Eu andei com bastante cuidado até os bastidores dos jogadores, e pra minha sorte, não tinha uma segurança tão grande, já que eram apenas um jogo pequeno ainda, além de que eu e a Elena não pareciam ameaçadores em geral.
Passamos bem mais tempo conversando e explicando com bastante cuidado quem eu era, e depois de me ouvirem, todo mundo me deixou passar sem muitos problemas, e quando eu finalmente cheguei na porta onde o pessoal estava descansando depois da derrota, eu bati na porta três vezes e falei.
João: chamando Nilo, o seu horário na terapia com o doutor João chegou.
E segundos depois que eu falei aquilo, o Nilo abriu a porta, ele tava cansado, suado e com um rosto que dizia que ele não tava no clima de brincar. E mesmo assim ele falou.
Nilo: eu sinto muito, não tô no clima de terapia hoje.
Mas antes de fechar a porta, eu a parei com a mão, nem precisei de muita força, eu apenas coloquei minha mão ali, já me mostrando que o corpo do Nilo era bem mais sincero que a boca dele.
João: é exatamente quando não estamos no clima pra terapia que nós temos mesmo que fazê-la.
O Nilo não estava querendo falar, na verdade ele não queria fazer nada, ele não tava com força nem mesmo para me olhar nos olhos, e com a porta aberta, os parceiros de jogo dele viram tudo e começaram a motivá-lo.
Jogador1: ai vai logo mano, tá tudo bem
Jogador2: é cara, não deixa sua namorada esperando
João: eu sou o amigo dele, querendo ver se ele tá bem, só isso
Jogador2: eles sempre falam isso
Joao: ok, Nilo podemos sair daqui antes que eu espanque seus amigos?
E com um risinho, e com um rosto bem mais leve do que antes, ele aceitou.
Nilo: vem comigo, eu não quero que você perca neurônios ficando perto desses caras
João: (cantarolando) tarde demais
Jogador1: obrigado pelo elogio.
E mostrando a língua pra eles, o Nilo me empurrou pra um lugar um pouco mais longe daqui, e depois que ele parou de andar por alguns segundos, então ele falou.
Nilo: eu esperei demais do pessoal
João: tá decepcionado com eles?
Nilo: não, to decepcionado comigo mesmo, eu pensei que eu faria um milagre e ganhar meu primeiro torneio…
Então o Nilo parou de falar por alguns segundos, depois olhou pras próprias mãos, provavelmente refletindo de forma profunda tudo o que ele aguentou ate ali.
Nilo: …mas apenas depois de perder eu sinto que não só eu, mas todo mundo tá muito novo ainda no treino pra fazer algo realmente bom, tanto eu quanto todo mundo.
E mais uma vez ele ficou bem triste, eu queria falar pra ele não ficar assim, mas a Elena me impediu, então ela se aproximou e falou.
Elena: por que está triste?
Nilo: por que? Eu não posso? eu to triste por que eu perdi
Elena: tá bom, sinta a tristeza, mas o que você vai fazer depois?
Nilo: como assim?
Elena: não tem nada de errado de sentir dor, tristeza ou raiva, se você tá triste, sinta essa dor o quanto você quiser, mas você tem que ficar pronto pra já saber o que fazer quando a tristeza acabar, você tem um plano?
O Nilo não respondeu imediatamente, muito mais porque ele estava absorvendo a sabedoria absurda que a Elena jogou nele como se não fosse nada demais, e depois ele pensou só um pouco, e respondeu sem rodeios.
Nilo: eeeeeeeeu, tava pensando em treinar mais depois que minha tristeza passasse
Elena: nao ta com medo que seus pais percebam que você tá triste? Ou que você tá ficando longe de casa por muito tempo?
Nilo: ah, isso não vai ser um problema
Elena: você tem certeza?
Nilo: absoluta
João: você duvida? Eu posso até mostrar que ele não tá brincando
Elena: tem certeza? E se ele quiser voltar a ver os amigos?
Nilo: ah, tá tudo bem, eles já não estão esperando que eu volte de qualquer forma.
A casualidade que o Nilo falou aquilo pegou a Elena de surpresa, mas bem curiosa pra saber se o Nilo estava brincando ou não, ela decidiu não levar as perguntas muito mais adiante.
Agente saiu da ilha sem muitos problemas, mas quando nos aproximamos da casa do Nilo, a Elena teve uma ideia um pouco melhor do que tava rolando, mas não falou nada.
