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A passagem de uma vida🌻3
🌻🙂‍↕️🫡tenha orgulho🫡🙂‍↕️🌻
2398 palavras • 13517 caracteres • ⏱ 9 min 36 s

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Depois de muita, mas muita conversa, a Rainha me convidou pra ir pra um lugar especial, e sem nem pensar muito, decidi ir com ela.


E então eu vi a dama de companhia nelas também com um disfarce, esperando seu cavalo junto com ela, e com seu cavalo tendo duas vezes o tamanho e 10 vezes a força do meu Zorro, tentei não ficar com inveja, mas isso também conseguia ser muito, mas muito difícil.


Eu e ela pegamos nossos cavalos e cavalgamos por aí, não vimos necessidade de ir rápido, e com a Rainha do meu lado, assim como eu parecia dar uma calmaria pra ela, eu sentia que eu podia apenas falar tudo pra ela, ao mesmo tempo que eu podia ficar sem falar nada e tudo ficaria muito bem.


Calados, nós fomos para fora do perímetro do reino, indo para um lugar na terra de ninguém, e diferente de todas as vezes que eu fui lá, nenhum único animal foi visto em todas as vezes que estávamos no caminho, a floresta estava silenciosa como uma floresta fantasma, mas eu sabia muito bem por que ela tava assim, era por causa da Rainha.


Ela tinha poder exalando de cada poro de seu corpo, um poder que só aqueles com um poder mágico avançado conseguia sentir, mas animais tinham um sensor de perigo bem mais sensível do que humanos, pra eles, a Rainha não passava de um super predador que podia matá-los com um ataque, lutar não era opção, então só lhes restou fugir.


Tentei não pensar muito no quão assustadora a garota com que eu estava acompanhando era, e apenas tentei focar no caminho que nós estávamos indo, pensando como o caminho era tão levinho, tipo, eu não passei por nenhuma “turbulência” desde que eu entrei naquele caminho. 


Antônio: pra uma garota cega você até que tem um senso de direção muito bom


Isabely: e pra alguém com corpo sensível você gosta muito de abraços


Antonio: me acostumaram com eles


Isabely: e me ensinaram a ter um senso de direção bom


Antônio: dá pra aprender isso?


Isabely: dá, mas é muito difícil, então não pense muito nisso.


Eu tava realmente curioso pra saber o que a garota queria dizer com isso, mas como ela falou pra eu esquecer, eu esqueci, se era algo complicado até pra Rainha, não queria perder meu tempo tentando.


E então, eu senti algo bem diferente, e então eu vi algo amarelo…não, espera, Dourado, sim, um grande mar de ouro estava na minha frente. E pra tentar me manter tranquilo, ou pelo menos coerente com meu próprio raciocínio, eu olhei para a Rainha de novo, e ela sorriu de forma inocente enquanto me levou mais pra perto do lugar.


E quanto mais eu me aproximava, melhor eu conseguia ver, era uma plantação imensa de girassóis…mas olhando superficialmente, eu conseguia ver que aqueles girassóis não eram normais. 


Aquela sensação que eu sentia quando eu tava com minha linda esposa, todos os momentos bobos, tranquilos e relaxados que eu estava com meu amigo, o que eu sempre sentia perto da minha mãe, a calmaria gigantesca que eu sentia sempre que conversava com minha Psicomaga, cada uma das vezes que eu ouvia ou falava dentro do reino dos gigantes. 


Enquanto eu andava no meio do campo de girassóis era como aquilo que eu senti na minha vida inteira nos meus momentos mais felizes tivesse se manifestado em sua forma mais pura, em uma forma que eu não podia intitular com uma palavra simples como “felicidade” era algo que transcenda a felicidade e qualquer outro sentimento que eu já senti, mas eu não tinha um nome pra isso. E com sua voz, a Rainha me tirou do meu transe.


Isabely: sabe, ser incapaz de olhar esse campo é um dos momentos em que eu realmente lamento por não poder enxergar, (cheira um girassol) o tipo de suspiros que eu escuto sempre que levo alguém pra cá é algo que me faz realmente querer enxergar


Antônio: não tem palavras pra descrever o quanto esse lugar é bonito


Isabely: se quiser pode levar sua esposa pra cá, só me promete que não vai sujar o lugar


Antônio: tá bom, eu prometo.


Pela naturalidade que a Isabely falou aquilo, tava claro pra mim que eu não era a primeira pessoa que ela levava para lá, e que as últimas pessoas não foram nem um pouco gentis com o lugar.


