O dia de Kalisto começou\nmaravilhosamente bem. Ou melhor, num apanhado geral a semana foi bem\npromissora. Recebeu a notícia de ganho de causa de dois clientes e o alto valor\njá havia caído na conta. Conversara com a mãe e descobriu que o pai voltou a\nperguntar pelo filho – apesar do patriarca não aceita-lo por ser da comunidade\ngay, não deixou de amar e nem de se preocupar com o advogado. Outros clientes o\nprocuraram para serem representados por Kalisto Andrade judicialmente por\nindicação de profissionais renomados da área de saúde e havia um show que iria\nacompanhado pelo amigo Gustavo Leal horas mais tarde naquela noite de\nsexta-feira ao término de sua aula na turma de Direito da faculdade federal.\nEmbora não tivesse o costume de se interessar por aqueles shows em casa de\nfesta, a artista era alguém que sempre quisera presenciar a performance – e\ncertamente sentiria muito orgulho do que veria em cima daquele palco com\ndiversas pessoas a ovacionando.
Como\ntinha sido um aluno reconhecido em sua turma e a carreira deslanchava ao ponto\nde ter seu próprio escritório em tão pouco tempo, um professor quem ainda tinha\ncontato com Kalisto o indicou para substituir uma professora quem havia se\naposentado. Aceitou o emprego antes de conversar com Micaela, então imaginou,\nno máximo, ver Rafael pelos corredores, na biblioteca ou no refeitório. Nada de\nalarmante. Apenas situações onde se cruzariam e não precisariam conversar e nem\nterem maiores contatos. Para isso estava pronto.
Porém,\nnada o prepararia para quem encontraria ao passar pela porta da sala de aula.
Rafael\nSiqueira, seu ex, quem não via há quatro anos, estava sentado numa das cadeiras\nda frente, completamente petrificado. Os olhos arregalados, o maxilar travado,\nas narinas dilatadas e os ombros encolhidos eram sinais claros de que preferia\nver o próprio Lúcifer passando pela porta do que Kalisto Andrade.
A\nreação, apesar de não muito positiva por ser recheada dos indicativos de que\nnão estava exatamente feliz pelo inesperado reencontro em circunstâncias tão\nestranhas, serviu para lhe mostrar que o ruivo não era completamente avesso a\nele. Não era um qualquer em meio à multidão, uma pessoa dentre as demais que\npassaria batida e o rosto não seria identificado em meio a tantos outros. Pelo\ncontrário. Seria reconhecido – e no íntimo, claro que mentiria caso lhe\nindagassem, isso lhe gerou certa ansiedade porque poderiam ter outros\nsentimentos colidindo ou ressurgindo no coração do rapaz.
Enquanto\nRafael, quem fora um livro aberto, era incapaz de esconder seus sentimentos, o\nmais velho conseguia disfarçar bem até demais. Entretanto, e torcia para o\nruivo não lembrar de tantas características de sua personalidade e\ncomportamento, quem o conhecia melhor, após uma rápida avaliação, conseguiria\nperceber que ficara igualmente impactado pelo reencontro graças às mãos\ntrêmulas. Quando estava altamente nervoso ou ansioso, suas mãos começavam a\ntremer, especialmente quando não existiam meios para extravasar aquela tensão.
Pena\nque não era o único motivo para estar tão alterado, mesmo não demonstrando.
Assim\nque o viu percebeu que o tempo apenas lhe favoreceu, realçando a sua beleza e\ndando ao seu corpo as proporções certas. Não conseguia compreender como isso\nera possível se, caso sua memória não lhe pregasse uma peça, as medidas\ncorporais eram praticamente as mesmas. Entretanto, de alguma maneira, estava\nmais atraente. Se antes era capaz de fazer o advogado de um metro e oitenta e\ncinco gozar em poucos minutos em sua boca, certeza que hoje em dia ficaria duro\napenas pelo simples ato de segurar sua mão ou entrelaçar os dedos. Os cabelos\nestavam em sua cor natural em pequenas ondas e as pernas tornaram-se mais\ntorneadas, principalmente quando envoltas num tecido jeans justo. Se as coxas\nestavam convidativas ao ponto de desejar sentir a textura delas novamente,\nimagine como seria a...
