Depois da conversa incrível que tive com minha cunhada, me senti revigorado de entrar no meu quarto de novo, vendo como a Dandara depois do que? Horas dormindo, finalmente acordou. Ela tava com uma túnica que eu dei pra ela usar em casa, e quando me viu, ela sorriu de forma gentil, ajeitando e se sentando em um banquinho que ficava bem de frente pra um espelho, me esperando.
E pegando um pente, eu me aproximei dela, parando um pouco pra olhar nós dois no espelho, olha só, um garoto com a maldição dos super sentidos com uma grande compulsão por aventuras e uma garota com a maldição do vazio que foi resgatada de uma família horrível com um amor absurdo por música. Com essa diferença em nossos próprios olhares, me colocava em perspectiva como exatamente conseguimos fazer isso dar certo.
Dandara: porque agente tenta, tanto eu quanto você
Antônio: é sério, às vezes parece que você e o Brutus apenas lêem meus pensamentos
Dandara: eu sou sua esposa Melzinho, é normal que eu entenda o que você pensa, ainda mais quando você deixa tão óbvio assim o que é
Antônio: aí eu perdi no argumento.
E então eu comecei a pentear, fazendo a garota arquear um pouco, respirar fundo e relaxar como se fosse um gatinho recebendo carinho do dono, não entendia o porque ela gostava tanto que eu penteasse o cabelo dela, mas eu entendia bem como fazer carinho em você mesmo e receber carinho de outra pessoa era algo muito diferente, então mesmo não entendendo completamente eu conseguia entender de alguma forma.
Talvez seja por isso que de alguma forma eu gostava de pentear o cabelo também, tinha uma sensação bem gostosa em mexer e pentear o cabelo da minha esposa, eu sabia a dor que aquele cabelo passou, fazendo com que a força que os cachos novos tinham, junto do perfume e brilho novo, me deixassem bem feliz sempre que o penteava, tão feliz que eu ficava todo bobo sempre que penteava ele.
E o melhor é que com nós dois relaxados, nós podíamos falar sobre as coisas mais aleatórias do mundo, por exemplo.
Antônio: querida, você acha que eu sou perfeito?
Dandara: já achei, mas não acho mais.
A alegria da ruiva quando ela falou aquilo deixou bem claro que ela não falou aquilo com desprezo ou más intenções, e eu sorri também enquanto falava.
Antônio: e por que?
Dandara: porque você continua melhorando, você era bom quando eu te conheci, mas você ficou ainda melhor, e agora mesmo, você fica algo ainda melhor do que antes, assim como eu, como sua mãe, e muitas pessoas que já aceitaram que não são perfeitas, enquanto aquelas ditas “perfeitas” na maioria das vezes não tem um terço da perfeição que elas dizem tanto ter, eu pensava que eu era perfeita antes de te conhecer, mas com algumas frases bem calmas e simples, você me fez entender que eu era mais quebrada e imperfeita do que muita gente
Antônio: admitir a imperfeição foi o seu passo para a melhora permanente
Dandara: hmhmhm, pois é.
Haha, um raciocínio bem parecido com o meu, com a simples diferença que a dela era muito mais bruto em dizer o que as pessoas que não entendiam o raciocínio pensavam. Não era nem questão de filósofos ou de grandes sábios, nunca que faríamos coisas como isso, eram apenas coisas que nós conseguíamos raciocinar sozinhos depois de ficarmos tanto tempo apenas pensando, era isso, por que agente pensava tanto que entendíamos muitas coisas doidas.
Antônio: e você sabe por que disso?
Dandara: fala pra mim, eu quero saber o seu raciocínio
Antônio: então tá, eu vi isso em um programa no espelho, não me lembro direito quando eu vi, mas só sei que me peguei pensando nisso por muito tempo, realmente por muito tempo mesmo, até que eu cheguei nesse raciocínio
Dandara: fala logo querido, por favor
Antônio: tá bom, tá bom…a perfeição não é nada mais que a morte
Dandara: por que?
Antônio: ser perfeito, significa o fim, que você não pode mais melhorar, você não pode ficar mais forte, mais resistente, mais malicioso, mais inteligente, nem nada, pois tudo que você tinha pra evoluir, aprender ou interpretar já aconteceu. Ou não é mais permitido de acontecer. E só tem duas possibilidades pra isso, que é a Criadora, que ela é única, e se ela realmente existir, então ela criou cada coisa nesse mundo, então tudo que ela criou veio dela, junto com conhecimento, força resistência e todos os outros atributos provavelmente ilimitados, então ela, e qualquer criatura intitulada como Deus poderia ser considerado perfeito.
A Dandara fechou os olhos bem devagar, apenas pensando no que acabei de falar até que ela abriu os olhos novamente e me perguntou.
Dandara: e enquanto nós, meros mortais?
