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A passagem de uma vida🌻3
💀😞😡imperdoável😡😞💀
2401 palavras • 13279 caracteres • ⏱ 9 min 36 s

💀😞😡imperdoável😡😞💀

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Eu respirei fundo quando entrei naquela sala novamente, não me lembrava da ultima vez que eu entrei lá, mas sabia que havia passado por coisa o bastante para sentir como as coisas estavam diferentes daquele lugar, bom, era normal pensar isso de um consultório depois de tantos lugares que eu já visitei.


E mesmo que eu sentisse que o lugar estivesse pequeno demais, quando eu olhava a Kauane, minha Psicomaga, uma mulher que me ajudou de formas que até hoje eu não consigo compreender completamente, uma mulher que foi minha navegadora no barco envolto em mares tempestuosas que era minha própria mente. Ela tinha envelhecido, mas ela possuía a mesma energia, sorriso e alegria de quando eu entrei ali pela primeira vez, o que me deixava confiante para fazer o que iríamos fazer ali hoje.


Kauane: tem certeza que quer fazer isso, Antonio?


Antonio: sim, eu preciso ter certeza do que realmente aconteceu.


Era irônico o que eu iria fazer, em meio as minhas viagens, eu aprendi uma magia capaz de pegar as lembranças de uma pessoa e transformá-las em uma espécie de show de imagens. Um feitiço que mostrava as memórias exatamente como aconteceu, não deixando traumas piores, e não deixando momentos de romance ainda melhores, apenas a realidade.


Eu tinha aprendido aquele feitiço para mostrar coisas boas pra as pessoas que eu amo, mas agora, eu iria usá-lo para ter certeza se um dos momentos mais traumatizantes da minha vida realmente aconteceu. Por que depois de tudo que eu passei com minha mãe, meu pai e com minha própria mente confusa, eu já não tinha certeza.


Pegando meu segundo colar do pescoço, invoquei meu cajado e pus a ponta de cima dele em minha cabeça, respirei fundo e pensei bastante naquele dia infernal, e logo a magia fez o trabalho dela, coisas que eu esqueci por capricho ou coisas que eu esqueci por trauma, cada uma delas foi pega pela magia e colocada dentro de uma bolha de mana que ficou cada vez maior, até ficar do tamanho de uma espelho de corpo inteiro, e quando a última lembrança foi recuperada, eu soltei a bolha e olhei pra ela junto com a Kauane.


Dentro da bolha tinha algo bem desconfortável acontecendo, literalmente, a lembrança que eu peguei não foi uma, ou outra, mas foram várias, várias lembranças do tempo de antes de eu descobrir que eu tinha super sentidos, tempos em que eu ouvia demais, tinha a pele sensível demais, que eu era “emocionado demais”. 


Os incômodos que todo mundo entendia tão bem hoje em dia, apenas ignoravam antes e me chamavam de louco. Por muito tempo eu sempre soube que eu era diferente, apenas não sabia o por quê? Afinal, todo mundo parecia aguentar as coisas que eu não queria aguentar. O incômodo das blusas, os sons que sempre pareciam ainda mais altos em meus próprios ouvidos, e também todo mundo que achava que me entendia ou que me achava estranho e falava pra eu parar de fazer as coisas que eu fazia pra me acalmar.


Cada uma dessas coisas criou uma raiva absurda dentro de mim, e o pior, de todos esses idiotas, meu pai era aquele que mais fazia de tudo pra eu me “encaixar”, pra eu não “ser maluco” pra eu “ser homem” e apenas hoje em dia eu entendia que o que meu pai acreditava que “ser homem” significava não expressar nenhum sentimento, e isso era demonstrado em cada uma daquelas imagens de lembranças que apesar do quão dolorosas eram de ver, eu precisei ver, para eu me lembrar porque eu tinha parado de falar com ele pra começar.


Mas apesar de tudo isso, eu ainda conseguia me manter no lugar, eu consegui aprender, e consegui até fazer cada coisa maluca que meu pai pediu para eu fazer, bom, tudo até eu chegar no grande campo dos cavaleiros. 


O irônico, era que aquilo não foi quando minha máquina quebrou, foi algo bem antes disso, eu me lembrava levemente daquilo, mas ver aquilo bem na minha cara, me fazia olhar tudo com outros olhos, chegando numa conclusão que parecia muito estranha para meu eu daquela época.


Antonio: hum, até que eu aguentei por bastante tempo.


A Kauane nem respondeu ou acrescentou algo a minha interpretação, ela apenas aceitou o que eu falei sem falar mais nada, enquanto agente via minha máscara quebrar, era algo interessante, porque não foi algo específico ou um trauma que fez com que eu tivesse parado de fingir, eu apenas cheguei no limite, assim que eu passei as forças que eu tinha pra me segurar, pra aguentar tudo, ou até pra conseguir me esforçar pra qualquer coisa tinha sumido, deixando apenas a raiva, a selvageria e brutalidade mágica de um garoto que guardou toda a própria raiva numa jaula que não estava mais trancada.


