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Chame por Cigana
Capítulo 1
5530 palavras • 47383 caracteres • ⏱ 22 min 07 s

Capítulo 1

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            Se contassem para Rafael Siqueira\ncomo estaria sua vida aos vinte e seis anos daria uma estrondosa gargalhada.\nAcharia que o cenário da previsão seria demasiadamente dramático, como um\ncapítulo digno de dramalhões mexicanos como A Usurpadora, Marimar e O que a\nVida me Roubou. Afinal de contas, sua vida estava ótima. Cursava Direito na\nfaculdade dos sonhos localizada no Rio de Janeiro, havia se apaixonado por um\ndos ex alunos quem havia acabado de passar na prova da OAB, namorava o lindo\nmoreno quem o tratava com amorosidade invejável e sua família caminhava bem. É\nclaro, ainda não havia se assumido socialmente como gay e apresentava o\nnamorado como amigo por sentir medo da reação do pai, mas, num todo, as coisas\nestavam fluindo.

                Até que\nseu castelo começou a desmoronar peça por peça num curto espaço de tempo.

                Primeiro,\nfoi o relacionamento. Jamais sentira tamanha dor antes como na tarde quando\nsaiu aos prantos do apartamento do homem. O porteiro até tentou impedi-lo de\nsubir colocando diversos empecilhos como a ausência do morador, mas,\ninfelizmente, Rafael tinha a chave entregada pelo mais velho meses anteriores,\nentão tinha livre acesso ao lugar que passou a conhecer tão bem quanto a sua\nprópria casa – e no conforto do seu quarto imaginava-se morando lá com Kalisto\ncaso se casassem.

                Três\nmeses depois enterrou seu pai no meio de uma chuva torrencial, vítima de uma\nbala perdida. Precisou acudir a mãe junto dos amigos presentes, quem desmaiara\nquando a primeira rosa branca foi jogada sobre o caixão antes da terra ser\ndespejada.

                Como se\nfosse pouco, além de Micaela ser a única responsável por pagar as contas,\ncolocar comida na mesa e sustentar seus dois filhos, Rafael e Mia, a mais nova\ncom apenas sete anos, a mulher sofreu um acidente. Caiu pela janela do terceiro\nandar enquanto tentava limpá-la. Embora fosse uma antiga secretária da empresa,\nseu chefe não era um homem bom e se recusava de ressarcir o valor do INSS, já\nque foi obrigada por ele a realizar a limpeza – mesmo sem nenhum equipamento de\nsegurança.

                Devido\na tantos infortúnios e numa tentativa de ajudar com os gastos da casa, Rafael\ndecidiu desistir do curso de Direito e abrir mão das aulas de dança para\ntrabalhar num salão de beleza. Talvez ele não tivesse condições para conseguir\no diploma, mas a irmã merecia ter uma boa educação. Mia adorava a escola e seus\nsorrisos eram os únicos momentos que traziam certa alegria num período tão\ninfeliz na história da família. Não queria tirar a alegria da menina e jamais\nse perdoaria caso a pequena fosse retirada da escola pelo pagamento não ser\nefetuado – e foi por isso que trancou a faculdade e iniciou sua busca por\nemprego.

                Todos\naqueles baques, embora não tenha acontecido nada diretamente com ele, já\nafetavam sua saúde. Manchas roxas surgiam pelo corpo em consequência do\nestresse, fios do cabelo caíam e perdeu peso, além de ter insônia e alguns\nsintomas de ansiedade. Havia perdido o brilho interno de outrora e seu\nsemblante, antes leve e animado, agora era apático e introspectivo.

                Foi\nnesse contexto que caminhava pela rua naquela noite. A irmã descansava em casa\nna companhia de uma tia, então o rapaz podia usufruir de algumas horas sozinho.\nA brisa fresca balançava seus cabelos ruivos cujas pontas ainda eram\niluminadas. Perambulava pela calçada sem rumo mordiscando o lábio inferior e\nprendendo o choro pela finalização do relacionamento, pela morte do pai, a\ndesistência do sonho de se formar em Direito, a recuperação gradativa da mãe\nhospitalizada, a saída das aulas de dança e a falta de perspectiva do futuro.\nEm resumo? Estava no fundo do poço, sozinho e não tinha nenhuma válvula de\nescape ou apoio emocional. Inclusive era necessário suprimir suas questões\nemocionais para não piorar o estado delicado de Micaela.

                Foi\nquando o som de uma música chamou sua atenção.


“Estava sozinha caminhando pela rua

De companhia só tinha a luz da lua

E de repente uma voz me perguntou

Por que está tão triste chorando de amor?”


