A dor do meu corpo me distraiu da viagem por um bom tempo, eu não queria falar nada, então meu pai não me perguntou nada, não sabia porque, mas meu pai era muito bom em perceber o que as pessoas pensavam sem elas falarem, enquanto a mim? Eu ainda estava aprendendo com o mestre.
Pai: tá doendo muito?
João: muito
Pai: valeu a pena?
Não respondi na hora, eu apenas pensei que, apesar de todo o cansaço e dor no meu corpo, eu me sentia 1000 vezes mais calmo do que antes, e isso me fazia sorrir, mesmo que eu estivesse dolorido demais até pra rir
João: claro que sim
Pai: hmhm, é, esse é o tipo de coisa que nunca vou entender
João: nunca? Sério pai? Você nunca pensou em ser forte e poderoso? Ser o homem mais forte do mundo?
Pai: existem várias formas de ser forte filho
João: é, mas eu estou falando de força física.
Eu falei isso enquanto apertava minha mão, por mais que isso fizesse com que meu braço doesse muito.
João: a força pra acabar com um retardado que pensa que pode te vencer só porque tá com os amigos, força pra proteger aqueles importantes pra você, força pra você ser tão confiante que você não precisa lutar com os mais fracos, porque você já provou pra si mesmo que é o mais forte.
Sim, no fim, era isso que eu mais queria, eu queria chegar no ponto onde aqueles que se achavam fortes, mas apenas atacavam os fracos fugiam ao me ver, como predadores encontrando um predador maior.
Pai: sim, eu já desejei ter esse tipo de força, todo o homem um dia já desejou isso filho, mas como seu velho, muitos deles desistem no meio do caminho…
João: nossa…sem ofensa pai, mas eu não consigo ver você querendo ser o homem mais forte do mundo.
Isso nem era um insulto, meu pai não era e nunca foi um homem violento, pensar nele espancando pessoas por diversão igual a mim, era só…estranho.
Pai: hum, não é estranho que você não confie em mim, afinal, faz muito tempo que eu não preciso lutar com ninguém, quem sabe, talvez eu tenha me tornado realmente forte, segundo suas próprias palavras
João: é, quem sabe?
Pai: mas como eu dizia, existe um pequeno grupo de pessoas, homens e mulheres, que não desistiram, não importa o quão traiçoeiro, difícil e complicado ficasse o caminho, eles continuaram nesse caminho de se tornar o mais forte do mundo
João: como eu.
Os olhos do meu pai se encheram de um sentimento que eu não sabia dizer o que era, mas quando ele olhou pra mim, tive certeza que o sentimento de tornou alegria, e depois ele fez carinho na minha cabeça, e falou.
Pai: é, como você.
A mão do meu pai era áspera, pesada e carregava muito poder. Mas tinha um carinho incrível, como um elefante que aprendeu a fazer carinho num cãozinho sem machucá-lo.
E por mais doido que essa comparação fosse, eu gostava dela, e depois que eu entrei em casa, eu fiquei um tempinho com meus pais, apenas pra me preparar pra próxima doideira que eu iria fazer amanhã.
Mãe: você vai mesmo pro templo amanhã? Desse jeito?
João: ah mãe, quantas vezes eu tenho que te dizer isso? Eu preciso treinar a Aura ainda mais quando tô machucado assim….
Mãe: porque dá uma ideia pra sua Aura do quão forte você quer que ela seja e te mostra qual é o melhor estilo pra você usar, é, eu sei, mas você não acha que tá exagerando um pouco?
Sem entender o que minha mãe quis dizer, balancei minha cabeça em negação e falei.
João: unhun, nem um pouco
Pai: deixa o garoto querida, ele tá naquela fase de “eu odeio tudo e tudo deve sofrer”
João: eu tenho certeza que o nome da faze não é esse.
Meus pais ignoraram o que eu falei e continuaram conversando, até que eu me cansei de ficar lá e decidi ir pro quarto.
João: precisando eu vou estar no quarto
Pai: claro filho, divirta-se.
Meus pais sabiam o que eu ia fazer, então eles não pensaram muito.
Quando cheguei no meu quarto, antes de fazer qualquer coisa, eu apoiei minhas costas na porta, senti cada roxo no meu corpo, e me deixando o privilégio de dar um longo, e beeeeeem alto gemido de dor.
João: AAAAAAAAAAAAH. (Arfa, arfa) Valeu a pena.
Enquanto ainda não sentia arrependimento nenhum do que eu fiz, eu pegava um papelzinho e um lápis colorido do pequeno armário que ficava no meu quarto, eu tentava fazer um ratel em um papel, um desenho estranhamente mais fácil, mas não importa o quanto eu tentasse, o desenho ficava torto, feio, ou apenas estranho demais.
Fiz cada pintura malfeita virar uma bolinha de papel e coloquei ela numa lixeira bem grande.
Depois sentei fazer um elefante pequeno, e apesar dele ainda estar desigual, ele ainda conseguia ser mais bonito que o ratel, mas ainda não era o que eu conseguia, tentando o máximo possível aprender a deixar o elefante perfeitamente alinhado, com nenhuma perna grande ou pequena demais, fiquei muito tempo fazendo mais bolas de papel e jogando na lixeira, até que a lixeira ficou tão grande que eu coloquei todas as bolinhas em uma máquina que usou as bolinhas pra fazer um papel perfeitamente macio de novo, ah, eu adorava aquela maquininha.
