Assim que sai da casa dos irmãos, fiquei andando um pouco por aí, até chegar na praça pererê depois de algum tempinho. A praça em si era bem doida, ela tinha uma grama e verdade muito bem cuidada, uma grande grade pra impedir que bola fosse para milhares de outros lugares, e principalmente grandes tornados no meio delas, para ter mais um incentivo pra treinar.
Era nítido que aquele campo não era para iniciantes, mas fora da quadra, por causa da poeira, a grama alta e os grandes tornados. Eu não conseguia ver nada além de um grande borrão na minha frente, então entrei pra ver se eu conseguia vê-los melhor.
Fiquei um pouco preocupado em ver que é tão fácil assim entrar ali, mas devia ser bem seguro pra não ter muitas defesa no lugar, então não pensei muito nisso.
E olha, assim que entrei, já senti uma grande pancada de Aura, como se antes do vento chega até mim, todo o lugar quisesse me empurrar e puxar pra milhares de direções diferentes e conflitantes, e quando o vento chegou, me coloquei de forma instintiva na minha posição de combate, e mesmo que fosse bem desconfortável andar com aquela pose, eu precisava disso pra não sair voando…e o Nilo tava passando constantemente por esse lugar, sinistro.
E quando olhei pra cima, vi que ainda tinha muita poeira por causa dos tornados, mas mesmo assim consegui ver os uniformes brilhantes e totalmente chamativos que estavam na minha frente, e apenas pensar que o no meio de toda aquela confusão estava o Nilo, me deixava empolgado em saber todas as doideiras que ele devia estar passando naquele momento, mas enquanto eu estava procurando no meio de todos eles qual era o Nilo, alguém se aproximou de mim.
Era um homem alto, com barba preta e rala, um cabelo ondulado pra baixo, junto com um apito e uma prancheta, que me mostrava sem dizer nada que ele devia ser o treinador desses garotos.
Mas o que mais deixou claro que ele era um treinador, é que diferente de mim, ele andava de forma calma e despreocupada, usando constantemente a própria Aura pra fazer uma espécie de redoma que impedia os ventos chegarem até ele.
Treinado: ola jovem, veio se inscrever?
João: ah nao nao, só vim ver um amigo meu
Treinador: qual o nome do seu amigo?
Joao: Nilo
Treinador: ah, o jovem Nilo, ele ta a.
O treinador então apontou pra um lugar, onde o Nilo estava treinando com algumas pedras quase caindo na cara dele, não as deixando encostá-lo enquanto ele corria em zigue zague.
Treinador: quer que eu te explique como usar minha redoma
João: sim.
Aprender a técnica para não ser levado pelos grandes ventos foi bem mais simples do que pensei, e não estando tão preocupado em voar no meio dos ciclones, consegui olhar um pouco melhor onde todos os alunos estavam.
E nossa, os alunos não estavam apenas usando os rochedos dos ciclones, eles estavam aprendendo a manipular as grandes correntes de ar e aura, também como aguentar grandes impactos, e também como manipular as próprias pernas a ponto delas em vários momentos virarem cobras, e outros ea momentos em que as penas pareciam tão duras quanto rochas.
João: humhumhum, os objetivos podem ser diferentes, mas no fim, as artes marciais não mudaram muita coisa.
Gostando muito do que eu vivia, eu andei em um cantinho e me apoiei e um ponto da grade, apenas esperando o intervalo terminar, demorou bastante pro intervalo chegar, mas pelo menos, no meio daquela confusão, consegui encontrar o Nilo, depois de perdê-lo quase 10 vezes no meio da confusão daquela estranha quadra.
Olhar o Nilo correndo, pegando coisas, aprendendo a disparar em velocidade, e parar aquela mesma velocidade absurda, junto com um imenso controle de pés, onde ele tentava controlar a bola de uma forma que eu não conseguia compreender. E aprendendo a manipular seu corpo de forma que ele não parecia ter ossos, e outros que ele não parecia ter uma única articulação era super divertido.
E o que mais me impressionava no Nilo no meio desse treinamento, ele usava cada resquício do corpo dele de uma forma que nem podia ser comparado com ele treinando outras vezes, eu conseguia ver perfeitamente paixão dele em cada treino, eu conseguia ver bem o quanto ele amava aquele lugar, e como seu amigo e parceiro de outro treino, eu podia apenas olhar enquanto ele fazia tudo aquilo.
No meio do intervalo, fui até ele pra conversar.
João: nossa, eu sei que você falou que você se via mais como um jogador de futebol, mas eu não pensei que você tava tão focado assim
Nilo: normal, eu posso falar o quanto quiser o quão motivado eu sou, mas nada vai se comparar a eu mostrar com ações o quanto eu estou motivado.
