E quando abri meus olhos de novo, percebi como todo o resto do meu dia seria bem mais complicado do que eu pensei, porque eu tinha que me encontrar com a Deusa da Lua, como eu me esqueci dessa coisa básica que eu fazia todo o dia? Bom, talvez o meu stress por esse ser meu dia especial tenha algo a ver com isso.
O meu pai me deixou lá dessa vez, ele não queria que eu me machucasse de nenhuma forma antes do exame.
João: eu tenho mesmo que ir?
Pai: você tá uma pilha de nervos, hoje é o dia perfeito pra você ir filho
João: se é o que você tá dizendo né.
Eu entrei naquele templo, mas com minha paciência já em nivel negativo, eu andei bem devagar, caminhando no limite do que era possível andar antes de ser uma corrida, e com meu corpo tão tenso que eu nem abri os olhos, apenas senti a sensação que tinha nos dias em que eu comecei, uma sensação de que uma grande água quentinha envolvia meu corpo e me mandava para os céus.
E quando eu cheguei nos domínios da Jaci, eu abri os olhos, e vi como minha floresta estava em chamas, e no meio daquelas chamas, tendo um ar frio que contrastava com literalmente tudo a volta dela, a grande Deusa da Lua me olhava, como o nosso ambiente não fosse nem um pouco preocupante.
João: olha, nós podemos pular tudo isso hoje?
Jaci: é o que você quer?
João: não…mas não sei se tenho o foco pra apagar minha floresta já incendiada
Jaci: João, alguém já te falou que os momentos em que quase não conseguimos manter a calma, são os momentos em que nós mais precisamos mantê-la?
Ela falou aquilo, sorrindo e me entregando o baldinho para apagar as chamas, e assim eu respirei fundo, me levantei, e comecei a andar bem devagar na floresta, jogando o balde por todo o lugar, apagando algumas chamas, e apagando alguns arbustos, e quando eu apaguei a última chama, eu tinha notado o quanto minha floresta estava queimada, e o quanto o meu corpo estava tão cansado apenas pelos pensamentos de “e se eu não conseguir” e “e se não for a minha hora ainda pra ser um faixa verde”?
Cada um desses pensamentos desgastou meu corpo, minha alma e minha mente de tantas formas que eu agradeci ao meu pai por ter me levado pra cá, porque seria o verdadeiro inferno passar o dia com a minha cabeça no estado que eu tava.
Mas apesar de estar muito mais feliz, eu me sentei na pedra da minha floresta, a pedra perfeita para eu sentar, e fiquei lá, provavelmente com a aparência de “o pensador”, por um bom tempo, até que a Jaci chamou minha atenção com seu brilho imenso no meio da escuridão daquela floresta.
Jaci: acho que você não quer mais cuidar da sua floresta
João: irei cuidar dela, só que lá fora.
A Deusa da Lua olhou pra cima alguns segundos, e não lendo minha mente, ela olhou meu rosto e viu algo que a fez sorrir.
Jaci: ótimo, você está no presente de novo, agora me fala, quer testar o caldeirão?
João: não vou ter testes de aura na faixa verde, então não, posso fazer algo mais simples?
A Deusa da Lua se afastou um pouco de mim, mas ela não estava pensando que não tinha nada pra fazer, era mais como…
João: tem uma coisa pra eu fazer, não é?
Jaci: sim, mas não sei se deveria deixar você fazer isso, é algo beeeeeem, avançado
Joao: ok, mas é só isso que restou?
Jaci: você pode tentar montar suas armas, eu vi o que voce fazendo isso na última vez
Joao: ok, vou fazer isso
Jaci: só que tem uma pegadinha, você não pode usar o balde e nem a pazinha, vai ter que fazer isso com as mãos
João: jura? E qual é a diferença?
Jaci: ah, você vai descobrir.
Eu não tinha uma noção grande do quanto aquilo poderia me mudar, então apenas comecei a fazer as amas na areia, não pensando muito nisso, e quando eu tentei fazer apenas um castelinho de areia por diversão, e vi que eu nem conseguia fazer ele ficar em pé, eu entendi.
Joao: o balde e a pá eram rodinhas
Jaci: exato, você tem que aprender a fazer tudo sem as ferramentas agora, sei que pode ser difícil fazer isso com seu exame de faixa a algumas horas de distância, mas…
João: não, isso tá perfeito.
Aaaaaaah, a sensação quentinha da areia em meus dedos, enquanto eu forçava ela a se transformar no que eu queria.
A minha noção de que eu deveria ficar muito mais perto da maré do que quando eu fiz um castelo de areia com o balde e uma pazinha me deu uma euforia que eu nem conseguia entender, eu li que nem uma criança enquanto brincava com a areia.
Jaci: hihhi, você tá tão feliz, eu amo isso
João: é, eu também amo isso.
Eu tava ainda bem curioso pra saber o que era esse exercício avançado que ele falou, mas a euforia, raiva, e loucura que eu sentia quando tocava cada pedaço de areia me cegou pra isso de forma instintiva.
E vendo como meu corpo tava bem mais tranquilo, tentei fazer aquela sensação me tomar de forma consciente, e mesmo que eu tenha conseguido, a força da sensação era bem menor do que a forma inconsciente, mas já era alguma coisa.
Tentei fazer as luvas primeio, as luvas eram o mais importante, e quanto mais eu mexia na areia, mais eu entendi que nao iria conseguir fazer uma luva em pé, então tentei algo mais realista e só tentei criar uma luva deitada, e com cada grão de areia, eu comecei a mexer nela, e criar a luva com um respeito que até mesmo eu me impressionei.
