Depois de tudo aquilo, de alguma forma eu consegui voltar a rotina de fazer os castelos de areia junto com a Deusa Jaci, ela me olhava enquanto eu já fazia os castelos de areia super detalhados sem questionar, eu precisava fazer aqueles castelos, eu não tava pronto pra aprender nada, mas eu não queria falar nada, então eu usei a arte, a forma de expressar tudo que simples palavras não conseguiam se expressar.
E com o tempo, eu comecei a propositalmente desfazer alguns castelos de areia, deixar alguns castelos bem mais detalhados, espalhar conchas por todo o lugar, e até criar alguns rastros por varios lugares, e quando eu terminei, eu não fazia ideia do que eu fiz, isso até a Deusa vir pro meu lado e falar.
Jaci: ai, quer ver uma coisa legal?
João: quero.
Então ela me pegou pela mão e me levou pra cima, demonstrando o que eu fiz, ou melhor, o que eu “pintei”, no grande quadro que era aquela praia de areia, eu criei um grande quadro onde um guerreiro com muitas cicatrizes agora estava com cicatrizes frescas, enquanto estava submerso em uma piscina de limão e com sal caindo bem em cima dele.
Jaci: é assim que você vê o seu avô?
João: sim, ele não tá pronto pra virar um lobisomem, pelo menos ainda
Jaci: ninguém nunca está.
Eu continuei olhando a pintura, pensando se era realmente a melhor forma de eu mostrar o que sentia pelo meu avô.
João: eu sinto que a pintura não tá certa
Jaci: talvez você só precisa pensar um pouco mais
João: é, tem razão
Jaci: ai, você quer ver por que nós fizemos isso tudo?
João: quero
Jaci: venha.
Então, a Jaci me levou pra baixo e me colocou no chão.
Jaci: feche os olhos.
Assim fiz.
Jaci: agora tente sentir sua aura de novo, sinta como se estivesse tentando cavar o chão.
Assim eu fiz, e logo eu senti minha alma saindo levemente do meu corpo, apenas um pouquinho para eu tocar no chão e começar a montar a aura dentro do meu corpo, o meu corpo, ele tinha se tornado um grande balde, onde eu enchi, enchi e enchi…e depois eu vi, uma escultura de areia com meu próprio corpo, mas…ela parecia tão chata, então eu comecei a fazer detalhezinhos em minha escultura, pequenas nuvenzinhas junto de várias conchinhas, não de forma aleatória, mas perfeitamente colocadas para elas não parecerem estranhas, mas mais como guias, conchas que guiavam onde uma pessoa deveria passar o olhar assim que visse minha escultura.
Algo invisível pra alguém inexperiente, mas depois de eu fazer isso por um mês inteiro, eu fiquei muito bom em perceber isso.
Quando abri os olhos de novo, eu vi uma grande quantidade de fumaça ao redor de mim, mas mesmo olhando pro meu próprio corpo, ainda tinha uma dificuldade em entender onde meu corpo terminava e a aura começava.
Jaci: os dois terminam e começam onde você quiser
João: você pode ler mentes?
Jaci: aqui eu posso, ja que voce ta na minha casa, mas como eu disse, você pode ser uma fumaça completa se você desejar, mas você precisa de concentração plena, além de que se um inimigo for forte o bastante, ele pode te acertar, mesmo se você for totalmente fumaça, mas acho que você já sabe disso
João: é, eu sei, eeeee, o que eu faço agora?
Jaci: agora você vai aprender a aplicar essa técnica, ta vendo aquela escultura ali?
Eu não entendi o que a deusa estava falando, às entao eu olhei pra trás, e a minha escultura de areia que eu fiz na minha cabeça estava ali, na minha frente.
João: como isso é possível?
Jaci: você está na casa de uma deusa, não fique impressionado com qualquer coisa que você veja aqui.
Tentei não pensar muito nisso, porque Deusa ou não, não entrava na minha cabeça que ela conseguia apenas, fazer uma escultura de areia que eu apenas conseguia fazer na minha cabeça de uma forma tão perfeita quanto essa, mas me tirando dos meus devaneios, a Deusa falou.
Jaci: entre nela
João: como assim? É pra eu apenas, estar ali?
Jaci: isso aí, vai, faça isso agora.
Sentia que hoje seria o primeiro dia do que eu pensava ser uma nova página do meu controle de Aura, mesmo aquela escultura sendo uma criação minha, eu sentia que ela tinha uma energia muito diferente de tudo que eu já senti até aquele momento no treinamento.
Mas tentando não pensar naquilo por muito tempo, cheguei perto o suficiente da escultura de areia pra ela reagir e se mover, e aquela altura, eu nem ligava mais pros absurdos que aconteciam naquele lugar, eu só aceitava.