Inferno,\nainda desejava o homem. Se tivesse oportunidade o levantaria daquela maldita\ncadeira para beijá-lo. Arrancaria as roupas as rasgando com as próprias destras\ne o faria seu ali mesmo. O pegaria com gosto e se deliciaria com os gemidos\nagudos que sairiam daquela boca que tanto desejava beijar há tanto tempo.\nEspalharia beijos pelo corpo alvo inteiro, desde a testa até a ponta dos pés. O\nmarcaria nos quadris e na bunda com tapas e apertos para impedir que qualquer\noutro homem se aproximasse, já que perceberia que Rafael já tinha dono. E o\nmais importante: mergulharia tão fundo nele e tão rápido que esqueceria até o\npróprio nome, importando-se somente com o prazer dado por Kalisto e na paixão\nque ainda os consumia.
Precisou\nse concentrar na aula e no conteúdo dado. Descobriu que não poderia deixar seus\nolhos se encontrarem com os de Rafael porque travava. As palavras simplesmente\nnão saíram da boca quando o encarou duas vezes durante o discurso, então achou\nmais prudente evitar o contato com aquelas íris instigantes – inclusive porque\no viu passar a mão nas pálpebras como se secasse lágrimas de maneira\ndisfarçada. O seu coração se apertou ao constatar isso. Apesar do passado dos\ndois conter sofrimento e o ruivo ser o responsável por fazê-lo parar no\nhospital devido a questões emocionais, não gostava de vê-lo triste – e\nsentiu-se um perfeito exemplo de filho da puta por provocar uma emoção negativa\nnele.
Quando\nterminou a aula, já atrás da sua mesa de professor, falou:
- Estão\nliberados. Só uma coisa. Um de vocês entrou nessa turma de última hora. Quero\nfalar com você pra adicionar o seu nome na lista de chamada.
Demorou-se\na guardar seu material para ir até ele. Independentemente de estar atrasado ou\nnão para se encontrar com os amigos devido ao remunerado compromisso agendado\nhá meses, não gostaria de ter uma plateia os observando. Afinal de contas era o\nseu primeiro contato com o ex. Muito poderia dar errado ali e não queria sair\nprejudicado em um momento tão importante como aquele – e não tinha em mente\napenas o retorno para a faculdade como uma questão preocupante.
Quando a última aluna fechou a\nporta se aproximou de Kalisto, quem estava sentado na cadeira mexendo no\ncelular.
- De\ntodos para quem imaginei dar aula, o seu nome jamais se passou pela minha\nmente. – deixou o aparelho em cima da mesa para fita-lo.
Rafael\nqueria arrancar aquele sorriso cínico desenhado no rosto moreno com as próprias\nunhas – de preferência com as da sua drag por serem maiores. Encará-lo sem que\nos sentimentos emergissem era um desafio. Eram lembranças, sensações, falas,\nrisadas, sons, texturas, sabores... Havia um vasto conteúdo vivido entre ambos\nno passado para conseguir ser ignorado.
Por\noutro lado, não era mais o mesmo Rafael de 22 anos. Aquele tão fragilizado que\nmais parecia um trapo por meses e completamente apagado. Não permitiria\ntransparecer o quanto a presença daquele homem o incomodava, então aproveitou\nos ensinamentos da moça de não abaixar a cabeça. Pôs-se altivo, empinando o\nnariz e com uma expressão orgulhosa na face.
-\nAcredite, estou tão satisfeito quanto você. – colocou uma das mãos na cintura.
- E aí?\nComo anda a sua vida?
Rafael\nachou a pergunta tão sem nexo que riu de nervoso.
- Não\npodia estar melhor. – é claro que mentiria – Estou bem, feliz... Até namorando,\nacredita? – finalizou com um toque ácido na voz.
- Jura?\n– Kalisto ergueu as sobrancelhas, não conseguindo disfarçar como detestou ouvir\nas palavras – E quem é o felizardo?
- O André.\nDeve se lembrar dele.
- Ah,\nlembro muito bem. – havia certa agressividade nas feições que transpareceram na\nvoz – O seu amiguinho era tão íntimo seu que preferiram elevar o patamar da\nrelação, né? – tamborilou os dedos na mesa deixando o ciúme transparecer.
Óbvio\nque já sabia do relacionamento – e tinha verdadeiro repúdio quando se deparava\ncom alguma foto da dupla nas redes sociais. Porém, ouvi-lo contando aquilo com\ntamanha satisfação lhe embrulhou o estômago.
- Ele é\nótimo. Não sabe como o meu atual me faz bem.
Fingiu\nempolgação soando quase como se o atual fosse sua primeira paixão na vida.\nTinha um duro sorriso no rosto ao mentir e mordeu o lábio inferior parecendo um\nadolescente cheio de hormônios.
