Quando saímos da carroça, foi nesse momento que nos lembramos o quão barulhento o território é, eu sentia a diferença dos barulhos, das outras carruagens, das pessoas conversando, até mesmo o canto dos passarinhos (algo que deveria ser bom), sempre parecia mais alto depois de sair da Alcateia.
Ter essas sensações apenas me fazia imaginar como deveria ser passar por isso como um Lobisomem, mesmo que eu tivesse uma pequena ideia de como era, já que quando todos saímos da carruagem, o meu avô não saiu de lá.
João: ah, vovô, tá tudo bem:
Avô: ah, sim, tá tudo ótimo.
Meu avô, com muito nervosismo e com uma grande vontade de manter sua aparência de “cara legal e invencível” no lugar, ele nos seguiu, e quando entramos no Aviário do meu pai, de cara nós fomos pegos por uma quantidade imensa de sentimentos positivos, sentimentos que deixavam o fogo de ódio que eu nao consegui queimar na batalha, bem mais fraco.
E não apenas eu, também deixou minha mãe, que estava nervosa desde a batalha com meu avô, e até meu avô, que estava nervoso assim que nós descemos da carruagem, bem mais calmos.
O Aviário do meu pai era tão bom e tranquilo, que parecia ter um efeito bem parecido com o território da Alcateia, só que bem mais fraco.
Mas talvez a maior demonstração de amor que eu sentia naquele aviário era dos próprios pássaros, não, dos gaviões reais, porque só tinha eles no meio das centenas de ninhos ao redor de nós, mesmo que eles sendo tão diferentes que eram divididos em 3 categorias.
As aves de rapina normais estavam no ponto mais baixo, elas eram apenas os filhotes e as aves “normais”, que eram grandes e fortes mas que não tinham nada especial.
Aquelas eram uma das minhas favoritas porque eram uma das menos complicadas de dar carinho, colocando uma das luvas de cuidado, eu fiz um pequeno assobio que meu pai me ensinou, um assovio que eu tinha certeza que significava “venha aqui para receber carinho” porque sempre que eu fazia esse assovio, um dos gaviões reais ia até mim, algo que aconteceu segundos depois do assobio.
O gavião que desceu se prendeu na minha luva e fez carinho na minha cabeça um pouco, eu fiz um carinho bom na cabeça dele, e até dei um pouco de comida pra ele, e depois de dar um grito bem alto, que eu pensei que deveria significar “eu gosto de você”, ele voou de volta pro pequeno ninho dele.
Avô: humpf, posso não entender o que você faz filho, mas tenho que admitir, você teve resultados.
E o mais irônico era que o vovô dizia isso enquanto tinha dois gaviões reais nos ombros e um na cabeça, e ele nem tava incomodado com as garras perfurando seu corpo e ate tirando sangue.
João: aí vovô, você tá com pássaros em você
Avô: é, eu sei
João: por que não tira eles?
Avô: pra que? Eles estão bem confortáveis aqui
Eu sentia que aquilo era o lado mais sensível do meu avô falando mais alto de novo, mas eu não tinha provas, e quando eu olhei pro meu pai, ele tava com um grande sorriso pra mim e falou.
Pai: ai, quer me ajuda a treinar os gaviões de novo?
João: quero.
Eu tava bem empolgado, porque meu pai tinha um dos trabalhos mais divertidos que eu já vi em toda a minha vida, bom, era provável que ele fizesse a parte chata e apenas pedisse que eu o ajudasse nas partes divertidas, mas eu nunca tive coragem de perguntar diretamente pra ele.
A primeira ajuda que eu dei pro meu pai, foi ensinar os passarinhos a entregarem mensagens, o que era bem simples, eu apenas precisava correr para lugares diferentes, e se o gavião real me encontrasse, eu só o pegaria, colocaria uma mensagem na perna dele, dizendo que eles conseguiram, e depois os jogaria no ar novamente.
A segunda ajuda foi bem mais sinistra, porque usando a luva, eu ia para um campo de tiro ao alvo em movimento, e de um jeito bem doido, eu arremessava o gavião real como se fosse um dardo, e ele era disparado como uma flecha na direção de um dos alvos.
