Quando chegou em casa entrou\nsilenciosamente para não acordar a mãe e nem a irmã, ambas dormindo em seus\nrespectivos quartos. Deixou a sacola com pães comprados na padaria na mesa e\nrapidamente preparou um café para elas.
Foi\npara o seu quarto e fechou a porta. Antes de se desmontar, encarou seu reflexo\nno espelho do armário e gostou do que viu.
Princess era linda. Atraente.\nForte. Sensual. Ousada. Atrevida. Dona de si. Virtudes essas que Rafael ainda\nnão encontrara em si quando estava como ele mesmo – e era por causa disso que\nadorava Princess.
Aproveitou para bater uma foto e\nmandar para André na esperança de que o homem se acostumasse com a sua imagem\nde drag.
Estou gostosa assim, amor?
O namorado foi o único quem não\nconcordou com a sua persona artística. Era preconceituoso sobre o assunto.
No começo foi bem difícil para\nRafael porque era algo importante e poderia, sim, dar bons frutos e ajuda-lo\neconomicamente, então não desistiria de ao menos tentar. O resultado? Os\nconflitos com o atual foram vários. André não aceitava ter um namorado Drag\nQueen. Argumentava que as pessoas iriam rir da montagem, que seria vergonhoso,\nseria dinheiro jogado fora com maquiagem e figurino... As brigas foram tão\nfeias que, uma vez, empurrou Rafael, quem precisou se segurar numa estante para\nnão cair.
O celular vibrou quase\nimediatamente mostrando a chegada da mensagem. Ao lê-la perguntou-se porque\nainda buscava a aprovação dele.
Ridículo.
Engoliu em seco voltando a\nsentir-se inseguro, envergonhado, triste, humilhado, desinteressante e sem\nvalor nenhum – sentimentos esses que surgiram juntos pela primeira vez na\núltima vez quando esteve no apartamento de Kalisto e o incentivaram a fugir\ndali.
Respirou fundo como maneira de\nlutar contra as lágrimas. Elas não combinavam com Princess. Apenas lhes dava a\npermissão de caírem quando não estivesse montada – e assim aconteceu,\ndeitando-se para dormir naquela manhã de domingo.
O restante daquele mês correu\nmuito bem para Rafael, embora os compromissos tenham sido vários. Com a mudança\nde rotina graças ao retorno da faculdade aproveitou os intervalos entre um\ncompromisso e outro para estudar. No salão de beleza, enquanto não surgia algum\ncliente, se dedicava aos estudos fazendo anotações e lendo o conteúdo das aulas\nanteriores nos cadernos. Não tinha muita diversão – exceto quando assistia às\naulas de Kalisto.
Por vezes foi necessário segurar\no riso pelas reações do homem mediante suas provocações. O ruivo sabia que era\natraente e lindo – duas características distintas capazes de caminharem juntas.\nGraças a isso usou seus atributos para provocar o advogado incentivado pelo que\nVictor lhe contou sobre a conversa com o ex no último show. Rafael não era\nburro e nem ingênuo. Sabia, sim, que atraía os olhares de Kalisto desde quando\nse conheceram. Porém, os anos se passaram e não tinha certeza se ainda causava\no mesmo impacto sobre o moreno como no passado, então resolveu testar aos\npoucos.
Na segunda aula usou um de seus\nshorts jeans curtinhos que o outro particularmente apreciava. Na época\ncostumava admirá-lo em pura volúpia quando os trajava, então a escolha pela\npeça não foi acidental.
Teve suas dúvidas sanadas ali,\nlogo na entrada de Kalisto para lecionar. O olhar demorou-se em suas pernas\ncruzadas – pernas essas que, embora não soubesse, fizeram a mão do professor\ncoçar para agarrar com firmeza – e por um momento o homem pareceu esquecer de\ncomo usar as cordas vocais, principalmente quando os olhares dos dois se\nencontraram. Havia uma expressão específica feita por Rafael capaz de intrigar\no mais velho. Era uma linha tênue entre a safadeza transmitida pelo seu\nmagnetismo natural e o olhar lascivo e a inocência nos traços faciais. Aquilo\nera capaz de enlouquece-lo – e o aluno sabia como atiça-lo.
Oportunidades não faltaram de\ninflamar o desejo do outro.
Uma vez aproveitou que a roupa\njusta deixava um volume bem interessante entre suas pernas. Quando Kalisto\nentrou e o encontrou ali sentado na primeira cadeira com as pernas entreabertas\nteve a bela visão dele lambendo aos lábios sempre que encarava a região – e\nisso aconteceu várias vezes durante a aula.
Na outra vez deixou cair\npropositalmente um pouco de líquido na sua fina blusa nude enquanto bebia água\nde sua garrafinha de Harry Potter. O tecido imediatamente colou em seu\npeitoral, mostrando as novas curvas e sua pele, já que a região molhada ficou\ntransparente. Pôde jurar identificar uma frase como “filho da puta gostoso”\npela leitura labial enquanto ele mesmo se direcionava para detrás da mesa, de\nonde não saiu até o final da aula. Rafael demorou a juntar seus pertences para\nser o último a sair da sala e confirmou suas suspeitas antes de ir para o\ncorredor. Mesmo sentado foi impossível não identificar o generoso volume\nnaquela calça – o único lado negativo de ser bem-dotado era não poder esconder\nquando estava excitado.
Por fim, teve a certeza de que o enlouqueceria\nquando aproveitou uma conveniência que parecia ter lhe sido entregue pelo\nUniverso. Sua caneta caíra e parara bem embaixo de sua carteira. Agachou-se no\nchão para pegá-la. Num movimento rápido encostou por um instante o peitoral no\npiso e esticou o braço para apanhá-la, ficando de quatro – uma das posições que\nKalisto mais gostava na cama por ter a visão completa de sua bunda. Durante\naqueles segundos estranhou o fato de não ouvir a voz rouca do homem. Ao\nsentar-se novamente segurou a risada ao se deparar com um Kalisto de queixo\ncaído e olhar vago para onde Rafael havia se agachado.
- Perdão... Sobre o que eu estava\nfalando?
O ruivo tampou a boca com as mãos\npara não mostrar o sorriso.
Numa sexta-feira, como de\ncostume, o rapaz chegou no período da tarde na faculdade, às cinco da tarde.\nEspecificamente nas sextas-feiras, ao ser liberado do salão, ia direto para a instituição\nde ensino. Aproveitava o tempo para estudar o conteúdo do curso na sala que,\nnaquele horário, sempre estava vazia. Porém se encaminhou primeiro ao banheiro\npara melhorar a sua aparência, já que estava na rua desde às sete e meia da\nmanhã trabalhando.
Kalisto estava estressado.\nBastante. Entretanto, não havia ocorrido nada de ruim em sua semana. O seu\nstress era consigo. Não era possível que seu corpo o traía tão facilmente. Não\nera algo que pudesse ignorar. Deveria demonstrar para Rafael que a sua presença\nnão o afetava. Infelizmente, para o seu próprio desgosto, não era esse o caso.
Se fosse seguir os seus desejos o\ntrancaria consigo naquela sala na última aula, arrancaria as roupas com as\ngrandes mãos, o chuparia como nunca antes e se enterraria tão fundo dentro\ndaquele corpo que seu antigo menino jamais se esqueceria dele devido aos gritos\nde prazer que sabia ser capaz, sim, de ser o responsável. Isso no decorrer da\nnoite até Rafael, já completamente mole, o abraçaria ofegante lhe acariciando\nas costas e distribuindo beijos por onde os lábios alcançassem.
Poderia fazer isso? Sim –\nprincipalmente porque, se o rapaz era capaz de provoca-lo conscientemente, era\num sinal claro de que o corpo dele ainda se lembrava do mais velho e lhe\ndespertava reações quando ambos estavam no mesmo espaço.
Queria fazer isso? Absurdamente –\naté porque nunca passou tanto tempo de pau duro no decorrer de um mês graças a\nalguém.
Deveria fazer isso? Jamais – não\ndepois de parar no hospital há quatro anos devido ao forte abalo emocional\ncausado por Rafael, apesar do ruivo não ter noção desse detalhe.