Isabely: esses girassóis, eles são flores amarelas, quando eu era nova, eu nunca entendi por que o Alaric usou essas flores para os colares de singular, mas agora eu entendo


Antônio: tenho certeza que é algo muito bonito


Isabely: não sei se algo ainda mais profundo, mas o que eu descobri é que flores amarelas representam a amizade, e no fundo era isso que o Alaric queria para todos(cheira outro girassol) ele apenas queria que no futuro o mundo seria um lugar onde todos podiam ser amigos, amaldiçoado ou não, Sapien ou não…(voz trêmula) ele apenas queria um mundo onde ninguém precisasse se esconder ou fingir ser quem não é.


A Rainha começou a chorar, apesar de ser invisível, as lágrimas dela não eram. Eu me aproximei devagar, olhei pra Bruna, só pra ter certeza que eu podia, e entendendo que eu recebi permissão de tocar nela, eu me aproximei devagar e bati no ombro dela com carinho.


Antônio: e ele fez um ótimo trabalho, claro, ainda tem crianças e até adultos por aí que ainda se escondem e escondem a si mesmos, mas isso só significa que temos que continuar de onde ele parou, não podemos vacilar, não agora.


A Rainha limpou as lágrimas, gostando das minhas palavras, e mesmo não vendo nada, conseguia imaginar que ela estava sorrindo.


Isabely: sim, você está totalmente certo Antônio, essas plantas, elas foram criadas pelo Alaric em pessoa, e foi um dever passado aos maiores arcanistas do reino manterem esse lugar saudável, e agora você tem o direito de vir aqui


Antônio: hum, já estava perguntando porque eu nunca ouvi falar desse lugar


Isabely: está irritado?


Antônio: não, apenas olhando superficialmente pra esse lugar, eu entendo totalmente porque você não podia deixar qualquer um entrar aqui


Isabely: eu sabia que você entenderia


Antônio: e se eu não tivesse entendido?


Isabely: você ia entender, não entender não é o seu estilo


Antônio: você me superestima muito, Rainha


Isabely: e você se subestima muito, mago


Antônio: ok, mas sério, o que você faria se eu não tivesse entendido você ter escondido isso de mim?


Isabely: minha primeira hipótese seria que você está brincando comigo, e a segunda seria a que alguém te sequestrou e um impostor seu estava tentando me enganar, e aí eu teria que ter uma conversinha com ele


Antônio: e isso já aconteceu?


Isabely: 7 vezes, e isso apenas contando com você, depois de encontrar um certo nível de impostores, entender os padrões de seus amigos e colegas de verdade se torna algo natural quanto respirar e expirar. 


Tentei ficar calmo, mas eu sempre ficava impressionado quando a Rainha me contava essas guerras políticas doidas que ela enfrentava, eu já tive um gostinho disso com meu irmão, mas a Rainha estava bem colocada naquilo como princesa, e agora como Rainha ela era o centro de tudo, ela não deveria ter um minuto de paz no seu próprio castelo, pensando desse jeito não ficava impressionado que ela fugia de casa pra relaxar um pouco aqui.


Antônio: as vezes eu sinto que a Criadora não te deu a visão porque ela sabia que você seria imparável se conseguisse ver


Isabely: eu gosto de pensar que essa minha “diferença” foi um presente da Criadora…claro, eu posso não conseguir entender o mundo como os outros, mas talvez seja exatamente por isso que eu descobri tanto da minha terra e porque minha determinação é tão forte…porque eu sei que eu não seria eu mesma sem a minha maldição, ela se tornou parte de mim, porque como uma pedra posta em cima de uma planta, eu cresci em volta da minha maldição, e como uma árvore, sinto que se remover essa grande pedra, minha árvore inteira irá se desestabilizar, o que eu falei parece doido demais pra você?


Eu demorei pra responder, porque mais que eu quisesse apenas falar “claro que sim” sem rodeios, eu não podia esquecer os outros, eu nunca podia esquecer os outros.


Antônio: você diz isso porque sua maldição não é muito perigosa, por aí, tem pessoas que não conseguem trabalhar ou sequer morarem sozinhos, porque as maldições delas são muito complicadas pra eles sequer pensarem em fazer isso…e quando eu penso nessas pessoas, sinto um pouco de vergonha de dizer que eu tenho orgulho da minha maldição e que eu não iria tirá-la, mesmo com os problemas que ela me causa…


Hummm, era engraçado, a Rainha deveria ser a pessoa mais difícil de encontrar em todo o território, mas aqui estava eu, conversando com ela como se fosse a coisa mais normal do mundo, bom, talvez fosse por nós dois sermos amaldiçoados…não, não era isso, era algo mais profundo, algo que a Rainha via em mim que eu nem sabia dizer o que era. E me olhando intensamente, mesmo sem conseguir ver, a Rainha falou.


Isabely: “as pessoas não são criadas igual”


Antônio: o que?


Isabely: quando notaram que eu tinha passado pelo estalo de perceber que eu mesma estava viva, essa é a primeira coisa que meu pai me ensinou. “Isabely, ninguém é igual no mundo, todos tem suas próprias forças e fraquezas e problemas. Você pode ajudar os outros, mas nunca se compare com eles, nada de bom irá sair disso.”