                A  junção das vozes envolveu seu coração lhe\ntrazendo uma dose de curiosidade de onde vinha a canção e uma dose de acalento\nde origem desconhecida para sua alma. Seguiu a melodia até adentrar num recinto\nsimples cujo portão estava aberto. Viu várias pessoas ali. Homens, mulheres e\nadolescentes. Alguns conversavam de maneira mais discreta com mulheres trajando\nvestidos longos, vermelhos, negros ou roxos. Outros dialogavam a vozes baixas\ncom homens que fumavam charuto ou que tinham chapéus em suas cabeças e ternos\nbrancos.

                Ao\nentrar ali tentou manter a cabeça baixa, embora a curiosidade falasse mais\nalto. Seu objetivo era passar despercebido, então ficou na parte do quintal,\nescondido entre as folhagens da árvore carregada de mangas. Logo descobriria\nque não conseguiria manter-se camuflado – mais especificamente exatamente cinquenta\nsegundos depois.

                Uma\nmulher de pele negra se aproximou dele. Usava um longo vestido de renda\nvermelha que ia até os tornozelos. Os pés eram descalços. Na boca tinha um\ncigarro e em uma das mãos segurava uma taça com bebida. A outra destra descansava\nna cintura e a postura altiva chamava a atenção dos demais.

                - Boa\nnoite, moço.

                Ergueu\na cabeça pela voz grave e se deparou com um enorme sorriso da mulher. Apesar de\ntudo nela demonstrar confiança e força, os olhos transmitiam compaixão, como se\nenxergasse quanto martírio carregava aquele jovem coração.

                - Não\nabaixe a cabeça, filho. – retirando o cigarro da boca e o prendendo entre os\ndedos, prosseguiu secando uma lágrima teimosa no rosto jovial – A mantenha\nerguida. Sempre.

                - Está\ndifícil. – lutou contra o nó formado na garganta, então a voz soou entrecortada\ne esganiçada.

                - Eu\nsei. É nítido. – o avaliou de cima abaixo – Está um trapo, menino. Eu estou\nmelhor que você e olha que estou morta.

                Pela\nprimeira vez em meses foi capaz de rir, mesmo que mais lágrimas descessem.

                Satisfeita\npelo efeito causado no ruivo, apagou o cigarro com a palma da mão, o enfiou\nentre os seios e a estendeu em sua direção.

                - Por\nque não vem conversar comigo? Desconfio que temos muito a tratar.

                Num\npesado suspiro aceitou ser levado para um canto mais discreto onde confabularam\ndiscretamente – ou, pelo menos, foi isso o que se obrigou a acreditar, já que Rafael\npassou trinta minutos chorando enquanto era consolado pela mulher e ouvia\npalavras de afeto e conforto.


                Quase\ndois anos depois Rafael estava no mesmo lugar – lugar esse que se tornou seu\nrefúgio e pedido de socorro velado.  Não\ndeixou de frequentar e, aos poucos, a vida foi se reestabelecendo. Não era mais\no mesmo sofredor de quando chegou, mas também ainda não estava completamente\nrecuperado. Após a sua primeira ida, em menos de quinze dias conseguiu emprego\nnum salão de beleza, onde trabalhava manhã, tarde e noite. Dinheiro não\nsobrava, mas também não faltava. Sua mãe desenvolveu problemas no joelho e nas\npernas que lhe impediram de continuar trabalhando, então o filho tornou-se o\nprovedor da família.

                Sentado\nnuma cadeira conversava com a mulher, quem acendia mais um cigarro.

                - Eu\ndisse que não tinha problema em contar pra sua mãe que gosta é de homem. –\nsoltou a fumaça pelas narinas – Aliás, ela sempre soube que rabo de saia nunca\nfoi interesse seu. – guardou o isqueiro entre os seios.

                - Acho\nque o que me preocupava era o meu pai. Ele não era tão mente aberta como\naparentava. – bebeu um pouco de água da garrafinha de Harry Potter que sempre\nlevava consigo.

                Aquele\nfoi o último presente de Kalisto e se convencia que apenas a carregava por ser\nfã da saga – podia até ser um motivo bom, porém não era o único.

                - Moço,\no seu pai te ama. Nunca vai deixar de amar. Agora, quando isso daqui – deu\nleves tapinhas com as pontas dos dedos na têmpora de Rafael – é fechado, cheio\nde dogmas, pecados, erros e regras dá um problema infernal e a pessoa é capaz\nde ferir quem mais ama. Fique com o melhor dado por ele: a sua vida, os bons\nensinamentos e as memórias. Já basta.

                Levou a\ngarrafa aos lábios e despejou o líquido gelado na boca, saciando a sua sede – e\nnovamente recebeu um olhar de esguelha da negra de fartos cabelos crespos onde\nhavia uma rosa vermelha atrás da orelha, como se ela também soubesse que o\nobjeto era carregado de memória afetiva de um passado cuja história foi\nlindíssima, porém terminou de forma trágica ao ponto do rapaz ainda carregar\nmarcas profundas daquela dor em seu âmago.

