Dessa vez eu tava bem mais adiantado do que muita gente, tava cedo ainda, muita gente ainda tava dormindo, o sol nem tinha saído, mas tinham loucos como o Luca e eu que não pareciamos dormir de tão cedo que nós acordamos.
João: eu não preciso dormir, eu preciso viver.
E pelo jeito muita gente tinha a mesma mentalidade que eu, porque na grande ilha onde a Elena treinava, existia uma multidão modesta com pelo menos 5 professores supervisionando aquele equipamento logo de manhã.
E mesmo em um momento tão cedo do dia, eles estavam ali, tocando uma música, e animando mais a dança com pedacinhos de pau e gritando como se aquela fosse a coisa mais emocionante de toda a vida deles.
E olha só, mesmo antes do sol nascer, a Elena estava desviando, girando no ar e se equilibrando nas ponta dos pés como se tivesse ganhado uma grande injeção de adrenalina no pescoço, mesmo que eu tivesse certeza que ela devia provavelmente ter acabado de acordar, assim como eu.
E dessa vez, ela tava lutando apenas com um aluno, mas aquele aluno em específico era bem melhor do que os dos outros dois, ela fez um grande arco de seu chute, um arco que o aluno desviou, e se apoiando no chão, ele saltou na direção dela, mas ela deslizou os pés no chão e depois o tirou bno meio do deslize pra atingir seu veterano bem nas costelas.
E mais uma vez, vi a “magia” que um guerreiros em técnica conseguia fazer, sem usar Aura, o veterano recebeu o chute da Elena bem na costela, mas no momento do impacto, o veterano girou o corpo na direção do golpe, rodopiando no ar algumas vezes, se mantendo relaxado o bastante não apenas para diminuir a força do golpe, mas conservar a força dentro dele próprio.
Ele ficou tão focado em conservar a força, que ele de uma cambalhota e se apoiou nas próprias mãos, girando e dando 4 chutes na Elena, aproveitando o quarto chute pra tentar enrolar as próprias pernas na cabeça da Elena, mas ela desviou pra baixo e tentou dar uma rasteira nas mãos em que se oponente se apoiava.
Ela derrubou o veterano, mas ele rolou numa velocidade tão rápida que ela não teve tempo de acerta-lo, e quanto ela o perseguiu, ele levantou o calcanhar pra cima, fazendo um movimento que quase acertou o queixo da Elena, mas ela desviou a tempo mesmo que o desvio tivesse feito o veterano dela conseguir se recuperar.
E quando o veterano foi novamente até ela, a Elena saltou, mirando na cabeça, mas o veterano desviou por baixo e tentou atingir ela na barriga, e então, um movimento que eu pensei ser impossível, aconteceu, a Elena colidiu o próprio pé com o pé do veterano, ela até alinhou o próprio pé pra conseguir jogar o corpo pro horizonte ao invés de ser apenas pra cima.
E copiando seu veterano, Elena não forçou a propria parada, não, ela deslizou no chão, usando todos os movimentos existentes pra conservar toda a força que ela recebeu do chute do veterano, e com o deslizamento bem feito, ela avançou até ele, s[o pra no meio do caminho, um simples chute mirando sua cintura a parar, e o pior, era que o desvio dela a colocou na posição perfeita de levar uma joelhada na cara.
Mas a garota era rápida, e antes da joelhada chegar, ela jogou a própria testa na joelhada, tentando minimizar os danos. O impacto foi seco, e minimizando um pouco mais os danos, Elena deu uma cambalhota pra trás, tentando não receber o dano todo na cabeça.
E com mais força conservada, Elena mirou a cabeça dele novamente, e quando ele jogou o rosto pra trás de novo, ela pulou e usou a perna de apoio pra chutá-lo na cintura, um chute que ele não conseguiu distribuir pelo corpo dele estar com o peso mal distribuído.
WOOOOOOOOOOOOOOOW, todo mundo ficou bem feliz, mas tudo estava começando ainda. O veterano foi até a Elena e começou a ser mais cuidadoso, ele ficou frente a frente a ela de forma tão abrupta, que a Elena diminuiu o ritmo e ficou alerta, até que os dois ficaram com os copos agachados por alguns segundos, fazendo movimentos simples, dando poucos chutes pra ter uma noção mínima se o outro tava na area de ataque deles, tendo resultados bem impressionantes.
