Chegar em casa, tomar banho, comer pouco, naquele dia, tudo isso ficou bem mais rápido, talvez pelo fato que eu iria me encontrar com o meu avô hoje.
Ao mesmo tempo que eu me sentia muito desastrado hoje, minhas mãos pareciam de manteiga, eu parecia ter perdido a noção do peso do meu próprio corpo, tudo porque eu estava absurdamente assustador, eu sempre brinquei de lutinha com meu avô quando eu era uma criancinha, mas quanto mais eu pensava em tudo que eu aprendi nesses anos, e o quanto fazia bom tempo que eu e o vovô não brincamos de lutinha, mais eu pensava que iria sair bem machucado daquilo.
E o mais doido, era que uma parte de mim gostava desse pensamento bem mais do que o temia, a ponto de, mesmo estar com um medo bem claro na minha mente, eu entrava na carruagem do meu pai com um sorriso radiante de antecipação, e assim que eu entrei, começamos a ir para a parte da Alcateia do arquipélago,
Felizmente, a minha mãe percebeu que eu tava nervoso, muito nervoso, então falou.
Mãe: pai filho
João: sim mãe
Mãe: eu quero que saiba uma coisa, quando você terminar de lutar com o vovô, a mamãe vai brigar com ele, tá bom?
Quando a minha mãe falou aquilo, eu notei que ela tava com uma roupa bem diferente, ela tava com uma calça enorme, mas que parecia ser para lutas e uma regata por baixo de uma blusa de mangas longas que parecia especializada pra treinos. Apesar de ainda ter um pouco da Mae doce que eu estava acostumado a ver, aquele lado dela parecia ter se adormecido, e algo sinistro acordou.
João: acho que já sei de onde eu herdei essa ânsia de lutar
Pai: é mesmo é? Agora conta uma novidade
Todos: hahahahahaha
João: haaaaae, mamãe, você e o vovô brigam muito?
Mãe: sim, na verdade foi em uma briga dele comigo que seu pai recebeu a benção pra casa comigo
João: nossa, deve ter sido incrível
Mãe: é, mas nem vou te contar o que aconteceu, quero que você veja com os próprios olhos o que aconteceu .
Apesar de estar bem curioso pra saber o que ela iria me mostrar, eu meio que já acreditava nela, essa força e “perigo” que a minha mãe exalava, parecia algo que o meu avô podia ficar bem interessado mesmo.
E tentando não ficar muito focado em quanto minha mãe tava diferente, eu olhei pra janela tentando me distrair…mas não consegui, e perguntei.
João: mamãe…você era uma garota problemática?
Mesmo comigo falando algo tão aleatório daquele jeito, minha mãe riu, como se soubesse o que eu queria dizer.
Mãe: eu dei tanto problema pros meus pais que só de ouvir meu nome os professores ficavam com medo
João: bom, pelo menos você tá mais calma agora
Mãe: tudo graças ao meu Lunaris.
E falando aquilo, a mamãe bateu com cuidado o peito e jogou sua mão pra cima, como se o Lunaris tivesse morrido.
Mãe: Jaci seja louvada.
Tentei segurar minha língua, mas não consegui.
Joao: mãe, voce…
Pai: ah, desculpa filho, pelo jeito vamos ter que esperar esse interrogatório com a mãe, chegamos.
Um pouco decepcionado e um pouco animado de termos chegado, olhei pra janela e vi embaixo de nós uma imensa ilha feita de pedra, que não possui nenhum recurso, árvore ou animal, uma área sem vida de forma natural.
E para uma área como essa, nada seria melhor criador do que um grande campo de combate, onde mesmo estando tão cedo, existia milhares de bandos de lobos unidos pra fazer rodas de briga.
Ao descermos, vimos uma grande multidão de lobisomens gritando, fazendo barulho e estimulando seus combatentes, no meio das rodas às vezes eram lobisomens com lobisomens, outros eram lobisomens com alguma outra raça, e às vezes eram duas raças diferentes, convidados que foram bem recebidos na roda de violência.
E no meio de tudo aquilo, uma grande roda estava quieta, em antecipação, e quando nos aproximamos dali, o grande mar de pessoas se abriu, revelando meu avô, ou melhor, a nova aparência do meu avô.
Ele estava no formato de lobisomem, um corpo antropomórfico, com pelos por todo o corpo, que não conseguiam esconder seus músculos, garras que pareciam conseguir passar por concreto, e nada além de uma bermuda de combate para se proteger. Além de um rosto de lobo distorcido, não tendo nenhum traço humano além da pura violência, raiva e dor que ele provavelmente queria me proporcionar.