                -\nDesistiu de se enganar? - segurou o cigarro para falar.

                - Como\nassim?

                - Vai\ncontinuar com aquele traste?

                Essa\nera uma parte que Rafael não gostava muito: quando era interrogado sobre André.\n

                O homem\nentrara em sua vida enquanto ainda estava na faculdade e namorava com Kalisto.\nO até então namorado detestou o jovem simpático quando foram apresentados. A\nantipatia foi imediata. Odiou mais ainda a forma como teimava em tocar no outro\ncom a ponta dos dedos, às vezes de maneira até imperceptível a olhos menos\natentos e a forma como a íris era tomada de desejo quando o encarava. O\nrelacionamento dos sonhos chegou ao fim após um acidente com André Garcia, hoje\nnamorado – e Rafael jamais imaginaria que foi causado pelo atual.

                - Eu\ngosto dele.

                - Isso\nnão é amor, filho. É carência. Amor você sente por outro, o mesmo perna de\ncalça que te entregou isso daí. – apontou para a garrafinha no colo do ruivo.

                - A\nfila tem que andar, moça.

                - Desde\nque não seja um traste como esse que você cismou em manter do seu lado. –\nretrucou convicta.

                - O André\nme faz bem. – deu de ombros encarando o chão.

                - Vai\nser teimoso assim lá na puta que pariu! – reclamou colocando o cigarro entre os\nlábios finos – Anda, me dá a sua mão.

                Acatou\nao pedido, não que fosse necessariamente um pedido. A mulher de cabelos fartos\nvirou a palma para cima. Ao identificar algo que escolheu não revelar, caiu\nnuma gargalhada estrondosa.

                - Abre\nbem os ouvidos pro que vou dizer e arranje um jeito da porra da mensagem chegar\naté a sua cabeça teimosa. – avisou antes de iniciar a leitura de mão – Uma\npessoa aqui vai retornar pra sua vida. Logo. Não vejo demora. Escuta... Eu não\nposso falar muito, mas tenha em mente o seguinte. Saiba escolher o homem certo.\nTem um que você enxerga como um lobo em pele de cordeiro. O outro vê como um\ncordeiro em pele de lobo. Um vai transformar a sua vida pra melhor. O outro vai\nte levar pro inferno. Não é obrigação minha dizer qual é bom e qual é mal. – o\nencarou séria – Escolha certo e lide com as consequências, sejam elas boas ou\nruins.


                Minutos\nmais tarde observava o jovem por alguns instantes. Ela tinha informações\nimportantes sobre como seria o retorno desse homem do passado na vida do ruivo.\nTinha informações cruciais, que poderiam mudar o rumo dos eventos seguintes. Só\nhavia um problema: não lhe cabia revelar tudo. Isso poderia causar danos\nsérios, talvez até irreversíveis para os três envolvidos. Uma palavra a mais e\ntalvez o verdadeiro vilão seria taxado de bom moço enquanto o outro, pelo gênio\nforte, sentimentos feridos graças a uma armação sórdida e o orgulho, meteria os\npés pelas mãos ferindo quem mais amava – de novo, é claro.

                Não\nrevelaria para Rafael que aquele quem não revelara a identidade sofria tanto\nquanto ele pela separação – talvez até mais. O observava de longe, como um\npescador encantado pelo canto de uma formosa e irresistível sereia. Porém, em\nsua mente consciente e pelos eventos traumáticos de anos atrás, mantinha-se\nafastado e sem mostrar a sua verdadeira face – até porque não admitia\ndemonstrar fraqueza perante quem o jogou no fundo do poço e destroçara seu\npeito, num abalo emocional que, de tão intenso, chegava a tirar o ar dos seus\npulmões. Rafael não teria conhecimento, mas o pobre coitado sairia do hospital\nno dia seguinte devido ao que viu quando foi busca-lo na faculdade para lhe dar\ncarona, o que era o habitual.


                Passou a noite tomando soro, sentindo sabor\namargo na boca e se controlando para não vomitar – tudo isso em estado febril e\nsuando frio. Sua mãe, Lisandra, chegara esbaforida quinze minutos após receber\no telefonema do filho enquanto ele dirigia para o hospital com os sintomas.\nTodavia, antes de adentrar no estabelecimento, abriu o carro do filho para\nretirar de lá algo peludo, branco e pequeno. Bem pequeno. O colocou na bolsa\ntomando o devido cuidado para manter o zíper aberto para o ar adentrar e não\nabafar o espaço.

                Assim que se encontraram\nsozinhos com o adulto estirado no leito, a senhora baixinha retirou o filhote\nde gato do interior da bolsa e o pôs no peitoral do filho, atentando-se para\nser gentil, já que o animal estava a ponto de dormir.

