Quando eu me encontrei com a Elena novamente, eu tava com uma caixinha de salgadinho para deixá-la mais calma, mas assim que ela me viu, ela apenas me deu um abraço, mesmo que não tenha recusado os salgadinhos.
Elena: e ai, como tá seu avô?
João: teimoso em aceitar a situação, mas ta melhor do que antes
Eena: com um neto tão incrível como você, não era pra menos também
João: e aí, vamos?
Elena: é claro.
O lugar que decidi levá-la era uma galeria de artes bem ligada a "relações" não apenas o amor, mas todas as relações em geral, os artistas dali queriam entender por completo até onde uma pintura poderia simbolizar tão bem o que as relações de uma pessoa poderiam mudar.
O lugar, por dentro, não era muito diferente de milhares de galerias, paredes brancas e simples pra mostrar melhor os quadros, e sensores de segurança pra não deixar ninguém levá-los, não era muito costume visitar uma galeria, mas eu esperava conseguir uma inspiraçãozinha pra melhorar meus quadros.
Elena: tenta não se comparar muito com esses caras
Joao: hum, apesar de eu querer que eu trabalho aparessa em uma dessas galerias um dia, não tem nenhuma pintura ainda que eu deseje colocar nesse lugar, ta tudo ainda bem incompleto
Elena: você já entendeu o que "incompleto" deveria significar?
João: mais ou menos, meus quadros melhoraram bastante, mas ainda preciso de mais tempo até fazer algo realmente decente.
E sem falar mais nada, a Elena apenas entendeu o que eu quis dizer e nós continuamos andando na galeria, até que uma cadeia de quadros chamou bastante a nossa atenção.
Nos aproximando, vimos que o conjunto das pinturas se chamava "filho", mas individualmente as pinturas se chamavam "pai", "mãe" e "avó". O que me deixou mais interessado, mesmo não entendendo completamente as pinturas até às olhar com mais cuidado.
A primeira pintura era algo simples, que era a imagem de um grande caçador com armadura de couro e apenas uma espada lutando com um gigantesco urso com garras e presas de ferro e o caçador estava ganhando, mas junto com ele estava a imagem de um homem robusto e poderoso que lhe apontava onde ele deveria atacar.
A segunda imagem era o mesmo caçador, em cima da grande carcaça do imenso urso e com milhares de ferimentos, mostrando que não saiu ileso do combate. Mas enquanto toda a terra ao redor dele exalava morte, perigo e dor, o corpo dele em cima do urso brilhava em amor e carinho, cheio de lindos gatinhos, com o grande espírito de uma mulher ao redor do caçador, o confortando depois da batalha.
E a terceira imagem era depois da recuperação, com todo o corpo dele remendado e com o corpo do urso todo desfeito lá atrás, e sentado em um tronco, o caçador fazia um churrasquinho de urso enquanto o espírito de um velhinho que exalava sabedoria conversava com ele. E mesmo com o grande perigo da floresta, o caçador parecia confortável ali enquanto ouvia o velhinho.
Joao: apesar do quão simples os quadros sejam, eles tem uma mensagem que toca bem fundo meu coração
Elena: por que? porque você consegue ver seu pai naquele fantasma ajudando o caçador? Ou porque você quer ser esse fantasma um dia?
João: os dois, mas eu também sinto um carinho bem especial no quadro da mãe...
A Elena sorriu, entendendo bem o que eu queria dizer, eu tinha tanto o que falar, mas nós dois apenas olhamos o quadro da mãe, encontrando mais detalhes, o cavaleiro com várias feridas mais difíceis de ver de primeira, tremendo de frio, fome e medo, mas com o abraço de mãe, todo o mundo horrível em que ele estava até agora, mesmo que superficialmente, parece ficar mais gentil por alguns segundos.
Elena: muitos estão querendo tanto destruir esse símbolo de cuidadora...um símbolo de proteção que até mesmo muitos homens lutam apenas pra ter um pouco dentro deles
João: e tem tantos otários que deturpam esse mesmo símbolo, o transformando em um símbolo de submissão, fraqueza e falta de capacidade de fazer qualquer coisa além de cuidar do lar.
