Eu só ia ver o Luca de tarde, mas ele já passou por coisas o suficiente pra saber esperar antes de me ver, a minha manhã foi normal e a minha aula de pintura foi tranquila também…A coisa mais diferente que eu vi na minha aula é que os alunos estavam um pouco melhores, não eram apenas nas pinturas, mas eles também estavam com muito mais sentimento no olhar.
Claro, muitos alunos, que não aguentavam ficar na mesma aula que eu, foram embora, esses eu sabia que deviam ter uma Aura bem fraca, mas todos que ficaram já tinham força o bastante pra me olhar nos olhos, um ódio profundo na forma que eles me olhavam, e mesmo sabendo onde aquilo iria acabar, eu estava bem empolgado, eles pareciam um barril de vinho que eu enchi e estava envelhecendo aos poucos.
As vezes eu pensava “que gosto esse vinho teria quando fosse servido?” mas esses eram só devaneios, além disso, eu tive um dia completamente normal, bom, pelo menos até eu sair do templo, ir pra casa com meu pai e me aprontar para visitar o cavaleirinho, hehe.
Depois de tomar banho e me arrumar, colocando uma bermuda, uma regata e chinelos de plástico, eu voltei pra carruagem do meu pai e fui levado pra cima novamente, enquanto olhava pela janela, eu ficava bem tranquilo e feliz enquanto eu via todas as ilhas ao redor de nós, agente ficou nos céus por um bom tempo, até que descemos em uma cidade pequena que ficava e em uma outra ilha.
Joao: (suspiro) viver num arquipélago não é fácil
Pai: é, agora imagina não ter uma carruagem
João: um cara com pernas de Aura super fortes
Pai: justo, agora vai visitar aquele doidinho.
Sabia que meu pai tava brincando chamando o Luca de “doidinho”, eu não sabia o porque, mas ele era um dos poucos que tinham paciência com o Luca…hummm, acho que a fruta não cai longe da árvore afinal.
Quando cheguei na casa dos irmãos, fui recebido pelo Luca, e assim que me viu, ele me deu um abraço bem forte, e depois gritou.
Luca: AAAAAAH, VOCÊ VEIO
João: é claro que eu vim.
Ele ficou me abraçando e me girando pra todo o lado por um bom tempo, até que ele me colocou no chão, haha, só tinha começado, e então eu perguntei.
João: então, o que você quer fazer?
Luca: vamos ver Ari a ariranha?
João: claro.
E dando pulinhos e batendo nas próprias mãos um tempinho, ele me chamou pra dentro.
Luca: vem, vem.
Eu andei lá dentro, e nem olhei muito pra casa, eu só tava focando no Sapien. Quando cheguei na sala e vi o sofá de tecido, fiquei feliz.
João: esse sofá é tão confortável
Luca: é, o Luca também gosta muito do sofá, hehe.
Então ele pegou o controle, e com uma precisão que ele treinou muito pra fazer, ele colocou o portal pro canal da Ari a ariranha. Eu queria conversar algo com ele, mas tava muito cedo ainda, queria ficar um tempo só vendo o programa com ele antes de falar coisas sérias demais.
Quando comecei a ver o programa, entendi de cara porque o Luca gostava dele, era um desenho de ação de super heróis, onde uma garota que vivia em um continente muito sujo e muito corrupto acaba sendo vítima de um experimento que a deixou 50% mulher, 50% ariranha.
Isso foi tudo que deu pra entender da explicação do Luca, porque antes dele me falar qualquer outra coisa importante, o programa começou. E eu tinha que admitir, era um programa muito legal.
João: não precisa me falar mais nada, eu quero entender as coisas eu mesmo.
E como eu pensei, era uma história de super herói clássica, a protagonista era carismática pra caramba, e as cenas de ação eram lindas, era mágico ver aquela garota lutando com as forças do mal usando os punhos, era um programa bem, “simples” ele não tentava inovar, ele fez o que muitas séries de super herói fizeram várias vezes, mas nessa simplicidade, eles conseguiram fazer muitas mudanças pequenas que deixavam o programa muito interessante, por exemplo, a protagonista tinha o bom senso de saber quando dava pra redimir um vilão e quando não dava.
Eu descobri isso porque no programa que eu tava vendo com o Luca, ela tinha acabado de capturar um dos vilões mais pesos-pesados, e ao invés de dar um discurso, ela pegou o vilão, ela o matou, eu fiquei sem palavras sobre aquilo, mas o Luca gritou e falou.