                - Kalisto, que história é essa\nde adotar um animal? Você mal está se mantendo em pé, filho. Como vai cuidar de\nsi e dele? - embora a reclamação fosse genuína, gostou da imagem que se formou.\nA gatinha engatinhou mais acima do peito do moreno e aconchegou-se ali,\nronronando antes de deitar a cabecinha no queixo másculo.

                - Na verdade, eu o peguei na rua\npensando em alguém. – deslizou os dedos nos pelos macios abrindo um leve\nsorriso carregado de tristeza e decepção – Mas acho que ele será uma ótima\ncompanhia para mim.

                - Se refere ao Rafael?

                - Mãe, por favor. Não volte a\nmencionar esse nome na minha presença. – lutou para as palavras saírem audíveis\nenquanto esfregava com os dedos a ponta do nariz.

                - Mas...

                - Não, mãe. Apenas, não.

                Sentiu a ponta de algo úmido de\náspero no pescoço. Era a filhote lambendo a região quase como se tentasse\nacalmá-lo.

                Diziam que animais ajudavam as\npessoas a se curar de enfermidades de cunho físico e emocional. Aquela pequena\nbola de pelos de olhos azuis seria capaz de curar um coração partido? Não\nsaberia, mas a tentativa valia.


                Naquele\nexato momento André Garcia, em uma de suas viagens esporádicas a trabalho,\nsubia no avião para retornar ao Brasil. Sentado numa poltrona confortável,\nrelaxava após averiguar o celular pela notificação do recebimento do valor\ncombinado pelos seus serviços. De fato, era bom no que fazia. A bela aparência,\na educação e o sorriso encantador serviam para manipular as pessoas, além de se\ngabar pela facilidade de contornar situações sociais complicadas – como quando\na jovem que o acompanhava em uma das viagens estava dopada ao seu lado.

                Satisfeito\ncom o dinheiro na conta, apalpou o bolso para averiguar o presente que comprou\npara o namorado. Uma delicada pulseira de prata. Sim, sem dúvida o ruivo iria\ngostar. Recostou-se numa tentativa infrutífera de dormir. O fuso horário mexia\ncom seu organismo e, apesar do pôr do sol de onde o avião decolava, queria\ndormir algumas horas antes de chegar a Europa.


                Kalisto\nhavia escolhido a tarde de sábado para fazer as compras no mercado. Além dos\nlegumes, das frutas, das verduras e de alguns produtos de limpeza, passou\ntambém um sache para gatos no caixa. Aparentemente a bolinha de pelos branca\nnomeada de Cristal tinha um paladar tão rebuscado quanto o dono, então não\naceitava qualquer alimento. E o advogado não negaria determinados luxos no\ntratamento do animal. Afinal, foi Cristal quem o ajudou a passar pelo período\nmais melancólico de sua existência – assim, descobriu que animais de estimação\neram capazes de auxiliar seres humanos a se curar de doenças, até mesmo de um\ncoração partido.

                Ainda\nnão estava completamente recuperado. Hoje os risos eram genuínos e saía com os\namigos ao invés de se isolar no escritório, usando o excesso de trabalho como\numa fuga. Quanto mais ocupasse a mente, menos teria tempo para pensar no ex.\nLogo, o esqueceria sem grandes dificuldades. A lógica era simples. Só havia um\nerro: coração e cérebro são órgãos que conversam entre si, mas não\nobrigatoriamente chegavam a um consenso.

                Embora\na mente estivesse cada vez mais ocupada, as sensações o acompanhavam para onde\nquer que fosse. Aquele peso, aquele gosto amargo. Aquela visão mais embaçada e\nmenos colorida da vida se fazia presente constantemente. Nem mesmo as transas\neram tão prazerosas como quando ia para a cama com o seu menino, assim como\ncostumava chama-lo devido ao ar de jovialidade pela alegria natural. Elas eram\nmornas e, às vezes, até sem graça. Não era um homem com apetite sexual alto\nquando se tratava de relações de uma noite. Seu apetite só aumentava quando se\napaixonava – e estava certo de que não tocaria na pele macia e nem beijaria os\nlábios rosados e carnudos outra vez.

                Quando\nlevava as compras separadas nas sacolas até o carro viu pela visão periférica\numa movimentação diferente na entrada do mercado. Tratou de guarda-las na mala\ne retornou preocupado com o que havia visto instantes antes – uma senhora caída\nno chão com a filha a acudindo nos braços.

                Abriu\nespaço em meio às pessoas e se deparou com alguém que pensou jamais voltar a se\ndeparar.

                - Micaela.\n– arregalou os olhos em assombro e rapidamente tratou de se abaixar ao lado da\nsenhora cujas pálpebras tremiam – O que aconteceu?

                - Não\nsei. – Mia fungou apertando o corpo da mulher contra o seu – Ela leu uma\nmensagem no telefone e simplesmente desmaiou. Espera aí. Eu conheço você. Amigo\ndo meu irmão, certo? Kalisto!

