E mais uma vez, eu desci para o grande mar vermelho, não para pescar, nem para visitar o grande hospital dos elfos, sim, eu visitei o reino dos elfos, mas era pra eu entrar em um lugar bem especial, que não tinha nada a ver com se fortalecer ou se aprimorar.
Era um lugar onde tinha uma loja em específico que muita gente não teria coragem de entrar, mas eu e a mais nova esposa do meu melhor amigo adoraríamos entrar.
O elfo dono da loja estava bem feliz em nós ver, porque por mais doido que parecesse, aquela loja era um lugar muito bem visitado, por isso que nem chamamos muita atenção quando entramos ali.
E então, nós chegamos em um lugar bem geladinho, úmido e cheio de lugares para serem pendurados, tudo junto com alguns bolinhos e canecas de achocolatados preparadas pelos atendentes, isso porque nós estávamos num café de cobras, um cae onde agente podia interagir com cobras absurdamente doceis. E logo, cada um dos bebezinhos que viemos visitar foram até nós, eu esperei que a empregada nos falasse das regras mas como ela não falou nada, pensei que não tinha nenhuma regra absurdamente doida como os dinossauros que tivermos que ter muito cuidado.
Mesmo através do meu manto, eu me senti bem alegre tocando naquelas cobras, tinham tantos modelos, nenhum venenoso e que me davam um gelo sempre que elas passavam pelas partes menos protegidas do meu manto, um gelo que me deixava extasiado, cobras eram muito demonizadas.
Mas a melhor parte era quando as grandonas apareceram, as sucuris, e os modelos mágicos mais modernos literalmente me davam um abraço bem apertado de corpo inteiro, a ponto de me derrubarem no chão. Não vou fingir, eu pensei em alguns momentos que elas iam realmente me apertar, mas sempre que elas percebiam que eu tava ficando nervoso ou com medo, elas me soltaram, o que me deixou mais tranquilo depois de ser abraçado algumas vezes. A ponto onde eu fui apertado tão forte que eu estalei alguma coisa, eu não sabia o que era, mas eu me sentia tão leve que eu nem importava o que exatamente estalou.
Antonio: ei gracinha, você estalou as minhas costas, faz de novo.
E naquele momento eu entendi que as cobras eram treinadas, porque elas realmente fizeram aquilo de novo, e a segunda vez o estalo foi ainda mais tranquilizante e relaxante do que antes.
Nala: Tony, eu sei que você tá amando isso, mas podemos comer o bolo e tomar o achocolatado antes que esfriem?
Antônio: ah, claro claro, desculpa o…
Minha frase morreu no meio do caminho, por que a Nala tava fora da cadeira de rodas dela, e sendo segurada pelas cobras, parecendo quase uma rainha sendo carregada pra todos os lugares pelos seus súditos.
Eu tava realmente impressionado e queria saber como ela tava fazendo isso, mas então eu vi, a Nala movendo as mãos e principalmente os dedos de forma quase hipnótica, a ponto que as cobras a levaram até a mesa e a colocaram com o maior carinho do mundo ali, tudo enquanto algumas cobras ficaram ainda presas no corpo dela, mas eu mesmo tinha algumas cobras presas em certas partes do meu corpo, então aquela parte não era tão impressionante nisso.
Era uma doideira como as cobras daquele lugar eram tão amigáveis, muitas delas se aproximavam de nós apenas pra fazermos carinho em nós e depois considerarem se deveriam enrolar em nós ou não. Tinham se enrolado tantas cobras em mim que eu caí da cadeira, mas as cobrinhas nem pareciam ligar pra isso, e a Nala apenas riu igual uma bobona me vendo caído no chão.
Antônio: como você faz isso com as cobras?
Nala: é o movimento, cobras são influenciadas por movimentos precisos e bem feitos, se eu movimentar minhas mãos direitinho, posso até mandá-las matar alguém.
E como se quisesse provar o próprio ponto, ela moveu seus dedos de forma calma e tranquila, até fazer com que elas atacassem outra cobra, e eu vi que elas atacaram pra machucar, isso até uma das garçonetes ir lá e impedir que algo muito ruim acontecesse.
Antônio: wow, você é cheia de surpresas garota
Nala: você também, você deve estar cheio de histórias doidas pra contar
Antônio: culpado, mas de cara eu não consigo pensar em nada super incrível pra mostrar pra você
Nala: por que não usa aquele feitiço de pensamentos que você usou com a Dan naquela vez?
E então eu fiquei um pouco chocado, pensando no que ela acabou de falar.
Antônio: sinceramente, eu quase esqueci que eu podia fazer isso
Nala: quer testar pra ver se não perdeu o jeito?
E então ela inclinou a própria cabeça pra frente só pra deixar mais fácil de eu conseguir tocá-la. E tendo certeza que eu não fiquei nem um pouco enferrujado, eu usei o feitiço nela, eu não fazia ideia qual lembrança a Nala queria me mostrar, mas então eu vi, acabei puxando a lembrança de uma Nala bem mais nova, fascinada pelas cobras, em como elas conseguiram ser predadores tão ferozes e traiçoeiros, mesmo não tendo pernas, as cobras voadoras, as cobras aquáticas, ela era fascinada por cada uma delas, sempre ficando animada quando ela visitava o zoológico e ficava olhando as cobras por várias horas, até mesmo conseguindo uma se estimação.
