Apesar de estar realmente intrigado com o que o meu pai falou, assim que entrei no templo, e fiquei frente a frente com a Deusa da Lua, não vi a necessidade de falar nada pra ela, apenas olhar para a chama em minha mão, eu entendia melhor o medo que eu carregava em meu peito.
Eu sentia, não era um simples medo de que eu iria me machucar, era o medo de que essa chama, não importa o quão instável ela fosse ela estava em minhas mãos, meus cuidados, e que seu cometesse um erro, ela poderia causar problemas pra muitos além de apenas eu.
João: essa chama é a minha responsabilidade, e apenas quando eu entender de verdade o terror e destruição que ela fará se ela não for tratada de forma certa que eu realmente poderei cuidar dela direito
Jaci: é assim que se fala.
A Jaci falou aquilo, enquanto criava mais uma vez a grande floresta que eu já queimei e fui queimado tantas vezes que eu até já perdi a conta…eu estava com medo, medo de entrar na floresta, mas assim como aconteceu muitos dias depois daquele, quando eu entrei, meu medo me fez ver coisas onde eu só via arbustos, me fez ter mais atenção pro fogo não consumiu as árvores.
E além de tudo, eu já tinha passado por essa floresta tantas vezes, que mesmo que a criação dela fosse aleatória, no meio da aleatoriedade, eu aprendi a encontrar o caminho, um arbusto que por acaso não tem espinhos, uma árvore grande demais pra minha tocha a queimar, um canto de terra onde não existe nada, e pequenas quedas que eram atalhos.
Mas apesar de todos os meus progressos, a ponto de que faziam dias que a minha floresta não queimava, eu ainda não conseguia sair da floresta, porque mesmo com o maior cuidado do mundo, haviam várias lascas de brasas, lascas que caiam nas moitas e criavam incêndios, outras que demoravam para acender, outras que se espalharam melhor em outros arbustos, outras que eram carregadas pelo vento e queimavam a milhares de metros de distância. E eu não deixar nenhum pra trás, o medo da chama e o medo que a floresta queimasse era tanto que eu corria a grandes distâncias apenas para aparar o mais inofensivo dos incêndios.
Cuidar de cada um desses incêndios era penoso e trabalhoso, a ponto de que eu não conseguia escapar da floresta, porque assim que eu estava perto do finalzinho, a tocha ficava tão pequena que se apagava no meu corpo.
Jaci: muito bem, o medo voltou pra você.
Eu nem precisei questionar muito o que ela quis dizer com isso, eu já tinha entendido, mas depois de isso acontecer 9 vezes apenas hoje, não consegui diminuir aquelas vozes intrusivas em minha mente, pensamentos negativos que diziam “eu devia ser mais rápido”, mas ser mais rápido apenas fazia a floresta queimar…e enquanto eu olhava pras minhas mãos, eu apenas conseguia pensar se eu conseguiria sair dessa floresta algum dia, mas eu tentava apagar esses pensamentos, pensando mais “no presente”.
Isso até que a Deusa da Lua apareceu bem do meu lado, com um sorriso que dizia que ela já esperava que isso iria acontecer.
João: desculpa ter falhado de novo
Jaci: quem disse que você falhou?
João: aaaahn, você, não foi?
Jaci: e quando eu disse isso?
E quando ela falou aquilo, comecei a lembrar, lembrar de todas as vezes que eu falhei, e quando eu fui até ela, ela apenas perguntou se eu queria tentar de novo, e eu sempre falava “sim”.
João: bom, você nunca disse que eu falhei, mas se você deixava eu fazer tudo de novo, essa não era a forma de dizer que eu falhei?
Jaci: bom, sim, você conseguiu chegar no ponto onde você pode controlar suas chamas, antes delas se tornarem um incêndio dentro de sua mente, então vamos ir para o segundo estágio
João: e depois disso eu posso lutar usando a Aura?
Jaci: bom, consegui você já consegue, mas sinto que você já sabe que não pode usá-la ainda.
Eu fiquei calado em ouvir aquilo, pro melhor ou pro pior, a Deusa da Lua tinha razão, por mais que ficasse chateado e com muita raiva ao ouvir aquilo, minha técnica não tava pronta pro combate real, ainda.
João: bom, e agora o que?
E sorrindo, ela desfez a floresta e colocou uma gigantesca fornalha na minha frente.