                - Isso.\n– avaliava os sinais vitais de Micaela, quem começava a despertar apesar da\npalidez – Conhecido bem distante do seu irmão, pra ser sincero.

                - Se\nformos falar de sinceridade, meu bem, teria chamado o Rafael de ex namorado.\nMas isso é assunto pra outra hora. – ironizou.

                - Você\ntem uma língua bem afiada, menina. Escuta, aqui está bem quente. É melhor\nlevarmos sua mãe pra um ambiente mais fresco.

                - Veio\nde carro?

                - Sim.

                - Por\nque estamos perdendo tempo falando, cacete? Anda, levanta e a coloca lá dentro.

                Inicialmente\nKalisto não aprovou as falas da jovem. Minutos mais tarde se repreenderia por\njulgá-la e critica-la numa situação tão desesperadora.

                O\nadvogado segurou a senhora nos braços enquanto Mia agarrava a bolsa da mãe. A\ngarota foi em seu encalço e se certificou que o ar-condicionado do caro carro\npreto estivesse ligado no máximo e direcionado para a mulher, quem começava a\nvoltar a consciência. O advogado já entrara no veículo e a mais nova continuou\nem pé ao lado da genitora secando algumas gotículas de suor na testa com um\npaninho amarelo encontrado na bolsa marrom desbotada.

                - Mi...\nMia, filha? - balbuciava buscando o olhar da garota – Onde estamos?

                - No\ncarro do Kalisto. Ele foi quem teve a ideia de te trazer pra cá.

                - Kalisto?\n– a senhora olhou para o lado e se deparou com o homem quem não via há quatro\nanos – Ah, querido, desculpa pelo trabalho. – abriu um sorriso cansado – Olha\ncomo as coisas são. Estou envelhecendo e dando trabalho extra pra quem me\ncerca.

                - Não\nse preocupe. – retribuiu o sorriso aliviado pela doce mulher estar se\nrecuperando – Essas coisas acontecem.

                Mia se\nacomodou no banco traseiro, aproveitando do ar fresco do ambiente.

                Havia\nalgo de estranho nela – e não era apenas o desmaio. Sempre que se lembrava de Micaela\nela tinha um sorriso alegre estampado no rosto, assim como um brilho no olhar\ncaracterístico de quem era afável com as pessoas e de bom coração, além da\nexpressão leve. Ali? Parecia ter envelhecido dez anos num período de quatro\nanos. O rosto estava bem cansado, como se carregasse um enorme peso. Olheiras\nfundas preenchiam ao redor das íris castanhas, a pele tornara-se manchada e\nacinzentada. Talvez estivesse passando por um problema de saúde – e isso\ntrataria de descobrir.

                - Sua\nfilha contou que desmaiou quando leu uma mensagem pelo seu celular. Recebeu uma\nnotícia ruim?

                - Ah,\nnão. Não é nada de demais. – abaixou a cabeça e balançou-a em negativa.

                - A\ngente saiu de casa sem café da manhã e sem almoço. Não tivemos tempo de comer\nnada. – explicou Mia – Talvez a pressão dela tenha baixado por causa disso e do\ncalor também.

                A\nfilha, perante o olhar atento e perspicaz do moreno, era verdadeira em sua\nfala. Sua mãe, não.

                Para o\nadvogado era uma clara mentira contada por Micaela para esconder alguma informação.\nDevido a profissão aprendeu a detectar sinais inverdades e a ser guiado pela\nsua intuição – e naquele momento sua intuição berrava que Micaela escondia\nalgo.

                Ao\nanalisa-la de cima abaixo a convicção tornou-se mais forte. Ao oposto de quando\ncostumava visitar a casa de Rafael, suas roupas eram antigas, puídas. Não\npassara nenhuma maquiagem, embora, antes, para ir na esquina, a vaidosa mulher\nusava seu lápis preto e seu batom. Não era desleixada com sua aparência e não\ncompreendia o motivo para a mudança tão profunda.

                - Iam\ncomprar algo no mercado?

                - Sim.\n– respondeu Mia.

                - Micaela,\nestá tudo bem para você caso ela fosse fazer as compras enquanto fica aqui\ndentro comigo se recuperando?

                - Ah,\nnão, Kalisto. Eu não quero atrapalhar. Certamente tem afazeres durante o dia\ne...

                - Aos\nfinais de semana não trabalho. Os aproveito ao lado de amigos, familiares, em\nlazer ou descansando no sossego de casa.

                - Eu\nvou rapidinho, mãe. Juro que não demoro. – se inclinou no banco para beijar a\nbochecha cheia.

                - Tudo\nbem, então. A lista está na minha bolsa, assim como o meu cartão. Pode ir.