A Elena passou um bom tempo olhando pro quadro, provavelmente pensando em todos os sonhos de ser mãe, todas as bonecas que ela já teve, e algumas que ela tinha até hoje. Lembrando também de todas as mulheres que já disseram "você não precisa ser isso", ao mesmo tempo que ficaram deitadas e a chamavam de "traidora" quando ela dizia que queria ser mãe por vontade própria, não porque alguém pediu que ela fizesse isso.
Elena: dois extremos.
Enquanto eu pensei sobre todos os homens que eu já encontrei, aqueles que eu entendi que eram meus amigos e os idiotas que meu pai me mostrava no jornal às vezes, idiotas que tratavam as namoradas e esposas como escravas, loucos que não deixavam elas sequer trabalharem...e outras coisas que me fizeram entender bem que tipo de homens eu deveria evitar pra evitar de se contaminado pela estupidez dele, uma estupidez que distorcia tudo que a minha mãe e aquele quadro lindo representava.
João: dois extremos.
E olhando um pouco o mesmo quadro, nos soltamos.
João e Elena: e a mesma mensagem.
E enquanto olhávamos mais o quadro, me senti voltando ao quadro do "pai".
Joao: sei que as mulheres passam por bastante coisa, mas os homens sofrem bastante também.
Eu esperei um bom tempo pra Elena responder, pensando se ela realmente entenderia o que eu falava, ou ela só ia dizer que "homens não sofrem tanto" como todos que eu já confiei até aquele momento, diziam.
Elena: Joao, não estamos falando de dor aqui, estamos falando de mensagem...e me diz, qual mensagem você vê no seu quadro?
"O que você vê no seu quadro?" não sabia dizer em palavras, mas aquele comentário me pegou de forma mais profunda que eu conseguia interpretar.
Joao: nada demais, apenas aquilo que eu já entendia a muito tempo, ser forte, poderoso, conseguir fazer tudo que queria sozinho, e viver plenamente no limite com tudo do que o mundo doido possa oferecer, ao mesmo tempo que eu pudesse realmente descansar um pouco e no fim de tudo, me tornar um ancião que possa falar sobre as minhas experiências com a nova geração, torná-la ainda mais fortes com a minha experiência e continuar o ciclo. Sempre sentindo tanta adrenalina que eu me sentiria cada vez mais vivo. Ao mesmo tempo que poderia ajudar os mais novos a pensarem em coisas que antigamente ninguém pensou, por estarem ocupados demais com outros problemas pra sequer pensarem em outras coisas.
Falar aquelas coisas me fez olhar aquele mesmo quadro me fez vê-lo com olhos diferentes, olhos com muita admiração.
Elena: e como você acha que esse símbolo foi deturbado?
João: essa é fácil, nós não temos voz, se nós estamos perto de uma criança, uma mulher, ou um velho, e um crime acontecer na área, a chance do homem se culpado, mesmo que não tenha nenhuma prova que nós somos os culpados ou que fazemos alguma coisa de verdade, agente e culpado, somos jogados nas prisões, e mesmo quando somos inocentados, ninguém sequer pede desculpas, por que na cabeça deles, nao temos sentimentos o bastante pra ficarmos machucados com algo capaz de destruir nossas vidas.
A Elena ouviu cada palavra, sentindo uma empatia tão forte pela dor dos homens que ela fechou os olhos por alguns segundos pra não chorar, e ainda acrescentou.
Elena: também tem o fato de que vocês não são vistos como humanos muitas vezes, afinal, vocês não podem sentir dor, já que estão sempre no perigo extremo
João: é, mas tem algo ainda mais pesado do que todas essas coisas...o fato de que quase nunca somos ensinados a lidar com os nossos sentimentos...somos ensinados desde cedo a engolir nosso próprio sentimento, até não somos nada além de uma máquina de combate sem sentimentos
Elena: que coisa, pensei que tínhamos cuidado disso depois de tanta evolução
João: e cuidamos...mas esses sentimentos, deturpações e principalmente, maldade dentro de todos os humanos, não é algo que dá pra desfazer com apenas uns séculos de problema...Apenas conseguirmos falar daquele jeito dessa forma já mostra como evoluímos, mas é bem possível que nós estejamos mortos no momento em que essas deturpações estejam destruídas
Elena: então não tem nada que agente possa fazer?