Jaci: agora você terá que aprender a manter esse caldeirão quente na medida certa, nem quente nem frio demais…
Eu olhei o caldeirão com muita atenção, até que eu olhei pra ela querendo perguntar algo, eu tava com tanta coisa entalada, principalmente sobre como esse caldeirão podia muito bem ser apenas mais um dos pedidos dela, mas não consegui falar muita coisa.
Jaci: não se preocupe, esse é o último teste, quando você terminar esse teste, você já vai poder usar sua Aura de formas que nem conseguia pensar antes.
Não falei nada, depois de tudo que eu passei em todos esses dias, eu tava bem cético que esse seria o último teste, mas em uma compreensão que já dizia o quanto ela conseguia entender perfeitamente o que eu pensava, ela falou.
Jaci: essas palavras, você pode acreditar nelas, ou não acreditar, mas pra começar, você precisa apenas abrir suas mãos na frente do caldeirão, isso vai acender o fogo.
Assim eu obedeci, e como ela falou, debaixo do caldeirão, minha aura, concentrada em forma quente, vermelha e dançante igual uma verdadeira chama. Não sabia porque, mas eu sentia que aquilo não era a Jaci, eu fiz aquilo…é…é…EU FIZ AQUILO.
E depois de deixar meus sentimentos ficarem muito fortes, minha chama ficou tão forte que se tornou quase um canhão debaixo do caldeirão, fazendo ele se despedaçar em milhares de pedaços.
Enquanto eu via o ensopado de carne, vegetais e outras coisinhas se espalhando pelo chão, junto com os pedaços de ferro do caldeirão, perguntei.
João: ah, o que o caldeirão significa?
Jaci: é o seu corpo, você ganhou o foco pra concentrar seu poder de formas que não há desperdícios, e também aprendeu a controlar suas emoções, a ponto de que você não vai se desconcentrar numa luta de verdade, não importa o quanto a aura “estimule” seus sentimentos…mas ainda existe uma terceira coisa, o controle, seu corpo irá se acostumar com o tempo, mas até o maior gênio que já existiu precisa pelo menos controlar o próprio poder a menos que queira que seu próprio poder exploda seu corpo quando se é usado.
A Deusa falou essa última parte enquanto reconstruia o caldeirão, e colocava o ensopado de novo nele.
Joao: hum, isso me faz pensa no tipo de inferno que os guerreiros de rua passam
Jaci: eles são verdadeiros sobreviventes, apesar da Aura ser dita como a energia da liberdade, ela ainda é incompatível com fracos e incompetentes
João: a liberdade encarnada não pode ser usada por fracos e incompetentes, é quase uma contradição
Jaci: quase, só quase.
E ouvindo aquilo, coloquei o fogo embaixo do caldeirão novamente, eu tentei o máximo possível deixar a chama fraca, mas quando eu deixei a chama fraca demais, depois de alguns minutos, percebi que o ensopado no caldeirão ficou podre.
Jaci: acho que e nem preciso dizer que você também tem que aprender a usar aura o suficiente para não acabar se enfraquecendo ao invés de se fortalecer com ela
João: é realmente possível fazer isso?
Jaci: muitos usuários conhecidos como “envenenadores” usam sua própria aura pra enfraquecer a de seu oponente a ponto de virar um ponto fraco, então sim, é bem comum.
Hummmm, eu fiquei irritado bem rápido ouvindo aquilo, então eu levantei minhas mãos mais uma vez, me concentrei, e tentei o máximo possível manter o fogo do caldeirão controlado, mas a quantidade de Aura que eu podia controlar era muito sensível, a ponto do meu fogo fraco se tornar o mesmo canhão de labaredas que destruiu o caldeirão apenas com um leve descuido meu, quando eu me empolguei…um, dois, tres…
João: (respira fundo) ainda bem que você me ensinou como controlar minha raiva antes desse treino, senão as coisas podiam ter ficado bem feias
Jaci: ah, você não faz ideia de quantas vezes eu já ouvi isso.
E com um sorriso nostálgico, a Deusa da Lua olhou para o grande mar de estrelas bem acima de nós, enquanto eu tentava controlar meu fogo, ao mesmo tempo que contava, eu respirei fundo, e em segundos, cheguei ao número 50, deixando a comida no caldeirão apodrecer de novo, e com isso, eu coloquei mais fogo, e no meio de 5 explosões, eu cheguei ate o numero 100.
