Quando foi que você descobriu que era diferente dos outros? Eu aprendi isso quando eu tinha 6 anos, quando eu tinha brigado com um garoto que só tinha me provocado e arranquei o dente dele fora.
Eu lembro perfeitamente como meus pais foram levados para a escola, como eles tiveram que discutir com o diretor, mas como meus pais eram ótimos em discutir com diretores, fui absolvido da suspensão se eu visitasse uma curandeira, e eu lembrava perfeitamente como visitar aquela curandeira mudou minha vida para todo o sempre.
Eu lembro de ser repreendido pelos meus pais, mas até naquela época onde eu não deveria saber nada além de brincar e ralar os joelhos, eu tinha um pouco de senso comum pra me questionar “por que eu fiz isso?” o motivo de eu ser tão irritado e tão furioso até com meus pais era um mistério até pra mim. Por um tempo, até tive medo de mim mesmo.
Até que eu fui levado ao curandeiro, mas meus pais não gostaram do que ele falou, ele tinha dito que eu tinha a maldição do corpo inquieto, mas meus pais nao aceitam isso, eles não acreditaram que eu, que era calmo exceto quando me irritava de verdade, tinha a maldição do copo inquieto.
E depois de brigarem bastante, bastante mesmo com o curandeiro, eles acabaram desistindo e foram para outro, e ele falou a mesma coisa, mas meus pais não aceitaram, eles foram em outro curandeiro, e outro, e outro, e outro, até que chegaram finalmente em um curandeiro que finalmente lhes deu algo diferente.
Curandeira: tá tudo bem com o seu filho, ele só tem um pouco mais de raiva que os outros
Pai: o que? como assim? Pode me explicar melhor?
Curandeira: senhor, eu queria poder ter uma fórmula mágica pra ajudar o seu filho, mas não tenho, o que seu filho tem é um fator biológico, ele tem uma raiva biológica mais intensa que as outras pessoas, e não tem como desfazê-la
Mãe: agente não pode fazer nada então?
Curandeira: muito pelo contrário, seu filho tem muita energia, vocês têm apenas que descobrir onde aplicar essa força dele, eu sugiro que deem a ele atividades pra fazer, natação, luta, qualquer coisa, mas algo que possa o distrair.
Meus pais não pareciam muito satisfeitos com o que ouviram, ao mesmo tempo que estavam mais felizes do que quando entraram, a ponto que eles apertaram a mão da Curandeira, algo que eles não fizeram com nenhum dos outros Curandeiros.
Mãe e pai: obrigado(da) por nos mostrar isso
Curandeira: de nada.
Agora, lhe perguntarei uma segunda coisa, quando você descobriu que, de forma contraditória, você é igual a todo mundo?
A minha experiência com isso foi quando meus pais me colocaram no kickbox para eu aprender a lidar com minha raiva, e eu nunca me senti tão apaixonado por alguma coisa em toda a minha vida, meus impulsos, meus desejos mais profundos, minha ansiedade em forma de ataques violentos, cada uma dessas coisas eram louvadas enquanto eu estava dentro do boxe.
Na minha primeira semana ali, eu fiquei tão bom nos socos, que o Mestre me elogiou batendo palmas.
Mestre: (assovio) não é todo dia que vemos um novato tão determinado, espero muitas coisas de você, jovem
João: não se preocupe Mestre, não vai se decepcionar.
Existia algo extremamente especial em chamar alguém de “mestre”, uma alegria e euforia que era impossível de descrever.
Eu depositava nele a responsabilidade de lidar com meus problemas de raiva e ele as aceitava com o peito aberto me ensinando a lutar, devolvendo o favor em forma de lições, tanto para fortalecer meu corpo quanto minha mente, e o que eu mais amava era o quão divertido era isso.
Me cansava a ponto de eu me sentir quase morto toda vez, mas ainda era divertido bater em coisas, e fazer milhões de exercícios e entender bem como eu tava realmente ficando mais forte com o tempo.
Além de eu nunca pensar que eu podia ficar tão musculoso tão jovem, eu me impressionam os músculos que eu ganhei, mesmo só tendo 2 anos de treino na época.
Mas a melhor parte com certeza eram os aplausos.