                Quando\na garota adentrou no mercado, Kalisto começou:

                - Seu\ndesmaio foi um pouco mais grave do que uma simples queda de pressão, certo?

                - Por\nque acha isso?

                - Sou\nadvogado e trabalho na área há um tempo. Consigo identificar uma desculpa com\nfacilidade.

                A frase\nfoi demais para a pobre senhora, quem desabou ali mesmo. As lágrimas corriam\ntorrenciais enquanto as marcadas mãos tentavam secá-las.

                - As\ncoisas andam difíceis pra vocês? - afagava o pequeno ombro tentando transmitir\num pouco de consolo.

                - Sim.\nMuito. – os negros cabelos lisos na altura dos ombros escondiam a face.

                - O seu\nmarido...

                Não foi\nnecessário terminar a frase para compreender que o homem havia morrido graças a\nreação dela: encolheu o corpo e enterrou o queixo em seu próprio peito tampando\na boca com ambas as mãos para controlar os soluços.

                - Eu\nsinto muito. – murmurou sentindo a energia ao redor pesar – Qual foi o conteúdo\nda mensagem recebida?

                - Era o\nproprietário da minha casa. – Kalisto se esforçou para entender as palavras –\nAinda moramos de aluguel, mas estamos há cinco meses com o aluguel atrasado.\nNão temos dinheiro pra pagar. Venho mentindo pros meus filhos porque não quero\nsobrecarrega-los com esses problemas. Os dois já sofreram o bastante. Entrou\ncom uma ordem de despejo e deu a próxima semana para nos organizarmos com o\nintuito de sairmos dali.

                A frase\no preocupou mais do que deveria.

                - Não\nhá nada que possam fazer para reverter essa situação?

                - Não.\nIsso apenas resolveria com o dinheiro e não temos isso.

                -\nTalvez possa recorrer ao Rafael. Imagino que já esteja trabalhando como\nadvogado e...

                - Ele\nsaiu da faculdade.

                - Como?\n– franziu o cenho sem esperar pela notícia.

                -\nDesistiu do curso faltando menos de dois anos para se formar porque me tornei\numa completa inútil impossibilitada de andar direito e passando a maior parte\ndo tempo sentada.

                Havia\ntanta frustração, decepção, raiva e tristeza acompanhando a fala que preferiu\nnão se aprofundar no assunto.

                -\nEscuta, caso te interesse tenho contatos com professores e os reitores da\nfaculdade. Posso atuar por debaixo dos panos para ele finalizar os estudos.

                - Kalisto,\nquantas vezes terei de dizer. – soou exausta, como se nos últimos anos sua\nconcentração foi voltada para a sobrevivência dela e da família – Nem dinheiro\ntemos para pagar o aluguel. Como...

                - Isso\nvocê deixa comigo. – a interrompeu e elevou a voz para sobrepujar a dela – As\naulas retornarão no mês seguinte e adicionaram o curso pro horário noturno.\nAcho que não vai afetar os horários dele no trabalho. A propósito, passe seu\nnúmero pro meu celular. Assim que obtiver a resposta aviso pra você. Só não\ncomente nada com o Rafael. É melhor essa informação sobre mim ser ocultada.

                Esse\nnão era o principal objetivo para adicionar o número de Micaela na agenda. Mais\ntarde naquele mesmo dia iria transferir um valor gordo suficiente para pagar os\ncinco meses de aluguel atrasados – e os dos próximos três meses também quitados.\nNão permitiria que a família fosse despejada, independente do que aconteceu\nentre ele e Rafael no passado.

Kalisto manteve a conversa de\nmaneira mais amena para Micaela recuperar-se do pranto. Até conseguiu fazê-la\nrir quando contou uma das histórias no começo da carreira.

Voltava de carro do escritório\nquando foi abordado por um homem armado. Quando desceu do veículo com as palmas\npara cima, o assaltante o reconheceu e retirou uma máscara, revelando não\napenas o largo sorriso como também a identidade: era Michael, também conhecido\ncomo Maike Doidão da Favela. Guardou a arma para dar um abraço em seu advogado\ne logo explicou porque estava sem a tornozeleira – de uma maneira que nem Kalisto\nqueria saber, a retirou há três dias e a colocou numa das galinhas que morava\nem seu quintal.

                - Aí,\npode ir, meu patrão. – Michael se despedia dele enquanto Kalisto colocava o\ncinto – Escuta, essa área aqui eu dou conta com os meus. Pode ir tranquilo que\nvou avisar pros cria não fazer nada contigo e nem com o seu carro.

                Via a\nsenhora segurar a barriga de tanto rir.

                - Pois\né, Micaela. Advogado criminalista passa por isso pelo menos uma vez.

                Mia\nchegou quinze minutos depois com as compras em três bolsas.

                - Está\nmelhor, mãe. – comentou aliviada e batendo a porta.

                - Bem\nmelhor. Falei que não havia porque se preocupar.