Eu me sentia hipnotizado, minha alma e meu corpo estavam fazendo a luva com um grande cuidado, mas esqueceram de dizer ao meu corpo por que eles estavam fazendo tudo com tanto cuidado, e com uma voz que era tranquila e apaixonada demais pra eu entender que era a minha, falei.
João: a luva de boxe, algo que se tornou o símbolo do boxe, mas também o grande símbolo de resistência, não importa o quanto elas sejam danificadas, tenham seu couro desfeito, ou como elas conseguem rasgar, luvas não podem ceder, elas são criadas para resistirem uma das armas mais destruidoras da natureza, os próprios punhos dos humanos, punhos tão fortes que eles danificam a si próprios, é graças a esse grande material que nos podemos atacar com toda a nossa força…uma força capaz de fazer as pessoas aprenderem a se defender, aprender a ter a noção do perigo, e principalmente aprender a ter reflexos, apenas para conseguirem continuar esses ensinamentos…
Eu tava bem feliz, enquanto eu fazia questão de também fazer as caneleiras, os protetores de cabeça, e todo o equipamento de proteção.
João: …a principal ferramenta para conseguirmos jogar toda a nossa força nos outros, por mais simples e comum que paressa, sempre que penso nisso, essa epifania que consegui através dos milhares de socos na cara, eu nao consigo pensar em nada a fazer alem de curvar minha cabeça pela honra que essa ferramenta me deu.
De joelhos, e com a cabeça levemente curvada, eu consegui fazer uma luva de boxe mais perfeita do que eu pensei ser possível, fiquei ali, com uma calmaria tão intensa que eu senti que era estranho eu estar tão calmo assim.
E com esse pensamento, comecei a ficar nervoso de novo, mas mesmo estando bem nervoso, eu ainda estava bem mais calmo do que quando eu entrei lá pela primeira vez.
A Deusa Jaci não fez barulho, ela apenas se sentou do meu lado com forma bem tranquila, e depois de alguns segundos, ela falou.
Jaci: essa luva ta muito boa, ela está recheada de sentimentos.
E com uma estranha delicadeza, ela tocou nas minhas luvas de areia sem mover um grão de areia, então continuou.
Jaci: tantos sentimentos negativos, e tantos sentimentos positivos repousados em milhares de grãos de areia, mas ainda está bem frágil
João: então, o que eu faço agora:
Jaci: por enquanto, apenas as observe
João: só olhar:
Jaci: é, você se impressiona como as coisas que você mesmo criou podem te surpreender.
A Deusa da Lua a tinha me surpreendido mais vezes do que eu podia contar, então apenas pensar que algo que eu mesmo fiz podia ter algo que eu mesmo não esperava era algo que nem ia me pegar tanto de surpresa assim.
Eu fiquei ali, olhando pras minhas luvas, e pra minha surpresa, eu não encontrei raiva lá, não, não havia raiva, havia apenas uma imensa quantidade de…felicidade.
Um desejo contido por um mundo onde lutar não era mais necessário, mas que o desejo por combate ainda existia em mim.
O alívio sempre que eu satisfazia esses desejos, mesmo que fosse da forma errada.
Quando eu soltava minha energia, tudo que importava era a minha felicidade, enquanto tencionava meus músculos, sentia a adrenalina em minhas veias, e sentia medo ao ser atacado pelo meu oponente, tudo enquanto dava voz novamente aquele lado animal que fazia questão que não desaparecesse em mim.
Eu já sabia de todas essas coisas sobre mim, mas saber algo sobre si mesmo e encarar essas coisas de frente são duas coisas totalmente diferentes, olhando aquelas luvas, eu fechei os olhos, pensando que eu deveria nomear um “combustível” se quisesse realmente usar a Aura.
João: hmhmhm, felicidade, a felicidade será o combustível para a minha aura, muitos usam ódio e tristeza, vai ser interessante alguém que usa a felicidade como combustível, pra variar
Jaci: tenho certeza que você dara shows que deixaram meu marido muito feliz
João: é, eu espero.
Eu olhei para minha humilde luvinha, pensando como ela seria a primeira luva que eu faria, a primeira no meio de várias que no futuro me faiam fica bem conhecido, mas por enquanto, eu poderia ficar feliz depois da calmaria que a Deusa da Lua me deu, tanto que nosso tempo acabou e eu comecei a descer pra terra de novo, e enquanto eu me despedia da Deusa da Lua, eu falei.
Joao: obrigado
Jaci: de nada, e não se preocupe, você vai ir muito bem.
E com aquelas palavras, passei pelas nuvens, e novamente no grande espaço que eu sempre passava, e no meio daquela vastidão escura, apenas com algumas estrelas, que muitos incluindo eu, acreditavam ser guerreiros caídos, que ganharam o privilégio de ficar o mais perto possível da grande Deusa da Lua.
Eram cenários como esse que me faziam perceber o quanto em meio a grande vastidão de todas as coisas, eu era insignificante, mas diferente de muitos, que ficavam tristes ou depressivos quando pensavam nisso, isso me dava alívio.
O alívio de saber que eu não era nem um pouco importante, então eu podia fazer, ser e desejar o que quiser, e nenhum destino, profecia, vida antiga ou outra ideia como essa decidiria minha vida, a minha vida pertence apenas a mim, e eu podia decidir se eu queria viver minha vida lutando, eu poderia acabar muito machucado com isso, mas foi algo que eu quis, ninguém nunca escolheu isso pra mim.
E quando eu voltei pro meu corpo, eu estava com o corpo dolorido, mas quase 100 vezes mais calmo do que antes, e olhando pras minhas mãos de Sapien, eu falei, mais pra mim mesmo que pra outra pessoa.
João: viva a insignificância, pois ela me deu a maior liberdade que eu poderia ter.