Quando meu soco conseguia quebrar a defesa de um oponente, eu recebia muitos elogios, quando eu conseguia controlar meu próprio ódio a ponto de segurar minha defesa para conseguir acertar o oponente no momento perfeito, eu recebia tapinhas de felicitações.
Eu tinha muitos amigos no meio do treino, mas nenhum que podia chamar de melhor amigo, apenas alguém aqui e ali que eu podia dizer que eu poderia conversar sobre coisas mais sérias, o que por si só já era bem impressionante também, hmhmhm.
Mas eu sei que as coisas só ficaram sérias de verdade pra mim quando eu mostrei a todos que eu já tinha alcançado a capacidade máxima que um corpo sem poderes aguenta, e como eu mostrei isso? Com um teste comum até demais pros meus parceiros, o teste da muralha.
Uma grande muralha feita totalmente de pedra, para qualquer um despreparado, mesmo com as mãos fortes ou armas, aquela muralha deveria ser indestrutível, essa era a impressão que ela dava, mas eu, em meio ao caminho pra conseguir controlar minha própria raiva, encontrei a força necessária pra abrir um buraco naquela grande parede apenas com um soco.
Eu ainda me lembrava da sensação que eu tive quando atravessei a muralha, ela era sim bem forte, absurdamente forte, mas eu sentia como se estivesse batendo em um vidro super resistente do que algo que antes, eu considerava duro demais.
Uma outra lembrança bem nítida em minha cabeça era como todos os meus colegas que presenciaram o teste também ficaram impressionados, mas ninguém, e eu digo NINGUÉM MESMO, ficou tão impressionado quanto eu mesmo.
Apesar de todo o treinamento que eu fiz por quase 2 anos seguidos, presenciar meu punho ser capaz de atravessar uma parede com uma facilidade daquelas ainda era doido demais pra uma cabeça como a minha, mesmo que todos a minha volta apenas aceitassem sem problema nenhum, um pensamento bem solto na minha cabeça, ainda ousava em me questionar “eu sou mesmo um humano?”
Enquanto ainda era elogiado, pensamentos como esse inundaram minha cabeça, a ponto de eu nem notar quando meu Mestre chegou perto demais de mim, mas não de uma forma invasiva, apenas percebendo a presença dele, eu notava que ele entendia bem até demais o que eu tava sentindo agora.
Eu tava com muita coisa na cabeça, sobre como eu tava feliz que o controle da minha raiva me levou a esse nível de poder, como eu tava meio assustado com o que todo esse controle criou, e o quanto eu tava animado pra testar essa minha nova força em alguém, não importa o quanto de medo eu tivesse, minha vontade de testar essa minha força em algo que “pode revidar” era maior que qualquer outro sentimento.
Eu queria expressar tudo isso ao meu mestre, mas não conseguia, as palavras se embolaram na minha garganta como uma grande teia de aranha e não faziam nada coerente.
Mestre: e aí João? Como se sente?
Agradeço de pés juntos ao meu Mestre por isso, apenas aquilo me deu chão pra conseguir pescar meus próprios pensamentos, e dar uma ideia pro que eu queria falar.
João: eu tooooooo, impressionado, não consigo acreditar que eu consegui algo assim, esse punho que sempre pareceu uma arma descontrolada, agora parece finalmente estar no meu controle
Mestre: é, mas não foi algo fácil, você passou por muitos combates e broncas para conseguir fazer isso direito
João: é, é mesmo.
Eu continuei olhando pra minha mão, ainda não acreditando totalmente no que fiz, então abri e fechei minha mão, com bastante força, e depois eu olhei pro meu mestre de novo.
João: o que que eu faço agora?
Mestre: você que decide, o que quer fazer?
Olhei novamente pra minha mão, enquanto ainda a abria e fechava, e falei.
João: eeeeeeeeeeu, quero aprender a Aura
Meu mestre olhou pra mim cheio de felicidade, enquanto falava.
Mestre: o caminho da alma, já em alguma ideia qual estilo quer seguir?
João: não é óbvio? eu quero escolher o caminho do vento.
