E como eu pensei, assim que eu cheguei lá, todo mundo ficou alerta, e nós ainda estávamos aprendendo coisas básicas, pinturas, como fazer tintas, os componentes que podiam substituir outras tintas, e muitas, mas muitas outras coisas, eu sentia os outros olhando com ódio, e com olhares assassinos também, mas com apenas um olha meu, carregado de ódio, alegria e desafio. Todos paravam de olhar pra mim, sentia que a combinação criava um olhar de vilão poderoso.
Mas eles não tinham coragem, eles faziam promessas com seus olhares, enquanto eu os via prestando atenção na aula também, todas promessas de longo prazo que eu ficava bem empolgado por dia em que elas seriam cumpridas.
E depois, mas tarde voltei pra casa, e me preparei pra ir no treino de boxe novamente, com minha medalha de campeão na mochila, quando cheguei lá, o treino foi bem tranquilo, claro, eu ainda recebi golpes poderosos dos veteranos, mas sem nenhum torneio chegando, eu tinha a liberdade para lutar com os outros também.
Hehe, eu senti falta de lutar contra o Nilo, o pirralho era tão rápido que me fazia ficar alerta com tudo, quase me fazendo aprender a manter os olhos abertos enquanto era acertado, mas eu ainda precisava de mais treino, não havia pausas na nossa troca de golpes, apenas socos, chutes e mais socos, a ponto de parecer quase que nós estávamos conectados, mas se estávamos, eu não notei.
Já o Luca, ele era mais doido ainda, porque graças a maldição dele, ele era “quase” imprevisível, porque a mente dele já era tão absurdamente vazia que quando ele se concentrava um pouco, era quase impossível perceber qual seria o próximo golpe dele, e tudo isso sem nem contar o copo enorme que ele tinha também.
No fim do treino, onde eu terminei bem menos cansado e dolorido do que o normal, o mestre chamou a mim e a veterana Artemis pra ficar ao lado dele.
Mestre: para aqueles que não foram ao torneio, saibam que nós conseguimos 5 bronzes, duas pratas, e dois ouros.
Eu estava feliz com a forma que o Rony mostrou a medalha de prata dele, não havia vergonha em seu olhar, não, ele tinha orgulho de chegar tão longe, mesmo se movendo a base da cafeína por causa do bebe dele.
Mestre: esses dois se dedicaram ao treinamento, e ganharam o direito de receberem as medalhas, mas nunca se deve esquecer das suas origens, então para garantir que essa momentânea vitória não vai subir a cabeça deles, qualquer um que deseje lutar contra os campeões terá a chance agora.
Muitos levantaram as mãos, empolgados e cheios de alegria, em segundos, todo o salão e treino virou uma tempestade de gritos e falas que tentavam explicar porque eles deveriam ser os primeiros, eu sabia que alguns apenas querem testar a sorte com a Ártemis, mas eu ainda ficava empolgado em saber que alguns deles queriam lutar comigo.
???: você diz, qualquer um?
Uma voz misteriosa chamou a atenção de todos, e olhando para trás, todos conseguiram ver, uma mulher loira, mais ou menos de 16 anos, e que parecia prestes a explodir de raiva.
Mestre: qualquer um, mas sugiro não lutar com ele com essas roupas
???: eu me viro.
A mulher estava usando calças largas, uma blusa com uma flor e uma jaqueta preta, era maneiro, mas não era o ideal para um combate, pelo jeito ela mesma percebeu isso e tirou a jaqueta e os sapatos antes de entrar no tatame e apontar pra mim.
Mulher: euu quero enfrentar ele
João: posso saber o por que?
Mulher: porque você tem a minha idade, ou tá com medo de apanhar pra uma mulher?
Ai ai, aquele papo de novo, pelo jeito vou poder espalhar aquele pensamento pra mais pessoas, e tava muito feliz por isso.
João: hummm, isso nunca iria acontecer
Mulher: jura? por que?
João: porque você não me enfrentava como uma mulher.
Achei engraçado ver a mulher ficando confusa, eu sempre amava falar isso para as pessoas.
Mulher: não vou?