João: muito pelo contrário, olha ali.
Falei, apontando para o quadro do "avô", um quadro distante pra nós dois, mas que iria acontecer uma hora ou outra.
Joao: nós iremos passar por esse ponto alguma hoa, alguém me disse uma vez "nao da pra mudar o mundo inteiro, mas dá pra mudar aqueles ao seu redor, e isso é um pouco do mundo"
Elena: quem te falou isso?
Joao: eu não lembro, mas isso não vem ao caso agora, o que eu quero dizer era que, nós sabemos a verdade, entao nao só pros nossos parentes, mas nossos amigos, e o nosso futuro filho, no temos que aprender tudo que é possível pra ele encontrarem a verdadeira essência do que um homem e uma mulher, e não as detonações que os outros dizem que é, e quando nós conseguirmos isso, as deturpações vão ficar um pouco mais fracas, e com o passar dos séculos, nossa intervenção vai ser uma alavanca que vai fazer ela ser destruída.
E enquanto mais eu olhava pra pintura do "avô", sentindo um orgulho bem forte, mesmo que aquela pintura fosse paradoxalmente muito perto e muito distante de mim, senti a Elena me segurando pelo braço com bastante força, até que ela falou.
Elena: você acha que os nossos pais conseguiram diminuir a deturpação da época deles?
João: ah, eu tenho certeza disso, não somos os primeiros e nem os últimos, somos os caras do meio, e apesar de eu ficar triste em não saber como é um mundo sem as deturpações é, eu tento me convencer a ficar apenas feliz em pensar que eu errei uma peça no grande processo onde homens não vão precisar fingir ser homens falsos, e mulheres não vão precisar fingir ser mulheres falsas, e eles apenas serem os dois caminhos de verdade.
Eu senti uma brisinha tranquila com aquelas palavras que até me surpreendeu, então eu ouvi a Elena falando.
Elena: e ta funcionando?
João: muito mais do que eu pensei, consegui te "contaminar" com a minha ideia?
Elena: você não vai acreditar, mas eu estava contaminada pela sua ideia a muito tempo, eu apenas não entendia por completo esse meu pensamento.
E depois nos afastamos um pouco da imagem dos três quadros, eles eram um conjunto bem lindo, e mesmo depois de tudo que nos vimos, quando se olhava os tres tão juntinhos um do outro, existia uma "essência" diferente dos quadros, o que era impressionante em vê em quadros que não tinham uma aura tão "poderosa" assim, para terem movimentos.
Joao: tantas interpretações, tantos pensamentos, e tantas conversas apenas com três quadros, ai ai, e é por coisas como essa que eu amo a arte
Elena: a arte foi uma das maiores invenções de toda a humanidade
João: bom, claro que não ajudava em caçadas, nem a sobrevivência nem em esconder de predadores, mas ninguém pode questionar que a arte foi uma das coisas essenciais pra começarmos a "viver" ao invés de só sobreviver
Elena: e sempre seremos gratos aos doidos que inventaram as outras artes
João: sempre.
Eu ja tava aliviado pela Elena nao estar irritada comigo, bom, pela forma como ela falou, ela parecia entender que lidar com um parente recém transformado era sempre complicado, mas eu tentei não pensar muito nisso, e apenas me preparar pro último treino antes do grande torneio que eu iria participar dessa vez.
João: eu, vou participar de outro torneio
Elena: e, eu ouvi dos seus pais
João: você pode ir lá me ver?
Elena: você tá me pedindo com tanta educação, como eu poderia dizer não?
Joao: nao querendo ir
Elena: bom, mas eu que, então tenta me encontrar no meio da multidão.
E sorrido, eu abracei a Elena, pensando muitas vezes que eu não merecia ela de tão incrível que a garota era.