- E\nimagino que não demorou nem um pouco para cair nos braços dele, certo, certo? –\na voz saiu fria e a expressão era completamente impassível. Não conseguiu\nesconder a raiva pelas declarações. Afinal, havia limite para tudo – e o moreno\nestava chegando no seu.
- O André\né bom no que faz. Eu seria um tolo se não aproveitasse, não acha?
Queria\natingi-lo. Depois de tudo o que fez ao brincar com seus sentimentos não seria\njusto se Kalisto não sofresse retaliação. O ruivo passou por um inferno\nsozinho, sem nenhum pingo de coragem para explicar a humilhação que sofreu por\ncausa do ex. A única pessoa que sabia era Bruno, quem conseguiu lhe arrancar a\nconfissão com a ajuda da bebida meses depois.
Então,\nsim. Merecia demonstrar estar ótimo e se mostrar dono de si.
Pelo\nmenos era isso o que ambos tentavam mostrar um pro outro. Na prática? Apenas\ndeixaram clara a mágoa, o ressentimento e que os sentimentos continuavam ainda\nlatentes, apesar de não verbalizarem nada.
Deveria\nsaber que aquela era a pergunta errada para realizar. Afinal, conhecia o\ntemperamento do ex. Sabia que, desde que não estivessem em público, o mais\nvelho era capaz do inimaginável – e nunca reclamou disso. Em meio a uma\nmultidão? Desde que os demais não presenciassem nada, não havia motivos para se\npreocupar – aí precisava ser a mente sensata, mas sempre terminava com uma nova\nhistória pecaminosa que jamais seus amigos poderiam saber para manter a\ndignidade intacta. Numa dessas brincadeiras pensou se era daquela forma como\nTarzan e Jane se sentiam quando transavam numa rua deserta, escondidos apenas\npela noite, a má iluminação dos postes e as folhagens de uma árvore cuja copa\nera bem cheia.
Num\nrompante ergueu o corpanzil sem quebrar o contato visual com Rafael, quem\nergueu a cabeça para continuar a encará-lo. A proximidade era absurda e a\ntensão entre os homens quase palpável. O aluno queria soca-lo por se tornar\nainda mais atraente com as tranças nagô e a barba rala e bater em si, já que,\ncaso desse vasão aos seus desejos, pularia no colo do ex para terem uma recaída\nmemorável.
Kalisto se perdeu no verde\ndaqueles olhos que lhe transmitiam tanto amor, tanta devoção e tanta\nsinceridade no passado. Queria, desejava e talvez precisasse voltar a ser\nencarado assim pelo ruivo, quem era o responsável por leva-lo a loucura quando\no provocava e o fazia sentir-se em casa quando o abraçava.
Ao\nnotar que a raiva do baixinho se dissipava dando lugar a algo como a saudade –\nou talvez fosse a sua mente tentando lhe engar – inclinou-se devagar na direção\ndos lábios carnudos. Parou por alguns instantes, vendo a respiração pesada do\noutro, como se este se segurasse para não avançar e quebrar aquela mínima distância.
Para\nevitar de cometer algo que se arrependeria no futuro, Rafael esforçou-se para\ndar dois passos para trás sem baixar sua guarda. Era uma ação prudente, já que\npermanecer daquela maneira começava a mexer com seu coração. Pelo menos era\nesse o plano.
Ao dar\no primeiro passo Kalisto o segurou pela cintura do jeito que sabia que o ruivo\ngostava. A pressão causada pelo braço forte gerava arrepios em sua pele e a mão\nusava de um pouco mais de força, como se almejasse tocar a pele macia e firme\ndesde que passou pela porta da sala de aula.
- Não\nprecisa fugir de mim. – murmurou com a voz grave e com o ar de luxúria entre\neles se intensificando – Achei que eu já havia deixado isso claro pra você no\npassado.
Mentiroso.\nKalisto o mostrou que deveria e precisava, sim, fugir dele. Fugir pra longe,\npra um lugar onde jamais se encontrariam ou sequer se avistariam em nenhuma\nhipótese. Foi o responsável por incontáveis noites de choro silencioso em seu\nquarto abafados e silenciado com a ajuda o travesseiro
- Respondendo a sua pergunta,\nsim. – concordou após minutos de silêncio onde se encararam com certa raiva,\nmágoa e desejos reprimidos – Seria um tolo. – levou a boca até a pequena\norelha, onde prosseguiu e adorou vê-lo fazer um movimento específico de quando\ncostumava provoca-lo na região com a língua ou o toque os dedos – Afinal, se\nele te fode bem, é o que vale.
