Eu tava bem animado pro dia de amanhã, tanto que eu acordei 3 horas mais cedo que o normal, o horário perfeito pra eu ver o próximo episódio dos soldados que reencarnaram como onças arco íris. Então comecei a ver o programa, pensando se aquilo poderia me acalmar ou não.
E no programa de hoje, eles tiveram um time skip de algumas semanas, com as onças ficando perto da mãe, aprendendo a caçar, até ficarem grandes o suficiente pra poderem lutar sozinhos. Depois deles crescerem, o Miguel começou a falar, mas não uma com palavras, mas , foi telepatia.
Miguel: {eu sabia que onças arco íris não eram animais normais, mas o fato de que eles conseguem se comunicar telepaticamente, realmente foi algo que me surpreendeu bastante}
Jonn: {e sem nem falar que a mamãe tem a voz de um anjo}
Miguel: {não fica muito apegado, senão você pode acabar tendo filhotes com ela no futuro}
Jonn: {NEM MORTO, PREFIRO MORRER VIRGEM QUE FAZER ISSO COM MINHA MÃE}
Bailei: {pra animais isso até que é bem comum}
John: {ah é, ENTÃO VOU VIRAR UM ANIMAL INCOMUM}
Miguel: {não grita cara, faz minha cabeça doer}
John: {desculpa}
Miguel: {hehe, ainda bem que voce não perdeu todos seus traços humanos}
Bailei: {gente, para, vamos procurar os outros agora}.
Depois do Baile falar isso, o papo morreu, e foi bem interessante isso que eles fizeram, eles procuraram o lugar inteiro, indo em qualquer animal que seus parceiros poderão estar, ou o que eles podiam ter se tornado, o episódio passou por dias, mostrou eles sendo atacados, deles mordendo ervas e passando uma lambida cheia de plantas nos machucados, e ate comendo carne, sem nem piscar.
Miguel: {nós subestimamos mesmo as onças arco íris, as ervas que ela nos ensinou a mastigar pra criar uma saliva que trata feridas foi incrível, algumas delas nem foram catalogadas por nós}
John: {em alguns lugares elas são consideradas Deuses, é normal que ela seja tão boa assim}
Bailei: {foco gente, foco, ainda faltam alguns lugares pra gente ver.}
E com o Bailei ainda liderando todo mundo, eles continuaram caminhando na floresta, não encontrando os companheiros, mas encontrando outros humanos, e infelizmente, eram humanos caçadores, caçadores imbecis que caçavam por diversão.
O Bailei se encheu com uma fúria primitiva ao ver aquilo, dava quase pra ver a humanidade dele tentando escapar de seus olhos, mas sendo segurada com força por ele.
John: {ai Bailei, tem algum problema de eu…}
Bailei: {não se preocupe, somos animais selvagens agora, ninguém vai ligar se nós matarmos esse lixo}.
E com uma delicadeza extraordinária, o John se jogou no caçador e matou ele com uma mordida no cranio, partindo o cranio dele e perfurando o cérebro antes mesmo dele entender o que aconteceu. Uma morte bem mais gentil do que lixo como esse merece, ele nem deve ter percebido que morreu.
Mas depois que o John fez aquilo, ele cuspiu o sangue, o que impressionou até o Bailei.
Jonn: {não to pronto pra cruzar essa linha…ainda}
Bailei: {haaaa, acho que nós podemos encerrar o dia por hoje, vem, vamos achar um lugar seguro pra dormir, tá ficando meio escuro já}
Miguel: {ei ei, é sério que vamos deixar o corpo aqui?}
As outras duas onças reencarnadas olharam pro amigo, e viram o corpo dele mais selvagem, o olhar mais animalesco, e já olhando aquele caçador que acabou de morrer bem mais como um alimento do que um ser humano. O Bailei, em sua grande sabedoria, falou.
Bailei: {Miguel, eu já comprei as maçãs vermelhas}.
E como uma espécie de gatilho, mesmo que apenas um pouquinho, o Bailei diminuiu com toda a força a selvageria dentro dele e falou.
Miguel: {ah, sim, e eu comprei melancias verdes}.
Os outros dois encarnados ficaram bem mais calmos quando ouviam a resposta, eles criaram um pequeno código entre eles, para ter certeza que nenhum deles iria perder a cabeça e vira apenas o animal que encarnaram, o Miguel eram melancias, a do Bailei eram maças e a do John eam uvas.
Bailei: {ótimo, agora vamos procurar um abrigo.}
E com eles encontrando abrigo num toco de árvore oco, os três soldados, que agora eram irmãos, dormiam como verdadeiros anjinhos, eu tava pensando tantas coisas, mas na hora eu liguei pro Luca, porque eu sabia que a essa hora ele ja devia estar acordado.
Diferente das mensagens, quando se ligava pra alguém no grimorio, as páginas do livro começaram a girar em uma velocidade absurda, até que eles criarem uma versão holograma do peitoral pra cima (ou corpo inteiro, dependendo do modelo), e quando ele começou a se manifestar, na hora eu falei.
João: Luca, você viu aquilo?
