fechada de sempre, sempre olhando pro futuro, ao mesmo tempo que pareceu voltar ao presente, assim que nos viu.
Joao: oi Sansão, e aí, foi tranquilo?
O Sabão nunca foi um veterano que falava muito, na verdade ele nunca parecia falar nada, se o mestre não tivesse confirmado que ele era apenas tímido, ia ter certeza que ele era mudo ou coisa do tipo.
E felizmente eu convivi com ele o bastante pra entender por completo as expressões faciais dele, e o sorriso de agora era uma coisa muito boa.
João: é, pararam combate logo quando tava ficando bom, não se preocupa que essa faixa nova vai te dar batalhas bem mais longas.
E o veterano Sansão riu como um cachorrinho, gostando do que eu falei, então eu fui ver a Artemis, que mesmo depois de todo o esforço infernal que ela passou, os roxos por todo o corpo pelo combate e o corpo dela literalmente em chamas por causa do intenso esforço que ela fez, ela não parecia cansada.
Não, mesmo com o corpo todo machucado e ruim, ela tava com aquele mesmo olhar determinado, olhando pro futuro, ou melhor, pra uma pessoa em específico…a prima dela, uma prima que ela nunca me disse o nome, mas só pelo que ela já me contou, sabia o quanto ela importante pra veterana.
Mesmo com todo mundo falando e comemorando ao redor dela, a Veterana só olhava pra própria faixa como se para ela, aquilo fosse um objeto sem valor comparado ao prêmio final, e entendendo isso bem até demais, falei pra veterana.
Joao: lembre-se, um passo de cada vez
Artemis: é, eu sei…só tô empolgada, cada faixa aquela doida está mais perto de mim
João: você tem realmente que ser uma faixa preta pra entrar nas artes marciais mistas?
(Nota do autor: Artes Marciais Mistas = Mixed martial Arts = MMA)
Artemis: nao, eu nao preciso, mas a minha prima era muito forte quando eu era criança, e eu sinto que eu não vou nem chegar perto de arranhar ela se eu nao for no mínimo uma faixa preta.
Nossa, esse poder, essa confiança que a prima era tão forte, e a confiança que ela não ficou nem um pouco mais fraca desde que elas eram crianças…
João: nossa, sua prima deve ser realmente um monstro
Artemis: monstro é apelido daquela garota, eu não to nem perto de esta pronta pra enfrentar ela
João: e eu nao to nem um pouco pronto pra proteger a inh família, mas como você ama me lembrar, existe tempo pra tudo
Artemis: é, agora se me der licença, eu preciso me aprontar pro espancamento que terei amanhã
João: é, nem me lembre.
A Ártemis falou aquilo na brincadeira, mas apenas pelo rosto dela, eu conseguia ver que ela tava realmente com um pouco de medo da “comemoração” que iria receber por ter ganhado uma faixa nova.
E o Sansão, mesmo sem falar nada, já me mostrou no rosto dele o quanto ele tava com medo e tinha que se preparar mentalmente pra aquilo também, em um grau, talvez até mais que a Artemis, pelo quão calado ele era.
Taina: que presente é esse que vocês vão receber?
Eu fiquei na dúvida se deveria contar, mas elas iam acabar descobrindo algum momento, então se elas tivessem que descobrir, acho que seria mais fácil se fosse descoberto por mim.
João: quando um aluno se gradua…agente passa por uma cerimônia, onde agente fica em guarda e…nós somos chicoteados pelas faixas dos outros.
O olhar da Tainá ficou bem sádico quando ela ouviu isso, mas apesar de toda a alegria genuína que a garota mostrou em ouvir o que nós faríamos, ela ainda estava curiosa o bastante pra perguntar.
Tainá: mas, por que fazemos isso?
João: ninguém além de um faixa preta pode pôr a mão em uma faixa preta, é meio que uma regra, a troca de faixa é o único momento onde nós podemos…se sabe, “tocar” na faixa de um faixa preta.
E totalmente incrédula pelas regras da arte marcial, a Tainá fez o rosto mais confuso que achei ser possível ter e falou
Tainá: os caras que criaram o boxe são sádicos pra caramba
João: todo mundo que trabalha com artes marciais é um pouco sádico, a diferença é que alguns são mais, e outros são menos. E tem alguns que admitem mais fácil e tem outos que morrem antes de admiti sua selvageria
Tainá: ótimo ponto, mas é melhor se preparar, porque eu não vou me segurar.
João: eu não podia pedir menos que isso.
E com um soquinho no ombro e uma promessa de espancamento, eu tirei um tempo pra olhar pro Nilo, e ele, como eu pensei, estava me olhando com um olhar bem preocupado.
João: não se preocupe, nós vamos ver você, todos nós
Nilo: obrigado.
A Tainá não entendeu o que eu quis dizer com aquilo, mas tava tudo bem, com o tempo eu iria contar pra ela, eu iria contar tudo, mas por hoje, eu só poderia descansar, daqui a alguns dias, tudo ficaria mais tranquilo.