Rafael\nestava bem longe de ter orgasmos tão intensos com André como tinha com Kalisto,\nmas não revelaria isso.
Kalisto,\npor outro lado, não imaginava que Rafael não tivesse nada a perder e que estava\nmais ousado nos últimos anos. O mais novo virou o pescoço minimamente, o\nsuficiente para conseguir roçar os lábios na barba rala. Arriscou-se a tocá-lo\ncom as palmas no peitoral. Não recebendo nenhuma reação negativa, as deslizou\nlentamente sentindo-o aumentar mais o aperto e mordiscar o ombro. Parou quando\nsentiu o cinto de couro.
- É só\nisso, professor? Ou você está interessado em outras áreas da minha vida? Não\nposso demorar porque tenho um compromisso do qual não posso me atrasar.
Se\nrefreou de responder um “eu sei”, então disse afastando-se por completo do\ntoque do menor:
- Pode\nir.
Sentou\nde volta na cadeira como se não houvesse acontecido nada ali.
- Não\nprecisa que eu te dê meu nome?
- Eu sei\nde várias coisas sobre você, inclusive o seu nome completo. Deixa que sou capaz\nde me virar.
Sem se\ndespedir Rafael empinou o nariz, deu as costas pro ex e, a passadas firmes,\npassou pela porta.
Se\nantes o advogado endureceu com o diálogo a sós com seu menino, agora, vendo\naquela bunda farta marcada pelo jeans, seu pau estava cheio e dolorido dentro\nda boxer, implorando pela atenção do ex.
Apesar\ndo rapaz ter ido embora, não foi isso o que houve. Aproveitou o corredor vazio\npara observar o moreno do outro lado da porta. Notou como o homem estava\nperturbado. A expressão alternava entre a mágoa e a raiva. A respiração pesada\nnão o ajudaria a se acalmar e já tinha desatado o nó da gravata numa tentativa\nde conter a irritação. Por fim, pegou uma caneta sobre a mesa. Num único\nmovimento se colocando de pé, a varejou longe, berrando:
-\nInferno!
Apoiou\nas mãos na mesa com o corpo inclinado. Só então Rafael foi embora.
Chegou\nna casa de Nichole com a sua mala já pronta para o show. Quando ela, Victor e Morgana\nviram a cara dele logo foi jorrado de perguntas.
-\nGente, escuta, o babado é forte, mas prefiro não falar agora. Juro que conto\nquando estivermos voltando da casa de show. – abriu a mala de rodinhas já\nretirando o seu figurino – Quero deixar a energia lá em cima.
- Mas\nestá tudo bem, Rafa – pranchando os cabelos lisos da franja, Nichole indagou\nsentando ao lado dele com a maquiagem pela metade.
-\nTirando a vontade de socar a cara de um filho da puta, sim. – apanhou a lace\ncastanha ajeitando os fios e a colocou no braço do sofá com cuidado.
- Se\nvocê quiser, conheço uma galera de Jacutinga e de Belford Roxo que podem dar um\njeito nisso. – Morgana falou avaliando-se no espelho e decidindo colocar mais\nsombra na pálpebra.
- Seria\numa boa ideia. – Rafael riu – Mas não seria inteligente da minha parte,\nprincipalmente porque voltei a cursar Direito. Bora melhorar essa vibe porque\ntemos um show da porra dentro de poucas horas. Quero estar mais gostosa do que\nnunca para arrasarmos naquele palco, suas lindas!
-\nAgora, sim, está falando como a princesa que a Disney não tem. – comentou Victor\nlhe entregando uma dose do vinho que estava tomando do gargalo antes de ir se\narrumar.
Sexta-feira\nà noite Kalisto gostava de ir para o seu apartamento e usufruir de uma boa\nnoite de sono, já que nos finais de semana poderia acordar mais tarde. Daria comida\npara Cristal, quem o receberia em casa ronronando e se esfregando em suas\npernas. Tomaria um prolongado banho quente para relaxar os músculos. Em seguida\nvestiria uma samba-canção e passaria um tempo em frente à TV assistindo\nqualquer programa com a gata em seu colo pedindo carinho. Em seguida? Deitaria\nem sua confortável cama e despertaria no dia seguinte às onze da manhã. Porém,\nnão estava em seu apartamento e sim numa boate.