Ainda havia solenidade em sua\níndole – embora o tesão estivesse sobrepujando-a ao ponto de perguntar-se se\nela era tão importante assim na vida de uma pessoa.
E era justamente com o objetivo\nde relaxar que se fechou numa cabine do banheiro para fumar – hábito adquirido\nhá anos e que só era exercido em momentos de forte stress que foi intensificado\nno dia seguinte ao sair do hospital na fatídica noite. Aproveitou os instantes\nsozinho para relaxar, mas não duraria muito tempo o sossego. Quando ia sair\nouviu uma voz bem conhecida. Conhecida até demais para o seu gosto.
Rafael acabara de entrar no\nbanheiro cantarolando uma lenta música latina.
Kalisto sucumbiu à vontade de\nobservá-lo num contexto onde o outro agia normalmente sem a presença dele,\nentão abriu a porta menos de cinco centímetros. Havia colocado a mochila na\nbancada de mármore. De fones de ouvido lavava o rosto. No mínimo estava bonito\nusando um short larguinho, tênis branco, regada com pedras e o casaco branco.\nPela primeira vez teve a oportunidade de admirá-lo e deixar transparecer o\nafeto que ainda carregava no coração pelo cantor. As feições tornaram-se mais\nsuaves e um leve sorriso desenhou o rosto. Até mesmo a respiração se\ntranquilizou, ficando mais serena.
A letra da música saía de sua\nboca de uma maneira lindíssima. Após lavar o rosto começou a dançar sem notar\nda plateia composta por uma única pessoa, o corpo respondendo aos anos de aulas\nde dança de ballet e jazz. Se arriscava em piruetas atittude e coupe, além de\nrealizar cambré em diversas finalizações. Explorava o espaço se deixando levar\npela melodia. Uma característica de sua personalidade que se estendia para a\ndança era a expressividade – e o rapaz a usava naturalmente a seu favor quando\ndançava.
Satisfeito e mordendo o lábio\ninferior, parou numa pirueta atittude na meia ponta com os braços em allongé\nantes de puxar uma quarta posição para se dirigir a pia e terminar o seu\ntrabalho.
Para a sua surpresa, enquanto\npassava um discreto brilho labial após fazer um delineado nas pálpebras, o\naluno disse:
- Sabe uma das minhas melhores\nqualidades? Sou bem intuitivo. Não faço idéia de quem seja, mas sei bem que não\ntira os olhos de mim.
E sim, Kalisto esqueceu dessa\npequena característica – e se amaldiçoou por isso.
- Vou te dar duas opções. – pegou\no rímel e começou a aplica-lo nos cílios – Ou você mantem a dignidade e se\nrevela ou serei obrigado a abrir cada uma das cabines até te achar.
O advogado reprimiu um\nxingamento. Ainda havia esperança dele não passar por aquilo – embora,\nconhecendo Rafael, sabia que sua dignidade seria jogada no lixo em poucos\nsegundos.
- Bem, já que escolheu o caminho\nmais difícil...
Para o seu azar o ouviu abrir a\nporta de todas as cabines. Quando estava se aproximando da sua, respirou fundo\ne saiu mantendo o pingo de dignidade que ainda restava.
- Não lembro quando se tornou tão\nousado e convencido assim. – o moreno caminhou até ficar de frente para o\noutro.
- Isso foi bem recente, querido.\nGostou? – indagou o acompanhando pelo reflexo.
- Caso esteja se referindo ao seu\ncomportamento durante as aulas. – encostou as costas na parede a três metros –\nNem um pouco.
- Algum problema? Não lembro de\nter feito nada de errado. – mais uma vez aquele contraste entre a safadeza e a\ninocência estava presente.
- Por favor. – olhou para o lado\ndesdenhando da mentira – Até parece que você se comportaria daquela forma sem\nmotivo nenhum.
- Em primeiro lugar, não estou te\nprovocando. Em segundo, a culpa não é minha se você ainda fica de pau duro na\nminha presença.
O advogado soltou uma risada\nirônica.
- Você não tem mais esse efeito\nsobre mim, Rafael.
- Não? – se virando pra ele, ergueu\nas sobrancelhas o desafiando numa expressão bem cínica.
- Há muito tempo. – soou\norgulhoso.
Em passos lentos o ruivo caminhou\naté o advogado quebrando a distância e sem quebrar o contato visual. Estendeu\nas mãos e o segurou pelo pescoço sentindo o calor da pele.
- Então quer dizer que não repara\nem mim quando entra na sala?
Durante o murmúrio, engoliu em\nseco, perdido por instantes naquela coloração verde dos globos.
- Nem um pouco. – olhou para o\nespelho para sustentar a mentira e não ser denunciado pela fisionomia.
Suavemente o menor o segurou pelo\nqueixo e virou a cabeça até se encararem.
- Não gostou nem de como o meu\nshort marcava a minha bunda? – o segurou pelos pulsos e colocou as ásperas mãos\nem sua cintura por debaixo da regata lambendo os lábios.
- Eu nem me importei com isso. –\nnão se deu conta de que pressionara ainda mais as destras naquela fina cintura\ndemonstrando a dissimulação nas palavras.
- É, mesmo? – murmurou adorando\nver as pálpebras dele se abaixarem, sinal inconsciente de que estava excitado –\nSe tudo isso que está me falando é verdade, então por que está me segurando com\ntanta firmeza nesse estado? – deslizou as palmas pelo terno até encontrar o pau\nentumecido.
- Porque geralmente essa é a\nreação que as putas causam nas pessoas. – rebateu com raiva se afastando.
Compreendeu de imediato que tudo\nfoi um joguinho sujo para testá-lo e seu corpo lhe entregou.
Por sua vez, o ruivo jogou a\ncabeça para trás soltando uma sonora gargalhada.
- Puta. Mil vezes puta, meu amor,\ntanto na cama quanto fora dela. – respondeu fechando um punho e o descansando\nna cintura – Pra mim isso é elogio e você sabe há um bom tempo. – terminou\nestalando os dedos para enfatizar.
Para a sua surpresa Kalisto havia\nchegado ao seu limite com a provocação. Rapidamente o mais velho o segurou e,\nnum único movimento, o colocou sentado na bancada de mármore, não hesitando em\nse acomodar entre as pernas dele. O ruivo não imaginava aquela reação, então,\nsua expressão, que antes era divertida, transformou-se de súbito. Tornou-se\nintensa, com o cenho franzido, o queixo caído, os olhos levemente arregalados e\nas mãos repousadas nos ombros do advogado por instinto. Devido à pouca\ndistância conseguia sentir a respiração contra a pele que logo se arrepiou.
Apesar das mágoas e de todos os\nsentimentos reprimidos e carregados de ressentimentos, era como no passado,\nquando estavam sozinhos e podiam se entregarem ao amor e ao prazer. A tensão\nentre ambos era palpável e Rafael não se agarrava a ele apenas para se apoiar,\nmas sim porque queria aquela proximidade dos corpos. Ansiava por ela há tempo\ndemais. Era a presença do ex que almejava, assim como os toques. Kalisto sabia\naonde, como e com qual intensidade investir nas carícias para deixa-lo ofegante\ne fazê-lo gozar. Ele se esforçava, se aprimorava e se deleitava com o resultado\n– um Rafael quase sem voz, sem controle algum dos músculos e das articulações\nque lhe agarrava implorando por mais antes de inverterem as posições para o\nmenor deixa-lo tão enlouquecido quanto.
Pestanejou confuso quando o moreno abaixou o\nfino casaco branco pelos braços, deixando-o ainda mais exposto. Kalisto\ndescansou a testa no vão entre o ombro e o pescoço e relaxou num forte e\nprolongado suspiro, permitindo-se receber ali as carícias de Rafael com a ponta\ndos dedos – dedos esses que envolviam sua nuca e adentravam sem pressa por\ndentro da gola da camisa. Puxou o ar com força, sentindo o cheiro\ncaracterístico da carne alva.
Com as respirações intensas e os\ncorações batendo forte, não pronunciou palavra alguma enquanto descia as palmas\npela lateral do corpo menor até encontrar a lombar, onde, sem aviso, segurou e\na puxou contra si.