Eu e meu boneco de areia nos movemos bem devagar na direção do outro, levantamos nossas mãos ao mesmo tempo, e no momento em que nossas palmas se tocaram, eu senti, o poder, a fúria, as emoções e a liberdade mais firme que eu tentava alcançar, um poder quente, como se meu corpo inteiro se esquentasse por dentro, no bom sentido claro.
Mas o mais doido com certeza era como minha mão estava sumindo, eu conseguia ver, quanto mais eu afundava minha mão na mão do meu boneco de areia, mais ela se desaparecia, mas não era a hora pra ter medo, então eu coloquei minha outra mão dentro dele e comecei a andar pra frente, e o calor que estava apenas nas minhas mãos alguns segundos atrás, lentamente começou a se espalhar pra cada canto do meu corpo, bem tranquilo, bem devagar, e eu continuei, disposto a arriscar meu pescoço por algo que eu nem sabia direito o que tava acontecendo.
Tudo até que nós colidimos peito a peito e os nossos corpos começaram a se desfazer na areia, mas eu não parei, continuei avançando, e quando a minha cabeça foi pega, meu corpo foi totalmente desfeito naquela areia estranha.
Tudo ficou escuro, eu pensei ter desmaiado, mas não, eu não desmaiei, eu apenas fui mandado pra um outro lugar, um lugar escuro, frio, e que não tinha nenhum som, eu não precisava respirar, e era como se eu estivesse morto, mas eu não estava, eu sabia disso.
E do mais profundo silêncio e escuridão total, a luz da Lua apareceu pra mim, acertando o que eu entendia como o meu rosto naquele momento e falou.
Jaci: concentre-se, antes você criou o boneco de areia separado de você, agora você é a areia, e eu te garanto, fazer a si mesmo será bem mais complicado que um simples boneco de areia.
E novamente, tentei obedecer a Deusa, mas assim como ela falou, levou muito tempo para eu criar meu corpo novamente, não porque eu não conseguia criar meu próprio corpo de novo, mas porque de repente, o processo se torna mil vezes mais complicado, sentia que agora eu estava novamente naquele grande mar de Aura de sempre, mas agora, existia um teto, um teto que eu tentei atravessar, mas eu sentia a falta de força dentro de mim.
E quanto mais eu atravessava aquele teto, mais eu sentia meu corpo mudando, se reconstruindo e se criando através da areia, até que eu perdi a força e voltei pro mar de Aura, enquanto meu corpo de areia que estava tentando criar, lentamente se desfez na areia, e a Deusa falou.
Jaci: nesse momento, todo o seu corpo deve estar nublado com os sentimentos confusos em sua cabeça, por isso você precisa de um farol emocional, imagine algo que possa ser mais importante pra você do que todos os sentimentos que podem nublar sua mente, algo que você está seguindo ou usando inconscientemente pra se manter na linha por tanto tempo.
E com aquelas palavras, comecei a pensar no meu desejo de lutar, minha raiva acumulada, e meu sonho de virar um grande campeão, e eu até consegui criar um corpo mais forte assim, mas não um forte o suficiente, a ponto que ele se desfez e eu cai pesado no chão novamente.
Jaci: não não, não apenas desejos, olhe no seu coração, no canto mais profundo dele, e tente entender o que o canto mais profundo do seu coração esconde.
Assim eu fiz, e enquanto eu parei de subir por completo, vaguei de forma tranquila pela piscina de Aura coberta em meu corpo, e apenas tentei me concentrar e entender o ponto mais profundo do meu coração, bastante tempo se passou.
“Por que eu queria acabar com minha raiva pra começar?”, bom, principalmente porque eu não queria machucar pessoas inocentes, principalmente a minha família.
Também tinha o fato que eu queria ficar mais calmo, pra conseguir fazer minhas pinturas direito, mas elas eram muito mais um hobbie do que realmente algo sério a ponto de eu querer me acalmar pra fazer isso…não, na verdade era o contrário, era as minhas pinturas que criavam a calma em mim, e não a calma que me fazia pintar.
Ok, isso com certeza deveria ser algo que eu deveria pensar depois, mas sentindo algo mais profundo chegando, como eu pensei, apesar de gostar das pinturas, elas não eram o que tava mais fundo na minha mente. algo me dizia que eu podia usá-las para fazer algo mais interessante, meio que um complemento pra grande muleta que eu estava criando, mas não agora, teria que ser definitivamente depois.
Bom, isso foi o que eu pensei, mas mesmo assim, eu fiquei com os olhos fechados, imaginando varias pinturas, nenhuma pintura realmente sério, apenas algumas pinceladas aqui e ali, pinceladas que pareciam grandes golpes de punho, outras que pareciam grandes cortes de espadas, e logo depois grandes ataques de perfuração, eu me senti tão feliz, tão livre, tão alegre…
Depois de eu brincar e me divertir um bom tempo, eu me acalmei, sentindo que o pensamento da minhas pinturas ficou almo o bastante pa eu pensar no resto, mesmo que eu sentisse que tudo poderia ser bem mais profundo depois, mas eu não podia focar só nisso, tinha que entender mais sobre mim mesmo, muito mais.