Usava\numa regata branca que deixava seus braços musculosos evidenciados. A calça\njeans e o tênis branco davam um ar despojado. Com a cerveja em uma mão\nconversava com Gustavo:
- O que\nte levou a quebrar a sua amada rotina de sexta-feira? Está interessado em\nalguém daqui? – precisava gritar na orelha do amigo para se fazer ouvir – Algum\nmilagre aconteceu pra querer passar a noite fora.
- Não\nfoi nada de demais. – tomou um gole da cerveja – Só estava meio enjoado de\npassar mais uma noite de sexta-feira dormindo em casa.
- Então\npor que não aproveita e faz valer a pena? Já perdi as contas de quantos caras\nestão te secando.
Realmente,\nvárias pessoas ali flertavam com Kalisto, mas ele fingia não ver. Não eram\nneles que estava interessado.
- Sabe\nque prezo pelo conforto quando transo. E aqui não é confortável.
- Até\nparece! Várias vezes aproveitou o banheiro dessa boate para transar quando\néramos mais novos. Até hoje quero entender a logística de entrar naquele\ncubículo com outras duas pessoas e todas saírem satisfeitas.
Era\nverdade. Kalisto estava longe de ser puritano.
Ao checar\no celular descobriu que a atração da noite já estava perto.
- Eu\nnão vou demorar aqui. Quando der a minha hora eu vou. – guardou o aparelho\ninquieto pois ansiava ver a artista quem subiria ao palco.
A hora\nseria quando o show da Princess terminasse – e ele não era louco de perder uma\núnica atualização dela nas redes sociais através do perfil fake.
Quando\nPrincess subiu ao palco com as duas bailarinas, Nichole e Morgana, mais uma vez\no pau de Kalisto endureceu tanto que a calça jeans se tornara desconfortável.\nEla era linda. Conhecia os feitos de Rafael, mas não quando estava sob sua\npersona artística: Princess. Ela era ousada, atrevida, sensual e corajosa no\npalco. Muito. Até demais. Durante as apresentações imaginava se Rafael teria\ncoragem de fazer o que Princess fazia no palco: provocar o público com sua\nsensualidade e beleza, além de hipnotizar as pessoas ali presentes pelo seu\nmagnetismo natural. A drag rebolava sem pudor e aquela minúscula saia preta era\nsua perdição. A mão coçava para erguê-la e deixar um forte tapa na robusta\nbunda, assim como fazia quando estavam sozinhos antigamente. Sem dúvida o tapa\na faria arfar e a instigaria a unir os lábios nos seus cravando as unhas na\ncarne firme.
A drag\nde Rafael – e sim, ele sabia quem era por debaixo das roupas e da maquiagem –\nusava um transparente body rendado preto aberto nas costas e de mangas. A\nminúscula saia preta brilhosa na cintura dava a visão perfeita para a sua\nbunda, protegida apenas por um fio dental. Um par de coturnos finalizava o\nlook. A lace castanha ornava com a maquiagem. O que Kalisto queria? Pega-la\npelos braços e retirá-la dali.
Sabia\nque Rafael performava e não revelava sua identidade, mas não compreendia o\nmotivo disso. Via como vários homens dali encaravam Princess encantados e\ndesejosos por flertes e talvez passarem momentos à sós. O advogado tinha\nconvicção de que não saberiam tocar nela como ele. Nem de como apertar, em qual\nintensidade mordiscar e nem a velocidade certa para arrancar agudos gemidos.\nApenas Kalisto Andrade era habilidoso o suficiente para leva-la ao ápice do\nprazer vez após vez – e tomava o tempo que fosse necessário para isso se\ndeleitando com cada reação do corpo.
-\nGente. – a drag um pouco ofegante fez uma pausa para recuperar o ar tomando um\ngole de água numa garrafinha de plástico entregue por Morgana, quem saiu do\npalco em seguida a tampando – Quem aí estiver com o celular ou algo que faça\nluz, peço para que todos acendam essa luz. E caso estejam com o coração partido\nassim como eu estava quando escrevi essa canção, tenham a certeza de que vai\npassar e vocês sairão mais fortes e confiantes. Agora é o momento de extravasar\nessa emoção para ela não corroer em vocês. A deixem se esvair dos seus poros\ncom cada nota que cantarei. Entreguem essa dor para o povo de rua leva-la para\nlonge e vocês conseguirem acordar amanhã maravilhosamente bem.
O\ninstrumental de A Tua Voz começou e a voz tomou conta do espaço. Kalisto\nconseguia ouvir e até mesmo sentir o ressentimento e a amargura na letra\nda música. Ficou hipnotizado pela letra sem imaginar o que a originou.