O ruivo arfou fechando os olhos\nquando as ereções se chocaram. O advogado aproveitou para distribuir beijos\npelo pescoço se deixando levar pelo momento, o que gerou no outro os arquejos\ninesperados, além de fazê-lo cravar as unhas em sua nuca. Não compreenderia\ncomo e se repreenderia naquela madrugada, mas encontrou o lóbulo da pequena\norelha e a envolveu com os seus lábios, passando a língua de uma maneira que\nsabia que deixaria o menor se contorcendo em seu abraço – e foi o resultado.
Precisou crispar os lábios e,\ndando-se conta de que não seria suficiente, pressionou a boca contra o ombro do\nhomem enquanto o agarrava fervorosamente com os dedos para abafar os gemidos. O\nmais jovem se remexia, de vez em quando jogando a cabeça para trás e buscando\naproximar ainda mais o quadril do ex com as pernas para aliviar a pressão do\npau pulsante. A epiderme toda se arrepiava devido ao prazer. Arrepio, esse, que\napenas serviu de incentivo para Kalisto, quem lhe castigava o pescoço com a\nlíngua.
Os dois não produziam uma única\npalavra com medo do momento se quebrar devido às questões mal resolvidas. Ali\neram duas pessoas desesperadamente desejosas uma da outra, com tesão reprimido\nque, após quatro anos, se deparam com a oportunidade perfeita para começar a se\nesvair – inclusive porque com outras pessoas não sentiam nem um terço do prazer\nde quando estavam juntos.
E aquele era só o começo.
Deveria imaginar que Kalisto não\naguentaria aulas seguidas sem nenhuma reação ao seu comportamento e presença. Kalisto\nAndrade tinha uma libido absurdamente alta – e o cantor não passava longe. Além\ndisso não era adepto a apenas observar de longe sem poder tocar. Não via a\nmenor graça. Isso tudo aliado ao temperamento mais forte? Era óbvio que\nreagiria de alguma maneira. Rafael só não imaginava que fosse acontecer tão\ncedo.
Finalizou mordiscando a região.
Ainda abraçado com o mais novo\ncujo corpo ainda tinha os músculos contraídos, constatou com a voz grave:
- Pelo visto o seu corpo ainda\nreage ao meu, meu menino.
Frisou o final da frase com um\nquê de audácia e sedução porque sabia como aquilo o atingiria – e o gemido\nagudo confirmou a convicção. Era o único quem chamava Rafael daquela maneira,\nprincipalmente quando estavam sem roupas – e isso não mudaria.
O ruivo responderia caso a mente\nnão estivesse anuviada pelo tesão e caso as suas mãos não tivessem entrado em\ncontato com uma fina corrente.
Ofegante pelo recente prazer\nrecebido, abriu rapidamente os dois primeiros botões do colarinho e pôde jurar\nque o coração errou uma batida ao ver o pingente dourado em formato de R.
Num fio de voz e totalmente\nconsciente de suas ações agora, indagou, distanciando-se o suficiente para\nfita-lo:
- Por que você ainda tem isso, Kalisto?
Se dando conta de que foi\ndescoberto, o advogado se afastou, fechando novamente a camisa para esconder o\npingente que carregava consigo há quatro anos, desde que o encontrou no chão em\nfrente a porta do seu quarto.
- Rafa... – esfregou os olhos com\nos dedos visivelmente abalado.
- Por que você carrega isso\ncontigo? – a pergunta foi mais urgente enquanto descia da bancada.
Não tinha o direito de carregar\naquele pingente, principalmente na presença do rapaz. Isso o confundiu\ncompletamente. Imaginava que o mais velho havia jogado fora pois era a prova da\npresença do até então namorado em sua casa naquela tarde.
O ruivo ganhou um colar em seu\naniversário com o pingente da letra K, quando já namoravam. Amara o presente e\ncostumava usá-lo sempre que saía. Quando completaram um ano de namoro, Kalisto\nrecebeu um colar parecido, porém no pingente tinha a letra R. Para eles os\npresentes eram símbolos concretos de seu relacionamento. Portanto, foi um\nchoque para o menor se deparar com aquele pingente escondido sob o terno do ex.
- Kalisto, me responde...
- Eu não sei! – explodiu – Está\nsatisfeito agora? Eu não sei.
Ao encará-lo se deparou com Rafael\ncarregado de um misto de tristeza e raiva, bem diferente do que estava cantando\nanimado minutos antes e logo em seguida o seduzindo. E a imagem lhe destroçou o\ncoração. A face estava rosada e lágrimas começavam a se formar. Cruzara os\nbraços como se tentasse se proteger – e essa foi a parte que mais lhe\ndesestruturou. O advogado nunca encostaria nele para agredir e ambos carregavam\nplena certeza disso. Entretanto, essa proteção era voltada para o âmbito\nemocional, não físico – e o moreno não havia se dado conta.
- Ah, sabe. Sabe, sim. Você só\nnão quer falar porque é um covarde de merda. Não tem o direito de carregar isso\ncontigo e sabe muito bem disso, Kalisto.
- Ah, faz favor! O único covarde\naqui é você! Não se faça de santo porque você não é. – rebateu já nervoso.
- Não fui eu que joguei um\nrelacionamento maravilhoso no ralo, meu bem. A culpa foi sua. – terminou\napontando para ele com o dedo indicador.
- Mais uma vez, não se faça de\nsanto porque você não é. – a amargura na voz era notável, assim como o tremor\nnas mãos, um sinal claro para quem o conhecia de que reprimia as emoções ao\nponto delas o deixarem trêmulo.
- Se você insiste em não me\nexplicar porque está me falando isso, eu que não vou pressionar.
- Você sabe bem as suas ações,\ninclusive tudo o que culminou no nosso término. Já passou da idade de culpar a\ntodos ao redor ao invés de se responsabilizar pelas consequências dos próprios\natos.
Frustrado, o ruivo enterrou os\ndedos nos cabelos. Respirou fundo de olhos fechados numa tentativa vã de se\nacalmar. Os abriu e, em profunda decepção, respondeu numa voz de indiferença:
- Eu já fiz merda nessa vida, mas\nde longe a pior delas foi ter me envolvido contigo. Não volte a desenterrar\nassuntos do passado se não tem a mínima capacidade de assumir os seus erros.
Pegou a mochila e saiu do\nbanheiro.
Só quando Kalisto não ouviu mais\nos passos do ex pôde extravasar. Com a mão fechada em punho, socou a parede\nfrustrado e dolorido pela frase direcionada a ele.
- Inferno. – a socou novamente,\ncom a testa encostada nela e o outro braço apoiando o corpo – Por que eu te\nreencontrei, meu menino?
Atormentado, virou de costas e\ndeslizou até sentar no chão com as costas apoiadas na parede. Apanhou o maço de\ncigarro no bolso da calça, o abriu e retirou um, colocando-o entre os lábios.\nAchou o isqueiro no bolso do terno e o usou para acende-lo.
Ao todo precisou de meia hora ali\ne cinco cigarros para se acalmar até as mãos pararem de tremer.
Tentava se concentrar no conteúdo\ndo caderno sozinho na sala de aula, mas seu cérebro não captava nenhuma sílaba\nsequer. A discussão com o ex o consumiu, o deixando confuso e revoltado.\nTentava compreender as acusações sem concluir nada. Tinha a plena certeza de\nque a sua postura foi a mais correta possível quando estavam juntos anos atrás.\nO tratava bem, o respeitava, era sincero, funcionavam bem na cama, não escondia\nnada... Bem, pra ser franco havia apenas uma única coisa que omitira de Kalisto,\nmas apenas para não gerar brigas ou desentendimentos desnecessários entre ele e\nAndré, quem passava por grandes problemas na época.
Foi com essas reflexões\nperpassando a mente do ruivo que Kalisto abriu a porta. De tão distraído não\npercebeu o barulho. Apenas ergueu a cabeça quando ouviu:
- Arrume suas coisas e vá pra\ncasa.
- Como?