João: não, eu tenho uma regra de nunca bater em homem ou em mulher, pois um lutador não luta com “cidadãos”...no entanto, se você vir lutar comigo, você não será mais uma mulher, você será uma guerreira, e seja homem, mulher, amaldiçoado, não importa e na luta da guerra, todos os guerreiros são tratados igual.
E dando um toquinho de punhos, meu mestre ficou bem feliz com o que eu falei, e sabendo o que ia rolar, o mestre ordenou a todos se afastarem, até criar um círculo, onde só tinha eu. E levantando minhas mãos em desafio, falei.
João: você quer ser uma guerreira, jovem?
Ela demorou a responder, mas não por dúvida, mas por incredulidade, era óbvio na cara dela que ela já ouviu muitas pessoas dizerem que ela não podia fazer coisas por se “mulherzinha”...mas o que eu mais entendia no rosto dela era algo que eu já vi no meu espelho muitas vezes, e às vezes, ainda via.
Mulher: {eu não quero conversar, eu só quero bater em algo, o mais forte que puder”}.
Sem dizer uma única palavra, eu ouvi a loira falar aquilo, ela andou até mim e tentou imitar minha guarda.
João: jovem, qual é o seu nome?
Mulher: Tainá
João: sou o João.
E então começou, primeiro eu vi ela avançando e ela tentou me acertar, os socos dela eram fracos, ela nem mesmo chutava, apenas uma vez, em que ela tentou me chutar no meio das pernas, comigo apenas colocando o joelho no lugar pra ela bater. Ela sentiu dor mas ela não gritou, apenas continuou batendo e batendo.
E naquela revoada de golpes, eu senti, a raiva, a frustração de ser subestimada, junto de um desejo de lutar, eu sentia através dos golpes dela a tenacidade através dos treinos que ela fez sozinha, sem nem contar aos pais, temendo que eles negassem por ela “ser mulher”, como todos os outros lugares que ela ia pareciam fazer também. tudo misturado com uma outra coisa que eu não sabia dizer o que era.
Eu nao me segurei, eu comecei com uma sequência, jab direto, peito e peito, jab, cruzado, lolking e chute faca. O que mandou ela longe, mas ela não caiu, então comecei minha sequência de golpes, ela não se rendeu, mesmo quando eu encurralei ela na parede e comecei a bater nela, muito.
Muitos alunos se preocuparam, mas o professor não me impediu, e logo todos ficaram impressionados em ver como a loira não caia, mesmo não conseguindo defender direito, ela se recusava a cair ou admitir a derrota, ela quereria saber lutar contra um campeão. Ela jogou todo o esforço dela até aquele ponto, então era o mais justo que eu jogasse toda a minha força até agora em cima dela, isso se ela realmente quisesse ser uma guerreira.
Alguns segundos depois, eu me afastei pra recuperar o fôlego, e fiquei feliz em ver a Tainá ali, cansada, ofegante e com as pernas bambas, mas mesmo com ela usando as luvas, e eu conseguia ver as mãos dela, apertando com muita força e olhos cheios de um fogo que não era raiva, era pura determinação.
Mesmo assim, depois da minha chuva de golpes, ela tava com medo de me atacar de alguma forma, então como um aviso, eu fechei a guarda e falei.
João: agora é a sua vez.
E com a minha confirmação, ela tentou me atacar de novo, e novamente, eu não senti uma dor verdadeira, mas apenas porque não a subestimei e defendi cada golpe amador dela com toda a minha defesa desde o início.
Mesmo ela sendo uma garota sem treinamento nenhum, eu colocava minha defesa e meu ataque como se ainda estivesse no campeonato, e eu fui recompensado por isso defendendo um único soco, um soco carregado e poderoso o bastante para me jogar pra trás.
Eu não tinha certeza, mas esse golpe talvez pudesse ter me nocauteado se não tivesse tomado cuidado. Olhei a Tainá alguns segundos, ainda curioso aquela coisa misteriosa que eu não conseguia entender nos goles dela, e perguntei.
João: e aí, quer continuar?
Tainá: (arfa, arfa) ah, não, já tive o suficiente
João: quer voltar aqui amanha?
Tainá: (arfa, arfa)é, é, pode ser.
Eu ainda não sabia se a Tainá gostava de mim ou não, algo me dizia que aquilo era algo bem importante pra já estar definido, mas bem suada, e bem dolorida, ela foi embora, enquanto a Loira ia embora, Nilo e Luca vieram até mim com uma naturalidade impressionante.
