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No topo do mundo 🥊1
☠️direitos negados☠️
2483 palavras • 13822 caracteres • ⏱ 9 min 56 s

☠️direitos negados☠️

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Depois de um alongamento simples, e u aquecimento tranquilo, nós fomos separados, os alunos mais novos, que estavam com as faixas brancas, cinzas e amarelas, foram colocados em um canto, e eram orientados por um aluno de faixa laranja, uma idêntica a minha, que o ajudava a entender melhor o que eles ainda precisavam fazer.


Já eu, e todos que estavam na faixa laranja para cima estavam no outro canto do dojo, e lá, não tinha muito o que pensar, nós fazíamos treinos em duplas, enquanto os outros faziam boxe sombra, o professor mostrava uma técnica de socos e chutes, e nós a aplicavamos em nosso oponente.


Não importa se é homem ou mulher, se eram crianças ou adultos, o mestre nos motivava a nunca nos contermos, pelo menos não para as pessoas que estavam naquele lado do dojo.


Enquanto ele caminhava no meio dos alunos, tentei não pensar muito nele, e apenas me foquei no Raoni, um dos veteranos mais velhos, tanto em idade quanto em experiência, ele tinha uma barba rala, cabelos pretos e olhos que gostavam que fazia semanas que ele não dormia direito.


Eu queria perguntar como o garoto estava, mas tava nítido na cara dele que ele não queria conversar, não sobre isso pelo menos.


E mesmo com aquela cara de cansaço, os golpes dele estavam mais pesados do que nunca, a ponto de eu me machucar mesmo com as luvas,  mesmo com as minhas luvas o acertando, eu me sentia batendo em uma parede.


Eu jogava minha raiva pra fora, concentrando ela em cada defesa e ataque que eu fazia, permitindo que eu conseguisse bater a técnica com o Raony sem descansar, no segundo em que eu terminava de bater, o Raony já começava. 


Era quente, tanto meu próprio corpo quanto a ardência dos lugares onde eu era atingido, tudo queimava, mas não apenas a minha raiva, mas cada centímetro do meu corpo amava muito isso, naquela sequência simples de golpes que faziam o meu suor voar pelo céu como chuva, eu só conseguia sentir a maior liberdade de todo o mundo.


Tudo até o mestre falar pra pararmos e começarmos outra técnica.


Depois de performa 5 técnicas por 5 minutos(5 minutos que sempre parecem maiores quando estávamos treinando), o mestre falava pra nos trocarmos nossos parceiros, e de forma certeira, eu fui até a minha próxima parceria, Artemis, uma mulher bem cheia (não, ela não era gorda, ela so era larga). Ela tinha um dos socos mais pesados que eu já senti em uma mulher, e depois de eu fazer uma sessão tão intensa com o Raony, eu tava bem cansado, e quando eu dei um jab em um dos ataques, ela falou pra mim.


Artemis: ah não, não, não, não é assim


João: jura? o que eu fiz de errado?


Artemis: você tem que inclinar um pouco o próprio corpo, assim você pode conectar os golpes, assim.


E na vez dela, ela me deu um soco no rosto, depois me deu um cruzado na lateral, mas era muito mais fraco.


(Nota do autor: cruzado, um soco na lateral do rosto de alguém)


Artemis: essa é a errada.


E depois, ela fez o movimento de novo de forma tão rápida que eu quase não notei, mas mesmo conseguindo bloquear os golpes, eu quase fui derrubado pelo cruzado que a garota me deu. Mas eu me mantive de pé, com as pernas tremendo e o corpo tonto, mas ainda em pé.


João: tá, entendi a diferença de golpes


Artemis: agora vamos continuar.


Agente continuou lutando, os golpes dela eram pesados como um martelo, meu corpo tremia apenas tentando aguentar os golpes dela, não importa o quanto eu tentava, eu não conseguia igualar a força, bom, talvez o fato dela ser maior, mais pesada e muito mais antiga no treino que eu, devia ter haver com isso também.


