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No topo do mundo 🥊1
🍕 comemoração 🍕 parte 3
2013 palavras • 11150 caracteres • ⏱ 8 min 03 s

🍕 comemoração 🍕 parte 3

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Eu me virei apenas pra garantir que era ela, e como eu pensei, a Thaina estava ali, me olhando com um rosto que tinha tanta raiva que eu tava sentindo que ela iria me atacar a qualquer momento, mas ajeitando meu corpo pra aguentar golpes surpresa, olhei pra ela, a desafiando a me atacar, e depois de fazermos um concurso de encarar por alguns segundos, decidi falar.


João: pode se sentar


Tainá: hehehehe, obrigada


E depois daquilo, aquele olhar que parecia cheio de loucura nublada, brilhou, como se minhas palavras tivessem a despertado de algo dentro da cabeça dela, o que me deixava bem feliz. 


Ela foi pro outro lado da mesa e encontrou uma cadeira bem pra frente de mim, e comeu uma das pizzas na hora, eu nem sabia que tipo de pizza era, de tão focado que eu estava em entender aquele olhar.


Tainá: eu quero conversar com você


João: sobre o que?


Thaina: como é que faz pra ir pro outro lado do tatame?


João: você irá para lá, quando estiver pronta


Tainá: pronta como?


João: forte o bastante pra aguentar e dar socos, técnica o bastante pra dizer que é pelo menos uma amadora, e resistência mental o bastante pra dizer seu copo pra se calar e apenas aguentar…mas isso é só o básico pra poder entrar lá


Taina: mas eu já tenho todas essas coisas


João: não o suficiente, você precisa de mais, muito mais, e quando você ir pro outro lado, você vai perceber que todo o preparo que você deu a si mesma, ainda não foi o suficiente.


E depois de ouvir tudo aquilo, a Tainá olhou pra mim, com o brilho do olhar dela sumindo, como se o caos dentro da cabeça dela estivesse tomando o controle dela novamente


Thaina: mas e se mesmo assim, eu quiser ir pra lá agora?


Joao: aí você teria que falar com o Mestre, não comigo


Thaina: sei não, as vozes dizem que eu tenho que falar com você


João: vozes? Tipo, pensamentos intrusivos?


Thaina: não...


E com um sorriso sem graça, e ao mesmo tempo feliz, por estar mostrando isso pra mais alguém, ela levantou o próprio colar de girassóis, como se aquilo fosse uma prova do que ela iria falar e disse.


Thaina: eu tenho a maldição das falsas vozes…rostos, vozes e às vezes até toques que não existem se manifestam na minha cabeça, essas imagens e vozes são coisas que só existem na minha cabeça, cada Curandeiro que me tratou garantiu que nada do que eu vejo e ouço não é real…mas ainda era muito difícil pra mim perceber que nada disso é real


João: meu deus, deve ser o inferno


Tainá: “inferno” é um eufemismo comparado com o que eu passo, mas a pior parte…é descobrir que nenhum dos presentes dos deuses podem me ajudar


João: nenhum?


E mais uma vez, o olhar da sapien mudou, como se apenas pensar naquilo a deixasse com um gosto ruim na boca.


Tainá: mudar pra lobismulher ou zumbi não iria adiantar, minha mente iria continuar a mesma…isso dói, isso irrita, isso frustra, eeeeee…cansa, é cansativo ouvir essas vozes o tempo todo, muito mais cansativo que qualquer outra coisa


João: nem consigo imaginar como é viver assim.


Não tentei nem dizer algo bonitinho ou pensar demais para confortá-la, eu sentia que naquele momento, ela iria me contar mais coisas se eu não fosse totalmente profundo e apenas fosse o mais sincero do mundo com ela.


Tainá: não tente, qualquer coisa que você imagina é ainda pior na realidade


João: é por isso que você veio até o dojo e tentou lutar contra um campeão:


Tainá: sim…as vozes, elas falam pra eu gritar alto, pra eu bater em coisas, e pra eu machuca pessoas


Joao: sinistro


Tainá: algumas delas até dizem pra eu assediar algumas pessoas que eu conheço, mas essas são bem mais fáceis de ignorar


João: hummm, algo me diz que essas vozes não são da maldição


Tainá: possivelmente.