E pra terminar, deixei os animais de lado, e pintei em um papel bem grande, milhares de folhas verdes presas em uma grande quantidade de copos fininhos, colocando algumas abelhinhas em uns cantos, depois coloquei umas florzinhas em outro canto. Tudo junto com dois passarinhos pequenos em um outro canto.
As folhas estavam imperfeitas, mas tava tudo bem, a imperfeição deixava as folhas parecerem mais naturais, as flores, e até os cipos, não tinha problemas eles serem imperfeitos, a ponto que eu deixava eles propositalmente dobrados em alguns lugares, com uma marquinha de mordida de lagartos, e outros detalhes pequenos assim, e por folhas serem simples, elas não eram difíceis de criar, mas esses detalhes simperfieos as deixavam bem legais…
Mas eu ainda me sentia mal, porque os passarinhos que eu treinei estavam ótimos, mas eu não queria isso, eu queria aprender a fazer pinturas muito maiores, mas eu precisava ser paciente, pra pinturas como essa, pesquisar e procurar por cursos não bastava, pra mim, eu apenas aprenderia as pinturas mesmo na tentativa e erro, não importa o quanto isso me irritasse, enquanto eu olhava novamente para a folha em branco, e pensava em tentar desenhar uma girafa, eu falei, muito mais pensando alto do que falando com alguém.
João: é através dos erros que meus desenhos vão ficar bons.
E eu tentei de novo, vários desenhos de girafas, e olha só, ela tava…bem feia, bom, a girafa tava bem mais bonita que a girafa que eu desenhei quando era criança…hehehe, eu ainda me lembrava do que a minha mãe falou pra mim na época.
Mãe: “nossa, tá linda filho, você é um grande artista”.
Aquela simples fala me deixou muito feliz, mas o que me deixou mais feliz foi a fala do meu pai, porque ele não mentiu pra mim, mas ele também não só falou mal da minha pintura, não não não, meu velho não era simples assim.
Enquanto eu tava todo sorridente com o que a minha mãe falou, meu pai chegou até mim, com um papel na mão, mas antes dele me mostrar o que era, ele viu meu desenho e falou.
Pai: nossa, seu desenho tá bem medíocre
Joãozinho: o que é medíocre?
Pai: significa que é comum, que o seu desenho não é bom nem ruim.
Eu lembro de forma perfeita como eu fiquei triste com o que meu pai falou, bom, pelo menos até ele me mostrar o que tava no papel que ele segurava, era um desenho de girafa, e a girafinha, pro meu eu de 6 anos, estava ótima.
Pai: mas acho que eu sou medíocre também
Joãozinho: nossa, a girafa tá muito bonita papai
Pai: é, isso tudo porque eu não desenho a muito tempo, você tem talento filho, você consegue fazer desenhos que um adulto como eu não consegue.
Eu lembrava muito bem que eu fiquei confuso, não fazendo ideia de onde meu pai queria chegar, até que ele se aproximou de mim, pôs a mão no meu ombro e falou.
Pai: você será um ótimo artista filho, nunca pare de pintar.
Não fazia ideia se meu pai tinha certeza do quanto ele me afetou naquela época, bom, talvez ele soubesse, e por isso que ele falou daquela forma comigo, mesmo assim, tinha vezes que nem sabia se ele entendia o quanto aquilo realmente significou pra mim, a ponto de que eu olhava pra girafa que eu desenhei na minha frente, ela estava incomparavelmente linda comparado com a girafa que eu criei quando tinha 6 anos, mas quando a olhava, vendo ela torta, e estranha em vários pontos, me fazia apenas dizer, pensando alto de novo.
João: não, isso não está bom
Pai: ela tem que ficar boa alguma hora.
Olhei para porta, e vi meu pai, eu não tava irritado, mas não gostei do que ele fez.
João: nossa pai, você não podia bater não?
Pai: foi mal, posso entrar?
João: vem, entra.
Meu pai veio até mim, e olhou a girafa que eu fiz.
Pai: a sua mãe mentiu pra você sobre o seu desenho quando você era criança, mas sobre esse desenho, eu tenho certeza que ela chamaria de “bonito” sem nem precisar mentir.
Fiquei triste só de pensar da minha mãe mentindo pra mim, mas eu ainda ficava feliz, pensando que ela podia pensar que o desenho que eu acabei de fazer era realmente bonito.
Pai: o jantar tá pronto
João: eu já vou descer.
Quando eu saí do meu “foco absoluto” das minhas pinturas, comecei a sentir meus roxos de novo, eu tinha tanta paixão pela minha arte que eu podia esquecer até daquela dor absurda na minha frente, e com ela de volta, eu precisava de pelo menos 5 minutos antes de descer lá de novo.
Mas antes de eu descer lá, eu senti uma vibração no bolso, então eu peguei meu grimório do bolso, o abri, e dentro da página de mensagens, tinha uma mensagem de alguém bem especial ali.
Elena: oi, então, tudo de pé pra quarta?
João: sim, encontro quarta e sem falta.
Sorri pensando que iria ver aquela doidinha de novo, agente tinha começado a se falar a alguns meses, mas sentia que nada tinha mudado desde aquela época, na verdade, tudo ficou só muito mais intenso, no bom sentido.

