O alívio e descanso que eu tive nos últimos dias foi algo que eu não sabia que precisava, eu me sentia uma relíquia que estava no modo de recarregar, e no meio desses dias, eu também conversei com o Nilo, falando várias vezes que o Luca estava mandando energia positiva pra ele, (com nós dois rindo pelo garoto ter confundido as datas também), e eu também conversei com a Elena, que parecia tão aliviada quanto eu que nós teríamos alguns dias de descanso antes do grande jogo.
Ela tentou esconder de mim o quão cansada e aliviada ela estava, mas eu entendia o que ela tava passando em um certo grau, eu não fazia ideia quando, mas as vidas que nós vivemos, em algum momento, ficou absurdamente cansativa e complicada, onde até mesmo sair de casa era um cansaço imenso, e esses dois dias onde não tinham “nada” pra fazer além de relaxar no tempo livre era algo de realmente bater palmas e agradecer ao Deus do Sol por isso.
E no grande dia, quando tomei banho e comecei a me arrumar, fiz o possível para tentar ser casual, uma tarefa que foi mais difícil do que pensei ser possível, eu queria ficar arrumado pra Elena e usar as roupas mais caras que eu tinha, mas de forma contrária a esse pensamento, eu coloquei uma roupa simples, leve e com bastante movimento, é um jogo de futebol, não um restaurante chique. Resultando de mim saindo de casa com uma bermuda preta e uma blusa branca, cheia de cobras que gotejavam veneno.
Quando sai de casa, peguei minha prancha, criei uma onda de aura e fui pra cima, no meio do caminho, comecei a perceber o quão equilibrado eu estava naquela prancha, de uma forma que eu conseguia até surfar de ponta cabeça, de tão bem que eu estava com minha aura…de forma divertida, consegui fazer vários truques com a prancha, eu segurei nela com as mãos, me pendurei, e até uma dancinha na prancha.
João: HAHAHAHA, É ISSO QUE UM NÍVEL ALTO DE AURA FAS!? Hehehe, eu gostei.
Depois que eu me acalmei um pouco, e me lembrei onde eu estava indo, comecei a ir pra uma ilha onde a quadra do Nilo estava, e quando olhei pro Guaraci, percebi que eu tava atrasado, pra variar.
E quando me aproximava da ilha, sentia como seria a primeira vez que eu veria o Nilo em um jogo oficial, o que seria bem bacana, mas esse pensamento se desfez quando eu olhei pra Elena.
Eu nunca conseguia me acostumar com isso, aquela garota, mesmo usando coisas simples como uma blusa cheia de florzinhas e uma saia longa e azul, ela conseguia ter uma beleza que paralisava.
Já tinha se passado mais de dois anos desde que agente começou a namorar, mas eu ainda sentia aquele calor do meu coração do primeiro encontro que tivemos, e quando eu olhei pra ela, o sorriso dela me dizia que ela sentia a mesma coisa.
Elena: ta atrasado
João: desculpa
Elena: tudo bem, pontualidade nunca foi seu forte.
E com ela se enrolando no meu braço, nós dois entramos juntos na grande quadra, e depois de alguns segundos, ela me perguntou.
Elena: e então, porque o Nilo está jogando nesse torneio?
João: é uma eliminatória, ta tendo um grande torneio e esse é o primeiro torneio dele
Elena: nossa, e qual o nome do time dele?
João: as araras áridas.
E falando aquilo, eu mostrei a Elena a bandeira do time do João, uma grande arara com a cor amarela, verde e azul nela. Com ela voando em cima de um deserto, com dois cactos bem pertinho dela.
Quando chegamos no nosso lugar, eu fiquei um bom tempo explicando pra Elena tintim por tintim a situação do Nilo, eu até cheguei a pedir pra ela chegar 2 horas antes do jogo começar pra garantir que eu ia contar todo o role do Nilo pra ela. (e considerando que eu me atrasei 20 minutos, tinha muito o que contar a ela).
E a cada coisa que eu contava pra ela os olhos da garota ficavam cada vez mais arregalados, mas não era de medo…eram de contemplação como a situação do Nilo não era fácil mesmo, até que eu terminei de falar tudo, e eu vi a Elena olhando pra frente, colocando a mão no queixo e ficando pensativa por um bom tempo, até que ela falou.