- A chuva. – apontou para a\njanela com o queixo – A faculdade havia recebido ontem alerta vermelho devido à\nchuva intensa prevista pra hoje, mas ignorou. Estamos tentando esvaziar a\nfaculdade para ninguém correr risco nas horas seguintes e pedindo para os\nestudantes espalharem a notícia nos grupos de Whatsapp.
Quando o ruivo olhou para a\njanela se deparou com fortes nuvens escuras. Naquele horário, cinco e vinte da\ntarde, não era normal e nem comum estar escuro daquela maneira e nem ventando\ntanto.
- Merda! – rapidamente guardou\nseus pertences.
- Precisa de carona? Se quiser\neu...
- Não! – o interrompeu num\nrompante, soando mais enfurecido do que esperava – Eu chamo um Uber enquanto\nespero no ponto de ônibus. Um dos dois terá de passar.
- Tem certeza que...
- Me deixa em paz. – se\nencaminhou para a saída com a mochila nas costas – Você já fez o suficiente por\nhoje.
O moreno o viu se distanciar pelo\ncorredor até sua imagem desaparecer descendo as escadas.
O plano de esperar o Uber no\nponto de ônibus a dois quarteirões de distância da instituição de ensino\nsuperior era bem prático. Só não imaginava de a chuva cair torrencial no meio\ndo caminho com direito a trovoadas, relâmpagos e um vento capaz de derrubar\nárvores de tão violento.
Abrigou-se embaixo da marquise do\nponto – como se adiantasse de algo. A chuva de vento o molhava ao ponto de\nficar ensopado. Numa tentativa inútil colocou a mochila na frente para mexer no\ncelular e chamar um Uber. Para seu azar nenhum motorista aceitava a corrida há\nquase vinte minutos e a preocupação começava a crescer. A rua estava deserta,\nescura, poucos carros passavam e a chuva intensa tendia a prosseguir por\nalgumas horas. Pra piorar a rua começava a alagar, então a água estava chegando\naté a calçada onde ele estava.
Um carro preto parou onde o rapaz\nestava e a porta dianteira do banco do passageiro foi aberta.
- Entra. – Kalisto gritou com as\nmãos no volante.
Não se arriscaria de deixar o mais\nnovo na chuva daquele jeito, então o procurou pelos pontos de ônibus que\nconhecia até encontra-lo.
- Não preciso de ajuda.
- Como é? – realmente achou que\nseus ouvidos o enganaram quando ouviu a escolha de palavras do ruivo.
- Não se preocupe comigo. Eu sei\nme virar. – passou as mãos no rosto afastando um pouco a água.
- Não é possível.
Desceu do carro zangado e o\nalcançou molhando-se rapidamente.
- Não vai demorar pra essa rua\nencher pelo menos um metro. – avisou sentindo os pés umedecerem.
- Que bom porque não ficarei\ncompletamente submerso. – agarrava-se a mochila contra o peito para proteger o\ncelular de pifar por molhar. Não teria dinheiro para comprar outro caso isso\nacontecesse.
- Está recusando a minha ajuda\npor orgulho?
- Estou recusando a sua ajuda\nporque você é um idiota filho da puta. – gritou.
- Estou me fodendo pra sua\nopinião sobre mim.
- Caguei pra isso.
- Garoto teimoso! Eu não vou te\ndeixar pegar a porra de uma pneumonia e morrer. Não sairei daqui sem você e me\nrecuso a não passar as próximas horas abrigado num lugar seco e quente, então\ntrate de entrar no caralho desse carro ou te enfio nele.
- Você não faria isso. – zombou\nnum meio sorriso de desprezo.
- Duvida?
Quando o mais novo sentiu uma mão\nem suas costas e a outra na parte detrás dos joelhos, berrou.
- Está bem, cacete! Eu vou\ncontigo. Satisfeito?
A contragosto adentrou no veículo\nfazendo questão de molhar o interior o máximo que podia antes de Kalisto se\nacomodar ao seu lado e voltar a dirigir. Secou as palmas no estofado do banco\ne, com a mochila no colo, colocou o celular no ouvido pra ouvir a mensagem de\náudio enviada pela irmã há poucos minutos.
- Que merda. – sussurrou.
- Qual o problema?
- A minha rua está alagada.
- Entrou água na sua casa? – a\npergunta saiu carregada de aflição.
- Não. O proprietário fez uma\nobra há anos pra levantar a o terreno, então não há perigo. Pode me deixar em\nqualquer lugar que vou ficar bem.
- Quantas vezes preciso repetir?\nNem fodendo vou te deixar debaixo dessa chuva, muito menos sozinho.
- Pra onde vai me levar então,\ncarai?
- Não é óbvio?
- Não porque não tenho nenhum\nBaralho Cigano comigo para abrir as cartas e descobrir.
- Você vai comigo pra minha casa.
- Puta que o pariu. – reclamou.
O apartamento de Kalisto no último\nandar continuava da mesma forma. O ambiente amplo, claro, limpo, organizado e\ncom os móveis bem distribuídos para se caminhar livremente pelo espaço não\nmudara em nada. Logo, Rafael não teve nenhuma dificuldade em se localizar.
O moreno trancou a porta com uma\nsensação um tanto quanto nostálgica. Haviam tantas lembranças dos dois ali que\npor um momento o ar chegou a faltar nos pulmões, sendo necessário puxá-lo com\nforça. Foi até seu quarto e trouxe uma toalha para enrolar o hóspede trêmulo de\nfrio. O envolveu com ela antes de apanhar a mochila.
- Anda, tira o tênis e vai tomar\num banho quente antes de mim.
A caminho da cozinha, perguntou\nretirando o paletó:
- Está com fome?
- Sim.
Quando o menor chegou à cozinha o\nviu tirar duas panelas e uma refratária da geladeira e depositá-las sobre a\nmesa. Sua mochila estava em cima de uma das cadeiras, assim como o paletó de e\na sua gravata. Acendeu o fogo para pôr uma delas para ferver.
- O que ainda está fazendo aí\nparado? – de costas para o menor o mais velho abria a porta de um armário para\npegar uma pequena refratária redonda, onde começou a despejar com a ajuda de\numa colher o arroz que estava dentro da outra panela vermelha – Vai pro banho\npra se esquentar.
- Eu só tenho essa roupa.
- Sabe onde é meu quarto. Pode\nescolher qualquer peça confortável. – colocou a refratária redonda com o arroz\nno micro-ondas e o ligou.
- Eu não acho que isso seja\nnecessário.
O ex se virou e falou soando\ncompletamente honesto e cordial:
- Não estamos na faculdade e nem\nna sala de aula. Aqui não é uma relação de professor e aluno. Se considere um\nconvidado meu. Além disso, eu te conheço. Não vai fazer nada de errado no meu\napartamento. Pode ir no meu armário buscar uma roupa enquanto preparo a comida\npra gente.
Sem alternativa caminhou até o\nquarto cuja porta estava fechada. Quando a mão pousou na maçaneta foi incapaz\nde empurrá-la para baixo. Já esteve naquele exato lugar antes. Da última vez\nsentiu tanta dor emocional que o ar lhe faltou quando conseguiu distinguir a\norigem dos sons e teve as piores sensações da sua vida. Sentiu a garganta se\nfechar e se distanciou dali, retornando para a cozinha, claramente atordoado e\ncom os ombros encolhidos.
- Kalisto, pega pra mim, por\nfavor?
A aguda voz causou estranheza no\nhomem, quem logo percebeu que havia algo de errado.
- Aconteceu alguma coisa? –\nfranziu o cenho apreensivo sem compreender a situação.
- Não. Nada. – abaixou a cabeça\ncom marcas de expressão oriundas da aflição no rosto – Eu só... – ansioso,\nbalançou a cabeça em negativa antes de erguê-la – Só pega pra mim. Por favor.
Após um momento de silêncio onde constatou\no quão abalado Rafael estava, foi para o seu quarto e retornou com um short\nperto puído e uma camiseta cinza.
- Obrigado.
Ao vê-lo se dirigir para o\nbanheiro, falou:
- Tem material aqui pra você\npreparar uma sobremesa quando eu tomar banho, se quiser.
A frase o fez parar e virar-se\npara ele, quem o encarava.
