logo do projeto lunar

Capa
No topo do mundo 🥊1
🐺a alcateia🐺
2497 palavras • 13949 caracteres • ⏱ 9 min 59 s

🐺a alcateia🐺

0
0
0

Eu queria amaldiçoar meu antigo eu, amaldiçoá-lo com todo o ar nos meus pulmões, mas eu não consegui, a dor dentro do meu corpo era tão intensa que não tinha força nem pra gritar, eu explodi apenas uma vez, eu explodi 60 vezes logo de manhã, eu me reconstruí e explodi de novo, eu apenas pude amaldiçoa o quanto eu fui burro e continuei explodindo, de novo e de novo, a cada explosao eu ficava cada vez mais irritado. 


Eu me lembrava de cada comida cheia de lactose que eu comi, e pensando no quanto eu deveria adorar sofrer, porque mesmo depois de tudo que eu aguentei, a única coisa que eu conseguia pensar era “eu não me arrependo”, eu não conseguia parar de tomar leite, era algo impossível pra mim, pra mim era mais fácil ficar explodindo toda a vez que eu tomava lactose demais do que parar de tomar leite.


E quando eu terminei de explodir, eu não consegui me levantar, tinha apenas forças pra me ajeitar e ficar deitado com as costas no chão, incapaz de me colocar de pé, babando e lacrimejando, com dor demais para me mover, as com fora mental boa o suficiente pra ter um ódio absurdamente profundo no meu coração. Mas no mesmo momento, minha mãe entrou na porta, com um biscoitinho em um prato.


Mas antes de ela me entregar o biscoitinho, ela se ajoelhou do meu lado, colocou a mão na minha testa, e começou a fazer carinho nela enquanto cantava uma musiquinha infantil.


Mãe: o primeiro passarinho é um passarinho apressado, quer sair logo do ninho, o segundo passarinho é um passarinho irritado, arranca as próprias penas de raiva, o terceiro passarinho é um passarinho faminto, comendo até cascas de árvore…


Os versos da música da mamãe nunca acabavam, mas graças a isso eu conseguia me recuperar um pouquinho, e chegando no passarinho número 50, eu sorri e consegui me colocar de pé. Minha mãe então me entregou o biscoito e esperou eu mastigar até ter forças pra falar.


E depois de alguns minutinhos, a minha mãe perguntou.


Mãe: e ai, ta melhor:


João: umhum


Mãe: ainda quer visitar o vovô?


João: sim


Mãe: mesmo com o corpo dessa forma?


João: ah, mamãe, eu tenho certeza que visitar o lugar onde o vovô esta água irá fazer mais bem para mim do que mal.


E com os olhos cheios de uma raiva mirada, me levantei, eu não estava com raiva de ninguém, estava com raiva da situação em que eu acordei, mas eu sentia que para o lugar onde eu ia, estar carregado de tanta raiva seria o melhor mesmo.


Meu pai continuava na sala, normal, tomando um café enquanto lia um jornal, mesmo agora, visitar o vovô era bem complicado pra ele por causa dessa "muralha de interesses diferentes” que eles tinham, mas tava nítido o quanto ele queria ver o vovô. 


Agente ficou comendo um bom tempo, e quando nós terminamos, ficamos apenas ali, na mesa, até que agente se levantou, sabendo que aquilo seria bem difícil, e minha mãe tirou um bom tempo pra acalmar meu pai, pois nós três sabíamos que ia ser complicado pro meu avô quando agente chegasse lá.


Quando chegamos na carruagem, eu olhei pra janela, meus pais estavam no assento da frente, e quando a carruagem se levantou, eu já sabia que aquela viagem seria difícil, então perguntei, com a  maior inocência do mundo.


João: pai, você se importa se eu procurar um amigo antes de ver o vovô quando chegarmos?


Pai: não, não vou me importar, filho, mas pode me dizer o por que?


João: aquelas 60 explosões me deixaram bem estressado, eu preciso bater em alguma coisa muito forte, e eu não quero estar assim quando eu estiver perto do vovô, tenho medo de bater, gritar ou fazer outras coisas que eu provavelmente iria me arrepender depois de alguns segundos.


Meu pai não falou nada por alguns segundos, mas o silêncio falava, falava como nós dois já passamos por essa conversa o suficiente pra ele saber que eu não estava brincando.


Pai: só não fica longe por muito tempo


João: claro que não.


Levou mais algum tempo antes de chegarmos ao canto do arquipelago pertencente a Alcateia. 


O resto do arquipelago nao tinha probema nenhum com lobismoens, mas diferente da forma magia do lobisomem, que tinha mais a aparencia do que as outras coisas, a forma de Aura dos lobisomens eram parte lobos completos, alem dos instintos primitivo de fome, sexo e violencia. 


Também tinham os sentidos super sensíveis dos animais, então mesmo eles não sendo isolados dos outros cantos do arquipélago, não era qualquer lugar que eles conseguiam ficar.


