Enquanto eu era limpado no rosto mais uma vez, com o sangue tirado do meu rosto e com meu olhar bem afiado na frente do zumbi, eu pensava que minhas chances eram bem pequenas, mas estavam bem longe de serem nulas.
Mestre: você fez um bando de amigos bem complicados
João: põe complicado nisso...
Eu queria continuar falando, mas então eu vi, o Zumbi sendo costurado e remendado, enquanto nunca tirava os olhos de mim, como um predador olhando sua presa.
João: olha o olhar dele, quando a luta acabar, eu vou ser capaz de sair do ringue com as minhas próprias pernas?
Mestre: apenas você poderá saber essa pergunta João.
E depois daquele pequeno manual de confiança, eu me levantei, batendo as luvas, e me aproximando bem devagar dele...E quanto mais eu chegava perto, mais eu sentia algo sinistro. Meus olhos arregalaram tanto que eles quase saltaram da minha cabeça, com a minha guarda forte, eu senti algo sinistro vendo a guarda do zumbi.
A...área de contato, eu conseguia ver perfeitamente o ponto que o zumbi poderia me atacar se eu não fosse cuidadoso, e ter essa percepção tão boa sobre o ataque do meu inimigo, apenas fazia pensar como eu estava prestes a enfrentar um monstro, mas mordendo o protetor de boca com toda a força, eu pensei numa estratégia pra entrar.
Mas se eu entendi algo no rosto do Zumbi, é que ele entendeu o medo que eu estava dele naquele momento, porque ele se aproximou de mim em um passo, ele se aproximou de mim em segundos, e "demorou" um pouco mais para atacar, uma demora que ninguém deve ter notado, mas pra alguém com percepção boa, iria perceber que eu decorei, e isso me fez ser acertado na hoa.
Depois dos primeiros socos, foi da forma que eu imaginei, os golpes deles eram muito pesados, mesmo defendendo, eu sentia meus ossos tremendo, meus musculoso formigando e seus órgãos chacoalhando, estava longe de ser forte como um soco do mestre, mas ainda era o suficiente pra eu ficar muito mexido.
Mas eu não podia apenas desistir da batalha, então eu me firmei, e esperei o momento pra atacar, não importa o quão forte ou resistente ele fosse, uma hora ou outra ele teria que parar para respirar.
Minha respiração ficou bem pior do que eu pensei quando ele terminou de bater, e mordendo o protetor de boca com toda a força dentro de mim, eu me aproximei bastante do zumbi e comecei uma sequência de jab, cruzado, ura, peito, e depois me afastei.
Depois de acerta-lo na primeira vez, ainda conseguia sentir bem a diferença de força, mas o medo principal havia sido quebrado, e com isso em mente, eu consegui me aproximar dele com bem mais cuidado.
Infelizmente, apesar da minha força ter aumentado e muito graças ao primeiro ataque, minha imprudência também, eu defendi um jab e um cruzado, me sentindo confiante o bastante para tentar um jab, mas naquela abertura que deixei na minha guarda por causa do jab, eu levei um soco no rosto que chacoalhou bem o meu cérebro, eu fiquei com a visão ruim, tendo um medo profundo de sequer abrir os olhos, por ainda não estar acostumado com socos na cara potentes como aqueles.
Mas o zumbi não se importou, ele avançou até mim e começou a me bater de novo, eu apenas consegui empurrá-lo pra longe pra me proteger, e assim que ele preparou um chute na cabeça, eu consegui desviar e chutar primeiro, o chute que dei na barriga dele não foi tão efetivo assim, mas me deu chão pra entrar com mais uma sequência de um jab, um direito embaixo, e uma finta, que eu fingi ser um peito do pé na cabeça, mas na verdade, era um chute cobertura.
Hehe, quando fiz aquele movimento, apenas consegui pensar que acabei infectado com as técnicas da Elena, porque o Zumbi não tava esperando nem um pouco por aquele golpe.