Luca: É ISSO AI, MATA O CARA MAL.
Eu ainda tava sem palavras, até que a Laila, a parceira da Ari, perguntou a ela.
Laila: MINHA NOSSA, ARI, O QUE VOCÊ FEZ?
Ari: impedi que mais massacres acontecessem
Laila: bom, é, mas isso ainda é assassinato, voce acabou de…
Ari: eu já sou uma assassina Laila…
O Luca parecia saber o que estava prestes a acontecer, enquanto eu fiquei tão sem palavras quanto a amiga da Ari, que ainda estava entendendo o nome.
Ari: eu deixei ele vivo duas vezes, e a cada vez que ele escapou, um mar de mortos foi feito por ele…
E a Ari olhou as próprias mãos, tremendo…nossa, o pintor que criou aquela cena era boa, eu senti o medo em segunda mão aqui onde eu estava.
Ari: tantas mortes, tantas viúvas, tantos órfãos, tantas mães, que nunca mais verão seus filhos, por que eu não tive coragem de matar uma pessoa…bom, não mais, eu nao vou mais deixar loucos matarem inocentes
Laila: mas e se você se tornar uma louca?
A Ari parecia pega de surpresa por aquilo, mas com uma calmaria incrível, ela pegou a amiga nos ombros e falou.
Ari: não irei matar todos discriminadamente, só irei parar de ser piedosa com loucos…não vou deixar mais ninguém pensar que pode fazer o que quiser e ser protegido pela lei, ou a moral…mas voce esta certa, nao tem garantia que eu não vou me corromper, e essa é a parte que você entra…sei que estou colocando uma responsabilidade nos seus ombros, mas eu quero que você me pare se eu enlouquecer.
Nossa, aquela arte era muito boa, eu conseguia ver em detalhes como a Laila queria confiar na amiga, mas ainda tendo medo, muito medo, ao mesmo tempo…
Luca: …a Laila ta feliz por que o homem mau finalmente morreu…
Apesar de estar bem surpreso com o que o Luca falou, me mantive focado no programa, eu tinha que saber o que a Laila iria falar.
Laila: tá bom, eu vou parar você se você se corromper
Ari: obrigada amiga, sei que tô te pedindo algo difícil
Laila: não, você não sabe.
E depois de desfazer o aperto nas mãos da Laila, o narrador falou.
Narrador: a primeira, mas com certeza não a última morte de Ari, será que ela conseguirá parar o javali prateado? Será que Laila terá coragem de parar sua amiga se ela sair do controle? Descubram isso no próximo episódio de Ari a ariranha.
E com aquela fala, a logo do programa, algo digno mesmo de uma série de super heróis foi mostrada, o que me deixou bem animado pra mais, mas logo, o programa acabou.
João: ah, eu queria mais
Luca: você devia ver o programa Joãozinho
João: você acha?
Luca: o Luca acha que você vai amar o programa.
É, eu tinha certeza disso também, queria ficar feliz com o fato de eu encontrar outra coisa pra fazer no meu dia, mas quando eu tava ali, com meu amigo, e vendo o programa com ele, eu não pude parar de pensar no que eu queria perguntar pra ele assim que eu entrei naquela sala.
João: Luca…me fala, você já pensou em ter a própria casa?
Luca: é claro
João: então me fala, o que você pensa ser o mais complicado?
Era um teste, um teste que o Luca já tinha me pedido pra fazer constantemente com ele, testes para ele sempre se lembrar que ele era sim uma pessoa que tinha o direito de ser independente tanto quanto qualquer um, a independência dele poderia demorar mais por causa da maldiçao do gigante feliz, mas ele iria conseguir.
Luca: acho que seria fazer amigos
Joao: fazer amigos?
Luca: sim, o Luca já sabe fazer comida e varrer a casa, e o papai prometeu que iria me ensinar a pagar pela casa diariamente, então, o Luca pensa que apenas fazer amigos seria problema
João: mas você já tem muitos amigos Luca
Luca: não, apenas você e os amigos do treino são amigos do Luca…mas quando o Luca morar sozinho, ele vai precisar fazer amigos ovos
João: quem disse?
O Luca então ficou sem falar nada por alguns segundos, e depois falou.
Luca: isso nãaaaaao, é o normal? Quando você mora sozinho e vira adulto, você não acaba conhecendo pessoas novas
João: isso aí, nesse caso, porque você pensa que isso é tão difícil?
