Quando acordei, eu senti dor, mas era a dor de stress dessa vez, eu estava muito nervoso, era a primeira vez que eu ia participar do torneio, o fato de que o torneio era as 9 da manha não ajudava também, mas eu ainda saí do quarto e me preparei para encarar os oponentes que ainda eram invisíveis pra mim.
Quando fui pra sala, vi meu pão com ovo e copo de proteínas que eu comecei a tomar ao invés do achocolatado. E com uma comida bem leve pra amanhã, eu respirei fundo, e olhei pro meu pai, que tava lendo um jornal enquanto parecia só estar esperando algo acontecer.
João: como é que tá o jornal?
Pai: chato…principalmente comparado a coisa que irei ver depois
João: então vamos lá?
Pai: vai na frente.
Minha mãe não estava em casa, ela já tinha saído pra resolver as coisas dela, então só tinha eu e meu pai em casa agora, então nós fomos, só nós dois, dentro da carruagem. E no meio do caminho, ele quis puxar papo.
Pai: e ai, como ta sua aura?
João: fraquinha ainda
Pai: quer umas dicas?
João: não precisa pai…eu vou ficar bem
Pai: se é o que ta dizendo né
João: eu acho que to tentando mais me convencer que convencer você
Pai: é, mas relaxa, e tudo vai se resolver.
Eu decidi acreditar no meu pai, por que não acreditar nele significava pensar que eu ia apenas ser espancado por todo mundo.
Bom, o lugar onde ia ser o torneio era bem maior do que eu imaginava, pra começar, ao invés de ser apenas uma ilha, ele era na verdade uma tigela criada entre 5 ilhas que carregavam nada além de imensas montanhas.
Quando entramos lá dentro, eu vi várias pessoas na arquibancada, e muitos competidores, muitos tão grandes e fortes que eu sabia que eram veteranos. Em segundos, o mestre me achou e me tirou de perto do meu pai.
Mestre: lamento Atlas, mas os mais jovens vão primeiro, sabe como é né?
Pai: com certeza, pode preparar meu filho.
Quando eu estava com o mestre, ele começou a pedir pra eu me alongar, enquanto me falava algumas coisas.
Mestre: não se preocupa, é o seu primeiro torneio, entao voce so vai lutar com alguns jovens da sua idade, 2, 3 no máximo
Joao: entendi.
Eu fechei meus olhos, respirei fundo, e me imaginei fazendo um castelinho de areia…e o castelinho se desfez, ah, ele precisava de mais água, mas o que a “água” simbolizava?
Mestre: você tá bem?
João: mais ou menos, eu to um pouco nervoso, mas eu to tentando usar uma estratégia pra me acalmar
Mestre: que técnica?
Joao: tô tentando pensar que isso tudo é apenas mais uma aula de combate…não tem nada em jogo, eu apenas podia ir com tudo, e não pensar muito no que precisava fazer depois
Mestre: boa, isso mesmo, é apenas um combate, não um bicho de 7 cabeças, você vai se sair bem
João: é, eu espero.
Eu tentei não convencer apenas meu mestre, mas eu mesmo, porque eu próprio não fazia ideia como eu ia, depois de colocar a regata e bermuda de treino, eu olhei meu oponente, e apenas o olhando, eu agradeci ao meu mestre por ter me feito lutar com os veteranos, porque pelo que parece, MEU OPONENTE ERA UM LOBISOMEM…
Sim, isso mesmo, pelo jeito, o dojo dos lobisomens encontrou um pobre garoto com o vírus lobo jovem o bastante para entrar no torneio. Tentei não pensar muito no tipo de doença que ele poderia ter e apenas me foquei no combate. A luta seria difícil, mas tinha certeza que podia dar conta.
Meu oponente, apesar de ser um lobisomem, e conseguir se transformar em um lobo cheio de pelos, eu estava tranquilo, porque o meu mestre me acostumou com isso, eu olhava para meu oponente em tom de desafio, e ele me olhava o aceitando.