Entendendo a situação dos lobisomens, o chefe do conselho do arquipélago separou um conjunto de ilhas que os lobisomens diziam ser “perfeito” pra eles, algo que impressionou o chefe na época, porque as ilhas que eles escolheram eram ilhas que não tinham “nada”, não tinham recursos, metais preciosos ou comida abundante, a única coisa que eles tinham de bom ali era a paz para seus sentidos sensíveis, e enquanto eu entrava o arquipélago, eu pensava como o Alfa principal da época também estava bem ciente do que estava fazendo.


Isso porque hoje em dia, o canto da Alcateia do arquipélago era um dos lugares mais prósperos de todo o arquipélago, os lobisomens de alguma forma criaram plantas e animais que sobreviveram ao lugar duro e hostil deles, os lugares que não tinham nada alem de terra e areia totalmente inúteis, se tornaram em pontos de treino e de meditação, que eram visitado tanto por lobisomens quanto não lobisomens.


Mas o melhor do lugar é que, mesmo com tudo aquilo, ainda existia aquela calmaria que nunca saiu do lugar, e talvez seja isso no fim que fez eles melhorarem tanto.


Quando estacionamos a carruagem, meus pais se colocaram no caminho para ir no “veterinário”, pra ver meu avô, mas eu apenas falei que iria pra um lugar diferente.


Pai: não esquece, não demora muito pra ir até lá


João: eu prometo que não vou.


Então nos separamos, o lugar inteiro era um grande mar de aura, eu conseguia sentir tintim por tintim como todo mundo ali tinha um poder para entender melhor o lobo que eles aceitaram dentro de sua alma, se fosse meu eu de dois anos atrás, eu ia conseguir ver apenas o vermelho, mas agora eu conseguia ver por completo toda a dança de cores na minha frente, era como se milhares de arco íris com cores diferentes estivessem brigando na minha frente.


Mas em meio a todas aquelas cores, eu vi uma cor em específico que chamou minha atenção, um laranja que se destacava de todo o resto, então eu andei até ela, e como se estivessem vida própria, as outras cores que eu não escolhi, saíram do caminho, me fazendo pensar que os donos dessas cores deviam ser bem educados. 


Sabendo quem eu estava procurando, eu nem olhei direito os prédios, aquela cor que era familiar até demais pra mim me fez ir até uma grande academia, a academia “presas de prata” pretensioso, mas tudo bem, uma vez la dentro, fiquei bem feliz com quem eu encontrei.


Observando outros combates a sua frente em sua forma de ogro ao invés de lobisomem, meu antigo oponente nem olhou pra mim, não por arrogância, mas porque sabia que eu não precisava falar nada, minha própria Aura deveria estar deixando claro o que eu queria fazer.


Lobo: eu até perguntaria como você me achou, mas tá na cara que você não veio aqui pra conversar.


O Lobo estava sorrindo, e de forma instintiva, os outros que estavam lutando e treinando na nossa frente, abriram um espacinho pro veterano lutar mais. 


Lobo: quer se alongar primeiro?


João: se me permite.


Eu comecei a me alongar, e agradeci a mim mesmo por ter tirado um tempo pra me alongar, pela forma como meu corpo se esticou todo quanto mais me alongava, eu ia ficar muito dolorido assim que eu terminasse tudo. 


Uma vez alongado e aquecido, vi como o Lobo já esperava por mim no tatame, enquanto me aproximava dele, senti como meu rosto deveria estar exalando o “eu não quero conversar, eu só quero bater em algo, o mais forte possível”. E eu apenas sabia disso porque eu sentia como o Lobo amava cada sensação daquela brutalidade.


João: pode pelo menos me dizer seu nome? Fica meio estranho só de te chamar de lobo


Lobo: sou Ivan 


João: Ivan…ivan, ivan, ivan.


Estalei meus dedos enquanto tirava minha blusa e entrava no tatame. E com as nossas guardas levantadas, fomos um até o outro. Em segundos, Ivan avançou até mim e começou a me dar muitos golpes, eu desviei uma vez, e tentei dar um jab, mas ele logo me deu um direto, me forçando a defender meu rosto. 


Naquela primeira troca de golpes, ele começou a me acertar, nas pernas, na barriga e nas costelas, mas em um dos chutes dele, eu tentei uma única rasteira nele, o derrubando no chão na hora. E uma vez saido, dei um chute lowkik na cara dele, mas o Ivan desviou, se levantou em segundos e tentou ir até mim.


Mas já era tarde, eu já tinha me aproximado e comecei uma sequência de socos e chutes poderosas nele, o Ivan tentou me afastar com um frontal, mas eu dei uma defesa de frontal, onde eu soltei um dos meus braços, dei um tapa forte na perna dele, dei um passo para a esquerda(a mão oposta a mão, que era a direita), e enquanto ele estava todo torto com a perna longe, dei o chute peito mais forte que eu conseguia. 


Mas quando eu o acertei, ele deu um soco giratório, girou como uma bailarina uma única vez e jogou as costas da mão fechada dele na minha cara. 5 segundos, esses 5 segundos foi o que impediu que eu fosse acertado por um soco matador na cara, mas eu não consegui defender o chute na barriga que ele e deu logo depois, um chute que me jogou no chão.