Rafael\ncompôs A Tua Pele semanas após de ter fugido do apartamento de Kalisto. Deus,\ncomo sofreu e sentiu falta dos abraços daquele homem. Mais de uma vez ligou de\num outro número desconhecido apenas para ouvir a voz dele – e essa foi a\ninspiração inicial para a criação da música.
No\níntimo queria encontrar um motivo para o que aconteceu. Qualquer explicação do\nporquê Kalisto achou sensato machucá-lo daquela maneira era válida. Então\ndecidiu fazer algo: criou uma história. A história de uma pessoa cujo\nrelacionamento acabou devido a conflitos era imensamente mais interessante e\nplausível comparada ao que o futuro cantor vivia, onde sequer havia conflitos.\nPelo contrário. Nas raras ocasiões onde discordavam com algo, conversavam.\nNunca elevaram a voz. Era literalmente o relacionamento dos sonhos cheio de\ncumplicidade, amor, parceira, respeito, confiança e paixão. Então... Por qual\nmotivo foi fadado ao fracasso?
Sem\ncompreender o processo, a sua persona Princess começava a surgir. Enquanto\nescrevia a letra – hábito criado na tentativa inconsciente de extravasar\naqueles sentimentos por não haver nenhuma outra válvula de escape – e\ncantarolava a música até juntar tudo e transformar elementos isolados em música\nse imaginava cantando e performando como drag – maquiado, com as roupas e\ntalvez até argolas.
Era ela\nquem havia terminado o relacionamento. Ela brigaria todos os dias em\nconsequência de o cara implicar com os seus trejeitos – e Princess manteria a\ncabeça erguida convicta de sua força e de seu poder pessoal. Mentiria caso\nfosse perguntada se a vida estava bem e principalmente: Princess suportaria\ncaso existisse outra pessoa já ocupando o seu lugar ao lado dele?
Gustavo\nestava ao lado do amigo durante a apresentação – e o outro estava completamente\nalheio. Só tinha olhos para o palco. Olhos esses que estavam carregados de\ninúmeras emoções reprimidas. A mão que segurava a cerveja estava trêmula e\nsegurava a garrafa com força além da necessária.
Após\nobservar atentamente Princess, falou de maneira despretensiosa:
-\nEngraçado. Esse rosto não me é estranho.
- De\nquem?
- Dela.\n– apontou para frente com o queixo.
- Acha?\nNunca a vi.
- Sim.\nEla lembra o Rafael.
- Acho\nque não. São bem diferentes.
- Tem\ncerteza?
- Gustavo,\nqual de nós dois transava com ele? É obvio que eu saberia se fosse o meu ex\ndebaixo daquela maquiagem ou não.
A\nresposta irritada deixou o amigo desconfiado, principalmente porque o outro não\ntirava os olhos do palco nem pra conversar com ele.
- Se\nestá dizendo...
Suas\nsuspeitas seriam confirmadas quando, minutos mais tarde, Kalisto lhe avisasse\nque estava indo. Mais especificamente no momento em que o show terminasse.
-\nPorra, é sério que tem tanta gente sofrendo por amor aqui? – disse Princess\nquando terminou a canção – Nem sei quem são eles ou elas, mas tenho certeza de\nque vão se arrepender amargamente. Olha o tanto de gente bonita nessa boate. –\nfoi ovacionada pelo discurso – Agora, vou finalizar essa noite com uma música\nda Beyoncé e da Shakira. O que temos a ver com elas? Já nos apaixonamos por um\nlindo mentiroso. Bora dançar!
O\nadvogado escolheu um ambiente onde não seria facilmente identificado, um pouco\nmais distante do palco, onde ainda havia certa escuridão. E foi ali, parado,\nque observou cada movimento de Princess desde que ela pisou no palco. Até mesmo\no olhar tornou-se mais intenso – e algo dentro dele torceu para que o\nidentificasse na multidão. Talvez fosse efeito da bebida, mas adoraria\ndescobrir a reação do ruivo caso descobrisse – de preferência em sua persona.
Ao\nfinal do show Victor passou no bar para comprar água para as meninas. Enquanto\nfazia seu pedido, ouviu um homem conversar com um amigo:
-\nEscuta, minha hora já chegou. Eu já vou.
- Você\nsó veio para ver esse show, né? – lhe lançou um olhar de esguelha.
- Só\nvou ser sincero em virtude dos nossos anos de amizade. Sim.