- Kalisto, aí já é demais. Não\nposso mexer nas suas coisas assim.
- A gente transou incontáveis vezes\nem cada cômodo desse lugar, isso sem contar os móveis como essa mesa, uma\ndessas cadeiras, o sofá, o chão da varanda em duas madrugadas e essas paredes.\nFazer uma sobremesa que eu sei que você gosta é o menor dos problemas, não acha?\n
Quando saiu do banheiro Kalisto\nhá havia separado dois pratos, seus respectivos talheres e dois copos de vidro\nsobre a mesa. A cheirosa comida do dia anterior fez Rafael salivar e aumentar\nainda mais a fome. O homem, quem estava sentado numa das cadeiras mexendo no\ncelular, ergueu a cabeça para encará-lo, abrindo um largo sorriso\nimediatamente. A imagem do rapaz lhe aqueceu o coração e sentiu quase como\nquando estavam juntos. A cena era a mesma. Sua camisa virou um vestido no\nruivo, indo até a metade das coxas.
- Escuta, não deu pra colocar o\nshort. – se aproximou entregando a peça – Ficou grande demais em mim.
- O tempo pode ter passado, mas\nvocê continua o mesmo baixinho.
Não esperava soar tão carinhoso,\nentão o pegou desprevenido. O mais novo abriu um sorriso tímido e o olhar\ntornou-se meigo.
- Os baixinhos são sempre as\nmelhores companhias. – comentou divertido.
- Disso eu sei. – levantou com\nsua muda de roupa no ombro – Pode ficar à vontade pra preparar a sobremesa. –\nse encaminhou pro banheiro.
- Prefere qual doce?
- Me surpreenda.
- Escuta, onde coloco minhas\nroupas pra secar?
- Por sorte a minha geladeira é\ndas antigas. Têm umas grades nela. Pode colocar ali pra secar. Ou, caso\nprefira, deixa em cima de uma dessas cadeiras.
Quando Rafael ouviu o barulho do\nchuveiro foi se aventurar pra descobrir qual material teria para preparar a\nsobremesa após colocar suas vestes atrás da geladeira. Decidiu preparar uma\npalha italiana. Naquele momento ignorou de maneira consciente de que aquela era\na sobremesa favorita do homem e que a cozinhava em ocasiões especiais como\naniversário ou para comemorarem algo no passado.
Antes de iniciar o preparo pegou\nseu celular e a bateria móvel devidamente secos. Os conectou e colocou músicas\npara ouvir enquanto cozinhava.
Quando saiu do banheiro vestindo\napenas uma folgada calça de algodão e chinelos, se deparou com a imagem de um Rafael\nalegre cantando enquanto cozinhava. A visão lhe contentou porque a sugestão\npara o preparo da sobremesa não foi sem motivos.
Sabia que cozinhar doces\nmelhorava o humor de Rafael, além de ser algo que lhe agradava.
Em outra época chegaria por\ndetrás arrastando os chinelos para não o assustar e o abraçaria por trás,\ndepositando um beijo no ombro ou no pescoço. Rafael o pediria manhoso para não\ndistraí-lo enquanto cozinhava, mas ambos já sabiam que isso não iria acontecer.\nO maior o provocaria de vez em quando no processo até finalizar o preparo da\nsobremesa. Só então ou Rafael o puxaria para si pelo braço para beijar\nlascivamente ou Kalisto o puxaria pela cintura para beijá-lo enquanto as mãos\ndeslizariam pela bunda arrebitada.
Porém, assim como as estações do\nano passam, Kalisto sabia que as coisas entre eles jamais retornariam a ser\ncomo antes. Aquela época de risos leves, sorrisos bobos, piadinhas internas,\ncarícias, gemidos intensos, confiança e companheirismo mútuos havia passado,\nrestando apenas as saudosas lembranças de um tempo leve e bem colorido na vida dos\ndois.
Num silencioso suspiro resignado,\nfoi colocar seu terno na máquina e retornou para a cozinha.
- Qual é o quitute da vez? – foi\naté a geladeira e retirou uma garrafa de água.
- Palha italiana. – respondeu\nsorrindo.
- Ai, adoro! – derramou a água no\ncopo e pôs a garrafa na geladeira – Tem tempo que não como isso.
- Vai comer hoje! – misturava o\nbrigadeiro no biscoito maisena já quebrado na panela – Isso aqui vai ficar\ndivino.
Antes que pudesse responder\ndepois de beber a sua água, um miado desviou a atenção do ruivo. Virou para a\norigem do som e se deparou com um gato branco o encarando com seus olhos azuis.\nSendo apaixonado por animais como era, foi impossível não abrir um enorme\nsorriso e se abaixar quando viu o animal. Por sua vez, o felino se aproximou e\naceitou ronronando o carinho embaixo da mandíbula.
- Ai, meu deusu! Que criança\nlinda. Qual o nome dele?
- Ela. É fêmea. Acho que gostou\nde você. – comentou com um ar de riso a vendo esfregar a cabeça na barriga de Rafael,\nquem havia sentado no chão.
- A pegou há muito tempo? É muito\nlindinha e mansa.
- À primeira vista parece um\namorzinho, mas vai demorar pra dar comida quando está com fome pra ver a merda.\nVira no Jiraya e só sossega depois de comer. – se esquivou de responder a\npergunta.
- Igualzinha a você, né? – o\nfitou.
- Igualzinha a nós dois. –\nreforçou – Até hoje não esqueço daquela tarde quando você passou o dia inteiro\ncom a cara emburrada. Até eu descobrir que era fome e comprar um lanche já\ntinham se passado quase três horas.
A lembrança fez o rapaz rir pela\nprimeira vez na presença de Kalisto, sinal de que começava a relaxar.
- E eu quebrando a cabeça pra\ndescobrir o que eu havia feito de errado. – terminou observando a interação dos\ndois.
- Em minha defesa ninguém fica\nbem com fome. Nem pra transar dá certo. – respondeu de bom humor com a gata nos\nbraços.
- Isso tenho que concordar.
- Vem cá, e qual é o nome dessa\ncriança?
- Cristal, mas não atende por\nesse nome.
- Por que?
- Quando a peguei na rua a\nchamava por outro nome. Quando decidi trocar ela não atendia.
- E por qual motivo iria mudar o\nnome da gata, gente?
A pergunta era simples, o total\noposto da resposta. Poderia mentir sem problemas. Porém, sabe-se lá o motivo, e\ntalvez tivesse a ver com a leve fragrância de um perfume doce que sentiu, optou\npor contar a verdade.
Portanto, encarou o chão antes de\nreplicar:
- Inicialmente eu a chamava de\nKiara.
O a pronúncia do nome fez o menor\nfita-lo assombrado. O breve momento de silêncio entre ambos se passou e o único\nsom presente era o da chuva e do ronronar da gata.
Há quatro anos Rafael havia\ncomentado que seria bom para Kalisto ter um animal de estimação para lhe fazer\ncompanhia por morar sozinho. De vez em quando insistia no assunto porque o\nachava solitário vivendo sem ninguém naquele apartamento. Comentou que, caso\nfosse adotar, o nome Nala ou Kiara combinaria com um animal, principalmente se\nfosse um gato devido a uma de suas animações favoritas, O Rei Leão.
- E... Quando foi que a pegou? –\nmurmurou pestanejando.
Tudo que o advogado fez foi\nmanter o contato visual por alguns segundos num pesado silêncio antes de falar.\n
Rafael jamais imaginaria o quão\nigualmente complicada era a resposta para o questionamento. Não havia chegado\nao seu conhecimento o que o ex vira dentro do carro às nove da noite a caminho\nde busca-lo na faculdade – e nem que o homem fora hospitalizado.
Essa parte em especial decidiu\nmanter oculta porque, além de ser humilhante, não demonstraria essa fraqueza\nperante o ruivo, quem o encarava claramente confuso e carregado de expectativa.
Portanto apenas andou até ele e\nestendeu-lhe a mão num convite silencioso para se levantar.
- Vem, vamos comer. Se não terei\nde esquentar o arroz e o strogonoffe de novo e estou cheio de fome.