E por que eu queria continuar nos treinos? Simples, porque o lugar era muito divertido, e eu amava tanto ser um bom aluno, junto com meus parceiros, meus veteranos, e os meus calouros que eu sempre amava ajudar com muito carinho.
E também tinha a Elena, o amor da minha vida, aquela que eu pensei ser só uma amiga na infância, mas eu era apenas um moleque que não entendia o que sentia na época, mas graças a deus, hoje em dia, eu entendia completamente o que eu sentia agora, e amava cada centímetro disso.
E ainda tinha a minha família, meu pai, minha mãe, meus avós, meus primos maluquinhos, eu sabia muito bem que não poderia acontecer dessa forma, mas quanto mais eu pensava na minha família, a família toda, eu apenas pensava que eu era muito fraco ainda…
Desde que eu era um garotinho, eu sempre dizia pra todos que eu iria virar o homem mais forte do mundo, pra conseguir proteger a todos, e por mais infantil que fosse esse pensamento, agora eu sentia como aquela promessa ainda continuava em meu peito, apagada por milhares de problemas e de preocupações do crescimento, mas dentro do mar da minha própria Aura, sentia como se toda a sujeira na minha mente tivesse se dissipando, e soltando algumas bolhas naquele grande mar, eu dei um sorriso, sabendo que eu iria conseguir sair.
Depois de tentar nadar pra cima de novo, senti que minhas mãos estavam mais pesadas, comigo sentindo na pele o peso da responsabilidade em minhas mãos, e então, aquele teto dentro da minha Aura interior apareceu.
E então, eu coloquei minha mão pra fora primeiro, e senti a areia se movendo por completo a minha volta, até que eu consegui me apoiar no chão, e depois coloquei a outra mão e com muito cuidado, tirei meu corpo inteiro de dentro daquele grande mar de Aura, um mar que eu sentia que iria visitá muitas vezes ainda, mas não me permitindo me distrair nem por 5 segundos, tirei meu tronco, e depois tirei uma perna e depois outra.
Em cada movimento, eu sentia a areia se criando no chão, criando partes novas de mim, e quando pus meu primeiro pé no chão, senti um poder que eu não fazia ideia que é possível sentir, e quando coloquei o segundo pé no chão, eu senti, a estabilidade do chão de nuvens. Olhei ao redor, procurando a Deusa, e lá estava ela, na minha frente, sorrindo bem feliz com o que eu fiz, enquanto eu ainda não fazia ideia do que deveria fazer agora.
João: bom, e agora?
Jaci: agora me diz? Que tipo de mestre da aura você quer ser?
João: um mestre da Aura de boxe, de curto alcance e que é capaz de desaparecer no meio dos golpes, além de também conseguir ficar duro como uma rocha, algo bem focado em velocidade e força mesmo…
Eu tinha praticado falar aquilo com o meu mestre por muito tempo, e pelo sorriso da Jaci, ela falou.
Jaci: ótima escolha.
E com uma pisada no chão, a Deusa criou um grande fosso com pedras, digno de um vilarejo, que assim que foi criado, começou a transbordar Aura em todos os lados.
João: isso aí também é meu?
Jaci: sim.
E com um movimento simples, a Deusa pegou uma concha de Aura de dentro do fosso, jogou no ar, e com a pequena nuvenzinha vermelha que aquele ato fez, uma pequena imagem foi feita com a nuvem, com um guerreiro de boxe na minha frente, até que ele entrou em guarda, e fez um movimento simples de Jab, com a diferença que o punho dele se transformou em areia e no fim da nuvem, ele se solidificou, indo da areia novamente para a carne, e da carne pra terra, e depois da terra pro ferro puro, e finalmente, do ferro puro para o diamante.
Um simples movimento de boxe tinha tantos estágios, era tão doido e tão complexo que eu não aguentei e soltei um assobio de admiração.
Jaci: disparo do Saara, esse é o nome formal, deve ser mais do que o suficiente pra sua primeira técnica
João: ah, você quer que eu faça ela agora?
Jaci: claro que não, só queria te mostrar o que vamos fazer na próxima seção, acho que sua alma já aguentou o suficiente para uma primeira seção
João: com toda certeza.
Diferente das outras seções, consegui a concentração pra manter meus olhos abertos no momento de transição, e depois de alguns segundos, eu vi, a Aura parou de ser vermelha e ficou transparente, mostrando que eu não estava no céu, eu estava na lua, e no caminho de volta pra terra, viajei pelo grande espaço escuro, vazio e com nada além de grandes estrelas distantes que pareciam os olhos dos meus ancestrais mortos, me observando no além vida.
