Subi pro meu quarto sem nem tomar banho, isso era o quão doido eu estava naquele momento, peguei algumas pinturas, tanto antigas quanto novas, junto de alguns outros equipamentos comecei a analisar algumas delas.
As pinturas borradas, tortas e infantis da minha infância, mas que carregavam uma pura inocência, alegria e mente calma de alguém ignorante demais pra entender o mundo.
E minhas pinturas mais velhas, mais bonitas, mais bem feitas e com muito mais detalhes, mas que por muito tempo, pareceram vazias na minha cabeça por alguma razão.
E agora um terceiro desenho, um bem mais recente,
A grande transição dos dois anteriores, onde minha arte ainda estava mancada, mas agora, eu não estava tentando limpar a mancha no meu coração, mas moldá-la, decorá-la, e melhorá-la, com ela mesmo sendo uma mancha, eu ainda podia olhar pelo que meu desenho refletia com grande orgulho.
Gostei como nessas simples pinturas, como a da girafa de tamanho médio que eu fazia agora tinha uma complexidade tão grande, que mesmo com ela sendo ainda bem torta e um pouco ruinzinha, eu ainda conseguia olhar para aquela girafa que tinha muito o que melhora, e sentir orgulho.
Mas talvez a coisa mais engraçada em tudo aquilo era que mesmo com meu orgulho, eu ainda sentia que algo faltava em minhas pintura, algo que não parecia entender direito o que era tecnicamente.
Ainda tinha um tempinho antes de me encontrar com a Jaci de novo, então me organizei um pouco mais e com todos os equipamentos possíveis para fazer o desenho mais bonito que existe, lápis, borrachas, apontadores, e uma grade folha de papel na minha frente, olhei pra folha com bastante cuidado.
Frente a folha totalmente em banco, me lembrei daquele exercício que tive logo de manhã, me deixando bem feliz, mas no meio daquela folha em branco, olhei pra ela, imaginando o que eu queria pintar, e tentar entender o que estava faltando…
E depois de pensar bastante, não encontrei nada, como se fosse um quebra cabeça que muitas peças ainda estavam escondidas.
Pai: eeeeee, por que você tá esperando assim pra pintar filho?
Meu pai apareceu na porta, nem vi ele chegando, mas apesar de me sentir sujo depois de voltar a rua, eu sabia que eu tava “decente” o bastante pra não sentir vergonha do meu pai na porta.
João: tô pensando
Pai: no que?
João: tem algo faltando em minhas pinturas, não faço ideia do que é, mas ela parece estar…vazia, sem alma…como se ainda estivesse faltando um pedaço meu dentro dela
Pai: e como você coloca um pedaço de você numa pintura, filho?
João: entendendo por completo o que eu quero pintar
Pai: e o que você quer pintar?
João: eu ainda não sei
Pai: e isso é tão importante assim?
João: muito, aqueles que desejam expressar emoções conflitantes demais até para pinturas, usam o expressionismo, aqueles que desejam uma imagem simples, ou uma ideia na qual não se deve quebrar tanto a cabeça pra pensar, usam o Fauvismo, aqueles que querem se libertar completamente da limitação da realidade, usam o Abstratismo, aqueles que querem deixar uma mensagem tão clara que querem quebrar as barreiras da realidade, usam o surrealismo, aqueles que querem deixar algo subentendido, e disfarçado com algo normal no começo, mas que esconde algo bem mais profundo em uma segunda inspeção, buscam o realismo. Entender de forma precisa que lado da arte você quer apresentar, é algo muito importante na mente de um artista….
E eu continuava ali, apenas vendo a grande folha de papel em branco, tentando entender por completo minha arte.
Joao: claro que existem milhares de outros tipos de arte que essas, mas sinto que não deveria me prender a moldes, e só usa-los em inspirações, afinal, o que eu mais desejo nessas pinturas, é a liberdade, mesmo que eu não faça ideia qual liberdade eu quero espessar
Pai: bom, é fácil descobrir, é apenas pensar no que você tem pintado até agora filho, pode te dar uma ideia melhor do que você está fazendo, ou deixando de fazer nesse caso, porque, mesmo se você acha que as pinturas estão incompletas, ainda deve ter algo que você goste nelas, porque não sinto que alguém iria ser capaz de fazer tantas pinturas sem realmente gostar do próprio trabalho
Joao: hehehe, ah pai, você realmente subestima o quão longe alguém pode ir sem gostar do que faz
Pai: tá dizendo que não gosta do que você fez?
João: isso é o que eu to tentando descobrir.
Eu olhei pro papel, eu tinha a resposta na minha cabeça e no meu coração, cada desenho de animal fracassado, cada desenho fracassado de uma pessoa que eu amo, cada um deles apontava pra algo que eu não conseguia pensar e raciocinar direito pra dizer o que era, mas que tinha uma ideia bem precisa na minha cabeça, e enquanto comecei a desenhar, falei.
João: algo em mim quer colocar os animais como eles são, mas algo bem maior do que uma simples imagem realista pode dar.
E mais uma vez, ali estava eu, com o desenho de uma girafa, uma girafa que pro meu pai estava muito boa, mas pra mim, ela estava bem torta ainda.
Pai: o que você quer dizer com “bem maior”, filho?