Então ela ficou sem falar por mais alguns segundos antes de continuar.


Isabely: todos tem seus problemas Antônio, sim, existem amaldiçoados que não podem trabalhar, e existem aqueles que não podem viver sozinhos, mas comparar a sua situação com a deles é injusto, você não pediu pra ter uma maldição leve, assim como eles não pediram pra nascerem com uma maldição pesada. O que você fala parece uma criança que se desculpa por ter nascido mais alta do que as outras, é triste.


Nossa, nossa, eu tentei falar qualquer coisa pra refutar aquilo, e não encontrei nada, com uma única frase, a Rainha me deixou sem palavras, mas ela não tinha acabado.


Isabely: e o orgulho que eu e você sentimos não é pela maldição em si, é o orgulho de nós termos conseguido lidar com elas, porque por mais que nossas maldições sejam mais fáceis de lidar, elas ainda deram um trabalho enorme, não é?


Eu não podia falar nada, nada além de balançar a cabeça, concordando com tudo que ela dizia.


Isabely: eu tenho certeza que se esses mesmos amaldiçoados que você mesmo diz pudessem lidar com suas maldições mais complicadas, eles teriam orgulho do que eles conseguiram, ao mesmo tempo que nós não queremos nos livrar das maldições porque nos moldamos nossa personalidade a partir delas. Eu não seria a Rainha Isabely…ou pelo menos não essa Rainha Isabely se eu não fosse invisível, eu iria entender todo o mundo de uma forma diferente, e minha personalidade seria totalmente diferente. A mesma coisa de você com seus super sentidos, você conhece apenas a sua vida com seus super sentidos, e não uma vida sem eles, por isso que você diz, mesmo com vergonha de admitir, que não quer abandonar sua maldição, porque desde o início, abandonar ela…significa abandonar você mesmo.


Era absurdo, absurdo demais, toda a vergonha, e dor que eu sentia de mim mesmo, por estar usando algo que minha cabeça ainda depreciativa em alguns cantos insistia dizer que não era pra mim. 


Todas as vozes na minha cabeça que diziam que eu não merecia usar o colar pelo quão básica minha maldiçao era, todos, e eu fico TODOS os pensamentos ruins que resistiram até aqui, me falando que eu não era um amaldiçoado pelo quão simples e tranquila minha maldição era, cada um deles foi calado. 


A minha mente estava totalmente limpa de pensamentos ruins sobre minha própria maldição, e isso era algo que me deixou tão feliz que eu chorei, era a primeira vez na vida que eu derramava lágrimas de alegria, e estava feliz pela primeira pessoa que me vê desse jeito é a Isabely. 


Eu queria falar algo agradecer a ela esse conhecimento que pra ela, não deveria ser nada demais, mas pra mim era algo tão bom e tão único que eu não poderia sair dali sem nem dizer um obrigado…mas nada saia, tinha coisas demais pra eu dizer para eu resumi-las em uma única frase, eu levei bons minutos para falar alguma coisa, enquanto a prin…Rainha, a Rainha ainda esperava, com um rosto que eu tinha certeza que sorria abaixo da invisibilidade, até que eu achei as palavras certas, e ficando meio chateado pelas minhas palavras não serem sequer uma fração do que eu realmente queria contar a ela.


Antônio: você realmente merece ser a Rainha.


E com uma delicadeza absurda, a Rainha segurou minha mão, não de forma romântica, mas como uma amiga, e então ela me puxou pra um abraço, e no meio daquele campo de girassóis, eu quase apaguei de tão relaxado que eu estava.


Rainha: eu sei amor, eu sei disso.


Naquela hora, agradeci aos céus pela Dandara ser amiga da Rainha, porque eu sentia que aquilo seria algo bem complicado pra explicar pra ruiva, mas naquele momento, eu só tentei sentir o abraço da mais nova Rainha do lugar.


Isabely: você ainda vai fazer coisas grandiosas garoto


Antônio: você também.


E depois do abraço, fomos pra casa, já sabendo que teríamos muita coisa quando chegássemos.


E olha só, no fim eu me preocupei atoa, porque quando eu falei com a minha linda esposa, descobri que ela tinha ido lá primeiro que eu, e como eu descobri isso? Simples, quando eu entrei em casa e ela me viu, a primeira coisa que ela falou antes de qualquer coisa, até mesmo antes de um “ola amor” foi.


Dandara: ah, esse é o cheiro do mar dos girassóis? Ela te levou lá? Aquele lugar é lindo, não é? O que você achou?


Não sabia porque ainda me impressionava quando as coisas davam certo comigo, mas vendo minha esposa tão tranquila, eu a abracei com força, muito animado para conseguir contar tudo que já rolou comigo e com ela.


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