Uma visão absurdamente linda, como se eu tivesse visto um pedacinho do paraíso, mas que também me fazia pensar no tipo de coisas que os verdadeiros mestres passaram, pensando que visões como essas, e sensações como a da minha própria alma agora, deveriam ser só a ponta do iceberg pra “Aura de combate”.
Pensamentos como esse me fizeram entender também porque meus pais nao deixaram eu aprender a Aura de combate até eu ter pelo menos 14 anos, eu sinto que meu corpo e minha cabeça de 10 anos pra trás não iria aguentar as coisas que eu estava passando ali e agora.
E depois de viajar numa velocidade muito maior assim que eu cheguei na terra, eu voltei pro meu corpo, com a respiração ofegante, e caindo pra trás.
Eu respirei fundo, tentando pegar um pouco de ar, aquilo que aconteceu era incrível, foi, foi, foi como olhar pro rosto de Deus, não pros avatares, mas o Deus real, minha pele estava formigando, minha cabeça doendo, braços e pernas inquietos, se eu não tivesse mantido minha sanidade, eu teria certeza que tinha visto o rosto de deus, ou de um anjo pelo menos.
Mas me colocando sentado de novo, eu olhei pro “nada” por alguns segundos, tentando entender por completo o que mudou no meu corpo, então fechei meus olhos, e senti, aquela aura mais concentrada, a ponto de ser poeira pura que me envolvia por completo.
Tentei me lembrar daquela sensação, o sentimento de ter o corpo totalmente de areia, e como se eu estivesse fazendo uma projeção astral diferente, eu sai do meu corpo, mas não fui encontrar a Deusa Jaci, eu abri meus olhos, e vi meu corpo se transformou numa poeira de areia, eu voei pra direita, esquerda, cima, baixo.
E depois imaginei a mim mesmo como um grande balde de areia, desenhado da mesma forma que meu corpo em estado de meditação, e logo, coloquei o balde onde eu estava meditando antes, e num único movimento, me coloquei na posição que imaginei o balde e logo, meu corpo se remontou em pura areia, e depois em carne, beeeeem devagar, eu demorei pra abrir os olhos, e mesmo depois de abrir, ainda era bem doido pensar que tudo o que acontece naquele momento realmente aconteceu.
João: maneiro, maneiro demais.
Aquele simples movimento, que eu conseguia dizer pela forma como eu estava cansado naquele, que eu não conseguiria usar algo como aquilo em uma batalha longa demais, me fez ficar extasiado pelo grande mar desconhecido que eu iria entrar, onde eu tinha apenas sentado na ponta dos pés ainda, eu não fazia ideia do que o grande deus Guaraci poderia me ensinar, mas sentia que podia pensar nele depois.
Olhando pras minhas mãos, eu as fechei com muita força, mal aguentando toda a empolgação dentro de mim, até que eu gritei bem mais alto do que pensei ser possível.
João: O ARQUIPÉLAGO DA AURA É REALMENTE INCRÍVEL, HAHAHAHAHAHA.
E mesmo cansado mais do que tudo no mundo, eu soquei o ar, eu não tinha mais aura, ou melhor, eu não tinha um controle de aura bom o suficiente para manifestar mais areia, mas eu não liguei, eu me aproximei de uma parede e comecei a bater nela com tudo o que eu tinha.
A parede resistiu cada golpe e sem me machucar, e com aquilo eu apenas soquei, chutei e gritei, eu não estava em condições de sai dali, e enquanto ria como um maníaco, eu pensava em formas de como eu poderia me acalmar agora, até que de forma inconsciente, eu comecei a contar os meus golpes na parede, que virou a pena um jab direto simples e de forma tranquila, e mesmo depois de ouvir muitos mitos sobre isso, fiquei bem impressionado com o efeito, mesmo que eu tenha entendido que eu precisava de números muito grandes para realmente me acalmar.
João: trezentos e sessenta e um, trezentos e sessenta e dois, trezentos e sessenta e três, trezentos e sessenta e quatro, trezentos e sessenta e cinco.
Foco, foco, foco, foco pra não contar de forma errada, e com tantos números na minha cabeça, a grande agitação da minha cabeça se acalmou…Hehe, eu queria acreditar que aquele era um último presente da Jaci, antes de eu voltar pra casa, mesmo que eu ainda pensasse que aquele tipo de método não seria muito bom em um ataque de fúria rapido demais, mas eu podia muito bem resolver isso depois.
João: até a próxima, Deusa da Lua.
E me arrumando, e conferindo minhas mãos limpas, mesmo depois de bater naquelas paredes de água por tanto tempo, fui pra casa, pensando que a troca de faixa seria bem interessante de se participar.