Luca: SE EU VI!? ESQUEÇA OS OUTROS SOLDADOS, AGENTE TEM QUE ENTENDER O QUE TA ACONTECENDO COM O MIGUEL!
João: os próximos capítulos vão decidir o quanto um corpo pode mudar uma alma
Luca: eles realmente tão fazendo um ótimo trabalho, mesmo que eu quisesse que eles expressassem melhor como o Bailey e o John estão lidando com isso
Joao: bom, nada é perfeito, pode ser impressão minha, mas sinto que nesse ponto o autor tá apresentando tudo devagar, porque, por mais que esse lance de “o corpo novo tá modificando a alma transferida” não seja algo tão fora do padrão, não me lembro de nenhum autor levando isso muito a fundo
Luca: a maioria deles usa a justificativa de que todos os humanos são piores que demônios, então não tem nada errado em matar eles…eu to bem irritado que o primeiro humano da história ser um caçador, me dá medo do que o próximo humano pode ser.
O Luca ficou olhando pra mim por muito tempo, mas depois de ouvir aquilo, comecei a olhar pro quadro de novo, pensando naqueles 3 episódios.
Joao: em uma história como essa, toda a adaptação, toda a introdução de mundo e todo esse lance de humanos, e como eles interagem com monstros, tudo isso é já apresentado no primeiro episódio…mas esse autor tá se dando um grande trabalho pra nós entendermos a psicologia dos 3 personagens nesse novo corpo e novo ambiente, e como um deles já está sofrendo em manter a própria sanidade e humanidade, tudo enquanto tem dois parceiros que estão praticamente desaparecidos, e nós ainda nem vimos os humanos direito, o caçador foi breve demais pra isso…hummmm, talves esse autor queria trabalhar um pouco mais os humanos do que apenas eles sendo maus por ser maus, isso é o que eu acredito
Luca: eles estão mudando desde o primeiro capítulo, o leite nunca foi problema, mas eles tiveram que fazer um esforço imenso para conseguirem comer a carne, e quando eles deram a primeira mordida, eles sentiram um gosto tão bom que eles até brigaram pela carne
João: essas jogadas onde eles parecem mais animais que humanos, me faz pensar se chegará em um momento onde a vida antiga deles vai desaparecer por completo, e eu não falo de tipo, dos modos e da etiqueta, não, estou falando se em futuros episódios: eles vão realmente conseguir ver um ao outro como parceiros ainda? E se eles realmente encontrarem humanos bons? Vai ter algo ainda humano neles pra ter uma relação com esses humanos bons? Esses pensamentos me sem querer poder ver o prolixo episódio agora
Luca: ah, a constante luta do humano com a selvageria dentro dele, representada de várias formas, será que eles conseguirão fazer o que você sempre chama de “abraçar sua selvageria” sem se perder?
João: essa é uma pergunta bem difícil, nós, que somos humanos, cometemos, ainda passamos por casos que nos tornamos totalmente selvagens por mero capricho, morte de um ente querido, traição externa, abandono, isolamento, não se precisa de muito pra um humano perder a cabeça
Luca: e não precisa de muito pra ele manter a cabeça também.
E com uma tristeza genuína em meu rosto falei.
Joao: é, mas tem idiota por ai que nem mesmo da o minimo para pessoas que precizam
Luca: ah, então é um problema a menos, porque com certeza essas onças tem muito mais que o mínimo.
Eu quis falar muita coisa, muita coisa mesmo pelo que o Luca falou, eu amava como ele conseguia falar coisas assim do mais completo nada, mas apenas pensei como…
João: …olha só isso, tantos projetos, tantos rituais, tantas opções e tantos tratamentos conseguiram criar esse grande ser humano, ser “normal” é eufemismo pelo que você se tornou, você se tornou algo bem melhor do que algo que os outros digam ser “normal”.
Hehehe, ainda bem que não falei isso alto, porque percebi no meio do caminho o quanto ficou meloso demais aquilo que eu falei, até que eu ouvi o Luca, com uma voz muito envergonhada, dizer.
Luca: aaaaaaahn, João, você queria que eu ouvisse isso?
Eu fiquei paalizado com o que o Luca perguntou…eu tava com muito medo dos problemas que minha língua solta podia me dar, mas agora eu apenas conseguia sentir vergonha das coisas que eu falei pro Luca.
João haaaa, eu fiz de novo, né?
Luca: sim, mas podia ser pior Joãozinho, você podia falar algo constrangedor pra quem nao deve ouvir, ou algo bem perigoso pra alguém que pode te machucar
João: hmhm, os dois seriam coisas muito doidas, mas me fala, você vai me ver no exame de faixa?
Luca: não, o Luca não conseguiria ficar lá, mas o Nilo prometeu que iria gravar pro Luca ver
João: eu tenho certeza que o Nilo nao ta fazendo isso só por você
Luca: com certeza não, então vou apenas te desejar boa sorte e te enviar energia positiva
Joao: hehe, obrigado mano, ate a proxima
Luca: até.
Então eu fechei o grimório, me deitei, e encontrei um pouco de pas pra cochilar antes de dar a minha hora de lutar.
João: sorte e energia positiva, seria tão fácil se eu pudesse conseguir isso só com sorte e energia positiva.