E com uma toalha no ombro, eu olhei ele, e de forma engraçada, ele estava diferente de todas as vezes que já falei com ele. Com o corpo todo brilhando, um sorriso que eu nunca vi ele fazer e nenhum momento nos treinos normais, e com os olhos irradiando da vida e entusiasmo que sempre parecia faltar nos treinos. Com toda essa combinação de coisas, não podia pensar em nada, além de apenas dizer,
João: eu nunca vi você assim, parece até outra pessoa
Nilo: mas ainda não é o bastante
João: é mesmo é?
Nilo: eu pensei no que você falou na pizzaria, e você tava certo, se eu contar pros meus pais agora sobre o futebol, é bem provável que eles apenas digam pra eu parar, sabe, pra eu consegui ficar o mais perto possível do Luca
João: antigamente eu apenas diria que isso era a coisa certa a se fazer, mas depois dele ter melhorado tanto, mesmo que ele ainda precisa ser vigiado, eu acho injusto você ter que fazer isso ainda, você é um filho tanto quanto ele, mas pra eles entenderem isso, você vai precisar ser mais paciente.
E com um rosto que estava com vergonha de mentir pros próprios pais, enquanto também refletia o quão necessário ele sentia que aquilo era, o Nilo falou, como se as palavras tivessem que ser cuspidas a força pelo quão fundo elas estavam em sua garganta.
Niloo: meus pais com certeza vão ficar chateados quando descobrirem que eu menti pra eles, mas vai ser o melhor pra todo mundo…mas talvez o fato de que eu consegui fazer tudo isso por um ano e eles não notarem talvez os mostrem o quanto eu realmente estou apaixonado por isso, e o quanto eles realmente não me conhecem, por não terem percebido isso
João: não esquece que você contou isso pro Luca, e ele ta escondendo tudo muito bem até agora, isso vai ser mais do que o suficiente pra eles que seu irmão não é de vidro
Nilo: ah, eles entenderem isso é o meu maior sonho
João: um sonho distante, mas não impossível.
E com um aperto de mão, eu deixei o Nilo voltar ao treino, boom, essa era a ideia, mas depois de me afastar um pouco, eu fiquei com uma pergunta entalada na garganta, e eu não conseguia pensar em nada além de perguntar pro Nilo.
João: você tava brincando quando disse que o seu irmão ser visto como alguém competente e responsável era seu maior sonho, né?
Nilo: claro, era só um jeito de falar, agora vai, tenho que voltar ao meu treino
João: ah, claro, claro.
Sem nem perguntar qual era o verdadeiro sonho do meu melhor amigo, eu voltei a andar de forma tranquila até o ponto da grade onde eu olhava tudo, e sorrindo, eu pensei como o Nilo era um passarinho que estava preso numa gaiola, e bem devagar, e com muita paciência, ele tentava destruir a tranca dela usando as garras.
E com toda a dinâmica do treino mudou para uma partida mais simples, fiquei feliz em ver como ele era um bom treinador pelo quão equilibrada a partida tava.
Mas quanto mais eu via tanto o Nilo quanto o irmão, sentia um pouco de medo deles, seus pais os amavam, amavam demais, mas eles tinham muito mais preocupação com o Luca, por causa da maldição dele, e isso deixava o Nilo muito irritado, porque muito tempo, ele entendeu que no fim, o que ele queria sempre seria algo secundário comparado ao irmão, ninguém nunca o ensinou isso, ele apenas aprendeu com o tempo.
E depois de muito esforço, algo irônico era que o próprio Luca ganhou muita raiva desse tratamento também, porque todo o esforço dos pais o fizeram ter uma consciência bem maior, ver como seus pais não perceberam o quanto ele melhorou o fazia se sentir muito ruim.
Eu nunca passei por isso, por ser filho único, então desvendar os mistérios por trás dos relacionamentos entre os irmãos, os pais e a própria maldição que o irmão mais novo carregava era algo que eu gostava bastante, em uma prática de embolação de cabeça que eu tinha.
E depois de uma análise que durou anos de convivência desde que eu era criança, cheguei a conclusão que os dois irmãos tinham um longo caminho pela frente, mas considerando o quanto eles se amavam, e no quanto eles confiavam um no outro pra milhares de coisas, mesmo no que eles não entendiam, tinha certeza que eles podiam provar pros pais o quanto eles cresceram, e mesmo assim, eu sentia que eles precisavam bem mais do que uma forcinha extra, eles precisavam da ajuda do Guaraci e da Jaci…e talvez até do Tupã.
João: boa sorte pra vocês dois.
Eu falei aquilo mais pra mim mesmo, porque eu tinha certeza que o Nilo não tava me ouvindo. E no meio dessas minhas divagações, fiquei bem mais tranquilo e feliz, por notar que meus ataques de raiva se tornaram cada vez menores com o passar do tempo, a ponto que eu nem me lembro direito da última vez que eu passei por uma grande explosão de raiva como quando eu era criança.
E enquanto eu olhava o treino, mesmo não entendendo o esporte, eu tinha que admitir que o jogo tinha um ótimo show, me fazia entender porque tanta gente gostava tanto daquilo, mesmo que também entendesse que aquilo não era pra mim.