Isso até o veterano agarrar a Elena com as pernas em um movimento surpresa e a arremessar no chão…eu não fazia ideia que isso era um movimento na Capoeira, mas ele fez uma “rolada da morte” com o corpo da elena, digno de um crocodilo, ele a girou no chão 3 vezes antes de se desfazer do agarrão.
A Elena se recuperou bem, ainda estava machucada e sangrando, mas não querendo parar, e tendo um pouco mai de atenção na minha namorada, vi a Elena se aproximando mais dele, e mais uma vez eles ficaram bem agachados, apenas esperando um ou outro dar o primeiro golpe.
Então a Elena tentou dar um chute aéreo, e mais uma vez o veterano desviou, mas dessa vez ela parou o ataque no meio do caminho e deu um chute nas costelas dele.
E com aquele chute, o veterano ficou paralizado, com o som leve de ossos quebrando e estalando tomando conta do pátio, e enquanto ele se recuperava daquela dor absurda, o segundo chute da Elena chegou, acertando o ombro dele e quase o deslocando.
E depois daquilo, a Elena olhou pro veterano, enquanto ainda dava um gingadinho, o veterano olhou pra ela, e pediu pra sair, e quando isso aconteceu, a Elena também pediu pra sair, mas ela nao veio diretamente pra mim, ela foi pra um cantinho e bebeu um pouco de água, e depois veio ate mim, e me deu um bom abraço.
Elena: você gosta tanto assim de me ver dançar?
João: gosto…
E enquanto eu falei aquilo, eu vi outra dança começando, e depois de um simples sentimento e camaradagem, tudo começou. Chutes sendo trocados, desvios perfeitos e golpes que eram tão aleatórios que se não estiver acostumado a imprevisibilidade ou quando se estava com uma reação bem atrasada, era impossível dizer de onde o golpe viria.
E no meio da imprevisibilidade, ainda tinha aquela grande conexão naquele treino, como sentimentos não eram transmitidos por palavras, mas de punhos, de chutes, de gestos no rosto, uma conversa silenciosa era criada no meio dos dois cachoeirenses, e mesmo não compreendendo totalmente, eu podia reconhecer o quanto era linda.
João: a arte marcial é realmente linda.
E falando aquilo, a Elena me pegou pelo braço e falou.
Elena: é…ela é mesmo, muitos a enxergam como um símbolo de resistência, mas mesmo que ela tinha muita força por causa disso, eu gosto de pensar que no meio daquela dor, algo incrível aconteceu no meio de tudo isso, gosto de pensar que assim como os negros evoluiram e nao sao mais escravos, a arte marcial evoluiu tambem, ela nunca ira parar de ser um simolo de resisencia, mas agora ela não é apenas isso, ela mudou e evoluiu assim como aqueles que a criaram, não é apenas luta, é calmaria, a pás de espirito, os movimentos livres, é como se cada movimento purificasse nossa alma mesmo sem saber.
Joao: talvez a capoeira sempre foi isso, só foi difícil de entender isso na época
Elena: hummmm, isso é algo bem interessante de pensar
João: mas não é apenas da Capoeira, de formas diferentes e de seus próprios jeitos, todas as artes marciais, pelo menos as modernas, tem esse princípio, libertar o ser humano da selvageria que ainda insiste em não desprender de nós
Elena: hihihi, você mesmo falou que eles podem ter sempre significado isso, e que apenas ficou mais fácil de perceber isso
João: eita, culpado
Elena: você fala como se fosse melhor se essa selvageria fosse tirada de nós.
Eu não respondi imediatamente, eu apenas a levei pra mais perto de mim e fiquei observando os movimentos dos cachoeirenses por um bom tempo. E ela me seguiu nisso.
Hehe, eles mudaram o ritmo da música, fazendo os capoeirense ficar tão rápidos que eles faziam apenas movimentos simples, mas eram movimentos tão rápidos que eles pareciam borrões.