Eu explodi por cada problema, cada coisa, os gritos dos cavaleiros e dos veteranos me intimidavam, mas não eram o suficiente pra me fazer conter a magia, pelo menos não mais. Fosse um corte no dedo, ou uma nota ruim na avaliação de cavaleiros, tudo era o suficiente para me fazer explodir em uma grande tempestade de magia. 


Alguns alunos tentaram me parar, mesmo com o aviso dos professores, dois deles conseguiram me deixar cicatrizes, cicatrices essas que ainda contavam quando eu me lembrava daqueles dias, mas tirando os dois que conseguiram me ferir, qualquer um que tentou me parar foi desfigurado a ponto de ficar meses na ala de cura dos cavaleiros.


Eu explodia, fugia e me escondia, e quando eu me escondia, ninguém conseguia me achar. Depois de tudo aquilo, os outros aspirantes a cavaleiros começaram a ter medo de mim, porque minhas explosões “imprevisíveis” e o fato de que os instrutores não tentavam me parar mais fizeram eles terem um medo absurdo de ficarem perto de mim. Algo que eu até que gostei, boatos nunca foram um problema pra mim e eu nunca me dei bem com pessoas, então meus colegas se afastando de mim foi mais uma benção do que uma maldição.


O problema mesmo foi quando algo ainda maior que uma simples explosão e raiva aconteceu, porque mesmo com todas essas coisas doidas em minha frente, eu ainda tentei manter um pouco da minha postura e sanidade, eu tava tendo resultados bem ruins, mas eu estava tentando. 


Minha pequena âncora era um puxão simples em minha manga, algo básico é tão simples que ninguém notou, e não ironicamente, tudo começou a dar errado quando aquela mesma manga rasgou


Naquele momento, era como se tudo, literalmente tudo em meu caminho tivesse ficado irrelevante, eu lembro como naquele momento eu questionei se eu ainda era humano, eu tinha perdido meu raciocínio completamente e minha magia se tornou em um desastre natural alimentado por emoções.


O sistema de defesa do campo de cavaleiros era fraco, então eu destrui ele no meu ataque de raiva, foi algo tão intenso que chegou ao ponto de um instrutor me acertar pelas costas pra tentar me parar, e mesmo com dor, eu lembro que eu mandei aquele instrutor pros céus e nunca descobri o que aconteceu com ele.


Depois daquilo eu me escondi de novo, depois que a raiva passou, tinha apenas a tristeza, em explosões assim a tristeza sempre vinha depois a raiva, esse era um dos motivos pra eu me esconder, além de me acalmar também. 


A memória então começou a mostrar meu irmão, no momento em que ele me achou, mas eu então desfiz a memória, não porque eu nao queria mostrar meu irmão, mas por que a minha voz tava bem chorosa, e se eu visse carinho do meu irmão quando me encontrou, como ele me libertou e me acolheu antes de saber o que eu tinha, eu sabia que não ia conseguir falar.


Antonio: eeeeeeeeeu não sei exatamente o que eu esperava, nem porque eu decidi te mostrar isso, talvez, apenas talvez fosse porque eu queria que você entendesse o que eu passei, de uma forma que eu não conseguiria explicar por palavras, e talvez, só talvez, em algum ponto no fundo do meu coração, eu desejava estar errado, mas nao estou…nao vale a pena manter uma relação com alguém que ignorou algo que causou isso em mim, e nada do que você falar vai me fazer mudar de ideia, fi de papo.


Minha voz estava carregada de ódio e rancor, e com um tom sinistro que me dá a perfeita visão de um viilão, mas eu não ligava, e a Kauane não parecia ligar também. Na verdade, ela parecia ate ter entendido alguma coisa, me deixando muito feliz.


Kauane: sim sim, eu entendo, mas você tem certeza que não tem mais nenhum motivo pra ter me mostrado isso?


Antonio: eu queria que você entendesse minha raiva, e o que eu passei até chegar aqui…porque de forma estranha, eu ainda consegui tirar alguma coisa daquilo, eu não tenho raiva de ninguém que me tratou daquele jeito, afinal, não é que eles me desprezaram, eles só não entendiam o que eu tinha, e eu não posso ter raiva de alguém por isso


Kauane: saber diferenciar entre os ignorantes e os maldosos é sempre importante, mas me diz, se você não tem mais raiva das pessoas que te trataram mal, então por que você não quer mais ficar perto de seu pai?


