No dia seguinte, depois de encontrar com a deusa Jaci, de novo, e depois de tirar um tempo em casa pra conversar com a Elena através dos nossos grimórios.
(Tipo, pense numa página do grimório idêntica ao whatsapp, só que de papel e da pra escrever).
Com direito a flertes e promessas de que faríamos quando nos encontrássemos pessoalmente, eu fui para a escola de pintores, e como eu imaginei, a “raiva” que eu germinei nos alunos estava bem longe de estar cheia, mas eu estava me preparando pro momento onde eu iria receber toda aquela raiva em mim.
Bom, pra não pensar em coisas ainda intensas, eu só fiz as minhas coisas, e depois de um tempo, eu fui pra casa, e dessa vez, eu usei um terno completo e um chapéu bem bonito, porque hoje a noite seria especial. Tão especial que eu fui sozinho usando a minha prancha ao invés de pedir meu pai me levar pra carruagem.
Quando eu passei pelas milhares de ilhas, eu vi o Nilo vindo ate mim, com uma prancha igual a minha, e com um terno até mais elegante que o meu, ele até tinha uma pena no chapéu. Não falamos nada por alguns segundos, eu não queria perguntar nada a ele, sabia que era inútil.
Até que nos vimos outras pessoas, Sapiens com pranchas parecidas com as nossas, vampiros em carruagens, ogros “nadando” na própria aura, tudo dentro de um grande palco que se parecia com um coliseu, com cadeiras bem altas e um palco bem abaixo, como um buraco quase, mas não era. Existem milhares de lugares, e eu apenas me sentei ali, com o Nilo do meu lado.
Joao: sei que é inútil, mas me fala, o que agente vai ver:
Nilo: não vou contar.
Eu sabia que ele ia falar isso, ele sempre foi bom em guardar segredos, demorou uns 20 minutos pra todas as arquibancadas ficarem cheias, e quando tudo se encheu, o palco lá embaixo começou a trilhar uma fumaça vermelha e brilhante, uma que eu reconheci muito bem.
Ali em baixo, um casal de contadores de histórias estavam se apresentando, em roupas totalmente vermelhas, isso até eles enrolarem as mãos um no outro e começarem a dançar de forma lenta…foram necessários apenas 10 passos para a aura deles criar uma fumaça intensa o bastante para o grande filme através da fumaça começar.
EEEEEEEE o filme que o Nilo me pediu pra ver era…um romance bem clássico, que via o Nilo no treino e até junto com o irmão nem iria sentir isso, mas ele era doido por histórias de romance.
A história dessa vez era doida como de costume, uma história de uma fada com um vampiro, a forma como eles se conheceram no começo foi bem fofinha, com a fada chegando no território pra recomeçar depois de já ter cumprido seu dever na floresta e liberada.
Ela encontrou o vampiro por acaso, enquanto ela era uma voluntária pra ter seu sangue sugado de forma voluntária e direta, e no fim eles eram a alma gêmea um do outro, e quanto mais eu via cada cena, como o vampiro parecia sempre jogar a fada para um lado mais delicado, com ela se aconchegando com bastante carinho peito do vampiro, e como a fada sempre fazia o vampiro mostrar suas danças e ela sempre batendo palmas no processo, me deixava feliz, enquanto pensava em outra coisa.
João: é muito doido pensar que existem pessoas assim no mundo, gente que nunca se conheceu, mas com uma única conversa ciam uma conexão instantânea, ninguém nunca pensa ter alguém parecido com você por aí, porque às vezes parece que estamos sozinhos, com ninguém nos entendendo
Nilo: ah, isso não iria acontecer
João: por que?
Nilo: porque é impossível você ser completamente sozinho, não tendo ninguém capaz de entender você…nosso planeta tem mais de 7 bilhões de pessoas, isso sem contar os “semi-humanos”, 7 bilhões de pessoas e nenhuma delas gosta do mesmo que você? isso parece bem impossível pra mim
João: bom, quando você fala dessa forma, fica meio difícil de discordar.
E com um clima bem mais calminho, alegre e feliz, nós voltamos a ver o show. Agora era o vampiro apresentando a fada pros pais, e com eles falando que o vampiro devia estar preparado pra quando a fada morresse, o que deixou o público bem confuso, já que os pais do vampiro não odiavam a fada, só pensavam que na vid 4 vezes mais devagar do vampiro (1 ano vampiro = 4 anos sapien) não iria aguentar o tempo normal da fada, o que dava boas discussões no meio da plateia, mas eu não falei nada, apenas continuei vendo o show.
Primeiro, a fadinha pesquisou várias coisas, até ela encontrar um feitiço capaz de fazer ela viver mais tempo através de muitos estudos, ficamos muito tempo apenas vendo a fadinha treinando, usando seu amor pelo vampirinho como combustível.
E com a fada ficando mais forte, muitos dentro da pintura que conheciam o casal, começaram a sussurrar que o vampirinho era aproveitador, por não estar se esforçando o suficiente, então inspirado pela dedicação de seu amor, o vampiro se dedicou, até se tornar um grande guerreiro de punho e orgulhar sua namorada.