Eu tava ofegante, mas não tinha acabado, não não não, depois disso tudo, o mestre fez mais uma rolagem de ataques, uma sequência de vários chutes seguidos, com poucas pernas, e é claro que eu fui colocado com o Sansão, um vampiro, e como o próprio nome sugere, ele era tão forte que eu ficava com roxos sempre que ele me acertava, a ponto de que eu sentia que iria desmaiar a todos momento.


Eu bati bastante em todo aquele processo, mas eu senti muito mais os golpes dos meus parceiros que os meus.


Eu estava respirando fundo, sentindo o calor dos roxos que eu tinha em todo o meu corpo, a dormência que era atingida apenas depois de colocar meus músculos até o limite, junto com o suor que escorria do meu corpo como se meu próprio corpo estivesse chorando por estar o levando a tão longe, mas eu nem liguei, eu só respirei fundo e me preparei pro próximo desafio.


Mestre: AGORA FAÇAM 100 FLEXÕES.


Mesmo com o corpo todo dolorido, eu me coloquei pra fazer flexões, eu sentia o calor passando pelos meus braços até chegar no meu cérebro, como se meus músculos pedissem por ajuda, e eu os ignorava.


Mestre: DEPOIS 100 ABDOMINAIS DUBOX.


Ah, o dubox, era um abdominal bem sinistro, que ao invés de apenas por as costas no chão e levantar a cabeça, você deitava no chão, botava as mãos atrás da cabeça, e fazia um movimento que fazia o seu cotovelo bater em seu joelho, era um processo super difícil, mas que era mais fácil pra mim do que o abdominal normal.


Quando eu terminei o movimento, eu esperei que ele falasse alguma coisa.


Mestre: quem terminar, água.


Eu ouvi aquilo, mas não me levantei, eu precisei ficar algum tempo só deitado no chão, respirando e sentindo meu corpo queimando, eu estava queimando, eu estava pegando fogo…ESTAVA QUEIMANDO…mas eu não podia reclamar, no momento em que eu decidi ser um competidor, eu perdi o direito de ter um treino leve assim como os outros.


Quando eu me levantei, senti meu corpo estalando, enquanto eu ia até meu cantil e bebi a água…a água que eu bebi não tava nem perto de ser o suficiente, mas eu não podia beber muito, ou podia acabar passando mal.


Mas ela era bem mais do que o bastante para acalmar meu corpo que parecia estar na beira de um colapso a muito tempo. Bebi água, respirei fundo, e repetindo processo, meu coração que estava tentando escapar do meu peito se acalmou, minha respiração que tava ficando irregular se estabilizou, e minha própria vida que estava embaçada se estabilizou. Tudo graças a um pouco de água e uma respiração controlada.


Olhei pro lado e vi o Lucas e o Nilo querendo falar comigo, mas eu não podia falar agora, não agora.


Mestre: MUITO BEM, ACABOU O INTERVALO, VOLTEM AQUI.


O mestre então ficou um bom tempo fazendo as duplas, e logo ele pediu pra eu ficar com ele. E depois disso ele falou.


Mestre: ok, combate, eeee, valendo.


Eu fechei os olhos, e agradeci ao mestre por ter me dado um tempo pra descansar, porque eu tremi apenas pensando em enfrentar o mestre, mas eu não recuei, eu não ia recuar.


Os golpes do mestre eram diferentes, ele não era apenas forte, ele era rápido, ele conseguia desviar dos meus golpes como se eu estivesse em câmera lenta, ele parecia ler onde cada abertura e ponto fraco meu estivesse, como se eles estivessem brilhando em neon com uma placa “acerte aqui”. 