Meu chute rasgou um pouco das costuras do corpo dele, mas tomado pela adrenalina de tê-lo acertado, eu continuei batendo, cruzado, aper, peito, faca, até que eu dei um soco no rosto dele, e pesar da grande defesa, eu ainda consegui rasgar as costuras que mantinham os braços juntos. Eles ainda estavam longe de cair, mas logo quando tudo pareceu que ia ficar mais sério, o primeiro tempo da luta acabou.
Eu tava aliviado de formas que nem sabia expressar em palavras direito, mas quando cheguei no meu canto da arena, só consegui pensar que estava chegando no limite.
João: não sei quanto tempo eu aguento isso
Mestre: só tem que aguentar mais um pouco, seu oponente ja não aguenta mais nada, olha pra ele.
Eu olhei com toda a força restante no meu corpo, mas mesmo com as costuras ao redor do coro, eu apenas conseguia enxergar um zumbi que parecia muito longe de cair...e de forma contraditória, eu senti algo muito fundo em meu coração.
"Eu quero fazê-lo cair".
Fiquei levemente impressionado com a minha linha de pensamento, mas o que realmente me impressionou foi meu sorriso, que estava cheio de determinação, apenas perceber isso me deu uma dose nova de adrenalina que nem eu sabia ser possível ter.
Eu me levantei da cadeira pouco tempo depois e andei devagar na direção dele, e quando ele me deu um chute peito, eu joguei meu corpo na perna dele, o desestabilizando e conseguindo acertar ele com um soco bem no rosto, e mais uma vez ele me deu uma saraivada de 4 jabs e um frontal que me jogou pas grades.
Logo ele correu tentando me encurralar, mas no meio da corrida dele, eu desviei pro lado, mas em meu desvio, o Zumbi arrastou os pés para minha direção em uma fluidez tão alta que eu quase não consegui defender o chute faca, e mais uma vez, eu senti meus ossos trincando,...Ai, ai, AI AI AAAAAAAAAI. Isso doeu demais, mas eu não podia parar.
A adrenalina conseguiu diminuir a dor, mesmo que ainda tivesse bastante, então eu defendi o máximo que conseguia, sendo acetato de todos os ângulos, mal conseguindo achar uma abertura até que o movimento do zumbi parou, e logo eu voltei a acerta-lo.
Em um chute ura giratório, eu consegui desfazer fios o suficiente para fazer o braço do zumbi cair, e mesmo tentando não me impressionar, eu fiquei impressionado com o que eu fiz, mas a grande impressão não durou muito, porque logo depois o Zumbi deu uma sequência de golpes em mim, com vários diretos e cruzados e com as pernas dele me fechando totalmente.
E depois que ele terminou a sequência, eu tentei entrar, mas então eu percebi que o braço dele ainda tinha o cotovelo, e por causa disso, ele conseguiu me dar um cruzado apenas com o cotoco do braço...eu nunca imaginaria que um golpe sem um punho podia doer tanto, mas o Márcio acabou de me provar que sim, isso era possível.
Eu não desisti, mesmo parado por aquele soco, eu ainda revidei com um soco, um chute e outro soco...Mas antes de continuarmos, o round acabou...e nós dois só notamos o gongo depois do Mestre me segurar pelo braço.
Mestre: se acalma um pouco João, o round já acabou.
Apesar de ainda estar todo agitado pela adrenalina, enquanto ela descia devagar, e eu sentia cada vez melhor toda a dor ao redor do meu corpo inteiro, agradeci ao próprio Guaraci por ter aquele descanso, e como eu já imaginava, quanto mais calmo eu ficava, mais difícil ficava de me manter em pé, o mestre tentou me ajudar, mas eu recusei, mesmo com muita dor, eu queria ver se eu tinha esse privilégio, de conseguir voltar no banco com as minhas próprias pernas.