Luca: muitos não entendem o Luca, muitos acham o Luca irritante.
E contrariando a própria maldição, o “gigante feliz”, o Luca ficou bem tristinho, então falei.
João: não se preocupe Luca, pode demorar, mas você vai conseguir mais amigos
Luca: (funga) como você sabe?
João: vou responder com outra pergunta, você sabe por que todos dizem pra voce só “ser você mesmo”?
Luca: não
Joao: simples, é porque nós atraímos o que nós mostramos pros outros, eu sou um cara agressivo, mas eu sou um(sotaque francês) “apreciador de arte”. Então eu atraio doidinhos como você, seu irmão, os veteranos, que são brutos que gostam de violência e artes…quase como se eu fosse um farol.
Para a minha felicidade, foi a vez do Luca ficar quieto, me dando chão pra continuar.
João: se você criar uma personalidade falsa, você pode até conseguir amigos, mas eles vão gostar do voce falso…
Perdi minhas palavras no meio do caminho, pensando nos grandes contos que já ouvi, vi e li sobre pessoas que esqueceram seus antigos “eus”. E pra minha alegria, o Luca parecia querer falar, mas ele se segurou, pra eu terminar de falar.
Joao: deixe sua personalidade a mostra Luca, e com o tempo, você vai encontrar as pessoas certas, que vem do verdadeiro você
Luca: mas e se o Luca ficar sozinho por muito tempo?
João: em primeiro lugar, você nunca ficaria sozinho enquanto eu ainda estiver aqui, e em segundo lugar, se a sua personalidade está afastando todo mundo, isso é mais uma benção, porque você não ia aguentar conviver com quem se afasta por simplesmente ser você mesmo de qualquer jeito. Os seus iguais, as pessoas que realmente gostam de você por quem você é, elas vão aparecer na hora certa, só tenha paciência.
O Luca fez uma cara estranha, que me deu um pouco de medo que eu tinha deixado ele irritado, desde que eu o conheci, apesar de entendê-lo, eu sempre tinha esse medo, de falar algo errado, irritá-lo e ele me atacar.
Bom, pelo menos isso não aconteceu até agora, e nem iria acontecer hoje, porque ele começou a rir, uma risada que parecia realmente algo que ele pensou ser engraçado, misturada com um pouco de autodepreciação.
Luca: é bem engraçado, sabia? O Luca escuta isso de tanta gente…”só seja um pouco mais paciente Luca”...e o mais estranho, é que nunca é de alguém que não gosta do Luca, pessoas que não gostam do Luca falam coisas como “Luca, fica calmo” ou “Luca, você não pode ser um pouco normal?” ou melhor, “Luca, para de ser tão doido”...ah, por favor, não pense tanto nas coisas ruins que falaram pro Luca, eu apenas queria pensar sobre, essa palavra tão bonita, “só tenha mais paciência”, eu odiava tanto essa palavra, o Luca pensava ser uma desculpa pras pessoas fazerem o Luca esperar, mas quando o Luca começou a ser mais paciente, o mundo foi mais gentil com o Luca.
Hmhmhm, eu amava conversar com aquele doidinho, porque mesmo tendo problema pra entender ele as vezes, quando eu entendia, eu tinha sensações como aquela, uma sensação de alegria e conforto, onde eu podia só sorrir de forma tranquila enquanto falava.
João: meu pai costuma falar, “aquele que tem paciência consegue tudo”
Luca: meu papai costuma falar isso também
João e Luca: hehehehehehehe.
E com uma risadinha gostosa, aproveitei o pouco tempo que ainda tinha com o Luca, enquanto eu me preparava pra passar o dia com o irmão dele amanhã, aí que eu lembrei que quem decidiu qual filme nós iriamos assistir era o Nilo, e ele ainda não tinha me contado qual era.
João: ai Luca, que filme o seu irmão queria ver?
Luca: ele não falou pro Luca, o Nilo queria fazer uma surpresa.
Ai, que coisa, o que aquele Sapien doidinho iria aprontar?
Quando começou a anoitecer, e as ondas começaram a ficar mais intensas, eu fui pra casa. E mesmo depois de tudo que fiz, eu tava cheio de energia, energia o bastante para eu comer bastante, e passar o resto da noite apenas criando desenhos, e como sempre, os pequenos estavam ótimos, mas os médios davam vontade de chorar.