Ai, ainda bem que eu não comi muito, senão eu teria vomitado tudo no tatame naquela hora, e quando o Ivan estava indo até mim, eu levantei minha mão.


Joao: ESPERA…(arfa, afa) espera.


E o Ivan realmente esperou, mas não abaixou a guarda, já esperando que eu, no pior dos casos, ainda poderia acertar ele de surpresa, claro que como campeão eu nunca faria isso,, mas nunca se sabe.


Ivan: tá se sentindo melhor?


Aquela simples pergunta me fez ver que o Ivan sabia muito bem por que eu pedi a luta do nada, nossa, aquele lobo era demais.


João: umhum.


Apesar de eu ter falado aquilo, eu respirei bastante…ai, aquele chute deve ter acertado o pouco de lactose que ainda tinha em mim, pelo visto 60 explosões não foi o suficiente…consegui força o suficiente pra levantar minha cabeça, e ele me olhava com a firmeza de um rival, a dor de barriga não era uma desculpa, eu perdi, e nada poderia mudar isso.


Ivan: tá se sentindo mais calmo?


Fiquei feliz que ele não tentou jogar na minha cara que eu perdi, então eu só me levantei, respirei fundo e tentei me concentrar um pouco pra eu não acabar explodindo ali.


João: sim, obrigado…eeeeeu, to indo


Ivan: você vai sair assim?


João: e que escolha eu tenho?


O Ivan não respondeu de imediato, ele se virou para um dos alunos que parecia estar na última vez na fila e falou.


Ivan: Nico


Nico: OSSU


Ivan: traga uma sacola dos biscoitos Lacto pro nosso querido convidado aqui.


O tal Nico correu um pouco e segundos depois ele apareceu com uma sacola de biscoitos que não pareciam normais, não sabia dizer no que exatamente, mas com certeza não eram biscoitos normais.


Ivan: esses biscoitos são pra maldição da lactose, eles têm efeito melhor quando se comem antes de tomar leite, mas deve ser o bastante pra tirar essa dorzinha chata na sua barriga.


Eu peguei os biscoitos e comi um…e sentindo a concistencia deles, eu senti que era o mesmo biscoito que minha mae sempre dizia pra eu comer antes de comer ago com leite, e eu ainda não obedecia…cara, eu sou tão idiota, tão idiota. Mas aquele biscoito parecia de uma qualidade melhor, tanto que enquanto eu comia, senti que a dor da minha barriga estava sumindo.


João: por que você tá sendo tão legal?


Ivan: “ah, mas ele só me venceu porque minha barriga tava ruim”


João: eu nunca falaria isso, eu que pedi uma briga, e eu to mais calmo agora, então mesmo perdendo, eu agradeço por isso. (reverência)


Ivan: você pode pensar assim, mas todos os alunos à nossa volta não pensam assim.


O Ivan falou aquilo abrindo os braços, e quando eu notei, realmente, muitos alunos estavam olhando pra nós, e apesar do desafio ser meu, muitos estavam olhando em desaprovação pro Ivan. Mas amenizando a situação, ele olhou pra mim e falou.


Ivan: ah, não se preocupe, eu espero sua barriga ficar melhor e depois agente brinca de novo.


Com a mente mais clara e a barriga bem menos irritada, eu apertei a mão do meu rival maluquinho e fui ao meu caminho pra ver meu avô novamente.


Ivan: se quiser arrancar a vitória de mim, vem com a barriga boa


João: pode deixar.


Ahhhhh, isso foi perfeito, tava com uma dorzinha aqui e ali, mas tambem tava sentindo que minha raiva de hoje de manhã se dissipando, estava com um pouco de medo que tomar dois biscoitos de uma vez só desse problemas depois, mas se isso acontecesse, eu queria poder deixar para depois, por enquanto eu só queria aproveitar por completo essa calmaria dentro da minha alma agora.


No caminho até o veterinário que eu sabia que meu avô estava, andei um pouco mais devagar, só pra ter a chance de olhar o lugar inteiro. Era engraçado pensar que superficialmente, o arquipélago da Alcateia conseguia se disfarçar muito bem como uma parte “comum” do arquipélago, mas quem prestasse mais atenção, poderia ver coisas bem mais incríveis no lugar.


Por exemplo, as luzes eram bem mais fracas ali, em geral, o barulho do lugar era muito menor, e as ruas, mesmo em ilhas pequenas como aquela, eram tão espaçosas, que cada lobisomem conseguia erguer os braços enormes que tinham sem correr nenhum risco de esbarrar em alguém sem querer.


Claro, tudo junto com uma calmaria que era difícil de explicar, não era apenas a calmaria do barulho estar melhor, diferente dos outros cantos do arquipélago, o canto da alcateia parecia absurdamente mais passifico e tranquilo do que todo o lugar, como um mundo dos sonhos, não dava pra explicar em palavras aquela sensação, apenas sentir.


E no meio dos meus devaneios doidos, cheguei no veterinário, e apesar de estar bem mais calmo, ainda tirei alguns segundinhos só pra respirar fundo, e depois entrei.


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.