O caminho do vento, o caminho da leveza, um caminho bem perto do que meu próprio Mestre ensinava, e como eu esperava, ao falar aquilo, meu Mestre ficou muito feliz, ele ficaria feliz não importa que tipo de caminho eu escolhesse, mas atrás daquela felicidade, eu conseguia ver um alívio, o alívio de alguém que pode me ensinar tudo e um pouco mais do caminho dos ventos.
O estudo da Aura, ou o “caminho da alma” era um processo que só especialistas podem fazer, claro, existiam pessoas que aprendiam sem querer, eles eram chamados de “artistas errantes” mas o que eu fazia agora, era bem mais oficial, e bem mais maneiro também.
Equilíbrio, meditação das emoções, aprender a fazer a alma dentro de você sair pra fora, eu aprendi detalhe por detalhe cada uma dessas partes, não treinei pra obter força, essa eu já tinha de sobra, mas eu treinei pra obter “razão”.
Mestre: sua alma e seu corpo tem uma conexão muito boa, mas por melhor que essa conexão seja, ela ainda é absurdamente fraca comparada ao que ela poderia ser, você precisa criar uma ponte, e a ponte para sua alma e seu corpo, é sua mente
João: e como exatamente eu crio essa ponte?
Mestre: isso eu não posso contar, esse é um tipo de coisa que você só entendera quando se aproximar dos deuses.
O treino da aura, foi absurdamente mais difícil que qualquer parte do treino da força simples, a ponto de que nos próximos 2 anos onde eu treinei minhas habilidades, não consegui ⅕ do processo que consegui quando estava treinando meu corpo, mas não foi em vão, no meio disso, eu encontrei algo que poderia me ajudar.
João: haaaa, que saco
Mestre: você fez um ótimo progresso, é normal não ter resultados imediatos da Aura, mas com o que você tem agora, já deve ser o bastante pra você participar se um torneio pequeno
João: espera, espera…ESPERA AÍ, ISSO É SÉRIO!?
Mestre: muito sério, João, você quer participar de um torneio em meu nome?
João: QUERO, EU QUERO SIM
Mestre: então se prepare, porque eu não quero que você passe vergonha ali.
Antes de começar a treinar pro torneio, eu já achava que meu mestre queria me torturar, mas eu nem sabia a extensão do quão pesado os treinos dele poderiam ser.
Quando eu fui colocado como um candidato para campeonato, eu comecei a receber 10 vezes mais exercícios que os outros, e quando agente fazia treinos de “sparring” que é uma luta simulada, eu só era colocado entre os gigantes do nosso treino.
As vezes eu pensava que meu Mestre queria me irritar muitas vezes, mas eu ainda era grato porque mesmo naqueles momentos quase infernais, eu conseguia sentir minha raiva e meu controle da aura aumentando de formas absurdas.
Mas quando a semana do torneio chegou, eu ainda não chegava nem perto do controle de aura que eu precisava pra enfrentar outros oponentes de aura.
Mestre: não posso permitir que você lute no meio dos lutadores de aura, você vai pra classificação dos guerreiros apenas de corpo
João: sim senhor.
Eu nem questionei meu mestre, eu queria sim lutar com tudo que tinha contra lutadores de aura, mas eu já vi lutadores assim em meus treinos comuns o suficiente pra saber que eu não podia fazer isso, eu não tava prontos e eu apenas iria perder em uma luta que é impossível de ganhar.
Mestre: vejo você daqui a alguns dias
João: sim senhor.
Enquanto eu ouvia o meu Mestre falar aquilo, eu sentia um sentimento bem diferente da raiva incontrolável que eu estava a todo o momento tentando controlar, era…era “paixão”.
Eu me sentia eufórico, completo, feliz e com a sensação de que nada no mundo poderia me distrair de me aprimorar apenas para ficar mais forte e conseguir lutar.
Eu tinha me apaixonado pelas artes marciais, e diferente do amor por uma mulher, ou por um livro, ou por um teatro muito bom, coisas que, querendo ou não acabavam.
Eu tinha certeza que meu amor pelas artes marciais não iria acabar, pelo menos não tão fácil quanto o amor de tantas outras pessoas. E eu queria mostrar isso para todas as pessoas que eu conheço, mostrar quão sério eu estava apaixonado pelas artes marciais.