- Sabe,\neu já disse, mas volto a repetir. A Princess me lembra alguém ou estou\nneurótico?
-\nDefinitivamente está neurótico. – balançou a cabeça em negativa em ar de riso.
-\nHum... – o avaliava de cima abaixo, como se não acreditasse na resposta.
- Que foi, Gusta?
- Eu o conheço há mais de vinte\nanos. Algo me diz que há algo de errado nessa história que não está certo, mas\nrelaxa. Ficarei por aqui. Depois a gente se fala.
Quando\no outro se afastou, Victor interpelou o de regata branca:
-\nDesculpa, mas foi impossível não ouvir a conversa de vocês. Veio só pra\nassistir ao show da Princess?
- Sim.\nEla é uma cantora maravilhosa. A acompanho nas redes sociais, mas não imaginava\nque dominasse o palco com tanta presença. Foi a primeira oportunidade que tive\nde prestigiá-la.
- Ela é\nótima, sim.
Um\nmomento de silêncio se passou entre eles e Victor pôde notar que o estranho\nobservava o lugar metros à frente onde Princess estava com as duas amigas. Elas\ndançavam entre os demais e se divertiam completamente alheias a conversa de Victor,\no videomaker da artista, com aquele homem. Além disso identificou a existência\nde um certo saudosismo no olhar, como se a mente do desconhecido estivesse\nlonge, presa em memórias carregadas de saudade.
- Você\na conhece? – indagou o videomaker.
- Como?\n– pestanejou sendo retirado dos devaneios.
- A\nPrincess. Você a conhece?
- Não.
- Por que está com essa cara,\nentão? – apoiou os cotovelos na bancada, virando o corpo na direção do\ndesconhecido.
- É que ela me faz lembrar de\nalguém.
-\nAlguém do seu passado que foi importante pra você? – o pressionou carregado de\ncuriosidade.
-\nAdmito, foi alguém importante pra mim.
- Sem\nquerer me intrometer, qual foi a questão entre vocês? – colocou a mão nos\nbolsos para pagar as garrafinhas de água dispostas na bancada pelo garçom.
- Ele\nera um lindo mentiroso. Esse foi o único problema. – deu um sorriso depressivo\n– Não é nada de demais.
Apesar\ndas grandes proporções o outro estava cabisbaixo. A postura continuava ereta,\nentretanto era como se o brilho interno dele estivesse ligeiramente apagado. E\nfoi graças a áurea carregada de lástima que Victor lhe ofereceu.
- Se\nquiser posso leva-lo pra se apresentar e bater uma foto. Vai que seu ânimo\nmelhora? Ela é super receptiva com o público e adora bater fotos. – planejava\napenas elevar o ânimo dele. Pena que não surtiu o efeito imaginado.
Estranhou\ncomo o moreno sobressaltou. A ideia pareceu assusta-lo.
- Ah,\nnão, não precisa. – gesticulou com certo nervosismo – Aliás, foi bom conversar\ncontigo. Quem sabe não nos vemos por aí?
Sem se\ndespedir se afastou, deixando Victor intrigado com a conversa e até com certa\ndó.
Às\ncinco e meia da manhã os quatro entraram no Uber, todos espremidos na parte\ndetrás do veículo.
-\nViada, por favor, você está me matando de curiosidade até agora. – Nichole\nfalou assim que fecharam a porta – Que merda aconteceu hoje pra chegar na casa\nda Nic com aquela cara de cú?
- Cara\nde cú mal comido, só se for. – comentou Victor.
- Bem,\nprepara aí que a história é longa. – retirou um fio da lace da boca – Adivinhem\nque é o meu professor da faculdade?
- Ah,\nnão sei... – Nichole tomou um gole da garrafinha de água.
-\nNinguém mais, ninguém menos, que o meu ex filho da puta!
- Que?!\n– as três vozes saíram em uníssono e quatro pares de olhos o encararam. Três\ndos amigos e um do motorista, quem não esperava pela informação.
-\nExatamente o que seus ouvidos ouviram.
Eles\nnão sabiam bem o que aconteceu entre ele e esse ex. Apenas que o cara foi um\ntremendo babaca com Rafael e partiu seu coração.
-\nImagino a sua cara quando o viu entrando na sala. – Nichole gargalhou.
- Eu\nfiquei pra morrer! Queria que o chão o engolisse ali. Fujo desse cara mais do\nque o Diabo foge da cruz pra ele aparecer na minha vida de novo do nada?! Tipo,\nquais são as chances dessa merda acontecer?