O mestre, de forma irônica, era um dos poucos que eu não podia jogar minha raiva, não, eu tinha que ser esperto, sempre manter a guarda alta, ao mesmo tempo que eu tinha que ser corajoso, e eu sempre precisava pensar qual golpe eu precisava dar, porque quando eu não pensava, o mestre me causava mais um roxo, um roxo que era bem mais pesado do que os outros.


Meus olhos estavam cheios de fúria, eu lacrimejava pela dor dos golpes, mas mesmo assim, eu ainda me segurava pra não rir, eu sabia que eu não tinha chances contra o mestre, mas enquanto ele me acertava no rosto, eu pensei que isso era ótimo, através dos ensinamentos, eu poderia lidar com os competidores.


Meu corpo doeu tanto que eu pensei que iria desmaiar, minhas pernas tremiam, e minha visão ficou turva de novo, um estado que eu tive que lutar com 3 pessoas super fortes pra conseguir, para o meu mestre, eu só precisei de uma luta.


Mestre: OK, TROCA DE PARCEIROS, ROLANDO.


Eu não era o único que estava treinando, além do Raony e da Artemis, tinham mais 8 pessoas que iriam pro torneio comigo, alguns eram adolescentes que estavam no caminho pra puberdade, outros eram adultos tentando achar uma forma de serem saudáveis, e outros eram velhinhos tentando se manter saudáveis, mas conseguiram algo maior do que só saúde.


Cada um dos 8 (9 contando comigo) lutou contra o mestre, e apesar de toda a intensidade do treino antes, eu tive muito tempo pra respirar, porque eu tive tempo de lutar com os alunos menos intensos, com a exceção do Raony e da Artemis, os outros eram fortes, mas não a ponto de me deixar com o corpo todo roxo.


E quando o último aluno lutou com o mestre, (um aluno que foi derrotado com um golpe na barriga, onde ele não conseguiu se levantar) o mestre andou no meio dos combatentes, olhando as lutas e dizendo tintim por tintim o que todos precisavam melhorar.


Mestre: fecha mais a guarda João, seus braços estão muito soltos


João: SIM MESTRE.


Não havia outra resposta, apenas um “sim mestre” bem simples, e depois de um tempo absurdo passar, a ponto que eu quase perdi a noção do tempo, o mestre chamou a todos de novo.


Mestre: OK, É O SUFICIENTE, EM FORMAÇÃO.


Ouvindo aquilo, cada aluno, não importa o quão machucados estivessem, correram, e se colocaram na mesma posição de antes, sem erros.


Mestre: sei que muitos de vocês já devem saber, mas daqui a algumas semanas, teremos um campeonato, e o João,..., o Raony e a Artemis irão participar, sei que cada um de vocês devem estar muito ocupados nesse dia, mas eu quero que consigam encontrar tempo para ver seus colegas lutando, se puderem.


Ninguém respondeu, apenas balançaram a cabeça concordando. Cada aluno que não estava no torneio olhou para baixo com vergonha, ainda não sabendo se iriam achar um tempo pra ver agente, mesmo sem o pedido do mestre.


Mestre: eu só posso dizer, muito bem, se vocês mostrarem a energia que mostraram hoje no dia de treino, sei que poderemos ser os campeões, mas apenas se vocês não pararem de treinar, tanto aqueles que farão parte do torneio da alma quanto do torneio do corpo.


Cada aluno, cada um com seus próprios roxos pensava no que o professor falou, então ele falou.


Mestre: agora, se preparem para os agradecimentos.


E colocando a mão no peito, o mestre fechou os olhos, e cada um fez o mesmo, eu já tinha feito aquilo tantas vezes que conseguia falar toda a oração de forma automática, muitos novatos só nos acompanhavam, mas eu iria amar conseguir ensinar tudo que eu sabia para eles, e todos juntos, como uma verdadeira entidade, todos falamos.


Todos: OBRIGADO JACI, POR TER NOS GUIADO NA ESCURIDÃO, E NOS DAR TEMPO PARA DESCANSARMOS.