Antonio: simples, porque é desconfortável ficar perto dele 


Kauane: como assim desconfortável?


Antonio: porque eu tenho certeza que ele é um amaldiçoado dos super sentidos que nem eu, a diferença é que o hiperfoco dele e em algo mais tranquilo do que o meu, é bem mais “comum” do que os livros que eu gosto, mas diferente de mim, ele com certeza não sabe disso


Kauane: jura?


Antonio: sim, sempre que eu me encontro com ele, a cada conversa da minha mãe sobre como ele era, cada pequena coisa me mostra cada vez mais que ele é como eu.


E então meu rosto ficou bem triste, e a Kauane percebeu.


Antonio: e por isso que eu não posso ficar perto dele, todas as coisas que eu vejo nele, todas as coisas que ele vê em mim, ele projeta as coisas que ele odeia em si mesmo em mim porque ele não consegue aceitar que ele tenha uma maldição dos super sentidos leve, e depois que eu cheguei nessa conclusão eu não consegui mais ficar perto dele


Kauane: e esse é o único motivo?


Antonio: claro que não, eu também comecei a notar que, não importa o que eu fizesse com ele, tudo parecia meio vazio sabe, muitas vezes eu conto algo do coração, algo super profundo, ou algo que é importante pra mim de formas que não podem ser descritas de formas normais, e quando eu falo isso pra ele ele apenas balança a cabeça e acena, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, esse tipo de coisa faz eu pensar se “o que eu fiz é tão importante?” ou talvez “eu não tentei o suficiente?”. Não importa o que eu faça ou deixe de fazer, parece impossível agradar meu pai, sempre falta algo a mais, algo a menos, algo além, ao mesmo tempo que eu não sei o quanto disso é verdade ou é só coisa da minha cabeça, porque ele se recusa a me dizer qualquer coisa, e sempre que ele fala algo é apenas para dizer pra eu fazer alguma coisa. E mesmo quando eu pergunto olhando nos olhos dele, meu pai ainda se recusa a me falar qualquer coisa…


Eu não me permiti respirar, a conversa ia acabar ali, então eu bati palmas e falei.


Antonio: resumindo, não estou só evitando de falar com meu pai por que eu tenho raiva dele, mas sim porque ficar perto dele e desconfortável


Kauane: e você entende que é estar confortável perto de alguém?


Antonio: claro que sei, afinal, eu sou confortável de estar perto. Dandara, Davi, Brutus, Saytus, Pedro, Cline. Esses são apenas alguns nomes que consigo mencionar, mas quase todo mundo que fica perto de mim fica confortável, animais me amam, tanto os domésticos quanto as pragas, muitos dizem que sou um imã de mosquitos


Kauane: e por isso que você anda com mantos grossos o tempo todo?


Antônio: é parcialmente o motivo, mas vamos manter o raciocínio, eu sei como é ficar confortável perto de alguém, e eu sei que eu não tenho isso com meu pai, então pra evitar um desconforto pra nós dois, mas principalmente pra mim, decidi que evitá-lo o máximo possível é melhor.


E depois de falar aquilo, me senti mais leve, bem mais leve, sim, isso era bom, não era mais raiva infantil ou desculpas desesperadas, apenas a verdade com motivos lógicos, “e desconfortável ficar perto do meu pai então eu o evito” era simples, não precisava ser transformado em um bicho de 7 cabeças para as pessoas entenderem, era óbvio que não apenas para minha vida anterior, mas para essa vida de envelhecer pela metade do tempo com meu novo corpo, que eu tinha muito chão para ser um “adulto completo”, mas apesar de não estar nem na metade do caminho, ainda podia estufar o peito com bastante orgulho e falar.


Antonio: eu sou um adulto.


A Kauane estava bem feliz com o que falei, mesmo que ela com certeza não conseguisse entender por completo por que eu falei aquilo do nada e só deixou eu ir pelo meu tempo ter acabado.


E então, mais uma vez eu andei ate o corredor, e encontrei o garoto que explode, se bem que, depois de tanto tempo, ele era o homem que explode agora, eu não sabia o nome dele e ele não sabia o meu, mas agente tinha consideração um pelo outro o bastante pra darmos um “bate aqui”, sem falar mais nada, eu estava pensando que eu tava quase fazendo algo parecido com a amizade que eu tenho com o Jay com o homem do consultório, mas estava apenas testando pra ver qual de nós ia dar o primeiro passo.


E no meio desses meus devaneios, quando cheguei em casa, vi que fui chamado para ver um exercício muito especial no test drive do meu golem, ah, isso ia ser divertido e ver.


Mas eu podia deixar isso pra depois, porque eu tinha uma certa alguém pra entreter essa noite, e seja lá o que a carta fosse, ela podia esperar.


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