Aceitando a esquiva no sanar de\nsua dúvida, segurou a destra passados quase dez segundos onde ponderou se seria\nprudente ou não. Por fim, lembrou que estava de volta ao apartamento do moreno\ne com nada além de uma camisa para cobrir a nudez. Não seria um pecado mortal\nou uma idiotice total caso aceitasse aquele gesto.
Assim que se tocaram descobriu\nque seria uma tolice, sim.
Deu-se conta de quanto tempo não\nrecebia na pele o toque daquele homem. A vontade de abraça-lo como antes foi\nforte, principalmente de beijá-lo. Atinou que pior do que lidar com um término\nera conviver tão perto do ex quando ainda o amava. Essa, sim, era uma\nverdadeira tortura – principalmente num contexto onde os obrigava a interagir.
A união das mãos, de fato, foi bonita. Por\nencarar de relance a imagem delas juntas não conseguiu evitar o suspiro ao se\npôr de pé, parando bem próximo do outro. Talvez próximo até demais. Menos de\ncinco centímetros os separavam e nenhum quebrou o contato visual e nem o\nfísico.
Não souberam quem iniciou a\nmovimentação, porém, aos poucos, numa lentidão carregada de expectativas de\nambos os lados, hesitantes e com os corações palpitando, as pontas dos dedos se\nentrelaçaram. Kalisto só percebeu o que estava acontecendo quando sentiu a\noutra mão do menor pousar timidamente em sua cintura, o que lhe gerou um\nimpulso para se afastar quando ouviu um mio da gatinha, quem os observava\nsentada.
- É melhor eu dar comida pra ela\nprimeiro. – anunciou num murmúrio – Do contrário dentro de dez minutos estará\nberrando. – foi até o armário, de onde tirou um sachê que logo despertou o\ninteresse de Kiara, cujo miado foi mais empolgado dessa vez – Pode ir se\nservindo, se quiser.
Rafael dissimulou a insatisfação\npuxando uma conversa leve e sorrindo. O mais velho despejava o sachê pra gata\nno pote dela enquanto o outro colocava uma quantidade comida no prato.
- O cheiro disso está ótimo! – a\nboca salivava.
- Puxei a mão boa da minha mãe na\ncozinha. – buscou seu prato para se servir.
- Ai, nem fala. A comida da tia é\nótima. – passou a colher do arroz pra ele, lado a lado – Não esqueço de uma lasanha\nmaravilhosa que ela fez quando a conheci. Estava divina!
Kalisto replicou, mas não prestou\natenção nas palavras. Subitamente a ação de colocar o almoço trouxe à tona\nalguns comentários de André.
“Daqui a pouco engorda e fica feio. Aí, sim, você vai ver que ninguém\nalém de mim vai te querer comendo desse jeito.”
O mais velho notou a sombra de\nalgo que não soube identificar perpassando pelas feições do ex quando o próprio\nrecuou com a segunda colher ainda cheia de estrogonofe para a panela.
Antes de irem para a sala com\nseus pratos com estrogonofe, arroz, salada de legumes bem temperada e suas\nrespectivas canecas de refrigerante, Kalisto interpelou vendo a quantidade de\ncomida que o outro pôs para si enquanto o menor guardava a panela com palha\nitaliana na geladeira:
- Você almoçou hoje?
- Não.
- Está fazendo alguma dieta?
- Também não. Por que?
- Nenhum adulto saudável que\nconheço come só isso.
Sem aviso, o ex pegou seu prato e\nadicionou uma grande colherada do conteúdo das panelas e da refratária.
- Agora, sim. O prato que o pisciano\nmerece. – o entregou – Aqui não precisa se fazer de rogado, não.
- É que tenho medo de engordar e\nficar feio. Sei lá. – deu de ombros aparentando um misto de vergonha e\nmelancolia.
- E quem foi o filho da puta que\nte falou tamanha imbecilidade? Isso nunca foi um problema pra você.
- Ninguém em especial.
Tudo nele demonstrava o\ncontrário. O olhar voltado para o chão, os ombros caídos e a voz embargada\nevidenciavam a insegurança e até mesmo a baixa autoestima desenvolvida há algum\ntempo. Apesar de não compreender a situação, Kalisto deixou seu prato na mesa e\npegou o de Rafael, colocando-o ao lado do seu.
- Escute-me bem. – parou em sua\nfrente e ergueu o queixo com o indicador para fita-lo, demorando-se um segundo\na mais para detectar os detalhes daquela bela face, inclusive as pequenas\nsardas discretas no nariz e embaixo dos olhos – Eu não sei quem é o filho da\nputa que está te enchendo de inseguranças dessa maneira, mas tenho certeza que\nmerece manda-lo para o quinto dos infernos. Você merece bem mais do que isso.
O sorriso dado por Rafael em\nagradecimento pelas palavras iluminou seu rosto. Sem pensar, encostou por um\nmomento a testa no peitoral do mais velho, quem aproveitou o breve instante\npara lhe afagar a nuca. Aos poucos o contato transformou-se num abraço, onde um\nacolheu ao outro e Rafael sentiu-se amado novamente – sensação bem distinta de\nquando os braços de André o envolviam – assim que o ex enlaçou sua cintura e o\npuxou suavemente até os corpos encostarem. Em resposta, o cantor pousou as\npalmas no peito do homem.
Não iriam revelar esse fato,\nporém, naquele abraço, sentiam-se em casa – amados e protegidos. Rafael não\ntinha constrangimento pela sua aparência e nem por quem era e Kalisto sentia-se\nimpregnado de amor novamente.
Aproveitou para beijar os cabelos\nlisos antes de inclinar-se em sua orelha para sussurrar:
- Queria ser estraga prazeres,\nnão, mas essa comida vai esfriar.
A frase lhe arrancou uma audível\ngargalhada.
- É a segunda vez que me fala\nisso em questão de minutos.
- Estou com fome. – reclamou com\nar de riso enquanto pegavam seus pratos – Aí, falou pra sua mãe onde estava?
- Sim. – se dirigiram para a sala\n– Avisei pra minha irmã que estou na casa de um amigo quem mora mais perto da\nfaculdade.
- Não está de tudo errado. Me\napresentou pra sua família como amigo seu, mesmo.
- Só não citei nomes.
- Por motivos óbvios. – sentaram\nno sofá.
Usaram uma almofada no colo para\napoiar o prato e os braços do sofá para descansarem as canecas, deixando um vão\nentre eles. O moreno alcançou atrás de seu corpo o controle da TV, a qual ligou\ne conectou direto a Netflix.
- Quando a chuva abaixar eu volto\npra casa.
- Tudo bem. – o entregou para Rafael,\nquem selecionava Naruto para assistirem – Vem cá, como anda a sua vida? – tomou\num gole do refrigerante.
- Ah, está bem. – respondeu\ndistraído encarando a abertura do anime – Eu e o André...
- Hã, hã. – largou a caneca no\nbraço do sofá – Reformulando a pergunta. Como está a sua vida, seu namoradinho\na parte.
O hóspede rolou os olhos antes de\nresponder.
Em suma, o almoço foi\nestranhamente agradável. Se inteiraram de como estava a vida de cada um, com\nexceção da área afetiva.
Contou que era advogado\ncriminalista e sua história com Mike Doidão da Favela, quem precisou defender\ncinco vezes, e algumas das histórias que vivenciou, como o episódio em que\nlevaram seu celular no assalto, porém o mesmo surgiu misteriosamente em seu\nescritório três horas depois com o bilhete:
Perdoa aí, meu cumpadi. Os cria estão tudo\nnovo na área. Ainda não sabem quem é protegido e fechamento meu. Eu lá quero\nque fodam com o meu advogado? Se não fui em cana foi por tua causa, rapá.\nQualquer problema é só entrar em contato comigo que damos um jeito de aliviar\naí pro teu lado.
Quem fora o responsável pelo\nroubo e pela entrega? Jamais saberia. Entretanto, apenas por arrancar risos do\nmais novo havia valido a pena.
O ruivo contou como era o\ntrabalho no salão e em como Cacá o ajudou. Não deixou de notar a mudança de\nexpressão de Kalisto quando citou o cabelereiro. Quando o nome surgiu fechou a\ncara enciumado.