Os pés deles davam mais de 10 chutes por segundo, os saltos deles pareciam durar segundos, e era quase como se muitas pinturas tentassem ser feitas com as pernas deles, mas eles eram inexperientes demais pra pintar o mundo.
Era hipnotizante, de milhares de formas diferentes, a ponto de eu os olhei o suficiente pra que o sol aparecesse no céu, e depois continuei a minha fala de antes.
João: a selvageria nunca poderá ser tirada de nós, porque ao mesmo tempo que somos inteligentes, nós também somos animais, tentar negar, prender ou ajustar a selvageria é que nem rejeitar uma parte de você, os loucos que criaram as artes marciais entendiam isso muito bem, porque o que nós precisamos fazer não é rejeitá-la ou prendê-la. Mas sim a entender, eu por exemplo, eu abracei minha raiva e agora que eu consigo satisfazê-la, sou mais feliz e tranquilo que milhares de pessoas que se dizem mais “civilizadas” do que eu
Elena: hihihihi, então devemos só abraçar nossa loucura?
João: não, é mais complicado do que isso, sim nós somos animais, mas também somos seres inteligentes, e felizmente nós temos regras, temos que seguir regras, sermos bons cidadãos, e principalmente precisamos entender onde mostrar nossa selvageria…
Falei aquilo enquanto colocava o indicado na minha cabeça e dizia.
João: …isso aqui é o que nos permite sermos mais do que animais, com o mesmo paradoxo que diz que é por causa disso que viramos algo pior que animais…(tosse) bom, mas para eu não perder o fio da meada, só dizemos que nós temos sim que abraçar e aceitar nossa selvageria, ao mesmo tempo que também precisamos controlá-la, a ponto de nos a soltarmos em lugares que podemos ser machucados, ou machucar outras pessoas, isso faz sentido pra você?
E quando olhei pra Elena, ela tava com olhos calmos, um olhar de alguém que pareceu atingir uma iluminação parcial, e naquele breve momento, onde só tinha eu e a Sapien ali, eu respirei fundo, e senti tudo ao meu redor sumir, os gritos, os sons, as pessoas, tudo sumiu, deixando eu e ela naquele breve momento, onde por um segundo, nós éramos as pessoas mais felizes do mundo.
Mas ela nem tinha acabado, ela me segurou pela bochecha, e me aproximou pra um beijo, um beijo de criança, mas que me fazia sentir cheio, naquele momento, eu não precisava de mais nada no mundo.
Elena: mais do que você imagina, hihihii…
Ela tava feliz, mas então, alguém a chamou, depois da roda voltar.
Elena: opa, parece que é a minha vez de novo, bom, agente se vê outro dia, tchau querido
Joao: tchau querida.
Ela ainda tinha muitas lutas pra participar antes de poder ir pra casa, mas mesmo assim, ela parecia bem feliz de ter me visto, e com o grande Guaracy finalmente voltando a dar a graça do meu lado do planeta com o seu brilho, eu pensei que o meu encontro com a Jaci seria bem doido também, fiquei pensando o que a Deusa da lua iria me ensinar hoje.
Eu pensei isso, mas assim que eu cheguei em casa, comecei a ficar com um medo bem grande do que poderia acontecer, já fazia um bom tempo que eu ainda tava naquele treinamento de controle de chamas, e eu comecei a ficar muito bom nele, mas comecei a ter pavor de fogo…
Quando cheguei em casa, vi que meus pais tinham acordado, então perguntei, no mais profundo desespero mesmo.
João: pai, a Deusa da Lua já te fez ter medo de alguma coisa?
Pai: vaias
João: é sério?
Pai: sim, mas até que foi melhor
João: por que?
Pai: porque, infelizmente filho, existem coisas no mundo que é preciso você ter medo pra sobreviver.
Aquela simples frase me fez ficar sem palavras enquanto eu me arrumava pra visitar a Deusa da Lua, eu nem tinha palavras pra descrever o que eu tava sentindo, eu apenas pensei, sentindo com o encontro com a Jaci seria único também.