Eu andei devagar até a cadeira, e já tinha corrido maratonas, contando a ilha a pé muitas vezes e amava andar. Mas ali, com a diferença apenas de alguns passos até o meu banquinho, a caminhada pareceu durar uma eternidade.
Eu me senti chegando no paraíso quando eu cheguei no banquinho, a esponja que era apenas comum a alguns segundos atras pareceram toques vindo dos próprios anjos.
E apesar de tudo isso e meu rosto inteiro estar dolorido, eu ainda tinha uma certeza muito grande de como meu rosto estava.
Pelo menos eu melhorei, minha visão já não entrava no estado de concentração total e deixava todo o lugar a minha volta em um grande borrão.
Eu ainda conseguia ver perfeitamente as luzes ao meu redor, a grande multidão, meu mestre e...olha, meus pais vieram me ver, não achei que os dois estariam aqui ao mesmo tempo por causa do trabalho, mas eles estavam.
E no meio do horizonte, eu vi duas mulheres correndo na minha direção, uma era uma morena que já tinha meu coração como sua poesia, Elena, e a outra era uma novata que eu já estava pensando que podia dizer que era a minha protegida, Tainá.
Mas antes delas chegarem onde eu estava, a premiação começou. Eu respirei fundo, me levantei, e recusei qualquer ajuda pra chegar ao Guaracy, sentindo o mesmo desconforto e dor de fazer isso pela primeira vez, mesmo que sendo de forma bem menor que antes.
Minhas pernas estavam tremendo, meu corpo estava todo dolorido e minha cabeça dava voltas pelo ambiente, mas eu ainda queria me dar esse direito, o direito de entrar e sair dessa imensa arena com nada além das minhas próprias pernas, mas eu ainda não sabia se era forte o bastante pra me dar esse direito.
Quando ficamos lado a lado um ao outro, uma grande luz divina apareceu acima de nós, e mesmo com o corpo todo machucado e dolorido, quando as mãos do grande ser iluminado se formou entre nós, eu me sentia absurdamente passifico, de uma maneira que eu nem sabia ser possível. E no meio disso, eu ouvi o grande Deus do Sol falando.
Guaraci: senhoras e senhores, vimos muitas belas lutas hoje, esses dois jovens entregaram suas almas e seus corpos no combate e nos deram um excelente show, e mesmo que me entristece é que escolher um deles pra ser o vencedor, depois de tudo que eu vi nessa arena, eu apenas posso dizer, que o vencedor é Marcio.
E ele levantou as mãos do zumbi, e eu não vou mentir, eu fiquei muito irritado, sim, eu fiquei bem irritado, tentei me manter calmo dizendo que eu não era fraco, o Márcio que era muito forte.
E com o que o Guaracy falou, diferente do último torneio, a grande luz do sol apareceu bem acima de noz e desceu de forma bem devagar até mim, a do Márcio era de ouro, enquanto a minha era de prata, e mesmo não sendo um ouro, eu tava bem feliz com o que eu consegui.
E mesmo não ganhando a prata, como se eu tivesse ganhado o próprio ouro, todo mundo me abraçou, me deu tapinhas nas costas, meus amigos mais íntimos me abraçaram, e a Elena me encheu de beijos.
Fiquei bem feliz em ver as coisas ao meu lado, vendo como o Zumbi estava sendo ovacionado com sua própria família também.
E depois de um pouco de tempo de comemoração, e depois de uns pedidos para todos se acalmarem, a nossa multidão de adoração se afastou bem devagar. E eu e o Marcio tivemos um momento pra conversas.
João: parabéns
Marcio: você também, é incrível que chegou tão longe com esse corpinho.
E com um pouco de vergonha, cobri um pouco meu corpo, se tinha algo que eu tinha muita vergonha era esse corpinho de 16 anos ainda em desenvolvimento.
