O mestre não parecia nem suado depois de lutar comigo naquele estado, enquanto eu tava suando muito, meus músculos estavam queimando, e meu corpo inteiro tava tremendo muito, tão pesado e cansado que eu nem sabia quanto mais tempo eu iria aguentar. Mas pra minha sorte, o mestre sorriu pra mim e falou.
Mestre: muito bom
João: ah?
Mestre: você realmente aprendeu bem com a Jaci, mas você precisa de mais tempo pra realmente usar a forma do boxeador
João: (arfa, arfa) eu não entendo
Mestre: tá tudo bem, você vai levar mais tempo para conseguir usar isso da forma certa, mas enquanto você descobre, você pode fazer o teste para um faixa verde de forma tranquila
João: sim Mestre.
Depois de respirar um pouco, o mestre olhou pra mim e falou.
Mestre: OK, CHEGA, TuDOS, ENTREM EM FORMAÇÃO.
Eu quase cai no chão pelo alívio que meu corpo sentiu, mas eu me segurei, mesmo sendo só um treino, eu não queria cair, meu mestre com certeza não pensava que eu era fraco, nem ele e nem ninguém ali, mas eu queria me dar esse gosto, um gostinho de que eu sou super poderoso. Por que se você consegue sair andando de uma partida que você foi espancado, existe um tipo de força muito mais especial dentro de você que só a força física.
E enquanto eu estava no caminho pro meu lugar, eu vi que todo mundo me olhava como se um tivesse me tornado uma espécie de ser iluminado, os olhos de todo mundo tavam brilhando em admiração, e quando me coloquei no meu lugar, eu vi o Luca tocando em mim e perguntando.
Luca: Joãozinho, você virou um anjo?
João: pra falar a verdade eu não sei.
E eu realmente não sabia mesmo, eu tava vendo esse poder novo que eu ganhei, ele parecia tão diferente do poder de areia que eu ganhei antes, ele era mais simples, mas muito mais poderoso.
E aquele pensamento pareceu alinhar minha alma com meu corpo, eu queria me afundar dentro daquele grande mar de pensamentos e dor cada vez mais.
Mas antes de eu conseguir fazer isso, o mestre chamou todos, e eu meio que decidi deixar pra depois qualquer coisa que poderia estar entre eu e minha atenção do mestre.
Em pé na frente de todo mundo ali, o Mestre falou.
Mestre: vocês todos já devem saber, mas daqui a dois meses terá um exame de troca de faixa, então para aqueles que querem participar, vocês ainda terão duas semanas para participar, se quiserem.
Todos estavam olhando o mestre, mas eu já conseguia ver quem queria e iria conseguir a troca de caixa, e quem queria, mas não iria nem receber a permissão do Mestre.
Eu segurei o máximo possível meus próprios devaneios depois da oração, porque eu ainda queria fazer o convite para a Tainá de conhecer minha namorada, então fiquei lá dentro mais um tempinho, só pra falar com a Tainá, mas antes de eu falar qualquer coisa, a loira falou primeiro.
Tainá: pelo jeito você perdeu alguns direitos também
João: é, pode se dizer que sim, direito de ser um novato, e o de ser um aluno normal, eu pedi esses dois
Tainá: aluno normal?
João: competidores não são alunos normais (estala pescoço) nós quase não somos mais humanos
Tainá: você diz em nível de poder, ou na forma como são tratados?
João: um pouquinho dos dois, mas não fica com pena de nós, nós que escolhemos isso
Tainá: nossa, que alívio.
E sorrindo pra mim, ela olhou no horizonte, novamente com os olhos ficando nublados.
Tainá: as vozes me dizem que eu não deveria ser uma competidora, não ainda
João: dessa vez as vozes estão certas, você é novata, e ainda nem é uma faixa colorida, você ainda precisa de muita bagagem pra realmente ser uma competidora
Tainá: tá aqui a quanto tempo?
João: mais alguns meses e eu vou completar 4 anos
Tainá: o que? Tudo isso? Deve ter muitas histórias incríveis
João: sim, eu tenho, mas mudando de assunto, me fala, você ia gostar de conhecer minha namorada?
Tainá: ah.
A Tainá fez um som estranho, como se no começo do som ela não acreditasse que eu tivesse uma namorada, mas em uma fração de segundo, ela tivesse entendido que não seria muito difícil eu não ter uma namorada, isso na cabeça dela pelo menos.
Tainá: sim, eu quero conhecê-la, quando agente vai se encontrar?
João: tá livre no domingo?
Tainá: eu tô sim
João: ótimo…vai ser legal
Tainá: imagino.
E com o corpo dolorido, mas feliz pela promessa da garota, eu tava animado pra ver como a Elena e a Tainá iriam se entender, seria algo bem legal de ver, haha.