Elena: é, é complicado a situação dele mesmo, mas vocês tem certeza que apenas deixar isso escondido por um ano será o bastante pros pais do Sapien realmente o levarem a sério?
João: ainda estamos trabalhando nos detalhes do plano, não precisa levar tudo tão a sério
Elena: depois de ouvir toda a história do Nilo, fica meio difícil de fazer isso
João: não precisa levar isso tão a sério, é apenas um assunto de família, um assunto de família que ele confia em mim o suficiente para me contar…ele é meu amigo então, eu só posso apoiá-lo.
E depois de ouvir aquilo, o lugar começou a ficar bem barulhento, barulhento por causa de milhares de torcedores que chegaram ali também.
Mesmo não conversando nem um pouco com eles, pela pintura nos rostos, as grandes vuvuzelas e uniformes todos personalizados de torcida organizada. Dava pra ver muito bem o quanto eles amam o esporte, seria algo interessante de assistir.
Pra começar o jogo, o juiz tirou no cara ou coroa quem iria começar com a bola, e infelizmente, o time inimigo do Nilo ia começar com a bola. Olha só, o time do Nilo era todo verde e o time inimigo era azul, é, ficaria mais fácil dizer quem era quem assim, o Nilo era o número 4 verde, eu precisava me lembrar disso.
Então, começou, o 3 azul tocou pro 4 azul, o 4 azul chutou com toda a força para trás, levando a bola para o 6 azul, e assim todo mundo começou a se espalhar.
Não olhei tudo, apenas tentei seguir a bola, ou seja, o 6 azul, e ainda com a boa, ele correu, muito para perto do time inimigo, ele desviou do verde 1, do verde 9 e do verde 2 até que ele foi parado pelo vede 5, que depois de um duelo de controle sinistro, perdeu a bola para o verde 5, e depois o verde 5 chutou a bola pro verde 4.
Então eu vi, o azul 3 e o azul 4 em cantos diferentes, com o azul 6 indo na direção do verde 4, e ao invés de chutar pra frente, o verde 4 passou a bola pra trás e jogou a bola pro verde 1, que jogou pro verde 3, e depois de ver que todos os outros verdes alem do 4 e o 5, (que estavam muito distantes dele) estavam marcados, ficou parado por muito tempo.
Com o verde 3 parado por tanto tempo, o azul 1 foi até ele, tentando pegar a bola, isso até o verde 2 saiu da marcação do azul 6, deixando um caminho para o verde 3 chutar.
O verde 2 quase pegou a bola, mas o azul 2 desfez sua marcação apenas para dar uma cabeçada e jogar a bola pra longe, mas o verde 4 chutou a bola de volta para longe do campo dele, e ninguém a pegou.
Quando a bola parou, muitos correram pra pegar a bola, e outros se espalharam para ficar no território inimigo, e depois de uma briga cabulosa pela bola, onde tantas cores e números ficaram tão embaralhados que eu até me perdi no meio de tanta gente, eu vi a bola voando pro território inimigo, e quem a pegou foi o jogador verde 4, e com um salto sinistro, ele deu um chute de bicicleta bem na bola, o chute quase foi bloqueado, mas o goleiro não conseguiu chegar a bola a tempo.
Eu tava tão animado pela marcação do time do Nilo, que eu gritei com toda a força no meio da arquibancada, e muita gente gritou junto comigo, todo mundo ficou bem animado, muita gente soprou uma gigantesca vuvuzela , outros até jogaram fogos, e eu, mesmo estando bem feliz com o que o meu amigo conquistou, eu também estava bem contaminado com a animação de todo mundo, mas aquele foi só o primeiro gol, eu tinha que ver o que iria acontecer ainda.
E depois de deixar os azuis começarem a jogar de novo, dessa vez, o azul 1, azul 3 e azul 2 foram na frente. Enquanto o verde 4, verde 1 e verde 8 tentaram pará-los. Mas então teve uma grande sequência de toques aconteceu, o azul 1 e 3 conseguiram fazer desvios e toques tão bons que eles conseguiram deixar o verde 4 tonto, e o azul 2 fazia grandes chutes, a ponto de que ele fazer toques com o azul 5, que estava no meio do campo.
