E depois de muita, mas muita coisa do que eu passei, quando eu finalmente parei em casa, depois do que pareceu um século, eu recebi uma notícia que eu realmente me impressionei. Não acreditei na minha mãe quando ela me falou.
Antonio: o que? espera? e serio?
Mãe: seríssimo
Antonio: espera, mas…como eu não notei?
Mãe: como você notaria? você não fica nem 2 dias inteiros nesta casa, não é atoa que você não notou.
Depois de descobrir àquilo, eu corri com o Zorro, e com todas as técnicas que eu aprendi ao longo do tempo, eu sabia que chegaria lá a tempo. Eu não podia perder aquilo, não não, eu seria o pior irmão da galáxia se eu perdesse aquilo.
Quando cheguei no centro de curandeiros, os curandeiros assistentes me ajudaram com a maior calma do mundo, como se um parente chegando atrasado pro parto de um bebê fosse algo totalmente comum ali.
Eles me levaram para a sala certa e depois eu abri a porta com a maior calma que eu podia, eu quase gritei, mas então eu lembrei que tinha um bebe ali, e me segurei, apenas perguntando um simples.
Antônio: onde ela está? Onde está a Agatha?
Eita, eita, EITA, EITA, EITA. O QUE EU FIZ, POR QUE EU FALEI O NOME DA PROTAGONISTA DO MEU LIVRO FAVORITO? Bom, apesar do meu choque interno, ninguém parecia minimamente surpreso com o que eu disse, eles apenas abriram caminho para eu ver o bebê, ou melhor, a minha sobrinha.
E sentindo uma anciã que eu não sentia a muito tempo, eu andei devagar até a Cline, ela estava cansada, bem cansada, mas nada que a impedisse de segurar aquilo que provavelmente era o ser vivo mais importante na vida dela agora.
Eeeee, ela era enrugada, sem dentes, e com certeza tava com um péssimo humor por ter vindo pro mundo, e, eu te entendo bebe. Eu tentei brincar com ela, fazer carinho devagar nela, e cantando um pouquinho, o que pareceu melhorar um pouco o humor do neném.
Antonio: hihihi, ela gosta de mim
Cline: você cantou bastante pra ela do meu lado, e apesar da minha barriga, agente continuou conversando, ela conhece sua voz
Antonio: nossa, e doido pensar que eu não lembro disso
Cline: totalmente normal, não se preocupe
Antonio: vocês já decidiram um nome?
Pedro: agente ira decidir depois do parto, pensar em um nome antes de um bebe nascer parecia muito stress antes da hora, mas com o momento chegando agora, eu me sinto um idiota, não tenho nenhuma ideia.
E então, me pegando e me arrastando pra trás, minha mãe me enlaçou e um abraço bem forte, e falou com uma voz toda carinhosa.
Mãe: eu até gostei da sugestao do Antonio, Agatha
Dandara: é melzinho, de onde tirou esse nome?
Antonio: ela é a protagonista de um dos livros que eu gosto, ou uma delas pelo menos…e…só digamos que eu tenho muito carinho por essa personagem.
Eu nunca poderia descrever em poucas palavras, ou até em palavras super extensas o quanto aquela personagem me ajudou.
Antonio: ela poderia muito bem não ser real, ou apenas um grande amontoado de palavras pra muitos, mas em meus dias mais sombrios enquanto eu não sabia direito o que eu tinha, a lembrança dela me trouxe um grande conforto para eu não desistir…ela era a minha âncora, uma âncora que apesar de ser um estranho, um maluco, uma aberração, ou até uma bruxa, era possível ainda ser uma bela princesa, ou no meu caso, um belo príncipe que teria orgulho de ainda estar vivo.
Eu pensei que eu só tinha pensado aquilo, mas olhando para todo mundo, todos estavam com um rosto bem contemplativo com um carinho absurdo no rosto.
Antonio: Eu falei isso alto?
Dandara: (beija a bochecha dele) sim, falou, mas isso só faz com que eu goste bem mais do nome, o que você acha cunhado?
Pedro: depois de ouvir algo tão lindo por trás do nome, seria burrice não colocá-lo
Mãe: mas não vamos nos precipitar, quem tem que decidir é a mãe.
Então todos nós olhamos para a Cline, mas pelo olhar dela, estava claro que ela não tinha muito o que falar agora.