                - Agora\nsão quase três da tarde. – Kalisto avisou após checar o horário pela tela do\ncelular, guardado no bolso dianteiro da calça – Posso leva-las para almoçar.\nAinda não comi nada e adoraria ter companhia essa tarde.

                Antes\nde Micaela sequer abrir a boca para responder, a garota de cabelos negros\ndisse:

                -\nClaro! Queremos, sim! Se tem uma coisa que quero, quer dizer, queremos é\nalmoçar logo! – a jovem faltava dar pulinhos de alegria sentada no banco.

                A\nencarando pelo retrovisor, a animação contagiante lembrou um pouco de Rafael.

                - Mia,\nminha filha... – passou a mão pelo rosto sem se surpreender com a atitude da\ngarota – Pelo menos uma única vez se faça de rogada.

                - É\nruim, hein? Estou com fome. Não vejo a hora de almoçar e depois escolher uma\nsobremesa. Se puder, é claro. – tirou as rasteirinhas e cruzou as pernas magras\ncolocando o cinto.

                - Por\nfavor, perdoe a minha filha. Não quero incomodar.

                - Não\nvai. Serão bem tratadas na minha companhia hoje.

                Antes\nde começar a dirigir encarou o retrovisor por cinco segundos. Mia estava na\nmesma posição de antes e tamborilava ansiosa os dedos nos joelhos com o típico\nsorriso de criança travessa nos lábios.

                -\nIgualzinha ao irmão.

                Micaela\ndetectou um misto de tristeza e saudade no comentário dele quando começou a\ndirigir, mas não questionaria nada.

                O\nalmoço não poderia ser melhor. As levou a um restaurante de sua preferência. Os\nfuncionários não fizeram desfeita e nem torceram os narizes com a entrada das\nduas no ambiente, já que estavam acompanhadas de Kalisto, quem costumava\nfrequentar o lugar com outros advogados. Comeram salada de legumes, frango,\narroz e mais um ou dois pratos, com direito a sobremesa para as duas.

                Mia\nestava radiante de felicidade e decidiu se fotografar em diferentes pontos do\nrestaurante. Nem mesmo o belo corredor escapou de suas lentes ou alguns\nelementos, como um botão de rosa vermelha ou um belo lustre dourado.

                As\ndeixou em casa pouco antes do anoitecer.

                -\nFilha, deixa eu falar uma coisa antes do seu irmão chegar. – destrancou a porta\ne colocou as compras no chão – Nem uma única palavra sobre hoje para ele. Ouviu\nbem?

                - Sim,\nmãe. Só não entendo o motivo. Ele e o Rafa não eram namorados?

                Apesar\nde Rafael nunca ter admitido na época, era visível para elas que Kalisto era\nbem mais do que amigos quando conviviam. Era comum o filho passar o final de\nsemana inteiro no apartamento dele e retornar pra casa apenas na tarde de\nsegunda-feira, às vezes já almoçado. Isso sem mencionar a química dos dois.\nPortanto, longe dos ouvidos do pai e do casal, mãe e filha costumavam chamar Kalisto\nde cunhado e usar de Kafael para se referir a eles.

                - Eram.\nOu, pelo menos, era o que aparentavam.

                Foram\npara a cozinha enquanto conversavam e começaram a guardar as compras.

                - Foi\nestranha a forma como se distanciaram. O Rafa simplesmente chegou aqui e não\nmencionou mais o nome do Kalisto.

                - Por\nisso mesmo não quero que ele saiba. – começou a guardar os frangos congelados –\nE nem tente descobrir porque se afastaram. Sei como a senhoria é fofoqueira.

                - Eu? –\nprolongou a letra “e” com a mão no peito numa entonação dramática e exagerada –\nEsse rostinho fofo e ingênuo aqui é incapaz de cometer tal atrocidade.

                Após\numa avaliação de cima abaixo, Micaela disse:

                - Quem\nnão te conhece te compra, menina.


                Na\nprimeira semana do mês seguinte Rafael estava mais efusivo que o costume e num\nbom humor admirável. E motivo tinha pra isso.

                Recebeu\numa notícia da mãe avisando que um amigo dela conseguiria ingressá-lo na\nfaculdade com uma bolsa de estudos que supriria o valor do deslocamento, da\nalimentação e qualquer outro gasto oriundo da faculdade – eles só não\nimaginavam quem era o responsável por essa bolsa de estudos. Então não existia\nempecilhos para ele retornar aos estudos.

                Na\nprimeira oportunidade correu para conversar com Cacá, o cabelereiro e chefe do\nsalão de onde trabalhava. A reação não poderia ser melhor. Combinaram que o\nhorário dele seria centrado no período do dia.