Não revelou as situações trágicas\npelas quais passou, como a morte do pai, o acidente de Micaela, as dificuldades\nfinanceiras e nem as crises de ansiedade. Optou por manter aquele momento mais\nleve, concentrando-se em temas mais engraçados e divertidos. Seus últimos\nquatro anos não haviam sido assim, mas continham histórias alegres e suaves com\nVictor, Nichole e Morgana – trio responsável pelo seu recomeço e que lhe salvou\ndo fundo do poço.
Era visível que a chuva não iria\nparar. Pelas notícias recebidas nos aplicativos várias áreas alagaram e Rafael\nobrigou a mãe a enviar um vídeo para assegurar de que a casa estava intacta e\nsem uma gota sequer de água no interior.
Kalisto conseguiu disfarçar o\ncontentamento. Quando Rafael lhe contou sobre o que acontecia, o homem falou\ncom um discreto sorriso que poderia, sim, dormir ali. Portanto, foram para a\ncozinha, onde lavaram suas respectivas louças em meio a brincadeiras onde o mais\nvelho implicava com ele, o levando até a dar uma leve mordida no braço por ser\nchamado de poodle pela animação alheia e também da\nbaixa estatura.
Por fim, por ambos serem amantes\nde filmes de terror, assistiram Olhos Famintos e Invocação do Mal no decorrer\nda noite com as luzes apagadas e lanchando pão de queijo esquentado no forno,\nrefrigerante e palha italiana. Inicialmente começaram os filmes cada um numa\nponta do sofá. No decorrer dos filmes eles se aproximaram sem notar até que\ntoda a lateral do corpo estava em contato.
- Jeepers Creepers. Where’d you\nget those peepers?
Cantarolava o advogado quando\nOlhos Famintos terminou.
- Essa música assusta. – ralhou Rafael\nbatendo nele com a almofada.
- Esse filme não tem nada de\ndemais, poodle. – levou uma colherada da palha italiana a boca.
- Não tem porque era mais velho\nquando o assistiu. O vi com uns oito anos. Essa porra assusta, viu? – com as\npernas cruzadas e a almofada apoiando a tigela onde, agora, apenas restava\nalguns milhos não estourados que Kalisto ainda comia, deitara a cabeça no ombro\ndo homem.
- E a Micaela te deixava assistir\nterror nessa época?
- Na verdade, não. Eu via\nescondido. – descansou a nuca no sofá, o encarando enquanto conversavam – Ela\nsó descobria quando eu pedia pra dormir com ela porque o cagaço era maior que o\nsono.
- E não mudou muito, né? Você\ncontinua sentindo medo depois.
- É um prazer culposo! Que posso\nfazer?
- Não se preocupe porque te\nprotejo. Não vou deixar nenhum Creeper te assombrar hoje, não.
Embora a frase fosse para soar\ndivertida, não foi o caso. Pelo contrário. Foi quase uma promessa, como se Kalisto\nquisesse que Rafael soubesse que, consigo, ele ainda estava, sim, protegido, e\nnão havia temores.
- Ah, tá! Até parece.
- Duvida, então, por exemplo, que\neu fique te fazendo companhia até dormir?
- É claro. – mastigava o doce –\nGente, isso ficou muito bom. Mas relaxa. Precisa, não.
- Certeza? – indagou cheio de\nincerteza.
- Sim.
- Tudo bem, então. Posso levar as\ncoisas ou terminou de comer?
- Pode levar.
Foi para a cozinha, onde lavou a\nlouça e guardou a sobremesa. Ao retornar o encontrou encolhido no sofá com as\npernas cruzadas imerso ao começo de Invocação do Mal. Sentou ao seu lado\nsilenciosamente.
- Rafael, você pode...
Sequer chegou ao final da frase.\nPelo ruivo não reparar na sua chegada, sobressaltou com as mãos na boca. O\nsusto arrancou risos audíveis de Kalisto, principalmente quando o baixinho\nrespondeu:
- Tudo bem, aceito a sua\ncompanhia até eu adormecer.
E foi o\nque aconteceu. Enquanto Rafael se banhava para dormir quase duas da manhã, Kalisto\narrumou o sofá cama para ele se acomodar. Trouxe de seu quarto dois\ntravesseiros baixos, uma colcha e um cobertor.
Quando Kalisto\nem seguida saiu do banho com um short folgado e uma regata da mesma cor,\nencontrou-o acomodado com a camisa branca e coberto com a colcha mexendo no\ncelular.
Havia\nbastante espaço para ambos pelo móvel ser um sofá cama de três lugares onde,\nagora, se ajeitavam em pleno conforto.
- Já\nvai dormir? – sentou ao lado dele.
- Sim.\nVou acordar cedo porque tenho umas coisas pra fazer.
- Onze\nda manhã é cedo pra você? – indagou com ar de riso.
- Num\nferiado de sábado é. Amanhã o salão estará fechado, então quero dormir um pouco\nmais. Eu não gosto de acordar cedo. – coçou o olho antes de colocar o celular carregado\nsob o travesseiro, já se deitando – Isso é prova de amizade, sabia? Preciso\nadiantar alguns compromissos antes de encontrar uma amiga nesse final de\nsemana.
- Vindo\nde você, tenho que concordar. Acordar cedo é uma prova de amizade. – ironizou.
Recebeu\numa careta mostrando a língua como resposta antes de um “boa noite” educado.
Longos\nminutos passaram sem Kalisto sair dali. Foi tomado cada vez mais pela vontade\nde permanecer ao lado do rapaz, quem, virado de costas para ele, dormia –\naparentemente. A respiração calma e prolongada o enganava.
Aos\npoucos o moreno deitou procurando balançar o menos possível o sofá cama. Não\nqueria acordá-lo porque desejava usufruir nem que fosse o gostinho de como as\ncoisas eram entre eles no passado: simples e amorosas. Adoraria adormecer\nabraçado aquele seu menino com o tronco encostado em suas costas e um dos\nbraços o envolvendo na cintura. A proximidade seria tamanha que conseguiria\nbeijar seu ombro carinhosamente antes de entregarem-se ao sono profundo sem\namarras, jogos ou máscaras. Ali seriam somente eles – dois homens apaixonados e\nconscientes de suas emoções cujos sentimentos sabiam serem mútuos, o que lhes\ndava segurança para se entregarem à relação.
Para a\nsurpresa de Kalisto, o ruivo ainda não dormira – e descobriu isso quando ele\nvirou para si de olhos abertos, ficando frente a frente na mesma posição.
Rafael\nnão conseguira dormir por sentir o carregado olhar de Kalisto sobre si. Numa\ndecisão impensada e deixando-se levar pelas circunstâncias, optou por lhe\nmostrar que estava acordado.
Nos\nprimeiros minutos apenas permaneceram daquele jeito, calados e mirando um ao\noutro. Havia tanta tensão ali, tanta coisa a ser falada que o ar se tornou\ndenso, onde estavam em sua própria bolha. Qualquer gesto não calculado,\nqualquer palavra ou som poderia quebrar a conexão de sentimentos, então tudo\naconteceu vagarosamente e carregado de hesitação.
Quem\nfez o primeiro movimento foi Kalisto por não compreender porque havia tanto\nreceio nas feições de Rafael. Deslizou a ponta dos dedos milímetro por\nmilímetro até roçar de forma quase imperceptível nos pelos do braço encolhido.\nPor não receber nenhuma recusa e por Rafael se aproximar um pouco mais, manteve\na mão ali, acariciando a região.
Em\nseguida foi o ruivo quem deu prosseguimento. Quando mexeu a mão de maneira que\npudessem entrelaçar os dedos como inúmeras vezes no passado, identificou que\nalgo no interior de Kalisto amoleceu. Uma barreira posta há bastante tempo\nentre eles caiu, permitindo que o toque chegasse ao seu coração igualmente\nferido e desconfiado.