Cline: eu amei o nome quando o ouvi, mas depois de o ouvir, eu sei que esse é o nome perfeito pra ela, você não acha Agatha?
Bebês recém nascidos não conseguiam ver nada, mas eu sabia que eles conseguiam entender algumas coisas, e mesmo enrugada e sem dentes, o neném ainda riu pra mamãe, o que fez todos nós derretemos por ela, e com uma grande alegria, todo mundo se aproximou um pouco, só fazendo turnos pra não acabarem a assustando.
Antonio: nossa, ela é a cara do pai, com certeza vai partir muitos corações
Pedro: não enquanto eu estiver vivo
Cline: e eu
Dandara: e eu.
E então nos olhamos um para o outro, e com uma risada tranquila, agente pensou como o pretendente da pequena Agatha teria um futuro complicado, mas em outra perspectiva, eu queria acreditar que a menininha era o bebe mais seguro e bem cuidado do mundo.
Antonio: eu até pedi pra vocês não terem ela muito rápido, mas ate que vocês demoraram bastante
Pedro: agente tentou adiar o máximo possível, agente queria aproveitar esse romance de vida de casados que você e a enteada parecem ter
Antônio: ah, não é um segredo…mas eu fico meio triste por você
Pedro: por que? Não tá vendo o neném na sua frente?
Antônio: eu estou vendo perfeitamente irmãozão, e que eu sei que bebês não são apenas pacotes de fofura, eles são um ser humano, um ser humano incapaz de se cuidar sozinho, você vai passar décadas entregando sua vida para esse neném, e se você tomar as decisões erradas esse neném pode odiar você pra sempre, não importa as coisas boas que você fez por ele.
O Pedro sabia muito bem que eu estava me referindo ao papai, mas ele não o mencionou, no lugar disso ele só me pegou pelo ombro e me trouxe pra mais perto dele, em um abraço de uma mão só, nós não completamos o abraço, só ficamos ali, abraçados, enquanto a Cline tentava manter a Agatha calma.
Pedro: não fale como se você fosse deixar eu cometer esse erro
Antonio: e não deixaria, mas nós dois sabemos que os tempos mudam, sei lá, podem encontrar outras maldições, podem criar outro tipo de formas de entendermos as pessoas, podem até mesmo criar algo tão novo que sequer tem um nome, logo seremos deixado para trás, e esse bebe irá entender que, no fim, nós falhamos com ele, não porque não o amávamos, mas porque nós não sabíamos que podíamos ajudá-la daquela forma…
Meu coração apertou, eu não queria pensar naquilo, mas eu não podia parar de pensar, era a verdade nua e crua, apesar de tudo que meu pai fez por mim, eu não conseguia viver com ele, e…mas antes de eu continuar da minha espiral de pensamentos negativos, Pedro falou, como se me puxasse para a superfície da minha consciência negativa.
Pedro: o fato de você odiar o papai nunca foi só por causa da sua maldição, sim, isso foi um ponto bem importante, mas o buraco é bem mais embaixo que isso, tão embaixo que ele virou um fosso…não se preocupe maninho, eu te garanto, a Agatha nunca irá te odiar ou falar com você como você fala com o papai
Antônio: você não pode prometer isso
Pedro: é, talvez não, mas eu farei o meu melhor para fazer com que isso seja verdade
Antônio: é, eu também.
E então eu apenas fiquei ali, vendo a Cline brincar com a Agatha, pensando como ela tava toda enrugada, toda inocente, e toda frustrada por ter sido colocada no mundo sem que ela quisesse.
De forma inconsciente, eu me lembrei de todas a vezes que eu gritei com meu pai, e todas as vezes que ele tentou se reconectar comigo, e claro, comigo o rejeitando todas as vezes, sem exceção, até chegar naquele dia fatídico onde eu finalmente o fiz parar de me procurar, pra sempre…e eu me perguntava se algum dia a Agatha iria fazer isso comigo?
E quando eu comecei a pensar nisso, minha resposta mental foi imediata. “não, ela não vai, seu pai é um babaca idiota e canalha, que nunca se importou com voce, e voce não sera assim com ela, apenas fique calmo que tudo dara certo”.
Gostei dessa resposta, então sorrindo, pensei que, seja lá o que a Agatha faria no futuro, seria incrível.
Antonio: descanse garotinha, por que o Tio Antônio promete que irá te guiar, não importa qual tipo de criança você acabe se tornando.