- Pri,\ntome cuidado pra não se envolverem muito. – avisou Morgana – Se ele ainda sente\nalguma coisa por você, é capaz de se aproximar aos poucos. Ou tentar.
- Nem\nfodendo que vou deixar aquela praga ruim chegar perto de mim. Sofri de dar dó\npor causa dele. – gesticulou certa das palavras proferidas – Não me tornei essa\ngostosa da porra pra deitar na cama daquele escroto na primeira oportunidade.
-\nAmiga, é mais fácil nos mostrar uma foto dele, sabia? Pelo menos para termos um\nrosto em mente. – Nichole explicou.
-\nSegura aí.
Princess\nretirou da bolsinha o celular, onde buscou a rede social de Kalisto.
-\nPronto. – entregou para as meninas que se sentaram lado a lado.
-\nGostoso! – soltou a loira.
- Gato.\nPena que não presta. – finalizou a outra.
- Me dá\naí pra eu ver também.
Com o\ncelular na mão, Victor arregalou os olhos sem comentar nada por alguns segundos\nenquanto os outros três conversavam. Para ter certeza da imagem, retirou os\nóculos de marrons hastes quadradas proporcionais ao rosto.
- Pri...\n– pronunciou o apelido prolongando a fonética da sílaba.
- Fala.
- Tem\ncerteza que é esse cara? – ainda tinha os olhos cravados na tela, passando as\nfotos do homem.
-\nTenho, ué.
- Mas\nassim... Certeza absoluta, mesmo? – pestanejou para ter certeza do que via e\nvoltou a colocar os óculos – Aquele tipo de certeza que é irredutível e que\nvocê apostaria dinheiro porque sabe que lucraria com isso?
- Eu\nchupava o pau desse homem, Vic! Como não iria saber qual é o rosto dele?
-\nEscuta... – passou a mão pela testa – Você não vai surtar, não? É que tenho uma\ncoisa pra te falar.
-\nDesembucha logo. – apertou de leve a bochecha do amigo em gesto terno.
- Se eu\nte falar que ele estava hoje na casa de show só pra te ver você acredita?
- Como\né?! – pestanejou em sinal de confusão e estranheza.
-\nExato.
Em\nquestão de segundos resumiu conversa que teve com Kalisto.
- E\namiga, posso jurar que ele não estava muito bem. – finalizou – Sei lá. Parecia\nestar meio triste, com saudade... Não sei. Eu deveria ter dado um jeito de\nbater uma foto da cara dele enquanto te observava. Até eu fiquei com dó.
- Pois\nque sofra! – respondeu ácida – Eu é que não vou ficar mexida só porque o senhor\nmentiroso ficou todo tristinho.
Durante\nos minutos seguintes Princess não disse mais nada. Os amigos confabulavam entre\nsi enquanto ela, de maneira bem atípica, se manteve calada, com a perna\ncruzada, um braço sob o peito apoiando o outro pelo cotovelo enquanto movia\ndevagar o dedo anelar e o polegar entre si. De tão concentrada nos próprios\npensamentos não ouvia mais os amigos. Avaliava o comportamento de Kalisto e\nusou como comparação o relato de Victor. Era evidente que o homem estava\nincomodado em se deparar com Rafael, mesmo após quatro anos. O motivo que o\nintrigava e o instigava a preencher as lacunas em branco daquela equação\npermanecia em oculto. As ações dele, desde as mãos trêmulas na sala de aula até\na postura tristonha descrita pelo produtor musical e videomaker eram amostras\nde quem ainda estava abalado. Deus, a dedução em si era quase cômica devido aos\neventos de anos atrás.
Montada,\nPrincess aflorava algumas características de Rafael, dentre elas a ousadia e a\ncoragem. Ela não tinha medo e irradiava poder. Rafael era mais medroso, então\nse impedia de arriscar-se em algumas coisas e acabava perdendo oportunidades ao\nlongo da vida. Princess, não. Aliado a isso, tanto quanto Rafael ela precisava\nde respostas. Não gostava de espaços em branco. Era uma necessidade genuína que\nesses espaços serem preenchidos.
- Ih,\ngente... Conheço essa cara. – Nichole comentou enquanto se abanava com o leque\napós ver a expressão de Princess.
- Cara\nde quem vai aprontar. – completou Victor e Morgana.
E sim.
Rafael\niria aprontar.
Na\nfaculdade. Pra cima de Kalisto – e usaria um pouco da ousadia de Princess a seu\nfavor.