Quando estamos em casa, quem nos viu primeiro foi o Luca, que tava na sala, vendo o programa da Ari a Ariranha na televisão, e por instinto, eu fechei meus olhos e me virei, gritando.
João: AH, SPOILER
Luca: AH, DESCULPA, DESCULPA, DESCULPA.
Segundos depois que o Luca começou a gritar, a mãe dos irmãos apareceu, diferente dos irmãos, ela tinha uma pele mais escura, e um cabelo castanho. Ela correu até o Luca, como se ele tivesse pegando fogo.
Mãe: Luca, ta tudo bem?
Luca: ah, sim mamãe, o Luca só se assustou com o grito do Joãozinho.
E olhando pra trás, como se tivesse notado finalmente que nós estávamos ali, a Mãe dos irmãos se aproximou de nós, e me deu um abraço.
Mãe: João, oi, por que você veio?
João: ah, eu só decidi vir pra cá deixar o Nilo, agente se encontrou pra conversar um pouco.
E ela olhou um pouco para a esquerda, percebendo finalmente que o seu próprio filho tava lá, e quando ela se aproximou, ela deu um abraço no próprio filho, um abraço quente, e depois ela perguntou.
Mãe: e ai, sobre o que vocês conversaram?
Nilo: agente só falou sobre futebol mesmo
Mãe: nossa, que legal, mas me fala, o Luca tá indo bem no treino?
Nilo: {você pode apenas perguntar pra ele mamãe, o Luca não é mais um bebe, ele pode te responder}.
Nossa, sinistro, os sentimentos acumulados do Nilo já tavam tão grandes que os pensamentos dele tavam sendo enviados pra mim de forma telepática, olhei pra Elena, só pra ver se ela tava sentindo isso também, mas não era apenas isso, mais atrás, o Luca também ouviu o que ele “falou” telepaticamente pra todo mundo.
Nilo: ele tá indo muito bem mamãe.
E depois de olhar o filho um tempo bem pequeno, não percebendo que ele falou telepaticamente e nem olhando direito pra tristeza no rosto dele se tornando raiva, ela foi de volta pra cozinha novamente…e apenas olhando aquilo, eu senti uma raiva de segunda mao ali.
Nilo: João, não
João: ue, eu nem falei nada
NIlo: mas estava pensando
João: é verdade.
A Elena então, depois de ver isso, tava bem chocada, esse tipo de falta de cuidado era tão doido que ela ficou sem palavras.
Luca: desculpa
Nilo: ah não, não não maninho…não precisa se desculpar…a culpa não é sua…
Apesar de ter falado aquilo, tava bem claro o quão irritado o Nilo tava agora, a tristeza que ele sentiu por perder a primeira partida eliminatória foi substituída pela raiva da indiferença de seus pais.
Nilo: quer saber Elena, acho que vou começar meu plano de treino agora
Elena: ah, espera aí, você não vai sair agora né: Voce acabou de chegar
Nilo: observe.
E então se aproximou da mãe e falou.
Nilo: ai mãe, eu vou sair pra dar uma volta, tudo bem pra você né:
Mãe: ah, claro claro filho…sim, um momento querido.
E então eu notei que a Mãe do Nilo estava conversando com alguém telepaticamente, e pra brincar com ela, ele até mandou um.
Nilo: a propósito, eu vou conseguir uma arma porque eu vou sequestrar uma pessoa e vou matar os pais dela pra isso
Mãe: ah, claro, bom pra você filho…espera, me dá um minuto por favor…
E com um pouco de tristeza se fortalecendo com a raiva dele, o Nilo saiu de casa, com nós dois indo logo atrás dele…a Elena tinha muito o que dizer, mas antes de qualquer discurso super detalhado, ela apenas falou.
Elena: você acha que o plano de vocês vai adiantar:
Nilo: sim, se eles quiserem realmente me levar a sério, vou precisar ser um campeão
Elena: você não acha que ta colocando um peso demais na própria vitória?
Entao o Nilo olhou pra Elena, como se ela tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo, depois falou.
Nilo: sim, mas com esse peso extra do que ganhar pode me dar, eu posso treinar muito melhor
Elena: e você tá pronto pra consequência de não conseguir ganhar? Hoje foi a primeira vez, mas voce provavelmente vai sentir muitas derrotas ainda, e com cada derrota, essa tristesa, essa dor, e esse pensamento de que “por eu ser faco, burro e incompetente, meus pais anda não conseguem me ver como um ser humano”, cada uma dessas coisas vai ficar mais forte dentro da sua cabeça, voce ta pronto pa aguentar tudo isso.