Muitos diziam que não precisava apressar para ser adulto, mas se tinha algo que eu ansiava muito era chegar o momento onde essa barreira de infância sairia de mim, e eu podia finalmente ter o corpo pra aguentar combates de verdade, mas antes de eu entrar numa grande espiral de pensamentos, eu mexi um pouco minha medalha e falei.
João: agora nós dois estamos empatados com prata e ouro, a próxima vai decidir tudo
Marcio: será?
João: hmhmhm, é claro, como pude esquecer, ainda tem o Ivan
Marcio: exatamente, se fosse você eu ficaria atento naquele lobinho mais um tempo.
E com uma risada grande mostrando a nossa despreocupação , nós nos despedimos, e enquanto eu saia da arena, o Mestre chamou minha atenção mais do que tudo.
João: ai Mestre, agente vai ter outra festa da pizza:
Mestre: não não, tá cedo pra isso, e com a cerimônia de troca de faixas, sei que você não quer realmente ficar com muita comida gordurosa agora.
Ah, eu queria, mas eu entendia o que o Mestre queria dizer, apenas fiquei calado e comecei a olhar as batalhas dos meus parceiros, e enquanto olhava eles, mas eu senti que tv me distanciando de tudo, e apenas pensava na minha troca de faixa, ponto que até mesmo aquelas mulheres de lutas estivessem bem menos focadas em minha cabeça.
Elena: tá pensando na sua troca de faixa?
João: sim
Elena: fica calmo querido, tenho certeza que qualquer coisa que a graduação seja vai ser mais fácil do que esse grande torneio que você ainda persiste em participar
João: é, verdade
Elena: ta sentindo dor em algum lugar?
João: não, mas ainda deve ser a adrenalina no meu sistema, eu com certeza devo sentir bem melhor quando eu me acalmar um pouco
Elena: é, sei como é isso.
E mesmo não prestando total atenção na luta, eu ainda olhei pra baixo, pensando em uma coisa em específico.
João: já fez sua graduação?
Elena: ainda não
João: quer que eu apareça lá?
Elena: obrigado amor, mas na preciza
João: como é a sua graduação?
Elena: não muito diferente da sua, primeiro fazemos uma apresentação solo, sem brigas, depois agente mostra que estamos acostumados a mudarmos nossas velocidades com o ritmo da música, e agente principalmente faz uma pequena luta para mostrar nossas habilidades...e eu tenho certeza que vou ir muito bem na minha graduação
João: com toda certeza...me faz até querer ver você lutando.
Elena: não poderia pedir isso pra você, já tem tanta coisa que você precisa fazer
Joao: eu me sinto tão mal fazendo isso, ja que você vem ver os meus torneios, então sinto que deveria retribuir
Elena: eu só to sendo egoísta, ver você lutando me acalma, mas ver alguém tão importante pra mim na minha graduação com certeza ia me deixar nervosa, desculpa pelo tratamento "dois pesos, duas medidas", mas espero que entenda
João: com você explicando tão bem assim, como não poderia entender?
Elena: sendo um idiota que nao liga pros meus sentimetos
João: coisa que eu não sou.
A Elena sorriu quando falei aquilo, e ficou aconchegada em mim, apesar de todo o grito e violência ao redor da gente, e falou.
Elena: é, eu sei.
E com uma calmaria chegando em meu coração, uma que eu não pensava ser possível naquele ambiente, eu senti que, mesmo que as coisas ficassem mais complicadas, mesmo que meu corpo ficasse mais pesado, e mesmo que a Aura que eu tanto busco viesse com mais problemas do que benefícios, eu senti que, enquanto a Elena estivesse do meu lado, tudo estaria perfeito.
João: eu te amo Elena
Elena: eu também te amo João.
E com uma medalha de prata, mas com um tesouro bem maior bem do meu lado, tentei ainda me concentrar nas lutas abaixo de nós, mas ainda tendo problemas, como me concentrar nas lutas agora fosse o maior desafio da minha vida agora