Teve até uma ceninha que ninguém gostou no início, que eram uns invejosos forjando uma foto falsa com a fadinha traído o vampirinho, pra muitos, aquilo seria a hora onde teria vários mal entendidos pra história se alongar, mas foi o contrário, porque o vampirinho rasgou a foto em pedaços no meio dos idiotas que não gostavam da felicidade alheia e falou.
Vampirinho: a Hytera nunca faria isso comigo, se você quisesse fazer uma foto deveria fingir melhor.
Eu olhei ao redor como todo mundo aplaudiu de pé pelas atitudes do vampirinho, o próprio Nilo aplaudiu enquanto ria.
Nilo: hahaha, o fato que isso é baseado em uma história real é a melhor parte pa mi
João: isso tá ficando cada vez melhor.
Eu adorei muito a peça, porque sempre que parecia que iria aparecer alguma coisa que era para deixar o casal brigado ou de mal um com o outro, eles faziam algo que parecia simples, mas que muitos casais em outras histórias não pareciam fazer, eles não acreditavam nos estranhos que contavam coisas pra eles ou apenas conversavam o que ouviram para seu amado, e quando eles acabava ouvindo escondido uma conversa, eles tinham a decência de ouvir tudo até o final, o que deixou a história bem dinâmica…
O filme tava tao bom que eu apenas percebi quanto tempo passou quando chegamos na cena final, a cena onde o vampirinho completou 120 anos, 30 anos em tempos de Sapien, e na cena final, ele estava dentro de uma sala com nada além de 4 cascas de fada, mas não eram cascas normais, com a fadinha numa extremidade da sala e o vampirinho em outro canto, ela começou a contar.
Fadinha: Francis, tá vendo essas cascas? Cada uma delas era uma eu antiga, a primeira era uma eu que viveu tudo que uma fada normal iria viver e pediu por mais, a segunda foi uma fada que aprendeu o quanto podia confiar em você, eu garanto que ela não se decepcionou…
E com a fadinha se aproximando cada vez mais do vampirinho, ela continuou.
Fadinha: a terceira foi interessante, porque foi ela que entendeu o qual fofo você realmente é…
E estando bem pertinho dele, ela se ajoelhou, e continuou.
Fadinha: e a quarta…essa aqui percebe que viveu tudo o que uma namorada podia viver…então, Francis, você quer se casar comigo?
Vampirinho: SIM.
E com um sorriso lindo, ele abraçou a fadinha e a rodopiou no ar , fazendo cada um no palco bater palmas em pé. Me deixava um pouco frustrado não ver o casamento, os filhos ou outras coisas, mas até onde a história foi, eu já tinha visto muita coisa estava bem feliz.
E com o fim do show, a fumaça vermelha ficou cada vez menos intensa, até que começou a mostrar os dançarinos que criaram todo aquele show por quase 3 horas seguidas, completamente sozinhos, eles estavam ofegantes e suados, mas eles ainda tinham plena força pra se virarem para o palco e se curvarem para agradecer aos aplausos.
Depois do show, nós tínhamos só pegando nossas pranchas e ido pra casa, ah, eu amava peças como aquelas elas faziam eu me sentir “limpo” e toda a maldade que parecia se alojar tanto tempo em meu coração parecia desaparecer por completo quando eu fazia isso.
Nilo: ai, eu amo peças assim, me faz acreditar no amor de novo
João: e ver eu e a Elena não te faz acreditar no amor?
Nilo: nao me leva a mal João, você é a Elena são muito fofinhos juntos, mas vocês são perfeitos demais, muitas vezes eu penso “cara, eu quero um romance assim, mas romances assim existem mesmo?”
João: bom, acho que vamos precisar mais exemplos do que só o meu pra te convencer, né?
Nilo: é, desculpa por isso mano
João: não não, ta tranquilo…
Por que ele estava se desculpando? Essa era a melhor coisa que eu já ouvi de alguém a muito tempo, “seu namoro é tão perfeito que não parece real”, e novamente, eu não fazia ideia da imensidão do que ele me causou, isso era algo estranho das pessoas, muitas não entendiam o que as palavras causavam nos outros, que estranho.
Nilo: mas ai, você vai se encontrar com ela de novo?
João: quem dera, amanhã eu vou tirar um tempo pra descansar, vou me encontrar com uma mulher super especial de novo, e ainda terei que me exibir um pouco por ser um campeão
Nilo: ah é, muitos vão lá pra pegar seu pescoço
Joao: sei disso, sei disso.
Enquanto chegamos na minha casa, apenas pensava na multidão de pessoas que iriam querer “testar o campeão” eu sempre ouvi histórias disso, mas nunca passei eu mesmo, amanhã seria a primeira vez, e tentando me manter calmo, pensei que seria um ótimo treinamento, para ver quando a raiva que eu cultivei nos alunos pra eles melhorarem realmente iria despertar ou eles só iriam fazer cara feia pra mim pra sempre, e apenas pensar nisso me fez rir, e mesmo sem entender porque eu estava rindo, o Nilo começou a rir da minha risada.
Nilo: HAHAHA, mano, você tem uma risada muito engraçada
João: fico feliz que minha risada te faz rir.
E com mais uma risada, nós fomos pra casa, comigo até imaginando como amanhã seria bem complicado e difícil.