Antônio: hummm, com uma vida doida como essa, não é atoa que o doido 1 e o doido 2 gostaram tanto de você
Nala: mas você não é tão diferente, tenho certeza que você já passou por tantos lugares doidos que eu nem conseguiria imaginar o tipo de coisas que você viu
Antônio: pior que é verdade
Nala: e mesmo assim você foi derrubado por simples cobras amigáveis, hihihi.
Depois daquele comentários senti minha vergonha aumentando, e pra dissipá-la eu decidi me focar no bolo. Ah, ótimo, o bolo de chocolate deles era normal pelo menos, me permitindo comer sem fazer uma careta que com certeza iria assustar várias cobras, e depois o achocolatado, e apesar de não ser algo bom como o achocolatado do meu irmão, ainda era algo bom o bastante a ponto de eu segurá-lo com as duas mãos, respirar fundo, sentir o cheiro dele e bebe-lo, mas beber saboreando, sentindo o gostinho “normal” do achocolatado, mas que conseguia ser melhor do que muitos outros achocolatados que eu tomei ao longo de toda a minha vida, e que eu provavelmente ainda iria tomar vários, mesmo não sendo o melhor, eu sentia que aquele achocolatado seria um que eu me lembraria por muito, mas muito tempo mesmo.
Nala: não sabia que você levava achocolatado tão a sério
Antônio: nem tanto, só tento respeitar uma comida que realmente desperta minha atenção, quando você tem uma língua que pode do completo nada te causar dor como a minha, você começa apreciar as coisas que você gosta sem ter um efeito estranho
Nala: deve ter sido difícil crescer com isso
Antonio: até que nem tanto, de todos os meus super sentidos, esse foi o mais fácil de lidar, meu tato e minha audição foi o que realmente me deu dor de cabeça na época
Nala: consigo imaginar, mas me fala, esse achocolatado leva o prêmio?
Antônio: não, não dos doces, nem dos salgados e nem da comida normal
Nala: você tem uma lista?
Antônio: e dois dos campeões são da minha família, o meu irmão faz a caneca de achocolatado mais deliciosa que eu já provei, e nada tirou o título dela, nem depois que eu descobri que eu tinha os super sentidos, nem quando eu viajei pra todos os lugares do continente e pra fora dela, nenhum doce conseguiu ganhar da caneca de achocolatado do meu irmão mais velho
Nala: ah, para, você vai me fazer babar
Antônio: e o salgado é algo especial que a minha mãe faz nos eventos, deve ser doido falar isso, mas a minha mãe parece muito mais feliz sendo uma cozinheira do que foi como uma matriarca, e os salgados dela são divinos, é algo que você faz se sentir como se você estivesse correndo em um campo de trigo enquanto o sol batendo na sua cara como se tentasse te parabenizar pelo trabalho incrível que você está fazendo
Nala: é, não tem jeito vou ter que pedir outro bolinho, você me deixou com fome
Antônio: mas minha comida normal favorita é algo que eu tenho certeza que vai variar de novo, a minha comida favorita atual, é um prato de arroz que eu comi no território dos vampiros, foi delicioso, mas o que mais me impressionou é que aquele prato não deixou a minha língua irritada
Nala: sério? Ah, então foi algo que você já comeu?
Antônio: não, foi algo novo, algo totalmente novo.
E com aquelas simples palavras, a Nala me olhou de forma séria, enquanto mais cobras se amontoaram ao redor dela, mas com mais movimentos nas mãos ela conseguiu as afastar o bastante pra ela não se desequilibrar.
Ela já tinha me conhecido tempo o suficiente pra saber o peso do que eu falei além da noção de que eu não fingia ou exagerava, ela já tinha me visto comendo coisas novas e fazendo caretas, então saber que algo novo não fez minha língua de irritar fez a garota responder com um simples.
Nala: e isso já aconteceu antes?
Antônio: nunca, pelo menos nenhuma que eu me lembre, a culinária dos Vampiros é realmente algo bem peculiar, algo que com certeza vai despertar meu amor por comida assim que eu ir lá de novo, com a mulher que eu amo
Nala: pfff, sério, as vezes vocês parecem unha e carne
Antônio: nós somos casados, ser unha e carne é natural.
E com uma risadinha leve, uma olhadinha pra baixo e pro lado, seguida de um rosto levemente vermelho, Nala falou.
Nala: é, é natural
Antônio: então, como estão as coisas com o Davi e o Brutus?
Nala: não muito diferente na verdade, muita coisa mudou, mas eu sinto como se tudo estivesse igual ainda
Antônio: é, eu sei como é
Nala: imagino, o Lobinho parecia empolgado pra unir os laços comigo quando vocês se casaram, mas do nada, ele pareceu ficar mais calmo em questão disso, e quando eu perguntei a ele, ele falou que era por sua causa
Antônio: você tem raiva de mim?