Ah, eu amava aquela parte, existia uma religião no arquipélago que dizia que a escuridão era um lugar onde seres podiam descansar, e a grande lua que brilha no céu era um dos avatares da deusa da escuridão, Jaci, a Deusa da lua, ela mostrava os seres bons como não serem pegos por toda a dor e maldade que também existia nas trevas, guiando todos com o seu brilho emprestado do sol.


Todos: OBRIGADO GUARACY, POR TER NOS DADO A ENERGIA PARA MELHORARMOS EM SUA PRESENÇA.


Essa mesma religião acreditava que a própria luz era, quando tudo que uma vez foi escondido era revelado, não exatamente algo ruim, desde que a pessoa estivesse preparada para revelar algo para a grande luz. E a grande luz do sol era representada pelo nome Guaraci, um Deus que muitos(eu inclusive) acreditavam que estava acima de todas as coisas vivas e não vivas, porque não importa o quanto se tentasse, o sol sempre está acima de você…


Todos: MUITOS NUNCA ABANDONAM AS TREVAS.


Essa nem precisava pensar muito, enquanto muitos saiam das trevas, muitos não tinham a coragem de encarar a luz, e quando se ficava muito tempo na escuridão, você pode acabar se tornando um monstro, que empesteia um grande lugar que deveria ser de descanso, o transformando no lugar horrível que muitas pessoas realmente pensam que ele é.


Todos: MUITOS QUEIMAM NA GRANDE LUZ


Essa era um pouco mais interessante de pensar, porque o Sol tinha uma peculiaridade estranha, onde ele queimava vampiros, trolls e elfos malignos, mas apenas os malignos, para pessoas dessas 3 raças que não eram mas, o Guaracy não queimava nada. Nossa, quase perdi o fio da meada, melhor eu voltar a pensar na oração.


Todos: NÓS CRESCEMOS NAS TREVAS E APRECIAMOS A LUZ.


Sim, isso era o orgulho que qualquer crente carregava, nós tínhamos a ideia que nós entregamos sim na escuridão pra descansar, mas nós voltamos a luz por um bom tempo, para mostrar o que criamos nas trevas, até que nós ficamos cansados e voltavamos a escuridão pra descansar, depois agente criava mais coisas no escuro até queríamos sair de novo e o ciclo continua. E isso sempre fazia milagres pra nós.


Todos: E É POR ISSO QUE TE ABENÇOAMOS, JACI E GUARACI


Mestre: amém.


E depois da pequena oração, nós nos levantamos, fizemos o mesmo comprimento, batemos palmas, e nos preparamos pra ir embora. Mas antes de eu chegar na porta, alguém me chamou.


Nilo: João


João: ahn?


Nilo: aaaaaanh, eu só queria saber se você iria estar livre na terça? 


João: não, terça eu tenho um encontro, mas quinta eu tô livre


Nilo: legal, quinta que horas?


Tentei não ficar impressionado que o Nilo nem piscou quando eu falei que tinha uma namorada e só falei.


João: umas 2 da tarde vai ficar bom


Nilo: então fica combinado pras duas


Luca: espera, e o Luca?


João: ah, claro Luca, quando você quer ver a Ari comigo?


Luca: quando João pode visitar o Luca?


João: pode ser depois de amanhã?


E como uma criança que tinha acabado de receber um doce, o Luca riu, bateu palmas e falou.


Luca: EEEEEEEEE, depois de amanhã 


João: EEEEEEEEE.


Eu amava fazer aquilo, eu achava tão doido quando ele fazia isso, por alguns segundos eu até esqueci dos machucados em volta do meu corpo, mas com um calor bem quente se espalhando neles, fui lembrado daquela força bem rápido.


Estalei meu pescoço pra me distrair, e sai de lá apenas pra eu abrir a porta do lugar e ver meu pai ali, já me esperando na carruagem.


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