Algo me dizia que ela falou aquilo mas pra diminuir o clima tenso do lugar, falhando miseravelmente nisso, mas ainda querendo deixar a garota mais calma, eu peguei uma pizza de chocolate especial, que quando recebia uma mordida, o chocolate dentro da boca dela virava uma mãozinha e brigava com a língua.


Joao: ouvi dizer que essa pizza é ótima pra aprender beijos intensos


Tainá: ta me preparando pra eu estar boa pra você?


João: nah, já tô comprometido, e eu gosto da minha cabeça grudada no corpo, obrigado


Taina: sua mina é muito sinistra


João: não, ela só pensa a mesma coisa que eu sobre traições, esse é um dos motivos de nós nos darmos tão bem.


A Taina então ficou com os olhos mais brilhantes, como se os olhos dela tivessem me lendo como um livro, e com um sorriso provocador ela falou.


Tainá: repito, ela deve ser uma garota bem sinistra


Joao: hehe, pior que é mesmo


Tainá: hmhm, ela parece uma garota interessante, queria poder conhecê-la um dia


João: eu posso apresentar vocês


Tainá: claro, nada me deixaria mais feliz.


E depois daquilo, a Taina ficou algum tempinho sem falar nada, conosco apenas brigando com as pizzas doces, que brigavam dentro de nossas línguas, a Tainá não tinha muita experiência, então muitas vezes a comida ganhava e fazia ela se engasgar, mas eu ja tinha tanta “experiência” comendo aqueles doces que brigavam com a língua que não precisei me esforçar tanto, até que eu percebi que a Tainá estava me olhando de forma super intensa e cheia de medo


João: o que você tá vendo?


Tainá: tem um bixo super doido bem no seu ombro, ele ta me falando o quando seu pescoço é macio e o quão fácil seria colocar uma faca na sua garganta


João: você não conseguir comprovar isso


Tainá: mesmo se eu te pegasse de surpresa?


João: garota, eu notei você olhando pra mim, você não tinha chance alguma de me pegar de surpresa.


Consegui ver no rosto dela um pouco de decepção consigo mesma e um pouco de felicidade por saber que ela não conseguiria machucar ninguém, e tentando incentivar as emoções positivas, perguntei.


João: você tem alguma técnica pra se acalmar?


Tainá: não


João: serio? Voce ate que aguentou muito até aqui então, por que não tenta contar?


Tainá: não acho que isso vai funciona


João: ah, vai, tenta, faz isso de cabeça.


A Taina tava um pouco cética, principalmente porque eu, alguém que não tinha um colar de girassóis, estava falando aquelas coisas pra ela, mas com um olhar que dizia que ela iria aceitar qualquer coisa a essa altura do campeonato, ela começou a contar.


Taina: um, dois, tres, quatro, cinco, seis…


Raony: ela vai chegar até o cem assim.


Ah e, o Raony tinha chegado na mesa a um tempo, eu quase esqueci que ele tava ali.


João: eu espero, isso só começa a realmente funcionar quando você passa da casa dos 200.


A Taina ficou de olhos arregalados quando eu falei aquilo, mas na mesma hoa se concentrou, e começou a entrar na casa do número trinta.


Raony: hummm, se eu tentasse fazer isso, provavelmente chegaria na casa dos mil


João: duvido


Raon: você não sabe o que eu passo no meu dia a dia, João


João: não sei mesmo, trabalhar, cuidar do próprio filho e ainda conseguir treinar, você ainda dorme?


Raony: não, eu parei de dormir já faz um bom tempo


João: nossa, como você aguenta fazer isso?


Raony: mais por sua causa, você é tão fraco comparado a mim, e mesmo assim você continua aguentando, aguentando e aguentando, como um adulto e seu veterano, me sinto na obrigação de ser mais forte quando você faz tanta questão de aguentar tudo que é jogado em você


João: o que eu aguento é só uma dorzinha de receber golpes de um cara maior e muito mais forte que eu, você tem que lutar com a própria cabeça enquanto ainda tenta manter todo…o compromisso que você criou no lugar…agora que falei em voz alta é algo bem emocionante também


Raonny: fico feliz que você não demorou pra entender.