Eu olhei pro desenho da girafa, pensando que todos achavam ela apenas um animal fofinho, mas não era, então bem devagar, comecei a mudar os ângulos, fazer os cascos da girafa dando chutes que fazia até almas ao redor dela fugirem de medo, coloquei movimentos no grande pescoço dela onde criava até mesmo redemoinhos, e coloquei uma forma que fazia parece que a girafa estava saltando para pegar algo, mas não era uma folha, era um passarinho no meio das árvores e folhas, tudo enquanto milhares de pequenas folhinhas de toda a savana estavam ao redor dela.
João: isso.
Meu pai olhou pro desenho, não entendendo direito a diferença dele pro outro.
Pai: o desenho é lindo filho, mas eu não entendo direito o que você quer que eu veja
???: ah, entendi, então você está dizendo que quer desenhar a “natureza” das coisas?
Nós viramos pra porta ao mesmo tempo, vendo que minha mãe estava na porta, ela entrou no quarto, com uma tranquilidade absurda, e agente só se afastou, dando ela o tempo pra analisar o desenho, até que ela falou.
Mãe: sim, os coices capazes de matar leões, os pescoços que são armas letais contra outros machos, e aquela grande boca que não é nada inocente, e come qualquer coisa capaz de entrar no alcance dela, sim, eu consigo ver a natureza perfeita do grande animal selvagem, é isso que você está querendo fazer filho?
João: ainda estou decidindo
Mãe: nesse caso, vamos te dar um tempo para pintar, e depois você desce lá embaixo, e mostra pra gente o desenho
João: claro, até daqui a pouco mãe.
E minha mãe, numa grande facilidade, levou meu pai pra fora do meu quarto e me deixou ali pra pintar, e depois de algum tempo, eu comecei a pegar um quadro bem maior pa proxima pintura, com 1 metro de altura e 2 de altura, eu tive que o prender na parede pra conseguir pintar direito.
E com uma criatividade tão grande que mal cabia em mim, comecei a dar pinceladas no quadro inteiro, pintando a pena pequenas pinceladas, esperando que as primeiras pinceladas secassem, mesmo que fosse apenas um pouco, pra depois começar a colocar mais camadas.
E depois de um bom tempo, eu criei uma grande pintura de um hipopótamo terrestre, um grande ser que não precisava da água para se manter fresco, ele na verdade era muito parecido com uma montanha pequena, junto de milhares de marcas de batalhas que eu imaginava dele ter vencido, junto com uma boca imensa, que podia desmembrar até os mais poderosos alunos e até alguns professores.
Depois de um tempo, vi que as pinturas do hipopótamo estavam muito simples, então comecei a enfeitar todo ao redor dele, fazendo folhas bem complexas, a ponto que eu tive que colocar detalhes super precisos em vários pontos, e com todas as folhas no ar, todos os corpos das presas dele no chão, consegui dar destaque ao simples hipopótamo sem relevos, com apenas 3 cores, contando com o vermelho que mostrava que ele não era um animal passifico.
E mesmo com as várias imperfeições da pintura, ainda me sentia bem tranquilo em trazer aquela pintura na vida, mas primeiro, queria mostrar pros meus pais.
Joao: ei, aqui, eu terminei.
Em segundos, minha mãe entrou no quarto de novo, e depois de olhar a pintura por alguns segundos, ela ficou impressionada, porque era possível ver tintim por tintim toda a brutalidade dentro daquele desenho, todo o egoísmo, toda a raiva e todo o terror que o hipopótamo realmente podia causar, a ponto que eu até botei como se a própria floresta estivesse fugindo dele.
Mãe: incrível, isso tá lindo demais, (se vira pro João)e aí, como se sente?
Ah é, eu me lembrei então que eu fiz tudo aquilo pra ver se eu realmente sentia que minhas pinturas estavam inteiras…e quando olhei pra ela, senti que ela estava bem melhor, mas ainda faltava alguma coisa.
Joao: ta melhor, mas ainda não ta perfeito
Mãe: ela nunca vai estar perfeita
João: é, eu sei.
E colocando o grande hipopótamo pra fora de casa, eu me preparei, porque mesmo que eu tivesse mais confiante com aquilo do que outras coisas, eu sabia que eu coloquei tanto conhecimento e tanto ódio naquea pintura, um ódio que eu sabia que aqueles doidos realmente tinham, que eu tinha medo deles se tornarem violentos também.
Mãe: tem certeza que quer fazer isso filho?
João: sim sim, qualquer coisa você só dá um jeito nele mamãe.
E com aquilo, coloquei minha mão em cima da pintura, e criei um grande hipopótamo de rochas feito por completo de tinta e esperei, pensando no que poderia acontecer, eu olhei pro hipopótamo, e logo, ele me lambeu no rosto, me lambuzando de uma tinta azul, a minha mãe riu e falou.
Mãe: é, acho que isso é uma prova perfeita pra mostrar que ele te obedece
João: bom saber, agora vamos ver.
Eu brinquei com o hipopótamo por 10 minutos, porque esse era o tempo que sempre levava pra técnica de Aura acabar, mas ela não acabou, e meio que sem saber o que fazer, eu deixei o hipopótamo se divertir longe dali, e eu entrei em casa pra comer um pouco. E depois de comer o café da manhã, me arrumar e me preparar para entrar na carruagem do meu pai, vi que o hipopótamo ainda estava ali, me esperando.
João: quanto tempo se passou?
Pai: uns 30 minutos, sem contar o tempo que você tava lá fora brincando com ele
Joao: hmhmhm, aquelas aulas realmente estão fazendo milagres comigo
Pai: você quer ir em cima dele?
João: não, quem sabe, ele pode acabar se desfazendo bem embaixo de mim
Pai: ok, mas ele vai ter que ir com você
João: ah, com certeza.