HAHAHAHAHA, aquilo era tão divertido que até a minha mãe e meu avô estavam brincando.
Avô: HAHAHAHAHAHAHA, ISSO É FANTÁSTICO, FILHO, POR QUE VOCÊ NÃO FALOU QUE SER UM DRUIDA ERA TÃO DIVERTIDO ASSIM!?
Eu já tava me preparando pra só falar pro meu avô pesar tudo como o papai só deixando a parte divertida pra nós, mas quando as palavras saíram, elas saíram muito, mas muito mais complexas do que eu pensei.
João: fica calmo vovô, porque isso é bem mais o “produto final” do que o trabalho, ele teve que cuidar dos pássaros desde o ovo, alimentá-los, criar um laço de confiança profundo com eles, e tudo isso com ele tendo cuidado pra não dar a ele Aura demais e acabar os modificando antes da hora
Vovó: jura? que coisa.
O vovô continuou ajudando com o treinamento final dos gaviões reais, até que ele pensou bastante e parou com um gavião ainda no baço, ele olhou pro gavião, o gavião olhou pra ele, quase como se eles estivessem tendo uma conversa telepática.
Vovô: eu nunca vou entender nada disso, não é meu estilo…
E sorrindo, meu avô arremessou o gavião, e ficou vendo ele pegar um macaco e começar a comê-lo, enquanto sorria bastante.
Vovô: …mas gostei dos resultados
João: normal vovô, é como dizem, louco tem pra tudo…muitas pessoas não conseguem se ver fazendo carpintaria, mas fazem um grande show quando veem uma linda carroça, quase como se quisessem casar com ela; Muitos sequer imaginam o processo pra fazer uma espada linda e ótima armadura, mas eles apreciam de corpo e alma essas armas e armaduras em suas aventuras; E muitos que têm cães de caça, e até pássaros rastreadores nem conseguem imaginar o processo mega desgastante para criar animais como esses garotões…
Eu falei aquilo enquanto segurava com cuidado o pássaro, como se visse algo sagrado no pequeno animal, e quando o lancei em um alvo de forma perfeita, olhei meu avô de novo, vendo o quão chocado ele estava com a minha palavra e eu continuei.
João: …você não precisa gostar do processo pra gostar do produto final, e é exatamente por isso que se deve respeitar os sonhos dos outros, porque na maioria das vezes, o “sonho de criança” de uma pessoa pode criar algo que você ame bem mais do que possa entender em poucas palavras.
O meu avô ficou ali, sem pegar outro pássaro, e apenas olhando pra mim, e eu vi, o rosto dele cheio de emoções, mas sua boca não liberando nada, ele barrou todas as emoções que sentiu naquele momento e filtrou cada sílaba, quase como um script que ele inventou na própria cabeça em segundos.
Avô: interessante, bom, não é pra menos também, afinal, qualquer um que consegue chegar a ponto de criar coisas como grandes escudos e armaduras deve ser bem respeitados
João: muitos deles não conseguem chegar nesse nível, porque eles são desmotivados
Avô: humpf, se gente assim se desmotiva por cada coisinha, então eles não merecem alcançar o próprio sonho
Joao: existem pessoas que aguentam bem mais coisa que as outras
Avô: isso só significa que o Guaracy tem grandes planos pra elas.
Agora foi a minha vez de ficar impressionado, apesar de eu só querer dizer que “o Guaracy não tem o direito de dificultar tantas vidas assim”. O que saiu da minha boca foi algo muito diferente.
João: a dor é a melhor professora
Avô: exatamente, muitos daqueles que estão em situações ruins apenas estão ali porque o grande Guaracy decidiu que eles conseguiriam passar por isso e sairiam com algo que ajudaria todos a carregar bem o próprio propósito…mas infelizmente existem pessoas que não aguentam o peso que Guaracy confiou a eles, e acabam desistindo, ou coisa pior
João: às vezes o peso não é apenas do Guaracy, mas dos irresponsáveis que colocaram mais peso que o necessário em alguém.