João: e ai, como ta a Alice?


Raony: a mesma coisa que eu, tentando, muito, muito mesmo, mas ainda estamos sendo vencidos em existência por um bebe que nem consegue andar sozinho ainda.


Eu sempre ficava mal quando eu olhava o Raony desse jeito, ele já tava melhor, mas era nítido que ele não iria aguentar aquilo por muito mais tempo.


João: tem certeza que não quer ajuda? Tipo, sei que você deve cuidar da criança, mas…


Raony: NÃO, EU QUE FIZ EU QUE CUIDO…fui eu que quis isso


João: bom, é, mas isso significa que você não pode aceitar a ajuda de ninguém? Não parece que você vai aguentar muito tempo


Raony: acredita em mim João, eu to recebendo toda a ajuda que eu preciso, eu só…to com problemas por ser meu primeiro filho, só isso.


Eu olhei pro Raony enquanto comia uma pizza mais normal, eu não desviei o olhar dele em nenhum segundo, desafiando ele a comprovar que não estava mentindo, e apesar de olhar nitidamente cansado e quase estudo no olhar dele, não havia um único resquício de mentira, então deixei pra lá.


Joao: tá bom, você me convenceu, mas não preciso de dizer que qualquer coisa, eu vou estar aqui pra te ajudar


Raony: você não é o primeiro que me diz isso, acredite João, no primeiro problema, as coisas vão ficar mais tranquilas pra mim


João: hmhmhm, se é assim, porque você não cria um problema mais rápido?


Raony: simples, porque eu sou um idiota


João: sério? Por que?


Raony: porque eu quero ver até onde meu corpo realmente aguenta ir antes de não poder ir pra lugar nenhum.


Uma parte minha queria rir disso, mas eu não consegui, porque, mesmo em circunstâncias e situações diferentes, eu entendia perfeitamente o que o Raony sentia nisso.


Joao: entendo mano, entendo.


Eu tava bem feliz com o Raony, até que eu notei que a Taina estava bem à esquerda dele, mas diferente de antes, a garota estava com os olhos brilhantes.


Tainá: quinhentos e noventa e nove, seiscentos, seiscentos e um, seiscentos e dois, seiscentos e três.


E quando a garota viu que eu olhei pra ela, ela sorriu e falou.


Taina: você tava certo, contar é bem mais tranquilo do que as pessoas pensam


Joao: muitos subestimam como contar é sinistro, apenas o foco de dizer algo como quinhentos e quarenta e sete já é o bastante pra você se acalmar um pouco, agora pensa em fazer isso milhares e milhares de vezes


Thaina: nao preciso imaginar, e senti isso na pele, e eu gostei


E com aquela declaração, me senti orgulhoso, como o veterano dela, então relaxei pra tras e apenas aproveitei o resto do rodizio.


Nossa, o rodízio foi incrível, eu sentia que poderia explodir por causa da minha maldição da lactose ali mesmo, mas não, aquela maldita maldição sempre levava um ou até dois dias pra fazer efeito.


Bom, também fiquei feliz que pude colocar o papo em dia com os meus calouros e veteranos, ainda tínhamos um caminho bem grande pela frente, mas mesmo assim, sentia que aquele breve momento iria me deixar mais focado nos treinos para o próximo torneio.


Mestre: fiquem tranquilos e relaxem em casa, porque vocês irão queimar cada gordura que ganharam hoje


Todos: SIM MESTRE.


Ah eu ia relaxar hoje, porque amanhã, mesmo sendo o dia de visitar o vovô, eu não iria conseguir acordar feliz. 


Assim que eu cheguei em casa, meus pais sabiam que iria acontecer, então não falaram nada, apenas se prepararam pro que iria acontecer amanhã, e por mais que eu quisesse colocar toda a responsabilidade no meu eu do futuro, eu não podia aguentar, e dar uma risada sem graça enquanto eu dizia.


João: hehehe, eu sou tao idiota.


E depois de respirar um pouco mais, eu dormi, sabendo que eu ia sentir o inferno, mas se fosse durão pra aguentar, iria encontrar o paraíso logo depois.


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