Nilo: essa ai vai dar um trabalho
João: os melhores sempre dão
Luca: o Luca gostou o que o Joãozinho falou sobre mulheres e guerreiros
Nilo: o Nilo também gostou, se importa de eu adotar isso pra mim?
João: sim, eu me importo sim, eu me importo gostando muito que você adote…posso estar sendo meio pretensioso, mas sinto que com isso eu meio que quebrei o paradoxo “é machista ou não bater em mulher”
Nilo: tenho certeza que se você conversar isso com qualquer outra pessoa, ela vai querer destrinchar esse pensamento seu
João: vou estar pronto pra isso
Nilo: pelo bem das mulheres que querem lutar, eu espero que esteja mano.
Era muito estranho isso, mesmo depois de tanto tempo, ainda existiam os idiotas que não entendiam que mulheres também podiam lutar, claro, existiam algumas regras, mas quando elas eram obedecidas, algo incrível poderia surgir disso.
E considerando que até garotos que defendem que “mulheres também podem lutar” não conseguiam explicar direito o fato de que, mesmo que elas pudessem lutar, elas ainda eram mais leves e mais fracas que homens, não era preconceito, era biologia.
Mas isso significava que elas não podiam lutar? Não, só significava que elas tinham que ser mais criativas, e para a alegria de mulheres como a Tainá e a veterana Artemis, havia um histórico bem grande de mulheres que foram criativas com essa “limitação” dos gêneros.
Joao: ai, vocês notaram algo estranho nela?
Nilo: nada, bom nada além do colar de girassóis igual ao meu irmão do pescoço dela, mas tirando isso, nada
João: ela tava com um colar de girassóis? Nossa, qual será a maldição dela?
Eu tava bem impressionado que eu sou tipo, nao notei que u ola de girassóis, um dos símbolos mais importantes pros amaldiçoados estava na garganta daquela garota…bom, eu tava bem mais focado nos olhos que carregavam muitas lutas mentais para olhar o colar dela, então era normal.
Nilo: com certeza é uma mental, aquele olhar nela nos olhos, não é o olhar de uma pessoa que só passa por problemas em casa, é o olhar de alguém que luta constantemente com a própria cabeça, e que está sempre empatada, nunca ganhando ou perdendo.
“Lutar com a própria cabeça, nunca lutando e nem vencendo”, hummmm, nunca tinha ouvido alguém tão parecido comigo, e mesmo que estivesse claro que o caso dela era mais sério que o meu, eu ainda conseguia cruzar os braços com um sorriso e falar.
João: ela com certeza vai dar trabalho
Luca: o Luca acha que ela será uma ótima campeã, o olhar dela da mais medo que o olhar do Joãozinho quando começou
João: é Luca, você acertou nos dois.
E depois daquela experiência, eu e a Artemis fomos desafiados por mais 5 pessoas cada um. E como não era um torneio, eu consegui lutar com tudo com eles, não tendo um vencedor ou um perdedor, me permitindo perceber o que estava fazendo errado, o que estava deixando de fazer e o que eu não devia fazer, era um trabalho árduo, mas que fazia eu me senti vivo e acalmava a fúria em meu coração.
E depois de tudo isso, fiz uma última oração à Jaci e ao Guaraci, e depois fui pra casa.
Nilo: ai João, me fala, você vai participar do próximo torneio?
João: é claro que vou
Nilo: ah, mas você vai pro segundo torneio e ainda vai, tipo, tentar entrar na seleção de troca de faixas depois
João: uhum, eu também vou tentar a faixa verde…
E ali estava, meu amigo olhou pra mim com um olhar bem assustado como se eu não fosse humano.
Nilo: você é incansável
João: é a cruz que eu carrego.
Dei de ombros falando aquilo, porque por mais que eu gostasse de ter transformado essa minha energia e raiva extra em algo útil, tinham muitas vezes que eu queria só nunca ter uma energia assim para começar, mas querer tirar um pedaço de você que você não gosta, principalmente um biológico assim ea muito difícil, mas tava tudo bem, mesmo não me livrando totalmente disso, ainda estava feliz com o que consegui através dessa raiva doida que sentia.