Juiz: muito bem rapazes, eu quero uma luta limpa, nada de chutes na virilha, dedo no olho ou mordidas.
Não respondemos, apenas apertamos as mãos, não desfazendo o desafio no olhar e fomos um pro próprio canto. Eu tinha que tomar cuidado, isso seria complicado…e depois de levantarmos a guarda, avançamos.
Era diferente, muito diferente dos treinos, o lobo tentou me dar um soco, eu tentei dar um tapa na mão dele pra jogá-la pra longe, mas eu errei o tempo e levei um soco na cara, mesmo assim, eu não cai, ele se aproximou de mim, e começou a me bater muito…nenhuma perna, e com o meu corpo já acostumado com esse nível de dor, dei dois passos pra trás e dei um chute frontal no meu oponente.
(Nota do autor: chute frontal é um chute de frente da sola do pé bem na barriga do oponente, pra machucar ou empurrar.)
Me impressionei com o jeito que o Lobo foi jogado pra trás, mas eu não dei ele tempo pra respirar e logo lhe dei um jab que ele defendeu, depois um direto em baixo que ele não defendeu e subi com um chute peito na cabeça, ele até tentou me acertar, mas eu joguei minha cabeça pra trás, exatamente pra eu conseguir chutá-lo na cabeça de forma perfeita, sem que o soco dele me acertasse, eu dei a ele dois chutes, um peito na cabeça, e outro nas costelas.
(nota do autor: jab e direto, dois socos longos comuns, da direita e da esquerda.)
(nota do autor: chute peito, é um chute que acerta o peito do pé na lateral dos oponentes, indo das costelas ate a cabeça.)
Mas depois o lobo se recuperou e começou a me bater de novo, e tentei manter meus olhos abertos, mas ainda era difícil pra mim, eu esperei um pouco e quase desviei pro lado, mas ele me deu um chute peito na cara…e no puro instinto, eu dei um low kick bem na coxa dele, não foi o bastante pra derrubá-lo, mas logo eu dei um salto e dei outro chute peito bem na cabeça dele, um chute que o lobo também defendeu.
Ele começou a defender logo depois, e eu, cansado, comecei a atacar, com chute peito, e golpes mais curtos, como o cruzado e o aper, até que ele tentou me empurrar com o próprio frontal, doeu muito, mas conseguiu defender com o braço…é, como eu imaginei, dói, mas não dói nem um pouco como os golpes que eu recebi dos veteranos.
(Nota do autor: aper=gancho).
Mesmo assim, eu não abaixei a guarda, em uma troca de socos e chutes, eu não deixei o fato de eu ter passado por um treino intensivo subir a cabeça, com meus dedos apertando minha luva com muito afinco, meus dentes se apertando a ponto de eles se riscarem, e com o calor dominando meu corpo.
Eu pensava que aquele lobo era igual a mim, ele também passou por treinos intensos pra chegar ali, e ele não ia cair fácil. Eu terminei a primeira partida comigo dando um aper no queixo dele, e ele e dando um cruzado no rosto. Nós dois não defendemos o golpe, e ofegantes, o primeiro round terminou.
Eu não tava conseguindo ouvir nada, com meu corpo no modo sobrevivência, e com minha ira alimentando a força das minha mãos e pernas, tudo parecia embaçado e branco, eu só conseguia ouvir meu mestre e meu oponente.
Mestre: aí você vence o primeiro round.
Essa eu entendi, e com um sorriso, recebi um pouco de água, respirei fundo, e me preparei pro segundo round.
No segundo round, o lobo foi até mim de novo na cara, mas no meio do caminho dele, eu dei um chute faca no peito dele, ele ainda tentou resistir, mas eu dei vários socos nele, e…ele me deu um jab, e eu tive que dar um chute peito na costela dele de novo pra terminar o ataque.
Eu respirei fundo e olhei os ombros dele, tentando encontrar um padrão, mas ele me acertou de novo em mais uma chuva de golpes, eu foi interrompido 5 vezes, com ele sempre me respondendo com um soco na cara, ou um chute na barriga, tava doendo, mesmo que fosse menos do que o dos veteranos, ainda doía muito.