Antônio: como eu falei, tudo que resta pra nós, meros mortais, é a morte, a morte é a única coisa que pode nos tornar perfeitos, porque não importa o quanto nós desejamos alcançar sequer um dos atributos ao máximo, se chegamos em um ponto onde dizemos que somos “perfeitos” naquilo, ou estamos mentindo, ou estamos enganados, é impossível você chegar na “linha final” de qualquer atributo, porque junto de você, ele está sempre evoluindo, tanto dentro de você quanto no mundo a sua volta, a própria busca do conhecimento é uma prova disso, o conhecimento é infinito, e o que torna ele fascinante, é que nunca irá existir um mortal, inteligente ou não, capaz de entender cada conhecimento do mundo, pelo menos é isso que eu penso.
E novamente, a Dandara fechou os olhos, enquanto ela estava de olhos fechados, ela me orientou a trançar o cabelo dela, normalmente eu não teria paciência pra essas coisas, mas pela minha querida esposa, eu conseguia fazer, além de que a conversa estava tão boa que eu sequer tava estressado.
Dandara: alguém, um elfo talvez, já me falou algo engraçado “eu vago nessa terra a mais de 700 anos, eu sou um ancião até para os elfos, eu pensei já ter todo o tipo de doideira no mundo, mas quando saí de casa, em um dia normal, um garotinho Gigante visitou nossa vila e me mostrou um doce que eu nunca vi”...quando se fala desse jeito, coloca mesmo em perspectiva o quão “inútil” é tentar buscar a perfeição
Antônio: exato, pois ser perfeito, é admitir que você não é mais capaz de melhorar, e enquanto você estiver vivo, isso não vai acontecer
Dandara: mesmo aqueles que não querem melhorar?
Antônio: mesmo se eles não quisessem melhorar, eles acabariam melhorando, lembre se ruiva, não é apenas as coisas boas que podem melhorar.
A minha fala pareceu acender vários flashbacks na garota, flashbacks que fizeram ela olhar pra trás, pensando como ela realmente havia passado por muitas pessoas que realmente melhoraram, mas nas coisas ruins. Então ela fechou os olhos, e olhou pro espelho, ficando bem feliz com o que viu.
Dandara: sabe uma coisa que eu posso dizer que está perfeita? Essa trancinha que você fez em mim
Antônio: você está mentindo?
Dandara: não
Antônio: então você está errada
Dandara: pode até ser, mas ele tá perfeito pra mim, e é isso que importa.
Eu tinha certeza que a Ruiva falou aquilo para me deixar mais alegre e animado, e conseguiu, mas assim que nós saímos do quarto, eu comecei a pensar no que ela disse.
“Pode não estar perfeito, mas tá perfeito pra mim”. Era interessante pensar como a definição de perfeição podia ser mudada tanto por sentimentos quanto visão de mundo.
Eu tinha certeza que se o melhor cabeleireiro do mundo fizesse o cabelo dela, a ruiva iria dizer que tava bom, mas como eu, alguém que ela amava fez, pra ela estava perfeito. Não porque ela não sabia que dava pra melhorar, ou por que ela queria me enganar, ela realmente pensava que meu cabelo ficou “perfeito”.
Porque mesmo sendo possível deixar o cabelo dela ainda melhor, ela não queria o melhor, ela queria o meu, e quando cheguei nesse raciocínio, eu passei por uma epifania, nem pensando como eu tava comendo com minha família e falei no profundo nada.
Antônio: a perfeição é relativa, porque você não precisa apenas desejar sempre melhorar, dizer que algo é perfeito, pode ser uma forma de dizer que “eu não quero mais” ou “eu já estou satisfeito”. Dizer que algo é perfeito pode ser uma forma de rejeitar qualquer melhora que aquilo poderia ter, mas como muitas melhoras acabam tirando e até distorcendo o que fez aquilo ser bom pra começo de conversa, desejar o “perfeito” no estilo que você entende que você quer que tudo pare de melhorar e que o que você tem de forma estagnada já é o bastante pra você…cria uma definição bem linda da “perfeição”.
Antigamente eu apenas gritava uma palavra aleatória, porque eu tinha medo de falar muito, ou eu cantava um pouco sempre que eu tinha esses pensamentos aleatórios, mas para aqueles pensamentos eu já tinha conseguido uma confiança boa o suficiente para conseguir falar aquelas coisas, e olhando ao meu redor, era fácil ver como todo mundo tava focadissimo no que eu falei, e quando eu olhei pra todos por algum tempo, e todo mundo percebeu que eu parei de falar, todos começaram a bater palmas, mesmo que eu tivesse só acabado de falar aquilo do completo nada. E a Dandara, bem ao meu lado, ainda falou.
Dandara: é por coisas como essa que eu penso que fiz muito bem em me casar com você
Antônio: eu até diria o mesmo, mas tem tantos exemplos do porque eu me casei com você que é difícil escolher o melhor.
E com um sorriso travesso, a Dandara me deu um beijo na bochecha, e eu fiquei tão feliz que eu comecei a brilhar de novo e todo mundo riu disso, até que a Clíne beijou meu irmão na boca, do nada, e ele brilhou ainda mais forte do que eu, e com um olhar de cúmplice, eu acenei em agradecimento pra Clíne, cara, a minha cunhada era muito legal.