João: cento e um, cento e dois, cento e três…
BOM
João: cento e oitenta e quatro, cento e oitenta e cinco, cento e oitenta e seis…
BOM
João: duzentos e vinte sete, duzentos e vinte e oito, duzentos e vinte e nove…
BOM
E, o tecentos e trinta e três foi meu limite. e quando pensei naquilo, senti como a raiva que eu tentei o máximo possível para controlar estava escapando pelos meu dedos.
João: (respira fundo) chega por hoje
Jaci: você tem certeza?
João: sim, eu ja passei do limite onde eu posso tentar controlar minha chama
Jaci: você não quer nem só tipo, respirar um pouco e depois voltar?
Eu não sabia se a Deusa da Lua estava falando sério ou era apenas um teste, mas mesmo assim, eu falei.
João: não, ficar só irá deixar tudo mais complicado.
E então ela sorriu, um sorriso que já provava que era um teste.
Jaci: muito bem…muitos irão tentar dizer que o seu fogo é bem menor do que parece, ou que a floresta não é tão fácil de queimar, mas ninguém alem de voce mesmo consegue entender de verdade o quanto seu fogo realmente queima, e nunca deixe ninguém te enganar, mesmo quando estão fazendo isso pro seu bem
João: sim senhora
Jaci: ótimo, agora se prepare, seu velho vai querer muito falar com você.
E sorrindo, eu fui envolvido com a minha própria Aura, e não importa quantas vezes eu visse aquilo, encarar o grande vazio que minha alma passava sempre que entrava naquele lugar era algo lindo, assustador e inexplicável, tudo ao mesmo tempo.
Os grandes cometas pequenos que às vezes me atravessavam, a gigantesca bola de luz que era o Guaracy, que fazia a Jaci ser quase uma pedrinha perto dele, e todo o caminho que eu passava quando eu ia na velocidade da luz da terra, passando pelas grandes nuvens do mar banco, até finalmente voltar pro mar azul e encontrar meu copo.
Depois de passar por aquilo tantas vezes, meu corpo nem mais sentia o choque da primeira vez. E olhando ao redor, eu vi que estava ótimo, eu sentia o grande poder dentro de mim, o poder das areias e das marés. E a melhor parte era que eu iria testar esse poder com alguém que eu tava ansioso de ver.
Enquanto eu saía do templo de água e me encontrava com meu pai de novo, eu tava bem animado, enquanto ele tava animado por outra coisa.
Pai: e ai, ta empolgado por ter ficado de férias depois de passar pro terceiro ano
João: até que sim, pra um plano B, aquele lugar é bem bacaninha.
Eu gostava de ver meu pai feliz, mesmo com algo que eu tinha certeza que não iria fazer muito, mas como meu pai me convenceu, “é sempre bom ter um plano B”.
Pai: e ai, você é o seu avô vão fazer mesmo aquilo?
João: é claro, quando ele parou de lutar, e aprendeu como lida com o Lobo dele, ele quis me garantir que eu seria o primeiro a brigar com ele…
No meio das minhas palavras, fui tomado de nostalgia, o vovô sempre gostou do quanto eu gostava de violência igual a ele, eu lembrava nitidamente que foi ele que me deu minhas primeiras luvas de boxe, hehe, bons tempos.
Pai: lembra que ele brincava de lutinha com você quando era criança?
João: é, e ele sempre me deixava ganhar
Pai: acha que ele vai se segurar dessa vez?
Joao: hum, quem sabe?
Pai: como assim “quem sabe”?
João: ele se segurava comigo porque eu era muito fraco, mas com a força que eu ganhei, fico me perguntando se eu ainda posso ser considerado “fraco” pra ele
Pai: ah, é mesmo? Nesse caso tá tranquilo, ele vai pegar leve com você.
Eu queria argumentar com o meu Pai, mas eu sabia que nao podia, porque o vovô era um monstro, ele era um ex expurgador, um guerreiro da infantaria linha de frente que é especializado em destruir “demônios” como os Cavernosos.
Sapien primitivos que só pareciam humanos no rosto, mas eles não tinham empatia, compaixão ou qualquer coisa que pudesse colocá-los como humanos, além deles serem mais fortes do que qualquer guerreiro normal. E o meu avô lutou com monstros como esse antes do almoço, e agora ele era um Lobisomem, é, ia ser divertido encontrá-lo.
João: ele fez algum amigo lá?
Pai: por que não pergunta pra ele quando o ver?
E com isso, o papo morreu, comigo apenas imaginando o estado que meu avô poderia estar agora, apenas pensando na loucura que eu ia encontrar.