Então eu meti louco, se ele queria lutar assim, eu avancei até ele, dei um tapa na perna que ele iria usa pra me afastar, e me dediquei a ficar o mais perto possível dele, dando cruzados, apers, lowkicks, peitos do pé, e qualquer golpe curto o bastante pra acerta-lo.
Ele tentou me afastar pra longe, mas eu defendi o máximo que consegui, eu devo ter começado a chorar no meio do caminho, porque com os olhos ainda não acostumados a se manter abertos quando se levava socos, eu me senti cego por alguns segundos, mas eu ainda não parei…
Sim, eu senti, a cada soco, a cada chute, eu podia sentir cada treino pesado, cada veterano que o espancou e a cada dia que ele ouviu do próprio mestre, aquele lobisomem treinou muito para ficar daquele jeito, e como ato de respeito, eu prometi pra mim mesmo que eu iria vencer.
E com o lobo me empurrando pra frente com um chute frontal, eu senti que estava perdendo a força, isso até eu ouvir o meu Mestre me chamando…E pelo que eu vi o mestre do Lobo o chamou também. Ahhhh, graças a deus, o round acabou.
Apesar de eu ter certeza que não teria um terceiro round, ainda esperei meu mestre falar alguma coisa, tudo enquanto tentava me recuperar devagar e me manter consciente, duas coisas que eram muito mais difíceis do que deveriam…tudo ainda tava bem nublado na minha cabeça, ainda no modo sobrevivência, até que o meu Mestre falou.
Mestre: PARABÉNS JOÃO, VOCÊ GANHOU.
Eu precisava de um copo de água urgentemente, mas por enquanto eu tinha força o suficiente para falar.
João: por favor Mestre, espere um pouco pra quando eu me tornar um campeão
Mestre: é assim que se fala.
Eu levei um bom tempo pra me recuperar, o mesmo ritual, um pouco de água, e apenas um tempinho pra respirar, essas duas coisas conseguiam fazer minha visão que vivia tudo embaçado, voltar a forma normal de ver bem devagar e sentir todas as coisas…
E depois de respirar fundo, olhei arquibancada, e nossa, ela estava toda cheia com várias outras espécies e pessoas, e mesmo assim, levei menos de 15 segundos pra ver onde estava a minha família, meus pais, tios e primos estavam todos concentrados em um cantinho da plateia, gritando meu nome, junto com alguns dos alunos que não conseguiram participar nos combates do torneio como nós, mas eu pude perceber melhor alguém em especial.
Uma Sapien carregando um letreiro que dizia “meu campeão”, e eu vi rapidinho que era a Elena. E quando viu que eu a notei, ela ficou bem feliz, é, ela tava certa, dava pra ver de longe o letreiro dela, e de forma tranquila, eu mandei um beijo pra ela, e ao invés de abaixar o letreiro pra receber o beijo, ela abriu a boca e comeu, o que eu achei muito engraçado. E quando eu tava paquerando sem palavras a minha namorada, meu oponente veio até mim.
Lobo: você é bem forte garoto.
Quando olhei na direção da voz, vi que o lobisomem também era um ogro que me fazia pensar na força que ele deveria ter, e eu ganhei desse cara.
Lobo: eu consigo sentir muitos instintos primitivos em voce, mas voce ta tentando controlá-los
João: bom, controlar meus “instintos” foi o motivo mais principal de eu ter vindo pra cá pra começar
Lobo: hmhmhmhm, com tantos cabeças de músculos por ai, fico feliz em ver alguém que segue o caminho das verdadeiras artes marciais.
E o lobo então se virou de volta pro Mestre dele, e eu tava muito confuso, não fazendo ideia do que aquele ogro-lobo quis dizer, e pra não ficar com muita coisa na cabeça antes mesmo da minha luta começar, só decidi ver como tavam as outras lutas.