Eu já estava alongado e aquecido, então eu andei pro circulo, e levantei minha guarda, sabendo bem que o meu avô não queria conversar…mas quando meu avô se levantou, e se colocou na posição de lutador de muay thai, eu senti algo sendo criado dentro de mim.
Quanto mais me aproximava, mais meu corpo parecia se recusar a me obedecer, meu corpo começou a morfar em areia de forma instintiva pelo grande medo que eu era capaz de sentir agora que tinha uma aura tao forte, que eu podia entender muito bem como meu avô era realmente um monstro.
Com esses olhos novos que eu tinha, meu pai que já era um grande monstro na minha mente…parecia um gigante de 6 braços e 3 cabeças, mas dando um tapa na minha propria cara, voltei a realidade, com o vovô apenas sendo um lobisomem de bermuda, e sorrindo, ele falou.
Avô: você viu?
João: é, eu vi
Avó: não se preocupe, eu vou me segurar.
“Será que ele vai se segurar contra mim?” ha, o que eu tava pensando? Com um poder como esse, era claro que ele iria se segurar. E na guarda de Muay Thai, e com um sorriso no rosto, ele se preparou pra ter uma conversa de punhos comigo, e mesmo com bastante medo, eu tava bem ansioso por isso também.
E enquanto eu andava e ouvia os outros dando suspiros de surpresa, eu apenas me concentrei no meu avo, e quando ele entrou na minha area de longa distância, eu dei um soco de areia, um soco que viajou no ar como uma grande bola de areia, que mudou de areia pra carne, depois da carne pra pedra, mas não consegui muito além antes dela acertar meu avô, mas o lobo sequer se moveu, mas e eu não acabei, eu acertei ele de varios ângulos, transformando minhas mãos e pés em verdadeiras armas.
E com uma grande quantidade de areia, dei 5 sequências de jab direto bem no rosto dele, joguei um chute cobertura na perna dele, um chute faca e terminei com um chute ura.
E finalmente dei um chute peito na cara dele, seguido de um direito embaixo da barriga, um cruzado e um faca na cara.
E o meu avô não fez um único movimento no meio daquilo… que, ele até se moveu, ele se aproximou bem devagar de mim, até ficar coladinho de mim enquanto eu fazia os movimentos.
E então, ele deu um golpe que eu me transformei em areia pra desviar, e apesar de ter esquivado do golpe desviando pra baixo, e do chute na costela dando um passo pra trás, eu ainda senti o golpe quase me encostando, foi assim como a Jaci me falou, mas eu não podia parar, não agora.
Depois de ver a eficácia da Aura, e ver que só me tornar areia não ia me salvar do meu avô, eu comecei a andar devagar pra trás e dar golpes de areia no ar, e eu ficava bem impressionado que meu avô conseguia perceber de onde meus golpes vinham, porque a minha areia não era um caminho em linha reta, não não não, a minha areia estava espalhada por todo o cenário, o meu corpo podia estar se mexendo, mas pra ele, eu estava parado, e meus golpes apenas eram formados segundos antes de acerta-lo.
E mesmo assim, sempre que um golpe de areia meu o acertava, ele explodia um pouco da Aura dele, fazendo meu punho ser esmigalhado em instantes.
E depois de perceber que aquilo não ia levar a lugar nenhum, frente a frente ao meu avô, com a minha guarda ainda alta, eu pensei no que eu poderia superá-lo, até que ele veio de novo com os socos, eu desviei de um, soco sem a areia dessa vez, e fiquei impressionado com a forma que meu corpo ficou mais rápido, e olhando pra ele, vi que, de forma contraditória, meu corpo estava sendo controlado, por mim mesmo, eu conseguia fazer meu corpo me obedecer de formas que nem pensei ser possível até aquele momento.
Nossa, que doideira, eu desviei uma, duas vezes, e quando eu dei um jab em baixo na barriga do meu avô, ele finalmente se curvou, e com um salto que eu nem sabia ser possível, eu dei um chute giratório no ar e chutei meu avô na cara, o fazendo ser arrastado pra trás.
E logo eu senti o que a Jaci falou, minhas emoções estavam aumentando, meu medo, minha raiva, minha alegria, eu me sentia que estava me afogando em minhas próprias emoções, mas eu ainda conseguia ver meu avô, e ele estava sorrindo, enquanto eu sentia tanto poder dentro de mim que eu logo senti que estava chegando naquele ponto de quase queimar, eu não precisava mais aumentar e nem diminuir, apenas respira e avançar e nao pensar em mais nada.