Apenas\naquele singelo ato foi suficiente para deixar mais novo duro. Entre eles havia\nalgo além do físico desde que se conheceram. Era como se as energias\ncombinassem e tudo se configurasse para manterem tamanha conexão ainda viva.\nApesar da distância e da falta de contato ela teimava em existir entre os dois\nhomens – talvez até mais intensa do que antes.
O\ncontato de Kalisto tornou-se mais íntimo à medida que escorreu a mão pelo corpo\ndo outro até, com o braço sobre a lateral do tronco, encontrar os cabelos e\nafaga-los. Rafael fechou os olhos com um pequeno sorriso, aproveitando a\ncarícia. Kalisto precisou refrear a vontade de beijar com fervor os lábios\nentreabertos. Quando as pálpebras foram erguidas o olhar era mais intenso,\ncarregado de igual paixão.
Por sua\nvez, o mais novo descansou a palma em seu rosto acariciando o a bochecha num\nterno afeto.
Morosamente\no moreno desceu a mão e, de vez em quando, a pausava em alguma região para\nacariciar. Nuca, meio das costas, lateral do tronco, lombar. Todas essas zonas\neram afagadas timidamente, embora o notasse relaxado. Por fim, alcançou a\nlombar, onde a puxou para si até os corpos colarem. A princípio era apenas para\no mais velho depositar um beijo na testa do outro, mas mudou de planos ao\nsentir algo bem duro em seu abdômen e ouvir o arquejo de Rafael quando a ereção\nfoi pressionada em contato com a barriga definida de Kalisto.
Com o\nrapaz em seus braços beijou-lhe castamente a testa antes de deslizar a coberta\nda cintura alheia – e não houve resistência. A nudez foi revelada em\nconsequência da camiseta que havia subido graças aos movimentos de ambos.
O\nmoreno o empurrou pra deitar de barriga pra cima quase sem exercer força\nalguma. O fez uma vez como confirmação se era o que Rafael desejava – e a\nresposta veio de imediato.
O outro\nacatou ao pedido e amou a sensação de quando o ex descansou a cabeça em seu\npeito, deslizando as pequenas mãos nas largas costas. O homem, em consequência,\naproveitou para roçar os lábios no local até aquele simples gesto\ntransformar-se em beijos que foram descendo pela carne firme. Não deixava de\nsegurá-lo e, num anseio não verbalizado, a respiração do mais novo\ntransformou-se, ficando mais intensa pelo o que viria a acontecer.
Chegando\nao destino não o apanhou e nem o abocanhou de imediato. Pelo contrário. Foi\nlento. Sem nenhuma pressa. Uma tortura deliciosa e enlouquecedora.
Kalisto,\nprimeiro, concentrou-se na glande rosada. Umedeceu os lábios antes passar a\nponta da língua ali, saboreando a textura. Em resposta foi segurado pelos\ncabelos e adorou ouvir o agudo gemido. Assim permaneceu durante um tempo até Rafael,\nse contorcendo no sofá, suplicou por mais – súplica essa acatada prontamente.
Para o\nseu contentamento, o mais velho desceu pelo pau com beijos leves e lentos\nenquanto massageava as bolas com as mãos. Chegando na base, subiu o lambendo na\npressão correta que o fez arrepiar. Repetiu três vezes o processo antes de se\nconcentrar no saco, colocando um após o outro na boca, acariciando-os com a\nmacia língua.
Era um\namante nato. Gostava de explorar as zonas erógenas com devoção – e, às vezes,\nquando estavam cercados de uma áurea mais intensa, uma certa brutalidade.\nPortanto, para ele e quem quer que compartilhasse a cama, era uma experiência\nmemorável, onde jamais sossegaria antes de deixar a outra pessoa de pernas\nbambas e com orgasmos pujantes.
É de se\nimaginar, então, o quanto Rafael gemeu quando, finalmente, o outro o colocou\npor inteiro na boca e iniciou o movimento de vai e vem com a ajuda da mão e\nacariciando a glande com a língua em círculos incessantemente. O rapaz\nagarrava-se ao travesseiro gemendo e arquejando audivelmente, sem se importar\nse estava sendo ouvido ou não. A entrega era forte, um momento que não seria\nignorado pelos dois, mas sim, aproveitado. Foi tempo demais separados – tempo\nesse que não obtiveram o demasiado prazer de quando estavam juntos com outras\npessoas.
O\napartamento se enchia pelos sons produzidos por eles, entregues um ao outro.
Por\nalguns instantes tentava manter os olhos abertos para assistir ao outro no\noral, quem parecia não chupar alguém com tão afinco há anos.
- Ai...\n– gemeu manhoso quando Kalisto, com ajuda da saliva, umedeceu o anelar,\nintroduzindo nele e massageou seu ponto escondido.
Foi questão de segundos\nderramar-se em sua garganta.
O\nmoreno o degustou e manteve-se por alguns instantes ainda no oral, cessando os\nmovimentos aos poucos.
Com a\nrespiração pesada o sentiu subir em si, parando a centímetros de sua boca. Ambos\nrespiravam ofegantes e com os corações batendo forte. Quando os olhares se\nencontraram havia um pequeno sorriso no rosto de Rafael, agora, pela primeira\nvez, deixando o medo em segundo plano. Prestes a quebrar a distância para\nbeijá-lo se recordou de uma frase escutada há anos.
- Jamais volte para aquilo que te destruiu.
-\nDesculpa, meu menino, mas não posso.
Num\nmovimento brusco o moreno levantou do sofá, deu as costas e entrou em seu\nquarto batendo a porta numa expressão dura.
A dor\nda rejeição tomou cada célula do seu corpo. Parado no mesmo lugar tentava\ncompreender o que havia acontecido lutando contra as lágrimas formadas. Não as\npermitiu rolar secando o rosto numa expressão de incompreensão e dor antes de\nse deitar.
Porém,\nele não passaria aquela noite sozinho.
Ouviu o\nmiado antes do leve peso extra.
A gata,\nquase como enviada, aninhou-se ao seu lado.
- Boa\nmenina. – murmurou com a voz embargada.
Como\nconsolo, o felino lambeu a ponta de seu nariz.
Devido\naos últimos acontecimentos Rafael não conseguiu dormir de tão abalado e teve a\ngata como companhia por vontade dela. Quando não se deitava ao seu lado,\ndeitava em sua barriga e não recusava os carinhos no pelo.
Um\npouco antes das seis da manhã ouviu do quarto de Kalisto:
- Gustavo, eu não podia responder antes porque\nestou com visita. Não, não é ninguém importante. Foi só uma caridade que fiz.\nTodo mundo tem que fazer uma boa ação de vez em quando, né? Depois a gente se\nfala porque não tive muito tempo pra dormir essa noite. Quase cometi um puta\nerro, mas isso é história pra outra hora. Só passando pra avisar que estou bem\nporque acabei de ver a sua mensagem.
Aquilo já era demais para\nsuportar. Ainda não era um exemplo de amor-próprio e nem de autoestima, mas não\nse submeteria a manter contato com Kalisto depois daquilo.
Silenciosamente\ne o mais rápido que pôde trocou de roupa. Antes de sair tirou uma folha de seu\ncaderno e escreveu algo nela, o deixando sobre o sofá antes de ir embora.
Kalisto\nteve uma noite terrível. Os sentimentos estavam tão intensos e a ansiedade tão\nforte que sequer conseguiu dormir.
Esperou dar nove da manhã antes\nde sair do quarto.
- Rafael? – chamou procurando\npelo rapaz.
Encontrou um pedaço de papel no\nsofá. O apanhou e leu o que estava escrito.
Da próxima vez não precisa fazer caridade.
- Droga. – murmurou dando-se\nconta de que o rapaz havia escutado o áudio enviado para Gustavo.
Aparentemente Kalisto não foi o\núnico decepcionado. Zangada, a gata chegou até ele e, com uma pata dianteira,\ndesferiu vários golpes em seu pé descalço.
- Ai, Kiara, isso dói! – reclamou\ntentando se afastar dela.
Quando achou que foi suficiente e\nlhe deixando alguns arranhões de presente, ela apenas miou temperamental para\nse afastar – foi quando, novamente, Kalisto sentiu o cheiro.
- Quem é que passou perfume aqui,\ncacete?!