O Nilo não respondeu na hora, ele fechou os olhos, levantou a cabeça e respirou bem fundo, como se a maior força do seu ser fosse necessária para ele conseguir falar aquilo.
Nilo: eu quero acreditar que sim, pois sei como meu pensamento é infantil, egoísta, e como pode destruir minha cabeça se eu cometer muitos erros, mas eu não quero fazer de forma diferente, como uma birra de criança, meu corpo não aguenta qualquer outro tipo de solução.
E sorrindo, ele foi até mim e enrolou o braço no meu pescoço e falou.
Nilo: e é por isso que eu preciso da ajuda desse cara
Elena: hehe, você fez algum acordo com o João?
João: sim, ele pediu que eu parasse ele quando ele fosse engolido demais pela própria bira, uma prevenção pra ele nao virar um amaldiçoado, algo que felizmente não aconteceu até agora
Nilo: ele tá permitido até de me dar um chute no meio das pernas se for preciso…eu espero que nunca cheguemos nesse extremo, mas nunca se sabe, não é?
Elena: nunca se sabe…mas, me fala, você ta de boa, tipo, com toda essa raiva dentro de você…
Nilo: fique tranquila, meus treinos especiais vão me deixar mais tranquilo sobre isso…e eu tenho visto o Guaracy quando eu tenho tempo, e você não vai acreditar no quão bom ouvinte o Deus do Sol é.
O Nilo falou aquilo sorrindo mas quando ele se virou, deu pra ver o sorriso dele desaparecendo, mas no fim, nem precisava ver o sorriso sumindo, a aura que ele liberou já era sinistra por si só, liberando várias vozes falando palavras incompreensíveis, a maioria xingando os próprios pais, uma aura e palavras que iriam ser ouvidas apenas pelo próprio Nilo, e o Deus do Sol num futuro próximo, mas naquele ponto, isso era o mais importante no momento.
Eu já entendia isso, mas a Elena, apesar do que o Nilo falou, ainda estava bem preocupada com ele, mas antes de ir até ele, eu a segurei, com cuidado claro.
João: não, olha, ele precisa de um tempo sozinho
Elena: ele precisa que alguém além do Guaracy pra escutar palavras tão venenosas na Aura como essas
João: é, e vai ser ele mesmo e eu que vamos ouvir essas vozes, mas não agora, ele não está em condições de…ficar perto das pessoas agora.
A Elena olhou pra mim, e depois de alguns segundos, ela viu que eu tava falando com as palavras de alguém que já teve o pensamento dela, e que já sabia o que iria funcionar ou não e por causa disso, ela só suspirou e falou.
Elena: (suspirou) você é amigo dele mais tempo do que eu, vou confiar em você.
Eu gostava muito, muito mesmo de ver o Nilo treinando, mas eu tinha certeza que ele não queria ninguém o vendo treinar até expulsar a própria raiva pra fora, aquilo não era uma cena legal de se ver. E mesmo assim, a Elena olhou pro chão, com um rosto bem preocupado e falou.
Elena: eeeeeu, tô me sentindo bem mal, sei que o Nilo já passou por coisas pra eu não preciso ajudá-lo tanto, mas eu tava meio que querendo ajudar ele um pouco
João: eita, ainda bem que me lembrou, tem uma amiga minha que queria muito te conhecer, e eu prometi pra ela que eu iria apresentar vocês duas em uma oportunidade
Elena: e você só falou isso agora?
João: não era como se eu pudesse apenas falar aquilo como uma situação comum
Eena: (suspiro) bom, vai ser bom conhecer uma garota nova, qual dia?
Joao: sei lá, no domingo?
Elena: domingo então…hihihi, essa garota deve ser doidinha que nem você
João: quando te descrevi pra ela, ela deduziu que você é sinistra
Elena: quer saber, retiro oque eu disse, ela é bem mais sã do que muita gente no seu treino
João: isso eu não posso discordar.
E sorrindo, apesar da seção de odioterapia que meu amigo deveria estar passando agora, eu apenas conseguia pensar como a Elena irá encontrar outra amiga que eu tinha bem fundo no meu coração, além de que, se a Elena realmente estivesse super disposta a ser uma guardiã, a Tainá é uma das moças que mais vão precisar da ajuda dela