O meu avô novamente ficou em silêncio, e quando eu vi, percebi que os pássaros acabaram, e agora nós estamos apenas olhando o horizonte, não parando de conversar.
Olhei pro meu avô, e vi que ele não tava filtrando as palavras, mas sim usando as palavras certas para o que iria me dizer.
Avô: isso é realmente uma pena, porque muitas vezes não dá pra diferenciar esses pesos, na maioria das vezes, só dá pra entender qual peso é do Guaracy e qual peso é apenas as pessoas colocando mais coisas em suas costas apenas depois de você passar tempo o bastante com esse peso para se machucar, e quando você tá velho o suficiente pra entender o quanto você sofreu atoa.
Aquelas palavras tinham um peso diferente, um que eu não via normalmente meu avô tendo, o que me deixava bem empolgado, então eu perguntei.
João: e você já descobriu o seu?
Era bem incomum eu ver o vovô desse jeito, mas era algo que eu gostava bastante também, porque era em momentos assim que eu sentia que o “verdadeiro vovô” aparecia.
E por mais que fosse difícil dele sair, muitas das coisas que eu carregava dentro do meu coração foram ele, ou melhor, o “verdadeiro ele” que me ensinou.
E graças a deus, ele não se desfez quando perguntei aquilo, ele olhou pro lado, mas precisamente pro “nada”, e depois de alguns segundos, ele olhou pra mim de novo e falou.
Avô: ainda to aprendendo…agora vamos, seu pai deve querer sua ajuda pra outras coisas.
E de forma tão breve quanto aparece, o “verdadeiro vovô” se adentrou no fundo da própria consciência, deixando o “vovô maneiro” ficar no lugar. Hehe, apesar de tudo, eu tava feliz, sentia que desde que o vovô se tornou um lobisomem, o “verdadeiro vovô” tinha aparecido pra fora mais vezes.
A última ajuda que dei pro meu pai naquele dia foi escovar os pássaros, os pássaros normais não podiam ser escovados, mas os pássaros do meu pai eram tão fortes que eles conseguiam ser escovados sem serem machucados.
E apesar do quão tranquilizante era escovar os passarinhos, meu avô não gostava daquilo e apenas observava agente, não entendendo como agente conseguia só ficar fazendo carinho em animais assim.
Mas pra me ajudar a não sentir culpa, a minha mãe tava bem do meu lado, fazendo carinho nos passarinhos com um rosto que dizia o quão abençoada ela se sentia em ter a permissão de fazer aquilo.
Acho que a coisa mais engraçada do meu avô era que pra coisas como “escovar passarinhos” ele não precisava atuar, só na cara dele eu conseguia ver que ele realmente achava ridículo aquilo…era sempre doido pensa que existia um rosto de “raiva falsa” e um de “raiva real” pro meu avô.
Mas depois de conviver com ele por tanto tempo, consegui entender direitinho qual é qual, por exemplo, pela cara que ele fazia quando via o “segundo nível” dos gaviões reais do meu pai, eu tinha certeza que ele estava fingindo estar com raiva.
Pai: ok, ok, agora já deve estar bom, quem quiser me ajudar a cuidar dos pássaros especiais, podem colocar isso.
E meu pai falou aquilo, entregando pra nós alguns braceletes, braceletes que tinham o efeito de proteger de eletricidade, fogo, veneno, e muitos efeitos diversos, e não importa quantas vezes eu vestia aquilo, eu sempre ficava impressionado.
Joao: sério pai, você deve ser muito bem pago pra conseguir algo assim
Pai: bom, é quase um paradoxo na verdade, eu melhoro meus pássaros, consigo clientes que me pagam mais, ai eu melhoro meus equipamentos, e tenho que gastar mais dinheiro pra conseguir clientes mais ricos e conseguir equipamentos melhores e ainda mais caros apenas pra conseguir…
João: para para, eu já entendi.
E sorrindo, meu pai assoviou, pedindo que os pássaros do nível 2 decrescem, e apenas olhando pra eles, eu fiquei muito empolgado pro que ia rolar.