Os verdes 1 e 9 como zagueiros até tentaram pará-los, mas quebrando a formação, o azul que chutou a bola no ar, e antes de alguém pegá-la, o azul 2 saltou nos céus, e deu uma cabeçada que acertou bem na trave do gol, mas antes de qualquer alívio rolar, o azul 3 apareceu e chutou a bola, a fazendo voar bem no caminho onde o goleiro não conseguiu chegar a tempo.
O som de vaias e de raiva por aquela vitória foi algo horrível de ouvir, enquanto a parte oposta da grande partida gritou em lágrimas.
Elena: João
João: que foi?
Elena: eu não fazia ideia que uma partida conseguia ser tão bonita assim
João: isso porque eles não são mais crianças, mas também tenha a ver que nós temos um conhecido no time
Elena: é, é uma boa teoria...mas sinto que não é o bastante pra mim.
Eu meio que entendia o que a Elena deveria estar sentindo naquele momento, os olhos da garota brilhavam de uma forma que eu entendia muito bem, ela conseguia sentir a paixão vindo daqueles lutadores, paixão pelo seu esporte, pelo que eles se esforçaram tanto tempo pra conseguir, e quando algo era transmitido com tanta paixão atraves da Aura que consegue ligar a alma de todos, era quase impossível não achar tudo bonito.
E depois de mais trocas de bola, mais chutes, mais golpes, um acidente aconteceu, eu já tinha visto acidentes assim na televisão, meu pai sempre dizia que eles fingiam estar machucados, mas quando o grito do jogador de futebol alto, junto com o osso que dava pra ver daquele ângulo, eu tinha certeza que não estava fingindo.
João: acha que ele está fingindo?
Elena: quem sabe, quem entende bem a própria Aura consegue ser um excelente ator.
E depois de uma pequena sessão de discussões, e depois do jogador 6 azul ser expulso do jogo com um cartao vermelho, tudo voltou de forma normal a acontecer. E depois de mais algumas partidas, uma grande cadeia de chutes aconteceu, o azul 2 passou pro 4, e o 4 passou pro 1, depois pro 3, 2 de novo, 6, 1 de novo, 4 de novo, e quando foi finalmente pro 5, um chute jogou a bola no gol do goleiro, mas o goleiro verde agarrou a bola.
João: aaaahn, você tá entendendo o que tá acontecendo? Eu me perdi um pouquinho
Elena: um pouco, eu te explico melhor o que ta acontecendo depois
João: obrigado.
E rolando a bola para seus companheiros, o goleiro deixou os verdes fazerem a sequência deles, e com grandes chutes, o 3 passou pro 4, o quarto passou pro 9, o nove passou pro 2, que passou pro 9 de novo, depois pro 1, 2, 3, 9, 2, 4, 2, 4, 2, 4, 3 e quando voltou para o 1, ele chutou de novo para o gol dos azuis…e o goleiro deles defendeu também.
No fim, o primeiro tempo continuou no 1 a 1…mas depois do segundo tempo, as coisas ficaram bem mais doidas, eles não tentaram mais brincar, eles estavam implacáveis, a ponto que o placar quase mudou muito, mas os goleiros salvaram o próprio time várias vezes.
E foi entre aqueles milhares de golpes que eu vi o quanto os goleiros eram importantes, eles eram os escudos protetores do time, a última muralha de defesa, mas depois de que eles falharam, apenas uma vez, eles falharam, e infelizmente, o goleiro verde que perdeu dessa vez.
Com um gosto amargo na boca, eu vi o rosto de todos da araras áridas ficando tristes e melancólicas…toda a plateia do nosso lado estava com um grande clima de tristeza ao redor de nós, mas no meio daquela tristeza, equanto outro lado da plateia gritava de alegria e euforia, o meu lado ficava quieto, quieto demais, por que o jogo acabou e as Araras perderam.
E enquanto todo mundo tava muito triste, eu me levantei, comecei a sair da arquibancada
Elena: aonde você vai?
João: vou conversar com o Nilo
Elena: vão deixar você entrar?
João: não estamos num campeonato super grande ainda, tenho certeza que se eu pedir com jeitinho vai dar tudo certo
Elena: (suspirou) já se prepare pra bater em uma ou duas pessoas no caminho.
E com a confiança extrema da Elena, e fui até os bastidores para falar com o Nilo.