Vovo: fveinehfnwnkjfwknfjfiej.
Ah, que pena, eu não tava mais conseguindo entender meu avô, mas não importava, eu continuei avançado, e continuei batendo nele, batendo, e batendo, mas apesar de estar afetando ele, eu ainda tava sentindo que não era o bastante, e mais uma vez ele me atacou, um chute perna, dois chutes, e dois socos com a mesma mão, parando de novo.
E sem recuar, continuei atacando, e meu avô só continuou atacando, e ele continuou avançando enquanto eu recuei cada vez mais, e quando eu fui colocado na parede de mãos que me impedia de ir mais pra trás, ele me chutou de novo, e dessa vez, eu desviei bem na direção do punho dele.
Eu defendi o golpe, e eu aguentei pressionando muito meus dentes, firmei o máximo minhas pernas no chão, minhas pernas se afundaram na terra, mas eu estava bem longe de desistir.
Eu senti meus braços quebrando, e depois eu senti a queimação, mas não uma queimação de dor, era a queimação de Aura modificando meu corpo, o meu baço queimou tanto que ele ficou totalmente vermelho, e a coisa mais doida em toda aquela situação era que quando eu senti aquele poder em meu braço, eu só consegui pensar uma coisa…“não, não é assim”.
Não sabia como, mas eu sabia muito bem que minha aura estava incompleta naquele ponto, mas consegui me manter tranquilo no meio do grande poder e ataquei, foi a sequência de Jabs mais rápida e forte que eu já fiz com um braço só.
Eu fiz 30 sequências diferentes de golpes que fizeram meu avô se afastar pra trás, mas apenas quando eu levantei minha perna e chutei ele na barriga, foi quando eu fiz ele ser jogado pra trás de novo, e eu finalmente saí da muralha de mãos que me mantinha encurralado.
Mas então começou, eu respirei o mais fundo que consegui, mas o vovô continuava na mesma pose, droga, ele correu na minha direção, e continuou me atacando, e agora, quanto mais eu batia, mais dolorido meus punhos ficavam, parecia até que eu tava acertando uma parede.
Deu pra eu desviar dele mais 12 vezes, na décima terceira, eu fui atingido, claro, consegui bloquear, e quando eu estava prestes a gritar, eu vi que não quebrou dessa vez, ah vovô. E com aquela sensação, eu continuei atacando, com a minha Aura diminuindo a dor em meu braço fraturado.
Eu e o vovô em algum ponto paramos de avançar ou desviar, eu comecei apenas a dar a ele vários socos e depois defender os poucos golpes que ele me dava. Um concurso de macheza, onde eu era jogado pra trás, mas andava de novo pra frente, recusando com que meu corpo fosse jogado pra trás tão fácil.
Algo bem difícil, já que cada golpe do vovô parecia carregar todos os guerreiros que ele já derrotou, e a cada golpe eu conseguia ver, uma multidão de cadáveres tão grande que mal dava para chegar até o fim, mas eu ainda consegui aguentar, pelo menos o suficiente pra eu diverti meu avô, pois logo depois que eu fiquei mais fraco, ele me deu um chute, um chute 20 vezes mais fraco que o primeiro golpe que ele me deu, mas eu nem ligava.
Enquanto olhava pra cima, ria e achava engraçado tudo que aconteceu bem na minha frente, o meu avô, mesmo com toda a idade dele, não era apenas forte, ele tinha controle, um controle tão grande que ele conseguia entender direitinho quanta força em específico seu querido netinho aguentava.
E depois de ser tratado pelos Curandeiros do lugar, eu fiquei empolgado pra ver o que iria acontecer agora, tudo enquanto meu pai me pegou e me levou pra bem perto dele.
Pai: não importa quanto tempo se passe, eu amo ver sua mãe espancando seu avô
João: espancando? A mamãe é tão forte assim?
Pai: como você acha que ela conseguiu a benção do vovô?
E eu olhei pra frente mais uma vez, vendo minha mãe, uma mulher tão linda e doce que às vezes eu esquecia que por trás daquela aparência, ela tinha um veneno letal junto dela, e pela forma que meu avô, mesmo com a mesma pose que ele usou em mim, parecia muito mais focado do que antes, já dizia muito o quão interessante seria a luta dos dois.