Quando eu cheguei em casa eu tomei banho e falei com meus pais, mas nem lembro o que eu falei exatamente pra eles, porque eu tava focado demais apenas tentando entender o que eu senti naquele momento, por isso eu fiquei apenas de bermuda enquanto eu olhava pro meu punho, tentando me lembrar do que aconteceu naquele momento.
Mas antes de encontrar qualquer coisa, uns devaneios um pouco menores, mas que eu sentia que seria um milhão de vezes mais importante no futuro, chegou até mim.
João: corpo, alma e mente…o corpo e a alma estão separados, e a mente é o que conecta elas, ou são o corpo e a mente que estão juntos e é a mente que tem que ser adaptada…não, existem muitos casos especiais apenas para resumir tudo dessa forma, irei diminuir tudo apenas para meu caso…meu corpo e minha mente estão alinhados, e agora, a alma quer entrar na brincadeira…bom, nesse caso, vamos deixar ela participar.
Eu tentei me lembrar tintim por tintim tudo que eu passei no treino mas era difícil, foi necessário um bom tempo em pé, apenas me lembrando detalhe por detalhe o que eu passei antes de tentar falar todos os pensamentos do momento em voz alta, mas quando eu encontrei o pensamento original, ligar o resto se tornou absurdamente fácil.
João: (respirando fundo e depois solta) luvas não são armas mortais, não, elas são algo que veio depois das armas mortais, elas são armas que não são armas, elas amortecem os golpes, os deixam mais fracos, assim, não importa o quão forte, o quão desesperado ou quantos sentimentos reprimidos cada golpe tenha, enquanto ainda existirem as luvas, se é possível bater quanto se quer, por que assim como não é necessário mais matar ninguém para ficar vivo, não é mais necessário machucar de forma letal ninguém para realmente sentir a satisfação de um bom combate…
E quanto mais eu pensava nisso, mais eu pensava nas lutas que eu vi antes, grandes guerreiros, com ou sem luvas que lutavam até a derrota, não importa se era um amador ou um profissional, ninguém nunca chegou a beira da morte, eles sempre estavam…com a proteção das luvas, a proteção do grande guardião de tecido que decidiu ajudar toda a modernidade no caminho da “violência sem a violência”...porque era isso que o boxe moderno é, uma violência onde toda a raiva e desejo de lutar é satisfeito, mas sem precisar machucar ninguém ou seja, sem violência também…
Depois de entender sobre isso completamente, eu respirei fundo e deixei minha aura ser criada por todo o meu corpo.
João: eu não sou como a Capoeira, não sou um símbolo de resistência ou a liberdade, mas não quer dizer que eu não sou especial, (respira fundo) eu represento todos aqueles que vieram depois dos tempos violentos, onde se pode vencer alguém apenas o nocauteando ao invés de só o matando…e com esse fato, o desejo de proteção absoluta, tanto pro meu oponente quanto para mim mesmo se refletirá em meu corpo.
E depois de pensar nisso, algo inédito aconteceu, olhando ao redor, vi minha aura ficar azul, eu nunca tinha ouvido falar disso, mas não era apenas isso, minhas mãos começaram a criar grandes luvas, caneleiras, proteção de cabeça, proteção de peitoral…tudo ainda bem simples e sem nenhum detalhe, mas isso nem me importava, intoxicado com o poder que eu estava carregando, eu dei um soco no próprio ar, e o soco foi tão poderoso que todas as janelas da casa explodiram apenas com a pressão do ar do meu soco.
Opa, como eu pensei, em segundos, meus pais entraram no quarto e quando eles me viram, eles ficaram boquiabertos, eu já estava esperando que eles iriam ficar irritados comigo ou algo do tipo, mas foi o contrário, no silêncio, eles criaram o maior sorriso que eu já vi em uma pessoa, a minha mãe começou a chorar, mas eu tinha certeza que eram lágrimas de alegria, e antes de eu entender o que tava acontecendo, meu pai falou.
Pai: vo…VOCÊ DESPERTOU
João: despertei?
Antes de sequer entender o que meu pai queria dizer, ele me segurou nos ombros e falou.
Pai: FILHO, BOM TRABALHO, BOM TRABALHO FILHO, HAHAHAHAAH.
E como se eu tivesse ganhado na loteria ou algo incrível como aquilo, meu pai me segurou pelos ombros com uma força absurda, como se não tivesse planejado o que fazer depois de me agarrar, ate ele descobrir que me abraçar era a saida mais fácil, sendo seguido pela minha mãe, que também me abraçou.
Mãe: meu bebê manifestou a aura de combate antes dos 20, Jaci seja louvada
João: ah, o Mestre teve uma boa contribuição pra isso
Pai: é, talvez, mas deixa a gente apreciar esse momento.
Eu ainda não entendia totalmente o quão incrível era o que eu fiz, então eu apenas aceitei o abraço, pensando que eu teria uma boa quantidade de tempo para falar com a Jaci com calma amanhã e te uma boa explicação quando tudo se acalmasse.