                Preparou-se\npara retornar às aulas tirando os cadernos com as anotações da estante. Sempre\nque tinha um tempo livre o usava para se atualizar nas matérias e alegrou-se\npor não ter se esquecido por completo do conteúdo. Deu a notícia para os amigos\nmais próximos numa chamada de vídeo e decidiram sair para comemorar num bar de\nesquina de onde Bruno morava. Mesmo que só tivesse o suficiente para pagar a\nsua parte da bandeja de petiscos cujo valor era bem barato, uma água e uma\ncerveja, nada tiraria seu contentamento e nem sua empolgação.

                E foi\nnessa boa energia que entrou na sala, com um sorriso mostrando dentes até\ndemais. Não tinha como comprar outras roupas, então usou as que tinha. Um short\njeans colado, tênis branco e uma blusa branca estampada. Colocara um delineador\ndiscreto e um gloss transparente para realçar a beleza, além de pequenos\nbrincos nas orelhas.

Talvez aquela roupa não fosse a\nideal para o curso, mas se lembrou do que a moça costumava dizer pra ele:

‘’Moço, não se deixe abater\nquando estiver triste ou incomodado com alguma coisa. Se enfeite. Passe\nmaquiagem e vista-se da forma como mais lhe agradar. Quanto mais triste\nestiver, mais bonito deve estar. Sabe por quê? Ajuda. E não é pra você se\nenfeitar pra um par de calça ou par de saia, não, apesar de não gostar de\nmulher. É se pôr bonito pra você porque merece olhar para um espelho e gostar\nda imagem refletida.”

Ele estava feliz, sim, mas\nigualmente inseguro – principalmente após dar a notícia para André.

O atual namorado fora visita-lo\nno dia seguinte da sua mãe avisá-lo sobre a possibilidade de retornar para a\nfaculdade. Havia retornado de viagem há três dias e foi recebido por Rafael em\num prolongado abraço que demorou a ser retribuído.

- Rafael, calma. – gentilmente\nretirou os braços ao redor de si – Assim vai me sufocar.

- Ai, amor, desculpa. É que\nestava com saudade. – sentou no sofá num ar ainda feliz.

- Eu sei. É que você é meio\ngrudento. – deu um beijo no topo da cabeça antes de se acomodar ao lado dele –\nSó precisa dosar.

- Ah... Está bem.

O ruivo não demonstraria que\naquele comentário, mesmo sendo pronunciado com suavidade, lhe gerasse incômodo.

- Trouxe um presente pra você.

- O que?

Retirou um embrulho do bolso e o\nentregou para o outro. Mais uma vez Rafael disfarçaria bem. A pulseira era até\nbonita, mas não costumava usar pulseiras e nem peças prateadas.

- Que lindo, amor! Obrigado! Já\nsei até onde estrear.

- Onde? Em algum dos shows? – a\nvoz continha certo desdém que Rafael ignorou.

- Não, bobinho. No meu primeiro\ndia de aula.

- Como? – ergueu uma das\nsobrancelhas sem compreender.

Quando explicou animado que\nretornaria para o curso de Direito, André não pareceu gostar.

- Tem certeza? Não está meio\nvelho pra isso, não?

- Que é isso, André? Tenho nem\ntrinta anos. – o repreendeu.

- Sei lá. Vai que você começa a\nficar sem tempo pra mim na sua agenda. Eu também mereço atenção, sabia?

- Ah, menino manhoso. – deitou a\ncabeça no ombro – Vai ficar em segundo plano, não. Vou coloca-la no meu\nprimeiro dia de aula para dar sorte.


 Não sabia como conseguiria encaixar seus\nhorários e nem como seria no período de provas, porém o primeiro e mais\nrelevante passo deu: retornar para o seu amado curso.

                Arrependeu-se\namargamente de ter recebido aquele presente, principalmente de tê-lo colocado\nno pulso. Não trouxe sorte nenhuma. Pelo contrário. Trouxe azar.\nDefinitivamente o objeto foi amaldiçoado por alguma bruxa de séculos passados.\nIdiota foi ele por não ter compreendido os sinais de que a pulseira não lhe\ntraria felicidade. André mencionou seu trabalho artístico, a pulseira era de\numa cor que ele não gostava e ele nem usava pulseiras.

 Fez ressurgir das cinzas uma pessoa que\ndeveria pertencer ao seu passado e jamais sair de lá. Aliás, se tivesse sorte,\nseria levado pro inferno pelo Lúcifer em pessoa enquanto o assistia ser puxado\npela manga daquele terno azul marinho comendo uma pipoca e tomando Coca-Cola.

                O lado\nbom é que ninguém mais prestava atenção nele, então não notaram sua palidez,\nseu olhar aterrorizado, o tremor nas mãos e nem o corpo enrijecido com a\nentrada do professor, quem foi direto para a sua mesa.

                - Boa\nnoite. Meu nome é Kalisto Andrade e serei o professor dessa turma.

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