Nala: raiva? Por que teria? eu consegui entender bem mais sobre o Lobinho e sobre o Carinha dentro dele por causa disso, além do caso de que eu com certeza teria problemas com o Davi se eu não tivesse resolvido as coisas com ele antes de fazer a união eterna, sabe.
A Nala falou isso enquanto usava uma das mãos pra apoiar o queixo, a mão que tinha um anel e uma luva idêntica a minha.
Antônio: as pessoas tão muito apressadas hoje em dia, ninguém mais aproveita um namoro que já querem casar, e ninguém aproveita o casamento e já querem ter filhos, e quando os filhos crescem, eles sempre pensam no fim “espera, eu perdi alguma coisa?”
A Nala fechou os olhos contemplativa, porque isso não era de um grupo de pessoas, mas uma consciência geral, a consciência de que não importa o que as pessoas fizessem, elas estavam sempre atrasadas, o Brutus, eu, todo mundo era assim, eu ainda estava tentando quebrar o ciclo e desacelerar mesmo quando o mundo em si me dizia para acelerar, mas eu conseguia enquanto para o Brutus e para o Davi, aquilo era uma batalha que os dois ainda precisavam de bastante tempo pra ganhar, mas eles estavam ganhando bastante, então tava tudo bem.
Nala: ficamos melhores em sobreviver, começamos a envelhecer mais devagar, nossos antepassados nem acreditariam que somos capazes de viver por tantos anos hoje em dia…mas todo mundo, mesmo que inconscientemente ainda parece viver como se fosse morrer amanhã
Antônio: viver aproveitando cada dia é importante, mas entendo onde você quer chegar
Nala: o que eu estou dizendo é que muitos ainda parecem não perceber que podemos aproveitar mais a vida agora
Antônio: ahz mas mudar isso é fácil
Nala: sério? Como
Antônio: mude a si mesmo, e mude as pessoas ao seu redor, e depois de muitos anos, séculos ou até décadas, o mundo irá mudar
Nala: humpf, mas eu queria poder salvar todo mundo
Antônio: paciência Nala, esse pensamento não foi construído em um dia, e nem vai poder ser destruído em uma noite, não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar nossas famílias e amigos, isso se eles permitirem
Nala: se forem amigos de verdade com certeza eles vão permitir, e se for sua família de verdade, e não uma “família” falsa, eles com certeza também vão aceitar
Antônio: isso mesmo, esse é o ponto, antes de você querer mudar um ideal, mudar uma cidade, mudar o mundo em geral, você precisa pensar em mudar a sua família e amigos, porque antes de você falar pra todos o que você pensa, você precisa de provas, provas além de sua própria experiência pra isso, e que provas melhores pra isso do que as experiências de seus próprios amigos que decidiram seguir seus conselhos?
Nala: e então, depois de verem que funciona, essas mesmas pessoas irão espalhar pra todo mundo como esse método funciona, e por mais distorcido ou diferente fique, a ideia se manterá a mesma, e bem devagar esse pensamento irá substituir o pensamento antigo que não consegue mais ajudar as pessoas dessa nova era.
Eu bati as palmas, haha, eu amava como meus amigos tinham a mesma doideira que eu mesmo tinha.
Antônio: eu sabia que você entenderia, isso mesmo, por isso que agente teria que esperar alguns séculos pra mudar isso.
Mas então a Nala olhou pro seu achocolatado com bastante tristeza (esse já era o quinto que ela tomava). E eu meio que já imaginava o porque.
Nala: hum, ainda farei o que você falou, mas ainda ficou triste pensando que talvez agente não veja o que nosso esforço acabou criando
Antônio: eu tenho certeza que todas as pessoas que mudaram a história pensaram a mesma coisa, temos que agradecer a eles que nossos métodos pra mudar o mundo são mais lentos, só que bem menos sanguinários e brutais.
E sorrindo, Nala ergueu sua cabeça e falou.
Nala: um brinde a isso.
E dando um tintim com a caneca, nós bebemos, e então a Nala falou.
Nala: e foi com esses papos que você fez o Davi finalmente conversar comigo?
Antônio: basicamente, ele tinha medo de conversar com você
Nala: bom, eu te agradeço, não fazia ideia que ele era um cara tão interessante
Antônio: é, as pessoas mudam nesse ponto
Nala: e é por esse pensamento que você e a Dandara não tem um filho ainda?
Antônio: exatamente, ter um filho é um grande passo, e eu quero aproveitar ser um marido antes de ser um pai, além de que tem muito lugar por aí que eu ainda tô bem longe de explorar totalmente
Nala: hmhm, quando você fala desse jeito, eu entendo porque você quer tanto viver por mais tempo
Antônio: ah, eu garanto Nala, eu tenho bem mais motivos que os que você pensa que eu tenho
Nala: acredito em você.
E com um sorrisinho, comemos mais um pedaço de bolo, enquanto fazíamos carinho em mais cobras, bem felizes.

